"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
terça-feira, novembro 09, 2004
a noite
a noite vingou num colo de palavras
é um canto perpétuo de luz
ó mãe as aves calçam o silêncio
e uma boneca impossível estende-lhes os braços.
mariagomes
nov.2004
sábado, novembro 06, 2004
o gesto do olhar
eu fico-me pelo soco da lembrança
de um deserto
deito-me na noite plana
na superfície de sonhos vivo
hei-de escrever um epitáfio em estanho
a boca em eco
o amor crivado de memória
hei-de escrever o horizonte
o gesto do olhar
a pedra
na história angular da nossa história.
mariagomes
6, nov.2004, 23h.35m
Conferência de Agostinho de Campos ( 1923)
(…)
“ quando eu era rapazinho, corria oralmente, entre os liceais meus camaradas, um bocado de “prosa riquíssima”, que eu decorei então, e nunca mais me esqueceu. Vou recitá-lo com a minha melhor entoação:
“ Acuminado pela sede de cascabulhar na caligem bruna dos tempos cadilhos edulcorados de cadoxos em estropiação acpacmásticas, exausto-me em pélagos de polimorfias eméticas, onde em vez de campanarem faces ebóreas de empubescimento acariante , enfrento apenas múmias egras dum calecedonismo de carpólilhos”
Nós, rapazitos, passávamos, uns aos outros a tradição deste saboroso petisco, que não sei de onde veio. Íamos aos nossos dicionários e encontrávamos lá todas as estupendas palavras de que ele se cozinhou. Mas não ficávamos por isso muito mais adiantados a respeito da sua beleza e significação.
Ora isto é mais sério do que parece, porque a idade a que cheguei já me permitiu ver que um ou outro literato e político tem feito muito boa carreira, a dizer ou escrever coisas que não se entendem muito melhor do que aquilo. E a mim parece-me que para a nossa política e toda a nossa vida social entrarem no equilíbrio, na ordem, no sentido das proporções e no próprio senso-comum, não deve ser indiferente que a literatura lhes dê sempre este mesmo e tão saudável exemplo.
Quem pensa claro, fala claro. Quem sente nobremente expõe a sua alma em termos simples. Quem é sincero execra a pompa no dizer, máscara de vaidade, pretensão e hipocrisia. Quem não pretende ou não precisa de meter os pés pelas mãos ou as próprias mãos nas algibeiras dos outros não transforma a palavra num feitiço misterioso e difícil, isca de ignorantes e ingénuos, inclinados a achar poderes sobrenaturais naquilo que não entendem.
E eis aqui uma grave dificuldade, uma contradição e quase um paradoxo: para sentir o valor da palavra simples e ao mesmo tempo artística, é necessário ser-se complicado, quer dizer: educado no gosto; culto de verdadeira beleza literária; fino de preferências e agrados. Na mesma loja de modas onde uma mulher distinta escolhe estofos e guarnições sóbrias de cores, pode entrar a seguir qualquer senhoreca dinheirosa, para se enfeitar como uma arara. E a literatura de um país provinciano ( inculto e pouco lido) arrisca-se a ser uma loja de modas a ser um maior sortido para catatuas, que para fidalgas.
... amemos e louvemos os nossos poetas e prosadores que falem claro, e claro se exprimem numa linguagem ordenada e cristalina. Muitos deles vivem ainda connosco, e são dos melhores que jamais tivemos. Melhores pelo talento, e melhores pelo ideal de servirem (…) a arte. Façamos por compreender a sciência da composição e amplitude das escalas que se oculta na harmonia sóbria das suas vozes. E ajudemo-los, e sigamo-los no seu empenho… estimulados pela nossa participação e pelo nosso aplauso, eles continuarão, e progredirão ainda, se é possível, tornando-se cada vez mais objectivos, mais humanos; e já que falam uma bela língua que o povo pode compreender, procurarão aproveitá-la para contar ao povo histórias que ele compreenda, como bons irmãos seus que se sabem mais sábios, mas não querem fazer da sua sciência título de estéril orgulho e pergaminho de aristocracia desdenhosa , sequestrada do ambiente mais largo.
Bastante egoísta se tem mostrado no decurso dos séculos a nossa literatura, sobretudo a poética, confinada quasi sempre no lirismo amoroso, que é uma forma de egoísmo, sensual ou lamuriento. Com uma prosa esotérica, difícil, complicada a acrescentar-se a uma poesia egocêntrica e indiferente ao mundo que a rodeia, cada vez mais os homens se afastariam do povo, da multidão das almas (...)
Pensem os nossos melhores escritores nesse povo, que afinal pouco perderá com não saber ler, se o escol literário lhe não fornecer nada que ele leia. (…) "
Agostinho de Campos ( sócio correspondente da Academia das Sciências de Lisboa)
In “ as três prosas: A pobre, A rica, A nova rica.
