segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Declaração de Amor*


Clarice Lispector
Ucrânia 1920, Brasil 1977


"Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gosto de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.

Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
"









sábado, fevereiro 26, 2005

o tempo dos barcos


Alfred Gockel



enquanto bordas o tempo dos barcos
constróis a casa com a luz pequena.
nos sonos longos, és tu que anoiteces.
colhes a curva de um rosto,
com clareza
teces a alma vã da firmeza
nos colos finos, na lâmina dos rios.
ó doce pescador, madrugada que fosse
a foice dos meus poemas,
dá-me os pássaros alinhados
as minhas penas.
ó cegas torres de marfim,
na excentricidade vagabunda da fadiga
começa o meu fim.

26.fev.2005
mariagomes

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Momento de poesia*



Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão cansado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim
dou conselhos tão biblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.


*José de Almada Negreiros [1893- 1970]
"800 anos de poesia portuguesa"
edição círculo de leitores- 1973

Jean Paulhan



"Tudo já foi dito. Sem dúvida. Se as palavras não tivessem mudado de sentido; e o sentido, de palavras."

JEAN PAULHAN

França, (1884-1968)

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

manhãs feridas


preciso de manhãs feridas de sol-posto
livres como mãos, leves, de poemas,
preciso do contrário de contrários,
preciso do precisar destes dilemas.

quero estar na pele em que se vive
vida, a lida, que sempre pressenti
moldar a luz de quadrantes vários
do impreciso amor que vem de ti.

preciso de tanto, amor,
de amor que não preciso.

mariagomes
junho.2003

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ... parte 1ª






"O título deste ensaio é tão provável de sugerir coisas diferentes a diferentes pessoas que posso ser desculpado por primeiro explicar o que não quero dizer com ele antes de ir começando a explicar o que quero dizer de fato. Quando falamos da "função" de qualquer coisa, tendemos a estar pensando no que essa coisa deveria fazer em vez de no que realmente faz ou tem feito. Essa é uma distinção importante, pois não pretendo falar do que acho que a poesia deveria fazer. Pessoas que nos contam o que a poesia deveria fazer, especialmente se são poetas elas próprias, em geral têm em mente o tipo particular de poesia que gostariam de escrever. É sempre possível, é claro, que a poesia possa ter no futuro um diferente emprego do que tivera no passado; mas, mesmo que assim o seja, é válido decidir primeiro que função ela teve no passado, tanto num tempo como noutro, numa língua como noutra, e universalmente. Eu poderia facilmente escrever sobre o que faço eu mesmo com a poesia, ou o que gostaria de fazer, e então tentar persuadi-los de que isso é exatamente o que todos bons poetas tentaram fazer, ou deveriam ter feito, no passado , apenas não tiveram completo êxito, mas talvez isso não seja culpa deles. Porém, parece-me provável que, se a poesia e quero dizer toda grande poesia não tiver a função social no passado, não seja de se esperar que tenha alguma no futuro.

Quando digo toda grande poesia, tenciono evitar outro modo de que possa tratar do assunto. Alguém pode tomar os diversos tipos de poesia, um após outro, e discutir a função social de cada variedade sucessivamente, sem atingir a questão geral de qual é a função da poesia enquanto poesia. Quero distinguir entre funções gerais e particulares, para que saibamos do que não estamos falando. A poesia pode ter um propósito social deliberado e consciente. Em suas formas mais primitivas esse propósito é muitas vezes bastante claro. Há, por exemplo, runas e cantos antigos, alguns dos quais possuíam fins mágicos um tanto práticos : livrar de mau olhado, curar alguma doença ou aplacar algum demônio. A poesia é usada desde os primeiros tempos em rituais religiosos e, quando cantamos hinos, ainda estamos usando poesia para um propósito social particular. As formas primordiais de épicos e sagas podem ter transmitido o que se tinha por história, antes de sobreviverem apenas para entretenimento comunitário; e, antes do uso da linguagem escrita, uma forma regular de versos deve ter sido extremamente útil à memória ; e a memória dos primitivos bardos, contadores de estórias e estudiosos deve ter sido prodigiosa. Em sociedades mais avançadas, tais como as da antiga Grécia, também são conspícuas as reconhecidas funções sociais da poesia. O drama grego desenvolve-se a partir de ritos religiosos e persiste como uma cerimônia pública formal associada a tradicionais celebrações religiosas; a ode pindárica desenvolve-se em relação a uma ocasião social particular. Certamente, tais usos definidos da poesia deram a esta a estrutura que tornou possível o alcance da perfeição em seus tipos particulares.

