"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
sábado, novembro 06, 2004
os aromas de agosto
ia mais longe o sol quando as árvores eram profundas.
uma rosa cantava o esplendor da sombra aberta para o linho;
era largo o tempo das avenidas a fio.
agora, em que cidade te encontro?
que ruas abrem o teu sorriso ao rio?
que silêncios se quebram nos galhos, nas raízes, nas gargantas?
em quantas figuras se fixam os aromas de agosto,
em quantas cores, quantas...,? em tantas perguntas.
mariagomes
10ag2004
sexta-feira, novembro 05, 2004
Dupoux, Marithou - Les Masques
de uma resposta
"- tudo em nós interior e exteriormente, clama
por uma perpetuação - então a eternidade é uma resposta"
Alda Lara
pelo seio nu da mãe ao entardecer
pelo ser cumprido na palavra
pelo gosto da buganvília pela língua inesperada
pelo odor franzido do sol pela gaivota vaga
pela onda finda na pele pela lua exposta
pela esperança ainda de uma pergunta. de uma resposta.
mariagomes
5,nov.2004
quinta-feira, novembro 04, 2004
não sei
não sei onde deixei as lágrimas
se pelas estrelas dos homens dóceis tiritando
se pelos cavalos
bravos
frios
próximos
não sei se a noite cede a novembro
sobram-nos sóis
e nuvens roxas de nenúfares
gritam no sul coalhado.
mariagomes
4,nov.2004
o que diz o poeta...
(...)O homem é um mistério encarnado, opaco a maior parte das vezes aos olhos mais penetrantes. Por isso,ninguém conhece verdadeiramente ninguém. Mas os poetas mostram-se sempre como são. Não por serem mais sinceros, mas por imposição da própria poesia. Porque irrompe das profundezes ígneas do ser, quando se manifesta traz à tona a verdade ainda a fumegar. Em quantos versos sibilinos ficam registados os seus sentimentos e paixões? Em quantas imagens ocultas os traços disfarçados de rostos amados? Em quantos poemas eu vos disse já o que agora vos digo? (...)
Miguel Torga
Malaposta, 14 de Agosto de 1993
com palavras e plágios
flor minha flor aberta ao infinito frágil
flor flor duas vezes
cem vezes vieste flor do aroma
no fogo sem lábios
com palavras e plágios
flor volida na corola dos meus dedos
beijo-te em sílaba
mariagomes
set.2004
terça-feira, novembro 02, 2004
de brinquedos e arames
uma cidade erguia um campo precário de brinquedos
e arames vertidos pela paz.
a transparência em arco implodia da ilusão
vulcânica na música que cavalgava.
uma crina. uma cidade calada clara erguia o sonho humano.
um outro sonho à margem trazia o reino da ternura
onde sílabas pendiam de um piano.
mariagomes
2nov.2004
rente ao passado
quando a morte vier
direita aos meus lábios,
estreita o meu corpo
na febre a descer.
sairei de ti a andar, incerta,
no olhar que falou como se fala
à flor acabada no húmus da terra;
flor que viveu muitas vezes, interna,
em dias maleáveis como dedos
largados em mares cheios de lagos
e significados. mas só quando a morte
vier, e eu ficar rente ao passado.
mariagomes
in. " antologia Escritas 1"
janeiro2004
Manuel Bandeira
PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é um milagre.
Tudo, menos a morte.
-Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Manuel Bandeira
domingo, outubro 31, 2004
feitio de oração*
" Só Deus" Francisco Metrass (1825 - 1861)
ó garrafada das ervas maceradas do breu das brenhas
se adonai de mim e do meu peito lacerado
ó senhora dos remédios
ó doce dona
ó chá
ó unguento
ó destilado
ó camomila
ó belladonna
ó pharmakon
respingai grossas
gotas de vossos venenos
ó doce dona
ó camomila
ó belladonna
serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
se desprendem dos trapézios
e tontas buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos
ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo.
