"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
quarta-feira, outubro 06, 2004
para a tua vida
"quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor sincera e desordenada"
Alda Lara
é pequena a minha morte para a tua vida. para a dor sincera
e desordenada que se passeia insone.
morro várias vezes para oeste. o vento aconhega-se na boca.
em confissões e artérias este berço este sangue
esta chuva trôpega pelo rosto.
deslizes, terramotos, hemoptises no feixe das flores.
há barreiras de facas a babarem-se no mar onde não agem os peixes.
é pequena a minha morte para a tua vida. para a tua dor.
mariagomes
out.2004
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10/06/2004 05:17:00 da tarde
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a saudade
a saudade é fria, meu amor. é uma viagem ao contrário,
como a viagem daquele dia que estremecia o pensamento.
a saudade, meu amor, é mandar um beijo em voz alta,
e ver um rosto perdido na respiração.
no cais, no carril, entre a cidade, no bilhete do metro
com o lápis da memória escrevê-la-ei, para que se apague.
mariagomes
jul.2004 ( revisto out.2004)
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10/06/2004 01:41:00 da tarde
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o que diz o poeta...
Moçambique
"Todo o poeta, o autêntico, deve-se assumir, sem meneios nem tiques, como cidadão do mundo. Não é equidistância, mas distanciamento inteligente com muitos mais defeitos do que coisas positivas. O poeta - e todo o artista - é um homem. Sempre imperfeito! Vou ler-te esta passagem de um poema de T.S. Eliot: Sobe. / A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,/ Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talhar / O último talho da navalha..."
(...)Para mim, não me interessa o que o escritor, o artista é ou são: interessa-me a sua arte e como ela desafia os poderes, para que o homem sobreviva; para que o homem não se suicide, ele próprio, matando milhares e milhões. E, depois, há as mil máscaras. É um Carnaval de há milhares de anos. Todo o poder corrompe, dizia Confúcio. Todo o Poder chafurda na insensibilidade, no crime, na ignorância, no horror, no sangue quente de suas vítimas. (...)
Heliodoro Baptista em entrevista a MaderaZinco
http://www.maderazinco.tropical.co.mz/entrevista/heliodoro.htm
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10/06/2004 11:05:00 da manhã
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"Now I See" photo by Frank Grisdale, Canadian, b.1954
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10/06/2004 02:08:00 da manhã
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domingo, outubro 03, 2004
ao som de violinos
devo prosseguir de olhos abraçados à pátria
que o amanhecer fizer
imune cercar o sol das geadas com brilho
consultar oráculos
e sem custo erguer as casas a cidade
as ruas que regressam da limpidez
da pedra leve
em pedacinhos de outono
e as árvores a subir sempre a subir
ao som de violinos.
mariagomes
3out.2004
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10/03/2004 10:05:00 da tarde
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árvores em ferida
quando caem folhas, eu chamo por ti, mãe;
morrem pássaros nas palavras que falamos.
pelas janelas,
os ventos suicidas rebentam as paredes, os anos.
daqui a milhões de nada,
a extrema unção está próxima da vida.
quando caem folhas, mãe, as árvores ficam feridas.
mariagomes
set.2004
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10/03/2004 03:18:00 da manhã
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Vergílio Ferreira [1916-1996]
Vergílio Ferreira
"Um corpo e o que em obra superior ele produz. Como é fascinante pensá-lo!
Um novelo de tripas, de sebo, de matéria viscosa e repelente, um incansável produtor de lixo. Uma podridão insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a decência do convívio, um equilíbrio difícil em dois pés precários, uma latrina ambulante, um saco de esterco. E simultaneamente, na visibilidade disso, a harmonia de uma face, a sua possível beleza e sobretudo o prodígio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte. Construir o máximo de sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem. Dá vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaixão. Dá vontade de enlouquecer."
Vergílio Ferreira in Pensar
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10/03/2004 03:02:00 da manhã
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sexta-feira, outubro 01, 2004

foto por Steve McCurry
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10/01/2004 09:24:00 da tarde
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uma letra
preciso de te dizer
que me perdi pelos templos
olhando as aves que voam sem direcção.
preciso de te dizer
que um rio limpo corre onde há o muro
porque um menino lê uma letra enorme no futuro.
mariagomes
out.2004
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10/01/2004 08:53:00 da tarde
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dúbios
I
eu sei. já fizemos o amor.
a tarde deitou-se sobre o corpo da cegueira.
vieram, depois, os olhos duplos do silêncio.
nada mais resta
que esta cadeira sonhada de nascentes dúbios.
II
hoje, responderam as estrelas;
uma criança, ausente, revelou uma palavra.
e a noite surgiu e caminhou para uma ideia.
declinou o verbo das coisas.
os fragmentos. a erosão. a cadeira.
III
eu sei. o amanhã está, incrivelmente,vivo.
vê como eu falo! sem sair
falo com o coração para fora. com o teu coração.
há poentes difíceis por dentro.
que as verdades inventam, a partir.
mariagomes
set.2004
eu sei. já fizemos o amor.
a tarde deitou-se sobre o corpo da cegueira.
vieram, depois, os olhos duplos do silêncio.
nada mais resta
que esta cadeira sonhada de nascentes dúbios.