Algumas dessas formas, como as do cântico religioso que mencionei, subsistem na poesia mais moderna. «A acepção do termo poesia didática sofreu algumas mudanças. Didático pode significar "transmitindo informação", pode significar "dando instrução moral" ou pode significar algo que compreenda ambos os sentidos. As Geórgicas de Virgílio, por exemplo, são poesia extremamente bela e contêm informações bastante sensatas sobre agricultura. Entretanto, pareceria impossível, no presente, escrever um livro atualizado sobre agricultura que também fosse ótima poesia: em primeiro lugar, o assunto mesmo tornou-se muito mais complicado e científico; em segundo lugar, ele pode ser exposto mais facilmente através da prosa. Também não devemos, como o fizeram os romanos, escrever em verso tratados astronómicos e cosmológicos. O poema cujo intuito ostensivo é o de transmitir informação foi suplantado pela prosa. A poesia didática gradualmente tornou-se limitada à poesia de exortação moral, ou à poesia que visa a persuadir o leitor do ponto de vista do poeta sobre algo. Inclui, portanto, grande parte do que se pode chamar de sátira, embora a sátira esteja imbricada coma poesia burlesca e a paródia, que têm primariamente a intenção de fazer rir. Alguns dos poemas de Dryden, no século XVII, são sátiras no sentido em que pretendem ridicularizar os objetos contra os quais são dirigidos, e também didáticos na intenção de persuadir o leitor de pontos de vista religiosos e políticos particulares; e, ao fazerem-no, também utilizam o método alegórico de disfarçar a realidade em ficção: The Hind and The Panther, que pretende persuadir o leitor de que a Igreja de Roma tinha a retidão moral a seu favor contra a Igreja Anglicana, é seu mais memorável poema deste tipo. No século XIX, um zelo por reformas sociais e políticas inspirou muito da poesia de Shelley."

(continua...)

Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London, Faber and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori


Paz poeta e pombas


1929, 2 de Agosto / 1987, 23 Fevereiro




A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa


José Afonso

Raúl David ( 1918/ 2005)



Espero


(origem Ovimbundu)

Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.

O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...

De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.

(Cantares do nosso povo)

Raúl David

**

"O escritor Raúl David morreu no princípio da noite de domingo, na cidade do Lobito, província de Benguela, aos 87 anos. Natural da Ganda, província de Benguela, Raúl David, autor do livro "Colonizado e Colonizadores", faleceu depois de permanecer internado na clínica do Porto do Lobito por mais de 15 dias. Raúl David nasceu em 1918 na cidade da Ganda, província de Benguela. Fez os estudos primários na cidade natal onde passou a infância. Frequentou o seminário católico de Ngalangui. Iniciou a sua actividade literária aos 45 anos de idade. Mas estreia-se aos 57 anos, já no alvorecer da independência. Publicou Colonos e Colonizadores (1974), Escamoteados na Lei (1987), Cantares do nosso Povo, versões escritas de cantos e poemas em língua Umbundu(1987) Narrativas ao Acaso (1988), Ekaluko lya kwafeka (1988) Crónicas de Ontem para ouvir e contar (1989), Da Justiça Tradicional nos Umbundos (ensaio) (1997). A leitura de toda a sua obra permite detectar a existência de um fio condutor que aponta para a predominância da narrativa-testemunho, apesar das incursões que realizou nos domínios da poesia oral em versões escritas e da ensaística. Mesmo assim está subjacente uma intenção de transmitir um conhecimento que, tendo-lhe chegado pela via oral, ele preferiu reduzi-lo a escrito. Por todas estas razões, Raúl David fez-se ao longos desses anos um cultor da memória, o que pode ser comprovado pela sua capacidade de improvisar a narração de experiências e factos ocorridos há mais de cinquenta anos. O que qualifica o seu discurso narrativo no contexto do que é a contribuição para a história social da região de Benguela. A sua proficiência na língua umbundu associada à frescura com que trabalhava quando contava as suas histórias, constituem dois elementos entre tantos daquilo que permite distingui-lo de outros escritores angolanos que usam o português. Nele se reconhece a coexistência actual das línguas nacionais e da língua portuguesa. "
Fonte Angop