*( wally salomão)
declamação de Maria Bethânia
in: cd _ " Preces Cânticos e Súplicas- à Senhora dos Jardins do Céu " na voz de Maria Bethânia
sábado, outubro 30, 2004
"Bailarina Descansando", Peter Max
um ocaso
anda pela areia um ocaso de cerejas
enquanto beijas frontes nítidas.
passo a passo regulo num tempo de ponteiros gastos
um tempo de veredas líquidas.
uma espécie de consolação uma espécie de mão em verso.
contudo sabes que o amanhã abrindo
consumirá a madrugada. não. o teu corpo não.
o teu corpo renascerá secreto de cinzas
como a musa que encantou flores dormindo.
mariagomes
30 out.2004
levíssima onda
tinhas a contemplação das coisas admiráveis.
lares de luares embebidos em lagares
vinho de longitudinal esperança.
e a lembrança era força motora
nos lábios esquecidos.
tinhas o sonho saído com vagar legítimo
um entrar de quem vem
e vai voltar numa levíssima onda.
mariagomes
coimbra.14 dez.2003
o que diz o poeta...
..., trago uma citação de Santo Agostinho que, a meu ver, vem bem a calhar. Disse ele: "O que é o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei. Se me perguntam o que é, então não sei". Sinto o mesmo em relação à poesia.
Jorge Luís Borges
in "O Ofício do Verso"
sexta-feira, outubro 29, 2004
ao sossego tenso
ao sossego tenso de palavras de poeira cíclica
à ternura conseguida ao mar
à mãe exacta ao chão supremo da raiz a este clamor
intenso a essa voz que desdiz obedeço
ao vazio impune ao branco vivo do lume
à incerteza gritante que gira
a um gume de flancos trépidos a medo
à nuvem à noite a uma insólita alegria obedeço.
mariagomes
out.2004
"La Nave de los Locos", António Santos
Enigma
Nascemos de uma pergunta
cada um dos nossos actos
é uma pergunta,
nossos anos são um bosque de perguntas,
tu és uma pergunta e eu sou outra,
Deus é uma mão que desenha, incansável,
universos em formas de perguntas.
Octávio Paz
in " Figuras e Figurações"
apres. e trad. de José Bento
Assírio & Alvim
quarta-feira, outubro 27, 2004
E(ra) o tempo...
A cidade adormeceu na encosta da consciência
dos homens de duplo olhar - angélico satânico.
Irreconhecível, corre o rio à margem de azuis;
as tuas lágrimas perfumam lírios!...
Como gritos sinto coisas aflorarem à memória:
- o copo, a chávena, o gosto infantil do leite bebido pelo pires...
o branco dos lençóis que se estendia até o sol corar o horizonte.
Nos canteiros, as videiras viviam em acidez adunca
as lavadeiras elevavam cânticos à sombra dos mamoeiros.
Era o tempo em que persistiam buganvílias a janelas fechadas
e os patos faziam voos rasantes ao superficial suicídio das acácias
num parecer de sangue manchando o céu aberto.
Seria um prenúncio ou a conjugação de cores que impressionava?
Sei que hoje, meu filho,
as árvores baleadas são acariciadas pelo tempo
que ostenta cicatrizes sem vitórias.
2002, Julho, coimbra.
mariagomes
segunda-feira, outubro 25, 2004
em silêncio. um a um.
os homens estão tristes. não falam de cartas. não escrevem amor.
sucedem-se em silêncio. um a um. perderam as palavras.
vão pela rua tacteando rosas escuras com o cheiro de rosas na boca.
a língua jaz incolor oca nos homens que estão tristes.
a cada segundo escurecem planícies. o mundo é da noite.
e as estrelas tremem nas mãos dos homens que tristes modelam
a mão da luz. da pouca luz que ainda resiste.
mariagomes
set.2004
sexta-feira, outubro 22, 2004
"(...)De pé no tabuado do andaime, com a cabeça violentamente inclinada para trás, ou então deitado, escorrendo-lhe as tintas pela cara, Miguel Ângelo pintava; só perturbava o silêncio sagrado da capela o leve som do aprendiz preparando as tintas ou o gemer de tábuas sob os passos quando o estucador vinha lançar o preparo; nenhum dos ruídos de Roma penetrava ali dentro, tudo era calmo, mais calmo ainda na penumbra dos andaimes. Para Miguel Ângelo era como se estivesse muito longe da terra, como se a terra mesmo ainda não existisse e já na imaginação de Deus fosse surgindo o primeiro homem, depois a primeira mulher, depois toda a multidão de profetas e sibilas que um dia haviam de pregar ao mundo, já prevertido, a palavra divina; (...) "
Agostinho da Silva
in " Biografias II" ... "vida de Miguel Ângelo."
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- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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