Edição Livrarias AilLaud e Bertrand - 1923
os aromas de agosto
ia mais longe o sol quando as árvores eram profundas.
uma rosa cantava o esplendor da sombra aberta para o linho;
era largo o tempo das avenidas a fio.
agora, em que cidade te encontro?
que ruas abrem o teu sorriso ao rio?
que silêncios se quebram nos galhos, nas raízes, nas gargantas?
em quantas figuras se fixam os aromas de agosto,
em quantas cores, quantas...,? em tantas perguntas.
mariagomes
10ag2004
sexta-feira, novembro 05, 2004
Dupoux, Marithou - Les Masques
de uma resposta
"- tudo em nós interior e exteriormente, clama
por uma perpetuação - então a eternidade é uma resposta"
Alda Lara
pelo seio nu da mãe ao entardecer
pelo ser cumprido na palavra
pelo gosto da buganvília pela língua inesperada
pelo odor franzido do sol pela gaivota vaga
pela onda finda na pele pela lua exposta
pela esperança ainda de uma pergunta. de uma resposta.
mariagomes
5,nov.2004
quinta-feira, novembro 04, 2004
não sei
não sei onde deixei as lágrimas
se pelas estrelas dos homens dóceis tiritando
se pelos cavalos
bravos
frios
próximos
não sei se a noite cede a novembro
sobram-nos sóis
e nuvens roxas de nenúfares
gritam no sul coalhado.
mariagomes
4,nov.2004
o que diz o poeta...
(...)O homem é um mistério encarnado, opaco a maior parte das vezes aos olhos mais penetrantes. Por isso,ninguém conhece verdadeiramente ninguém. Mas os poetas mostram-se sempre como são. Não por serem mais sinceros, mas por imposição da própria poesia. Porque irrompe das profundezes ígneas do ser, quando se manifesta traz à tona a verdade ainda a fumegar. Em quantos versos sibilinos ficam registados os seus sentimentos e paixões? Em quantas imagens ocultas os traços disfarçados de rostos amados? Em quantos poemas eu vos disse já o que agora vos digo? (...)
Miguel Torga
Malaposta, 14 de Agosto de 1993
com palavras e plágios
flor minha flor aberta ao infinito frágil
flor flor duas vezes
cem vezes vieste flor do aroma
no fogo sem lábios
com palavras e plágios
flor volida na corola dos meus dedos
beijo-te em sílaba
mariagomes
set.2004
terça-feira, novembro 02, 2004
de brinquedos e arames
uma cidade erguia um campo precário de brinquedos
e arames vertidos pela paz.
a transparência em arco implodia da ilusão
vulcânica na música que cavalgava.
uma crina. uma cidade calada clara erguia o sonho humano.
um outro sonho à margem trazia o reino da ternura
onde sílabas pendiam de um piano.
mariagomes
2nov.2004
rente ao passado
quando a morte vier
direita aos meus lábios,
estreita o meu corpo
na febre a descer.
sairei de ti a andar, incerta,
no olhar que falou como se fala
à flor acabada no húmus da terra;
flor que viveu muitas vezes, interna,
em dias maleáveis como dedos
largados em mares cheios de lagos
e significados. mas só quando a morte
vier, e eu ficar rente ao passado.
mariagomes
in. " antologia Escritas 1"
janeiro2004
Manuel Bandeira
PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é um milagre.
Tudo, menos a morte.
-Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.
Manuel Bandeira
domingo, outubro 31, 2004
feitio de oração*
" Só Deus" Francisco Metrass (1825 - 1861)
ó garrafada das ervas maceradas do breu das brenhas
se adonai de mim e do meu peito lacerado
ó senhora dos remédios
ó doce dona
ó chá
ó unguento
ó destilado
ó camomila
ó belladonna
ó pharmakon
respingai grossas
gotas de vossos venenos
ó doce dona
ó camomila
ó belladonna
serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos
se desprendem dos trapézios
e tontas buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos
ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo.
*( wally salomão)
declamação de Maria Bethânia
in: cd _ " Preces Cânticos e Súplicas- à Senhora dos Jardins do Céu " na voz de Maria Bethânia
sábado, outubro 30, 2004
"Bailarina Descansando", Peter Max
um ocaso
anda pela areia um ocaso de cerejas
enquanto beijas frontes nítidas.
passo a passo regulo num tempo de ponteiros gastos
um tempo de veredas líquidas.
uma espécie de consolação uma espécie de mão em verso.
contudo sabes que o amanhã abrindo
consumirá a madrugada. não. o teu corpo não.
o teu corpo renascerá secreto de cinzas
como a musa que encantou flores dormindo.
mariagomes
30 out.2004
levíssima onda
tinhas a contemplação das coisas admiráveis.
lares de luares embebidos em lagares
vinho de longitudinal esperança.
e a lembrança era força motora
nos lábios esquecidos.
tinhas o sonho saído com vagar legítimo
um entrar de quem vem
e vai voltar numa levíssima onda.
mariagomes
coimbra.14 dez.2003
o que diz o poeta...
..., trago uma citação de Santo Agostinho que, a meu ver, vem bem a calhar. Disse ele: "O que é o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei. Se me perguntam o que é, então não sei". Sinto o mesmo em relação à poesia.
Jorge Luís Borges
in "O Ofício do Verso"
sexta-feira, outubro 29, 2004
ao sossego tenso
ao sossego tenso de palavras de poeira cíclica
à ternura conseguida ao mar
à mãe exacta ao chão supremo da raiz a este clamor
intenso a essa voz que desdiz obedeço
ao vazio impune ao branco vivo do lume
à incerteza gritante que gira
a um gume de flancos trépidos a medo
à nuvem à noite a uma insólita alegria obedeço.
mariagomes
out.2004
"La Nave de los Locos", António Santos
Enigma
Nascemos de uma pergunta
cada um dos nossos actos
é uma pergunta,
nossos anos são um bosque de perguntas,
tu és uma pergunta e eu sou outra,
Deus é uma mão que desenha, incansável,
universos em formas de perguntas.
Octávio Paz
in " Figuras e Figurações"
apres. e trad. de José Bento
Assírio & Alvim
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Acerca de mim
- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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