II
hoje, responderam as estrelas;
uma criança, ausente, revelou uma palavra.
e a noite surgiu e caminhou para uma ideia.
declinou o verbo das coisas.
os fragmentos. a erosão. a cadeira.
III
eu sei. o amanhã está, incrivelmente,vivo.
vê como eu falo! sem sair
falo com o coração para fora. com o teu coração.
há poentes difíceis por dentro.
que as verdades inventam, a partir.
mariagomes
set.2004
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10/01/2004 02:22:00 da tarde
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quinta-feira, setembro 30, 2004
Yehudi Menuhin [1916- 1999]
Yehudi Menuhin (1916-1999)
"É a arte que pode estruturar a personalidade dos jovens cidadãos no sentido da abertura de espírito, do respeito pelo próximo, do desejo de paz. É a cultura, de facto, que permite a cada pessoa enriquecer-se com o passado para participar na criação do futuro. (...) a arte é uma antena preciosa para captar o futuro que não pode ser reservado só a alguns."
Yehudi Menuhin
"É a arte que pode estruturar a personalidade dos jovens cidadãos no sentido da abertura de espírito, do respeito pelo próximo, do desejo de paz. É a cultura, de facto, que permite a cada pessoa enriquecer-se com o passado para participar na criação do futuro. (...) a arte é uma antena preciosa para captar o futuro que não pode ser reservado só a alguns."
Yehudi Menuhin
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9/30/2004 03:42:00 da tarde
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a curva longa
a curva longa crava um sorriso ao luar.
na maresia equidistante na pele inquieta
veio a noite trazer a colina do verbo amar;
eu amo as estrelas apagadas
o som das brisas a cidade nua
das coisas apetecidas eu amo a mais antiga
entre auroras e trevas resignadas à loucura.
mariagomes
17set.2004
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9/30/2004 02:23:00 da tarde
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quarta-feira, setembro 29, 2004
Auto-Retrato de Natureza Morta
Auto-Retrato da Natureza Morta
Autor: Simão César Dórdio Gomes (1890 - 1976)
Século: XX Ano: 1924 Tipo: óleo sobre tela
dimensões: 150 x 90 cm Local: Colecção particular (Porto)
na: Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses
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9/29/2004 09:00:00 da tarde
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morremos
morremos num mar de gaivotas enganadas
pelo vento que apareceu agora.
escutámos cem águas
o rumor de horas inabitadas.
morremos em tempestades
morremos demasiado tarde e juntos
porque o sol sobrevivia
e o chão atravessava os mapas da poesia.
mariagomes
29set.2004
**
atravessámos as águas com o vento d'outrora
e mais as línguas de fogo que nos
saíam dos dedos.
a poesia é um trabalho dos deuses
e aos homens resta esperar pelo fogo
e pelo desejo de consumir o ventre da criação.
Jorge Vicente
**
uma outra morte um outro caminho do sol
abri-me à energia do teu corpo como um
texto orgânico
eis a poesia e o amor
árvore. Gritaste, por mim
parti
José Gil
** em Encontro de Escritas
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9/29/2004 08:38:00 da tarde
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terça-feira, setembro 28, 2004
os caminhos
o amanhã dirá do esplendor, os caminhos que pisamos.
a lembrança, a terra inteira da palavra
que foi silenciosamente nossa.
loira, de trigo, verdadeira como uma sílaba,
como uma criança.
mariagomes
28set.2004
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9/28/2004 09:57:00 da tarde
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marguerite yourcenar
(...)“e os impérios, como os homens, já não têm tempo para se instruírem à custa das suas faltas. Onde quer que um tecelão remendar o seu pano, onde um calculador hábil corrigir os seus erros, onde o artista retocar a sua obra-prima ainda imperfeita ou apenas danificada, a natureza prefere repartir sem intermediário a argila e o caos, e esse esbanjamento é o que se chama a ordem das coisas.” (...)
“memórias de Adriano”
marguerite yourcenar
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9/28/2004 05:14:00 da tarde
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segunda-feira, setembro 27, 2004
da noite
Trabalho de Renan Cepeda
da noite eu quero as areias sem rodeios
que levam sonhos
e lavram-nos como aves ou veleiros
da noite eu quero a luz dos desertos intermináveis
as queimadas o escuro
da noite eu quero as palavras a prumo
em fios de estrelas e lágrimas.
mariagomes
set.2004
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9/27/2004 02:33:00 da tarde
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"Mano Dnesiana" por Dorothea Lange
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9/27/2004 02:15:00 da tarde
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sexta-feira, setembro 24, 2004
a dizer o instante
olha as tuas mãos a escrever poemas
a dizer o instante
a consumir o fogo que se expande.
olha as tuas mãos a chorar nas minhas.
olha! são searas são vinhas que tangem a beleza
e a embebedam de sinais.
mariagomes
24set.2004
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9/24/2004 10:16:00 da tarde
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inadvertidamente
a chuva floriu!...
oiço um tear de palavras,
é o poema a cantar.
mariagomes
coimbra, 18 de maio de 2003
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9/24/2004 05:01:00 da tarde
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- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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