***

Fiquei esmagada com a notícia da morte do mais-velho Raúl David. Vejo-o palminhar as ruas da cidade meia despida já quase sem esfalto.
O ano passado chovia dentro da casa do escritor. Era o delegado da cultura, na Província de Benguela.
Guardo um cartão de visita que me enviou quando pedi para falar com ele. Nessa altura foi homenageado pela UEA na passagem do seu 87º aniversário, em Luanda, e o nosso encontro ficou adiado...

Espera, numa outra dimensão teremos que falar, kota David!

paz à tua alma.

mariagomes

terça-feira, fevereiro 22, 2005

entre palavras


"Tormenta" téc: mista - 100x80 - ano 2000 Zamboni



encontras-me no silêncio das esquinas
entre palavras que nos escrevem
encontras-me nas flechas que se atravessam
nos açoites mínimos nos gestos do destino
estarei na primavera com um cravo lúcido na boca
a gritar o nome da praia nómada em que me perdi
serei a flor violenta ausente o vento o sangue
serei a espuma que por ti rebenta
e se mais não for diz ao mundo que ninguém ouve
que o que se sente é escuro sobre a noite
há sempre a palavra pronta dentro do punho.

mariagomes






Edward Eastlin Cummings
( 1894-1962)



"Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco - alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus "poemas" competem.
Eles também competem uns com os outros, com elefantes e com El Greco."


e. e. cummings

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

prece válida


Tenho na prece válida os olhos cegos
das mãos A dor O sangue mil de vil palavras

Deus, ó deus, eu por ti chamo!, agora vem
dizer: pode um pobre mortal sentir a alma
da Poesia-Mãe Senhora sublime A magia?

mariagomes

domingo, fevereiro 20, 2005

o amor simples



vou escrever um nome antiquíssimo na lua convergente
na loucura fugaz em que tropeço.
deve ser o nome de deus que vem de dentro.
o amor simples que teço a equação de um cardo
que me abraça
pela areia lisa. um nome sem camisa.
que sangra extenso no que não acredito.
é mais do que o teu rosto. ou de que o meu próprio grito.

mariagomes
20fev.2005

sábado, fevereiro 19, 2005

... para um dia de reflexão...





"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
"


na melodia




a chuva tem a cor dos pássaros
as mãos nuas correndo a noção da noite

como qualquer coisa cardíaca
cai

se aqui estivesses
se a tua voz fosse cal da minha asa
haveria um verso
a casa
na melodia da ruína.

mariagomes
fev.2005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

a certeza


tenho na pedra o condão
esta fúria viva onde tudo é água
tudo me cativa

falta-me a palavra
e o perdão
a certeza de dizer futuro
harpa
flor furtiva.


mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

o mundo, Sofia




( a minha neta)


é teu o mundo, Sofia.
são teus o sol, a lua e o vento.
é tua a concha da canção do entendimento,
na fogueira, que fixa os olhos dos bichos, acesos,
na possibilidade da fábula nascida de palavra verdadeira.
é tua a planície, é teu o monte, é tua a flor que sorri à pedra,
são teus os pássaros voados no azul que medra à passagem única
da música que se vê inteira. e será tudo, intimamente teu, Sofia,

[quando os olhos
da noite, repletos, projectarem sonhos de água no espelho do teu nome,

[ em sabedoria.

