quinta-feira, setembro 23, 2004

Eugénio de Andrade


(1923)



"(...)
a música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no canto" (...)"



Eugénio de Andrade

in " rosto precário"


com sílabas de silêncio




poderia dizer um poema todos os dias
Ou dizer o dia todo num poema Mas estou ocupada
Estou ocupada com sílabas de silêncio
Com um céu claro sem rimas
Há em mim um mito maior que ruínas!
O teu coração A face da tua mão Ocupam-me
A palavra inteira que vê e viaja Ocupa-me
É um privilégio voltar a este lugar
Ao cheiro dos marinheiros Ao branco
Ao tanto sol Ao ar dos baloiços
Estou ocupada Tenho a memória na pele Bem funda
O sal a escaldar na noite Numa irmandade fecunda.


mariagomes
jul.2004





by Jerry Avenaim

quarta-feira, setembro 22, 2004

As palavras de Dylan Thomas




"Ao escrever sobre o que sentimos acabamos por vezes a sentir o que escrevemos porque o escrevemos. Explico-me. Às vezes, escrevem-se coisas porque vão umas com as outras, porque rimam significados ou simplesmente ficam bem. Porque as palavras procuram outras de uma certa maneira irrecusável. E depois já está. As palavras possuem esse poder de moldar o que a mão ao escrevê-las queria dizer. Escrever não é um acto de um sentido só, uma espécie de rua de sentido único entre o que temos dentro e o que aparece de fora, escrito. Este «de fora» que parece ser a escrita, se molda o que depois ao ler sentimos, é porque está ainda «de dentro». Mas às vezes o cansaço apodera-se de nós, e temos vontade de parar. Não sei se de escrever se de sentir, possivelmente de estar sempre a pensar nisso. Parar: vontade de fechar os olhos e ver."

Dylan Thomas


terça-feira, setembro 21, 2004


"Il volo”, Ennio Trimarchi

Rainer Maria Rilke [1875-1926]




"Só uma coisa é necessária: a solidão ... E o seu crescimento é doloroso como o das crianças e triste como a ante-primavera. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém, a isto é que é preciso chegar..."

[Rilke, in Cartas a um Poeta]



domingo, setembro 19, 2004

espero-te...




espero-te em cada poema
não é suficiente a solidão que me alimenta
que me prolonga
e me guarda tão pequena.
nenhum de nós tem manhãs de seda
nem a embriaguez do sol
que desce pelos dedos da candura
nenhum de nós interiormente se transfigura
espero-te em cada poema
no instante mais vasto num espírito cego
na casa de um astro

onde o tempo começa.

mariagomes
set.2004

os poemas*



os poemas não se escrevem;

gravam-se em cada pedra subtraída.
só assim, os poemas têm vida.


* a meu pai


mariagomes
set.2004

sábado, setembro 18, 2004


“a memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem sem honras, mortos que eles deixaram de amar. toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento”

in “memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

Lionel Lofton "Reflections"

domingo, agosto 29, 2004

a romã de vidro

é breve a vida de uma romã de vidro, senão hibernar. meus amigos, tenho o meu contacto no perfil. pode ser que, um dia regresse, com o mesmo blog ou outro, mas mantendo sempre a minha identidade.

foi bom navegar, foi bom estar convosco.

a todos o meu abraço

mariagomes



romãs de vidro

um dia, ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
ag.2004

em silêncio



espera a palavra do ermo do luar.
em silêncio uma sílaba cegou.
na noite anónima
o vento duma estrela vinda

nos teus olhos descreve um arco
vive e suplica o movimento.

mariagomes
29ag.2004

sábado, agosto 28, 2004


Daniele Bianchi, “Gregor S.”
inchiostro di china e acquarello su carta
cm 33 x 24, 2002 da La metamorfosi di Franza Kafka

sexta-feira, agosto 27, 2004

o lugar da poesia*




*ao josé a. gonçalves e ao josé félix


não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia.
o que fazer do que antecede, do que digo ,
do que é excessivo, às vezes, como uma lâmpada alegre.
estou presa num poema.
estou prestes a explodir em espuma.
procuro um lugar. os olhos, a parede.
vou pendurar a minha poesia nos olhos da parede.
vai escorrer pela cal húmida.
vai desfazer as mãos redondas das lágrimas.
depois, quando não mais houver, sem o olhar,
sento-me num degrau qualquer de magnólias
e acaricio-as como se ali nascesse o mar.

mariagomes

ag.2004

quinta-feira, agosto 26, 2004

o primeiro reduto



Ainda que não venhas chega-me a palavra
O primeiro reduto do silêncio
Num solstício eu sonho com sombras
E ao sol
Oiço a claridade a nudez
E tenho a sensação de tudo haver
Em convulsão num corpo

uma vez.

