quarta-feira, outubro 06, 2004

para a tua vida





"quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor sincera e desordenada"
Alda Lara



é pequena a minha morte para a tua vida. para a dor sincera
e desordenada que se passeia insone.
morro várias vezes para oeste. o vento aconhega-se na boca.
em confissões e artérias este berço este sangue
esta chuva trôpega pelo rosto.
deslizes, terramotos, hemoptises no feixe das flores.
há barreiras de facas a babarem-se no mar onde não agem os peixes.
é pequena a minha morte para a tua vida. para a tua dor.

mariagomes
out.2004


a saudade


a saudade é fria, meu amor. é uma viagem ao contrário,
como a viagem daquele dia que estremecia o pensamento.
a saudade, meu amor, é mandar um beijo em voz alta,
e ver um rosto perdido na respiração.
no cais, no carril, entre a cidade, no bilhete do metro
com o lápis da memória escrevê-la-ei, para que se apague.

mariagomes
jul.2004 ( revisto out.2004)

o que diz o poeta...


Moçambique



"Todo o poeta, o autêntico, deve-se assumir, sem meneios nem tiques, como cidadão do mundo. Não é equidistância, mas distanciamento inteligente com muitos mais defeitos do que coisas positivas. O poeta - e todo o artista - é um homem. Sempre imperfeito! Vou ler-te esta passagem de um poema de T.S. Eliot: Sobe. / A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,/ Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talhar / O último talho da navalha..."

(...)Para mim, não me interessa o que o escritor, o artista é ou são: interessa-me a sua arte e como ela desafia os poderes, para que o homem sobreviva; para que o homem não se suicide, ele próprio, matando milhares e milhões. E, depois, há as mil máscaras. É um Carnaval de há milhares de anos. Todo o poder corrompe, dizia Confúcio. Todo o Poder chafurda na insensibilidade, no crime, na ignorância, no horror, no sangue quente de suas vítimas. (...)



Heliodoro Baptista em entrevista a MaderaZinco
http://www.maderazinco.tropical.co.mz/entrevista/heliodoro.htm


"Now I See" photo by Frank Grisdale, Canadian, b.1954

domingo, outubro 03, 2004

ao som de violinos



devo prosseguir de olhos abraçados à pátria
que o amanhecer fizer
imune cercar o sol das geadas com brilho
consultar oráculos
e sem custo erguer as casas a cidade
as ruas que regressam da limpidez
da pedra leve
em pedacinhos de outono

e as árvores a subir sempre a subir
ao som de violinos.

mariagomes
3out.2004


árvores em ferida


quando caem folhas, eu chamo por ti, mãe;
morrem pássaros nas palavras que falamos.
pelas janelas,
os ventos suicidas rebentam as paredes, os anos.
daqui a milhões de nada,
a extrema unção está próxima da vida.
quando caem folhas, mãe, as árvores ficam feridas.

mariagomes
set.2004

Vergílio Ferreira [1916-1996]


Vergílio Ferreira



"Um corpo e o que em obra superior ele produz. Como é fascinante pensá-lo!
Um novelo de tripas, de sebo, de matéria viscosa e repelente, um incansável produtor de lixo. Uma podridão insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a decência do convívio, um equilíbrio difícil em dois pés precários, uma latrina ambulante, um saco de esterco. E simultaneamente, na visibilidade disso, a harmonia de uma face, a sua possível beleza e sobretudo o prodígio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte. Construir o máximo de sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem. Dá vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaixão. Dá vontade de enlouquecer."


Vergílio Ferreira in Pensar

sexta-feira, outubro 01, 2004


foto por Steve McCurry

uma letra



preciso de te dizer
que me perdi pelos templos
olhando as aves que voam sem direcção.

preciso de te dizer
que um rio limpo corre onde há o muro
porque um menino lê uma letra enorme no futuro.

mariagomes
out.2004

dúbios

I

eu sei. já fizemos o amor.
a tarde deitou-se sobre o corpo da cegueira.
vieram, depois, os olhos duplos do silêncio.
nada mais resta
que esta cadeira sonhada de nascentes dúbios.