mariagomes
21 de junho 2003

"a arvore da vida indígena" Siegfried Kreutzberg




"Silêncio é o Barulho baixinho!..."
Sara Peixoto, 3 anos


"Um livro tem palavras que fazem sonhos."
Joana Cruz, 3 anos

"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos

"Este gelado até inverna as mãos."
Gonçalo Gonçalves, 4 anos

"Estou com tosse. Engoli frio um dia."
Inês Fernandes, 4 anos

"Eu faço magia quando abraço o meu pai.
Cláudio Almeida, 4 anos

"Quando o ar cheira bem é porque os autronautas no espaço estão a comer rebuçados."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O céu à noite é um lençol com estrelas."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O Amor é o dobro."
João Cassola, 5 anos

"Os namorados são amigos de casamento"
Areana Semedo, 6 anos




Maria Rosa Colaço




Escrever é tentar perceber o desalinho das coisas
....

P- A Lídia Jorge dizia que a "Rosa Colaço procura atingir a alma do mundo. Fá-lo de um modo lírico". Eu diria que também o faz através das crianças...

R: As crianças entendem muito bem a linguagem poética. Os adultos é que duvidam dessa capacidade.
....

Maria Rosa Colaço
arquivo de " a página da educação" ( nº 142, Fev.2005)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

ainda me lembro




ainda me lembro de sentir nos pés descalços, passeios de terra batida sombreada por acácias. não importa precisar o tempo, importa realçar que as acácias de benguela cobriam de vermelho o chão para eu brincar... as mangueiras emprestavam ao céu, a folhagem.
no bairro, havia um quarteirão de primos, tios, avós e amigos e lanches de chá servido num bule e pão com doce ou queijo de casca vermelha. ainda a amendoeira junto ao lago dos patos, os vasos para pintar, baloiços cobertos de colchas no palco dos meus teatros. cães, perús, galinheiros e uma mesa tosca debaixo de uma árvore para a avó zé migar as couves da criação.
o quarteirão transbordava de vida e pertencia-me tanto! cada esquina, rapidamente, transformava-se numa fértil passagem para a imaginação...em brincadeiras, pedalava numa bicicleta a encurtar distancias graúdas ou lançava-me em correrias a adivinhar trambolhões e choros. eu gostava tanto de chorar!
partia o coconote depois de chupado o dendém maduro e por todos dividia os tamarindos. as mangas eram mais doces que os doces de ginguba. as bananas tinham sardas. comprava tudo com angolares, moedas que a avó zé depositava na minha mão fazendo milagres de carinho.
ainda oiço o som dos batuques que ensaiavam perto das cubatas, a dança dos tchinganges enfiados em fatos de rede e saias de sisal, no bairro do casseque, lá para as bandas das pescarias. em espaços vazios, os mascarados, faziam estalar chicotes delgados que me amedrontavam atrás dos vidros hermeticamente fechados do carro. então, pedia ao meu pai, no prazer de um choro, para irmos embora.
nas noites mornas, trincava rajás cobertos de chocolate que se faziam numa casa de adobe, na rua da flores. espreitava as tartarugas no hotel mombaka, e com palhinhas bebia puros sumos de ananás transportados por empregados enfarpelados de branco que atravessavam a rua estreita. bem no alto, as palmeiras, numa simbiose, acenavam , em meigos consentimentos, com bandeiras esfiapadas.
eu girava em torno de um gigante vulto que possuía braços morenos e um olhar que derramava poesia, meu pai. naqueles braços, na bóia do mar da minha infância, naveguei milhas de fantasia à superfície de verdades.
havia a praia morena... e o sombreiro que para mim se figurava num chapéu em jeito de cogumelo. só para além existia o outro lado do mundo. o mundo do mal. tudo o que me poderia afligir estava, de algum modo, ligado àquela forma de morro e de mar. as trovoadas e as chuvas torrenciais faziam a curva e abatiam-se sobre a cidade. quando o meu pai me deixou, foi para o sul, também fez a curva do mar.
havia ( ainda há em mim!) uma curva de medo nos degraus que subi pela vida de mãozinhas dadas.
hoje, no sombreiro, morro de um farol apagado, eu perco o meu olhar... e penso que um dia, quando morrer, irei diluir-me naquela curva do mar.


mariagomes
Benguela,10 out.1999

"Fiz [esta carta] mais longa apenas porque me faltou o tempo de a fazer mais breve."