mariagomes
jul.2004

na origem



amo-te com as palavras puras do teu corpo
Os meus lábios alimentam-se da ilusão lisa
No sussuro de um pássaro que vem da tua alma
Bate as asas na origem

mariagomes
jul.2004

Larry COLWELL "New York City Ballet- Balanchine Choreographer"

quarta-feira, agosto 25, 2004

escrever



escrever a noite
depois, escrever em ti
com o meu corpo, a noite que escrevi.

mariagomes
maio.2004

chegará janeiro


desperta-te a velocidade oculta
Pelo sono atravessa o espelho A luz prevista
Ao longe a lua E a formula escura de dizer
que a noite habita Reflecte Toma a forma-mãe
Nunca dirás as coisas necessárias
Chegará janeiro e a anuência mista de um país de espuma
Vês a cidade lassa e um vazio que te abraça Risca.

mariagomes
ag.2004

segunda-feira, agosto 23, 2004

a noite límpida

"
"The Rest" by Pablo Picasso



dorme;
pelo amor das cerejeiras chegou a noite límpida.
um ciciar como vinha o vento
que ardia, furto do lume do teu corpo.
pelo amor todo dos frutos, consome
a brancura inatingível das primaveras; dorme.

mariagomes
ag.2004

domingo, agosto 22, 2004

neste ofício





neste ofício neste beijo de dedos solitários
a palavra acaricia a fundo
um chão capaz de erguer a luz do mundo
o poema a casa o pão

mariagomes
jul.2004

sábado, agosto 21, 2004

os peixes vivos


Mãe
Veio uma canção camponesa sugerir o sul
Veio devagar com o vapor dos pássaros
Sopra lenta e solidamente sobre as minhas mãos
Sabes Mãe Eu só sei falar de mãos
Marés e ilhas sem pescadores
Sustentam-me ventos e bússolas
onde dormem os berços das crianças todas
Sustenta-me o hábito de trazer o verde As areias
As fotografias Os fogos extintos Por fora
As águas cheias de peixes
Os peixes vivos no convés da memória.

mariagomes
jul.2004

by Dorothea Lange - "Migrant Mother", 1936

ao meio dia



vivem rosas ao meio dia.
sorriem com as mãos do silêncio,
sorriem com o coração declaradamente aberto
e clandestino; com o sangue dos espinhos
dentro de agosto, ao meio dia, vivem rosas.


mariagomes
ag.2004

sexta-feira, agosto 20, 2004


Creation Of Adam by Michelangelo Buonarroti

quarta-feira, agosto 18, 2004





alegrias brancas


segurei as folhas
nos sorrisos despidos de pétalas sonoras
segurei a boca nas mesmas palavras
e o corpo a continuar a qualquer hora
segurei alegrias brancas
nos olhos do tempo a morte difícil
a luz franca que vem e fica
segurei a cegueira em fita em arrepio
até ao sangue plano do poema a fio.

mariagomes
ag.2004





segunda-feira, agosto 16, 2004

desse tempo


um poente em cada porto,
e o mar que vem dizer a hora lírica das horas.
e o deserto, fingidamente, morto.
desse tempo, eu nascia.
sabe-me a sol, o grito,
o que dentro de mim varia a cada instante.

mariagomes
16.ag.2004

e as muralhas



onde os homens inventam os batuques
a madrugada é, num dialecto puro,
o pé das caminhadas audíveis dos poetas
onde a enseada é cega, são as cadências férteis
e as muralhas cismam no futuro.



mariagomes
jun.2004

" natureza ressuscitada"



Autor: Eduardo Luiz (1932 - 1988)
Século: XX Ano: 1972
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 140 x 85 cm
Local: Colecção particular (Lisboa)

em : Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses

domingo, agosto 15, 2004

acto de nascer


eu quero na primavera morrer,
prolongar a vida
sem ter um gélido chão que me acolha.

quero reciclar-me numa folha;
amadurecer como um doce fruto

na língua da serpente
que sente a tentação de amante sorte.

mariagomes

março,2000


o poema



o poema vem, por dentro, a percorrer
em sentido único uma inclinação contrária.
e eu sustento-o.

mariagomes
ag.2004

coisas de verdade




Ontem A lua mostrou-me os olhos
Eram redondos e viam coisas de verdade
Na voz de um verso
Ela chorava pela partida da boneca
e a despedida
Numa inocência cúmplice foi a claridade.

mariagomes
ag2004



JOYCE STOLAROFF

sábado, agosto 14, 2004

romãs de vidro


um dia ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
agosto, 2004

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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