segunda-feira, setembro 27, 2004

sexta-feira, setembro 24, 2004

a dizer o instante



olha as tuas mãos a escrever poemas
a dizer o instante
a consumir o fogo que se expande.

olha as tuas mãos a chorar nas minhas.

olha! são searas são vinhas que tangem a beleza
e a embebedam de sinais.

mariagomes
24set.2004

inadvertidamente
a chuva floriu!...
oiço um tear de palavras,
é o poema a cantar.

mariagomes
coimbra, 18 de maio de 2003

William Butler Yeats [1865-1939]


W. B. Yeats, Irlanda



" Um só verso pode exigir horas e horas de trabalho, mas se não parecer dom de um só instante todo o nosso tecer e destecer são inúteis"

William Butler Yeats

para ti. para mim.



e os teus passos encontrados numa acácia tinham a inocência
despida. a terra. o cheiro da chuva plantava um incêndio
de sombras. e as sombras ardiam. para ti. para mim.
bebíamos das conchas no espaço que as manhãs faziam.
(lembras-te?) existíamos num desejo. descalços. tínhamos
papoilas. pérgolas de adobe e ventos imersos em muitas palavras.

mariagomes
set.2004

contemplo o corpo



contemplo o corpo onde nascia. eu fui.
as minhas mãos foram meus olhos abertos
a uma luz tão branca e serena
entre formas densas. e eu vivia devagar
ao alcance das cigarras pela onda que nascia.
longe, a rosa, em cinzas,
simplesmente prometida ao mar. eu fui.

mariagomes
set.2004



quinta-feira, setembro 23, 2004

Eugénio de Andrade


(1923)



"(...)
a música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no canto" (...)"



Eugénio de Andrade

in " rosto precário"


com sílabas de silêncio




poderia dizer um poema todos os dias
Ou dizer o dia todo num poema Mas estou ocupada
Estou ocupada com sílabas de silêncio
Com um céu claro sem rimas
Há em mim um mito maior que ruínas!
O teu coração A face da tua mão Ocupam-me
A palavra inteira que vê e viaja Ocupa-me
É um privilégio voltar a este lugar
Ao cheiro dos marinheiros Ao branco
Ao tanto sol Ao ar dos baloiços
Estou ocupada Tenho a memória na pele Bem funda
O sal a escaldar na noite Numa irmandade fecunda.


mariagomes
jul.2004





by Jerry Avenaim

quarta-feira, setembro 22, 2004

As palavras de Dylan Thomas




"Ao escrever sobre o que sentimos acabamos por vezes a sentir o que escrevemos porque o escrevemos. Explico-me. Às vezes, escrevem-se coisas porque vão umas com as outras, porque rimam significados ou simplesmente ficam bem. Porque as palavras procuram outras de uma certa maneira irrecusável. E depois já está. As palavras possuem esse poder de moldar o que a mão ao escrevê-las queria dizer. Escrever não é um acto de um sentido só, uma espécie de rua de sentido único entre o que temos dentro e o que aparece de fora, escrito. Este «de fora» que parece ser a escrita, se molda o que depois ao ler sentimos, é porque está ainda «de dentro». Mas às vezes o cansaço apodera-se de nós, e temos vontade de parar. Não sei se de escrever se de sentir, possivelmente de estar sempre a pensar nisso. Parar: vontade de fechar os olhos e ver."

Dylan Thomas


terça-feira, setembro 21, 2004


"Il volo”, Ennio Trimarchi

Rainer Maria Rilke [1875-1926]




"Só uma coisa é necessária: a solidão ... E o seu crescimento é doloroso como o das crianças e triste como a ante-primavera. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém, a isto é que é preciso chegar..."

[Rilke, in Cartas a um Poeta]



domingo, setembro 19, 2004

espero-te...




espero-te em cada poema
não é suficiente a solidão que me alimenta
que me prolonga
e me guarda tão pequena.
nenhum de nós tem manhãs de seda
nem a embriaguez do sol
que desce pelos dedos da candura
nenhum de nós interiormente se transfigura
espero-te em cada poema
no instante mais vasto num espírito cego
na casa de um astro

onde o tempo começa.

mariagomes
set.2004

os poemas*



os poemas não se escrevem;

gravam-se em cada pedra subtraída.
só assim, os poemas têm vida.


* a meu pai


mariagomes
set.2004

sábado, setembro 18, 2004


“a memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem sem honras, mortos que eles deixaram de amar. toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento”

in “memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

Lionel Lofton "Reflections"

domingo, agosto 29, 2004

a romã de vidro

é breve a vida de uma romã de vidro, senão hibernar. meus amigos, tenho o meu contacto no perfil. pode ser que, um dia regresse, com o mesmo blog ou outro, mas mantendo sempre a minha identidade.

foi bom navegar, foi bom estar convosco.

a todos o meu abraço

mariagomes



romãs de vidro

um dia, ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
ag.2004

em silêncio



espera a palavra do ermo do luar.
em silêncio uma sílaba cegou.
na noite anónima
o vento duma estrela vinda

nos teus olhos descreve um arco
vive e suplica o movimento.

mariagomes
29ag.2004

sábado, agosto 28, 2004


Daniele Bianchi, “Gregor S.”
inchiostro di china e acquarello su carta
cm 33 x 24, 2002 da La metamorfosi di Franza Kafka

sexta-feira, agosto 27, 2004

o lugar da poesia*




*ao josé a. gonçalves e ao josé félix


não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia.
o que fazer do que antecede, do que digo ,
do que é excessivo, às vezes, como uma lâmpada alegre.
estou presa num poema.
estou prestes a explodir em espuma.
procuro um lugar. os olhos, a parede.
vou pendurar a minha poesia nos olhos da parede.
vai escorrer pela cal húmida.
vai desfazer as mãos redondas das lágrimas.
depois, quando não mais houver, sem o olhar,
sento-me num degrau qualquer de magnólias
e acaricio-as como se ali nascesse o mar.

mariagomes

ag.2004

quinta-feira, agosto 26, 2004

o primeiro reduto



Ainda que não venhas chega-me a palavra
O primeiro reduto do silêncio
Num solstício eu sonho com sombras
E ao sol
Oiço a claridade a nudez
E tenho a sensação de tudo haver
Em convulsão num corpo

uma vez.

mariagomes
jul.2004

na origem



amo-te com as palavras puras do teu corpo
Os meus lábios alimentam-se da ilusão lisa
No sussuro de um pássaro que vem da tua alma
Bate as asas na origem

mariagomes
jul.2004

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
Estou no Blog.com.pt

Free Site Counters



Free Site Counters