BLAISE PASCAL

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

à mercê do fogo


é inevitável o figurino da palavra ao vento
para que saibas que o poeta vive à mercê do fogo
a poesia não é um logro na música da razão

pode ser o amor a incendiar uma flauta pura
no coração da fala haver um deus maior
e parecer tão pouco
o que te toca com dedos de sol num cerne louco.

mariagomes
11dez.2004

a inflacção de Joaquim Pessoa


Patrick Demarchelier



Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.


Joaquim Pessoa

"125 poemas- antologia poética"
Litexa - Editora, 1989

domingo, fevereiro 13, 2005

nos meus versos



nos meus versos tens o amor; o entendimento
que sobrevive a um holocausto de palavras.

e o pensamento do papel que não é meu.
e as rimas que também não foram minhas.
nos meus versos, pelo fogo do amor que fica, tu caminhas.

mariagomes
set.2004, (revisto em fev.2005)

o papel plausível



denunciei ao mundo a ondulação do mar. o papel plausível dos acasos.
os traços que me fizeram sonhar. e perdi. perdi a luz vasta das estrias.
marítima encosto-me à cidade. tenho o hábito de um barco. juntos

o rio e o rumor da minha voz são um só lírio a uma lua lívida de frio.

mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

a emoção ao criar


Augusto dos Anjos
(1884 - 1914)



Em entrevista concedida a Licínio Dias dos Santos em 1914, o grande poeta Augusto dos Anjos indagado sobre o que sentia de anormal quando estava criando seus versos, respondeu:
- "Uma série indescritível de fenômenos nervosos acompanhados, muitas vezes de uma vontade de chorar. "

(Extraído do EU E OUTRAS POESIAS Editora Bertrand, 2001)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

palavras iguais



porque eu não quero palavras iguais nascerá a metáfora do aceno.
a promessa ainda que a expressiva anulação do silêncio
nos fale, irá o estio ao teu coração ao hemisfério
onde viveu o vento em mais que movimento ou valsa.
haverá um brio uma aventura ou uma espécie de remessa falsa.

mariagomes
9.fev.2005

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Ternura de Vinicius de Moraes





Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar [ extático da aurora.


Vinicius de Moraes

antologia "Vinicius de Moraes

- Poesia completa e prosa",
Editora Nova Aguilar
- Rio de Janeiro, 1998, pág. 259

domingo, fevereiro 06, 2005

a neve caiu



ouve, a neve caiu vulgarmente.
é a branca aurora que se estende.
vem ter comigo, oh terra silenciosa,
traz-me a flor que chega a nascer, luminosa,
traz-me o fogo sem o céu do inverno que vive,
sem a nuvem da noite a crivar-se nos lugares onde estive.

mariagomes
6fev.2005

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

foi a lua



foi a lua que fez a forma dos cavalos lícitos
deu o trigo a galope para matar a fome.
a lua não tinha nome.
tinha a luz dos desenhos imprevistos .

mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

A la puta que llevó mis poemas


Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)




Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡POR DIOS!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!

¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero?
Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos
[y enfermos en el rincón.
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50,
pero no mis poemas.

No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros.
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía.

Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)



quarta-feira, fevereiro 02, 2005

oração



oh mãe das alturas!
carrega a dor indómita dos homens
numa face de silêncio num poema sem face para além
percorre as ruas o sal que sai da vida
e se retrai
onde se chora sem ninguém.
oh mãe benevolente!
oh mãe do ventre que vives da memória
ata as tuas mãos às nossas tranças
às horas mansas às fogueiras
que explodem como preces derradeiras!

mariagomes
2fev.2005

photo by Steve McCurry




"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simutâneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos priveligiados- a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formusura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos o sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais - a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint- Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis- elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta não diminui nem se extingue.O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia, pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus."

Eugénio de Andrade
em louvor das crianças,
in " rosto precário"

Anna Akhmatova




Último Brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934



Последний тост


Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,

За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,-
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что бог не спас.

1934



Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.


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Acerca de mim

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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