segunda-feira, agosto 23, 2004

a noite límpida

"
"The Rest" by Pablo Picasso



dorme;
pelo amor das cerejeiras chegou a noite límpida.
um ciciar como vinha o vento
que ardia, furto do lume do teu corpo.
pelo amor todo dos frutos, consome
a brancura inatingível das primaveras; dorme.

mariagomes
ag.2004

domingo, agosto 22, 2004

neste ofício





neste ofício neste beijo de dedos solitários
a palavra acaricia a fundo
um chão capaz de erguer a luz do mundo
o poema a casa o pão

mariagomes
jul.2004

sábado, agosto 21, 2004

os peixes vivos


Mãe
Veio uma canção camponesa sugerir o sul
Veio devagar com o vapor dos pássaros
Sopra lenta e solidamente sobre as minhas mãos
Sabes Mãe Eu só sei falar de mãos
Marés e ilhas sem pescadores
Sustentam-me ventos e bússolas
onde dormem os berços das crianças todas
Sustenta-me o hábito de trazer o verde As areias
As fotografias Os fogos extintos Por fora
As águas cheias de peixes
Os peixes vivos no convés da memória.

mariagomes
jul.2004

by Dorothea Lange - "Migrant Mother", 1936

ao meio dia



vivem rosas ao meio dia.
sorriem com as mãos do silêncio,
sorriem com o coração declaradamente aberto
e clandestino; com o sangue dos espinhos
dentro de agosto, ao meio dia, vivem rosas.


mariagomes
ag.2004

sexta-feira, agosto 20, 2004


Creation Of Adam by Michelangelo Buonarroti

quarta-feira, agosto 18, 2004





alegrias brancas


segurei as folhas
nos sorrisos despidos de pétalas sonoras
segurei a boca nas mesmas palavras
e o corpo a continuar a qualquer hora
segurei alegrias brancas
nos olhos do tempo a morte difícil
a luz franca que vem e fica
segurei a cegueira em fita em arrepio
até ao sangue plano do poema a fio.

mariagomes
ag.2004





segunda-feira, agosto 16, 2004

desse tempo


um poente em cada porto,
e o mar que vem dizer a hora lírica das horas.
e o deserto, fingidamente, morto.
desse tempo, eu nascia.
sabe-me a sol, o grito,
o que dentro de mim varia a cada instante.

mariagomes
16.ag.2004

e as muralhas



onde os homens inventam os batuques
a madrugada é, num dialecto puro,
o pé das caminhadas audíveis dos poetas
onde a enseada é cega, são as cadências férteis
e as muralhas cismam no futuro.



mariagomes
jun.2004

" natureza ressuscitada"



Autor: Eduardo Luiz (1932 - 1988)
Século: XX Ano: 1972
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 140 x 85 cm
Local: Colecção particular (Lisboa)

em : Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses

domingo, agosto 15, 2004

acto de nascer


eu quero na primavera morrer,
prolongar a vida
sem ter um gélido chão que me acolha.

quero reciclar-me numa folha;
amadurecer como um doce fruto

na língua da serpente
que sente a tentação de amante sorte.

mariagomes

março,2000


o poema



o poema vem, por dentro, a percorrer
em sentido único uma inclinação contrária.
e eu sustento-o.

mariagomes
ag.2004

coisas de verdade




Ontem A lua mostrou-me os olhos
Eram redondos e viam coisas de verdade
Na voz de um verso
Ela chorava pela partida da boneca
e a despedida
Numa inocência cúmplice foi a claridade.

mariagomes
ag2004



JOYCE STOLAROFF

sábado, agosto 14, 2004

romãs de vidro


um dia ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
agosto, 2004

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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