II

hoje, responderam as estrelas;
uma criança, ausente, revelou uma palavra.
e a noite surgiu e caminhou para uma ideia.
declinou o verbo das coisas.
os fragmentos. a erosão. a cadeira.


III

eu sei. o amanhã está, incrivelmente,vivo.
vê como eu falo! sem sair
falo com o coração para fora. com o teu coração.
há poentes difíceis por dentro.
que as verdades inventam, a partir.


mariagomes
set.2004

quinta-feira, setembro 30, 2004

Yehudi Menuhin [1916- 1999]

Yehudi Menuhin (1916-1999)



"É a arte que pode estruturar a personalidade dos jovens cidadãos no sentido da abertura de espírito, do respeito pelo próximo, do desejo de paz. É a cultura, de facto, que permite a cada pessoa enriquecer-se com o passado para participar na criação do futuro. (...) a arte é uma antena preciosa para captar o futuro que não pode ser reservado só a alguns."

Yehudi Menuhin


a curva longa




a curva longa crava um sorriso ao luar.
na maresia equidistante na pele inquieta
veio a noite trazer a colina do verbo amar;

eu amo as estrelas apagadas
o som das brisas a cidade nua

das coisas apetecidas eu amo a mais antiga
entre auroras e trevas resignadas à loucura.

mariagomes
17set.2004

quarta-feira, setembro 29, 2004

Auto-Retrato de Natureza Morta






Auto-Retrato da Natureza Morta
Autor: Simão César Dórdio Gomes (1890 - 1976)
Século: XX Ano: 1924 Tipo: óleo sobre tela
dimensões: 150 x 90 cm Local: Colecção particular (Porto)


na: Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses







morremos


morremos num mar de gaivotas enganadas
pelo vento que apareceu agora.
escutámos cem águas
o rumor de horas inabitadas.
morremos em tempestades
morremos demasiado tarde e juntos
porque o sol sobrevivia
e o chão atravessava os mapas da poesia.

mariagomes
29set.2004


**

atravessámos as águas com o vento d'outrora
e mais as línguas de fogo que nos
saíam dos dedos.
a poesia é um trabalho dos deuses
e aos homens resta esperar pelo fogo
e pelo desejo de consumir o ventre da criação.

Jorge Vicente

**

uma outra morte um outro caminho do sol
abri-me à energia do teu corpo como um
texto orgânico


eis a poesia e o amor
árvore. Gritaste, por mim
parti


José Gil


** em Encontro de Escritas

terça-feira, setembro 28, 2004

os caminhos



o amanhã dirá do esplendor, os caminhos que pisamos.
a lembrança,
a terra inteira da palavra
que foi silenciosamente nossa.
loira, de trigo, verdadeira como uma sílaba,
como uma criança.


mariagomes
28set.2004

marguerite yourcenar







(...)“e os impérios, como os homens, já não têm tempo para se instruírem à custa das suas faltas. Onde quer que um tecelão remendar o seu pano, onde um calculador hábil corrigir os seus erros, onde o artista retocar a sua obra-prima ainda imperfeita ou apenas danificada, a natureza prefere repartir sem intermediário a argila e o caos, e esse esbanjamento é o que se chama a ordem das coisas.” (...)

“memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

segunda-feira, setembro 27, 2004

da noite




Trabalho de Renan Cepeda



da noite eu quero as areias sem rodeios
que levam sonhos
e lavram-nos como aves ou veleiros
da noite eu quero a luz dos desertos intermináveis
as queimadas o escuro
da noite eu quero as palavras a prumo
em fios de estrelas e lágrimas.


mariagomes
set.2004






"Mano Dnesiana" por Dorothea Lange

sexta-feira, setembro 24, 2004

a dizer o instante



olha as tuas mãos a escrever poemas
a dizer o instante
a consumir o fogo que se expande.

olha as tuas mãos a chorar nas minhas.

olha! são searas são vinhas que tangem a beleza
e a embebedam de sinais.

mariagomes
24set.2004

inadvertidamente
a chuva floriu!...
oiço um tear de palavras,
é o poema a cantar.

mariagomes
coimbra, 18 de maio de 2003

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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