domingo, novembro 14, 2004

dentro do peito



a lua nascida nas tuas mãos de longe
um saibro na linha visível, o cansaço,
quase perfeito o escândalo do sol
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
o sândalo de labaredas que engolem a eito
túneis de lágrimas alheias
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
o coração, a denúncia sonâmbula de sorrisos,
ruídos de substâncias órfãs, sem idade
um homem feito que corrompe a claridade
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
a ânsia do verbo mal trajado, de um poema longo
o leito alado da neblina nua, o sal mendigo da rua,
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
guardo cidades, torres a tiro, madrugadas,
um frio, o brilho de rosas em ruína,
um defeito, vazios, tudo que haja, meu amor,
eu guardo dentro do peito.

mariagomes
nov.2004

sexta-feira, novembro 12, 2004

o sangue que me nutre




vejo a foz das palavras famintas
no descanso dos teus dedos.
sigo o curso das escamas ardentes neste outono.
a pétala do teu sonho dilui o vento
no areal interno da luta.
vem. sobram asas sobre o mar desabrigado.
vem anjo sedutor proferir a oração o fim
a lâmpada acesa do meu ser.
obriga um rio a correr. obriga o grito
o sangue que me nutre a dizer.

mariagomes
12.nov.2004

quinta-feira, novembro 11, 2004

o que diz o poeta...





Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Fernando Pessoa

quarta-feira, novembro 10, 2004


" Maternidade" José Sobral de Almada Negreiros (1893 - 1970)

terça-feira, novembro 09, 2004

a noite


a noite vingou num colo de palavras
é um canto perpétuo de luz
ó mãe as aves calçam o silêncio
e uma boneca impossível estende-lhes os braços.

mariagomes
nov.2004

sábado, novembro 06, 2004

o gesto do olhar




eu fico-me pelo soco da lembrança
de um deserto
deito-me na noite plana
na superfície de sonhos vivo
hei-de escrever um epitáfio em estanho
a boca em eco
o amor crivado de memória
hei-de escrever o horizonte
o gesto do olhar
a pedra
na história angular da nossa história.

mariagomes
6, nov.2004, 23h.35m

Conferência de Agostinho de Campos ( 1923)





(…)
“ quando eu era rapazinho, corria oralmente, entre os liceais meus camaradas, um bocado de “prosa riquíssima”, que eu decorei então, e nunca mais me esqueceu. Vou recitá-lo com a minha melhor entoação:

“ Acuminado pela sede de cascabulhar na caligem bruna dos tempos cadilhos edulcorados de cadoxos em estropiação acpacmásticas, exausto-me em pélagos de polimorfias eméticas, onde em vez de campanarem faces ebóreas de empubescimento acariante , enfrento apenas múmias egras dum calecedonismo de carpólilhos”


Nós, rapazitos, passávamos, uns aos outros a tradição deste saboroso petisco, que não sei de onde veio. Íamos aos nossos dicionários e encontrávamos lá todas as estupendas palavras de que ele se cozinhou. Mas não ficávamos por isso muito mais adiantados a respeito da sua beleza e significação.
Ora isto é mais sério do que parece, porque a idade a que cheguei já me permitiu ver que um ou outro literato e político tem feito muito boa carreira, a dizer ou escrever coisas que não se entendem muito melhor do que aquilo. E a mim parece-me que para a nossa política e toda a nossa vida social entrarem no equilíbrio, na ordem, no sentido das proporções e no próprio senso-comum, não deve ser indiferente que a literatura lhes dê sempre este mesmo e tão saudável exemplo.
Quem pensa claro, fala claro. Quem sente nobremente expõe a sua alma em termos simples. Quem é sincero execra a pompa no dizer, máscara de vaidade, pretensão e hipocrisia. Quem não pretende ou não precisa de meter os pés pelas mãos ou as próprias mãos nas algibeiras dos outros não transforma a palavra num feitiço misterioso e difícil, isca de ignorantes e ingénuos, inclinados a achar poderes sobrenaturais naquilo que não entendem.
E eis aqui uma grave dificuldade, uma contradição e quase um paradoxo: para sentir o valor da palavra simples e ao mesmo tempo artística, é necessário ser-se complicado, quer dizer: educado no gosto; culto de verdadeira beleza literária; fino de preferências e agrados. Na mesma loja de modas onde uma mulher distinta escolhe estofos e guarnições sóbrias de cores, pode entrar a seguir qualquer senhoreca dinheirosa, para se enfeitar como uma arara. E a literatura de um país provinciano ( inculto e pouco lido) arrisca-se a ser uma loja de modas a ser um maior sortido para catatuas, que para fidalgas.
... amemos e louvemos os nossos poetas e prosadores que falem claro, e claro se exprimem numa linguagem ordenada e cristalina. Muitos deles vivem ainda connosco, e são dos melhores que jamais tivemos. Melhores pelo talento, e melhores pelo ideal de servirem (…) a arte. Façamos por compreender a sciência da composição e amplitude das escalas que se oculta na harmonia sóbria das suas vozes. E ajudemo-los, e sigamo-los no seu empenho… estimulados pela nossa participação e pelo nosso aplauso, eles continuarão, e progredirão ainda, se é possível, tornando-se cada vez mais objectivos, mais humanos; e já que falam uma bela língua que o povo pode compreender, procurarão aproveitá-la para contar ao povo histórias que ele compreenda, como bons irmãos seus que se sabem mais sábios, mas não querem fazer da sua sciência título de estéril orgulho e pergaminho de aristocracia desdenhosa , sequestrada do ambiente mais largo.
Bastante egoísta se tem mostrado no decurso dos séculos a nossa literatura, sobretudo a poética, confinada quasi sempre no lirismo amoroso, que é uma forma de egoísmo, sensual ou lamuriento. Com uma prosa esotérica, difícil, complicada a acrescentar-se a uma poesia egocêntrica e indiferente ao mundo que a rodeia, cada vez mais os homens se afastariam do povo, da multidão das almas (...)
Pensem os nossos melhores escritores nesse povo, que afinal pouco perderá com não saber ler, se o escol literário lhe não fornecer nada que ele leia. (…)
"


