"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
domingo, setembro 19, 2004
espero-te...
espero-te em cada poema
não é suficiente a solidão que me alimenta
que me prolonga
e me guarda tão pequena.
nenhum de nós tem manhãs de seda
nem a embriaguez do sol
que desce pelos dedos da candura
nenhum de nós interiormente se transfigura
espero-te em cada poema
no instante mais vasto num espírito cego
na casa de um astro
onde o tempo começa.
mariagomes
set.2004
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9/19/2004 09:03:00 da tarde
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os poemas*
os poemas não se escrevem;
gravam-se em cada pedra subtraída.
só assim, os poemas têm vida.
* a meu pai
mariagomes
set.2004
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9/19/2004 08:55:00 da tarde
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sábado, setembro 18, 2004
“a memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem sem honras, mortos que eles deixaram de amar. toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento”
in “memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

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9/18/2004 06:09:00 da tarde
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domingo, agosto 29, 2004
a romã de vidro
é breve a vida de uma romã de vidro, senão hibernar. meus amigos, tenho o meu contacto no perfil. pode ser que, um dia regresse, com o mesmo blog ou outro, mas mantendo sempre a minha identidade.
foi bom navegar, foi bom estar convosco.
a todos o meu abraço
mariagomes
romãs de vidro
um dia, ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.
és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.
mariagomes
ag.2004
foi bom navegar, foi bom estar convosco.
a todos o meu abraço
mariagomes
romãs de vidro
um dia, ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.
és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.
mariagomes
ag.2004
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8/29/2004 11:15:00 da manhã
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em silêncio
espera a palavra do ermo do luar.
em silêncio uma sílaba cegou.
na noite anónima
o vento duma estrela vinda
nos teus olhos descreve um arco
vive e suplica o movimento.
mariagomes
29ag.2004
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8/29/2004 01:30:00 da manhã
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sábado, agosto 28, 2004
Daniele Bianchi, “Gregor S.”
inchiostro di china e acquarello su carta
cm 33 x 24, 2002 da La metamorfosi di Franza Kafka
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8/28/2004 09:05:00 da manhã
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sexta-feira, agosto 27, 2004
o lugar da poesia*
*ao josé a. gonçalves e ao josé félix
não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia.
o que fazer do que antecede, do que digo ,
do que é excessivo, às vezes, como uma lâmpada alegre.
estou presa num poema.
estou prestes a explodir em espuma.
procuro um lugar. os olhos, a parede.
vou pendurar a minha poesia nos olhos da parede.
vai escorrer pela cal húmida.
vai desfazer as mãos redondas das lágrimas.
depois, quando não mais houver, sem o olhar,
sento-me num degrau qualquer de magnólias
e acaricio-as como se ali nascesse o mar.
mariagomes
ag.2004
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8/27/2004 03:48:00 da tarde
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quinta-feira, agosto 26, 2004
o primeiro reduto
Ainda que não venhas chega-me a palavra
O primeiro reduto do silêncio
Num solstício eu sonho com sombras
E ao sol
Oiço a claridade a nudez
E tenho a sensação de tudo haver
Em convulsão num corpo
uma vez.
mariagomes
jul.2004
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8/26/2004 09:32:00 da tarde
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na origem
amo-te com as palavras puras do teu corpo
Os meus lábios alimentam-se da ilusão lisa
No sussuro de um pássaro que vem da tua alma
Bate as asas na origem
mariagomes
jul.2004
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8/26/2004 01:26:00 da tarde
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Larry COLWELL "New York City Ballet- Balanchine Choreographer"
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8/26/2004 12:50:00 da tarde
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quarta-feira, agosto 25, 2004
escrever
escrever a noite
depois, escrever em ti
com o meu corpo, a noite que escrevi.
mariagomes
maio.2004
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8/25/2004 08:50:00 da tarde
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chegará janeiro
desperta-te a velocidade oculta
Pelo sono atravessa o espelho A luz prevista
Ao longe a lua E a formula escura de dizer
que a noite habita Reflecte Toma a forma-mãe
Nunca dirás as coisas necessárias
Chegará janeiro e a anuência mista de um país de espuma
Vês a cidade lassa e um vazio que te abraça Risca.
mariagomes
ag.2004
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8/25/2004 02:44:00 da manhã
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segunda-feira, agosto 23, 2004
a noite límpida
""The Rest" by Pablo Picasso
dorme;
pelo amor das cerejeiras chegou a noite límpida.
um ciciar como vinha o vento
que ardia, furto do lume do teu corpo.
pelo amor todo dos frutos, consome
a brancura inatingível das primaveras; dorme.
mariagomes
ag.2004
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8/23/2004 01:00:00 da tarde
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domingo, agosto 22, 2004
neste ofício
neste ofício neste beijo de dedos solitários
a palavra acaricia a fundo
um chão capaz de erguer a luz do mundo
o poema a casa o pão
mariagomes
jul.2004
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8/22/2004 07:19:00 da tarde
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sábado, agosto 21, 2004
os peixes vivos
Mãe
Veio uma canção camponesa sugerir o sul
Veio devagar com o vapor dos pássaros
Sopra lenta e solidamente sobre as minhas mãos
Sabes Mãe Eu só sei falar de mãos
Marés e ilhas sem pescadores
Sustentam-me ventos e bússolas
onde dormem os berços das crianças todas
Sustenta-me o hábito de trazer o verde As areias
As fotografias Os fogos extintos Por fora
As águas cheias de peixes
Os peixes vivos no convés da memória.
mariagomes
jul.2004
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8/21/2004 05:46:00 da tarde
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by Dorothea Lange - "Migrant Mother", 1936
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8/21/2004 05:39:00 da tarde
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ao meio dia
vivem rosas ao meio dia.
sorriem com as mãos do silêncio,
sorriem com o coração declaradamente aberto
e clandestino; com o sangue dos espinhos
dentro de agosto, ao meio dia, vivem rosas.
mariagomes
ag.2004
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8/21/2004 12:00:00 da tarde
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sexta-feira, agosto 20, 2004

Creation Of Adam by Michelangelo Buonarroti
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8/20/2004 09:55:00 da tarde
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quarta-feira, agosto 18, 2004

alegrias brancas
segurei as folhas
nos sorrisos despidos de pétalas sonoras
segurei a boca nas mesmas palavras
e o corpo a continuar a qualquer hora
segurei alegrias brancas
nos olhos do tempo a morte difícil
a luz franca que vem e fica
segurei a cegueira em fita em arrepio
até ao sangue plano do poema a fio.
mariagomes
ag.2004
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8/18/2004 03:28:00 da tarde
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segunda-feira, agosto 16, 2004
desse tempo
um poente em cada porto,
e o mar que vem dizer a hora lírica das horas.
e o deserto, fingidamente, morto.
desse tempo, eu nascia.
sabe-me a sol, o grito,
o que dentro de mim varia a cada instante.
mariagomes
16.ag.2004
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8/16/2004 10:15:00 da tarde
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- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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