Agostinho de Campos ( sócio correspondente da Academia das Sciências de Lisboa)

In “ as três prosas: A pobre, A rica, A nova rica.
Edição Livrarias AilLaud e Bertrand - 1923


os aromas de agosto


ia mais longe o sol quando as árvores eram profundas.
uma rosa cantava o esplendor da sombra aberta para o linho;
era largo o tempo das avenidas a fio.
agora, em que cidade te encontro?
que ruas abrem o teu sorriso ao rio?
que silêncios se quebram nos galhos, nas raízes, nas gargantas?
em quantas figuras se fixam os aromas de agosto,
em quantas cores, quantas...,? em tantas perguntas.

mariagomes
10ag2004

sexta-feira, novembro 05, 2004


Dupoux, Marithou - Les Masques

de uma resposta





"- tudo em nós interior e exteriormente, clama
por uma perpetuação - então a eternidade é uma resposta"
Alda Lara



pelo seio nu da mãe ao entardecer
pelo ser cumprido na palavra

pelo gosto da buganvília pela língua inesperada
pelo odor franzido do sol pela gaivota vaga
pela onda finda na pele pela lua exposta
pela esperança ainda de uma pergunta. de uma resposta.

mariagomes
5,nov.2004


quinta-feira, novembro 04, 2004

não sei




não sei onde deixei as lágrimas
se pelas estrelas dos homens dóceis tiritando
se pelos cavalos
bravos
frios
próximos
não sei se a noite cede a novembro
sobram-nos sóis
e nuvens roxas de nenúfares
gritam no sul coalhado.

mariagomes
4,nov.2004

o que diz o poeta...





(...)O homem é um mistério encarnado, opaco a maior parte das vezes aos olhos mais penetrantes. Por isso,ninguém conhece verdadeiramente ninguém. Mas os poetas mostram-se sempre como são. Não por serem mais sinceros, mas por imposição da própria poesia. Porque irrompe das profundezes ígneas do ser, quando se manifesta traz à tona a verdade ainda a fumegar. Em quantos versos sibilinos ficam registados os seus sentimentos e paixões? Em quantas imagens ocultas os traços disfarçados de rostos amados? Em quantos poemas eu vos disse já o que agora vos digo? (...)

Miguel Torga
Malaposta, 14 de Agosto de 1993


com palavras e plágios



flor minha flor aberta ao infinito frágil
flor flor duas vezes
cem vezes vieste flor do aroma
no fogo sem lábios
com palavras e plágios

flor volida na corola dos meus dedos
beijo-te em sílaba

mariagomes
set.2004

terça-feira, novembro 02, 2004

de brinquedos e arames




uma cidade erguia um campo precário de brinquedos
e arames vertidos pela paz.
a transparência em arco implodia da ilusão
vulcânica na música que cavalgava.
uma crina. uma cidade calada clara erguia o sonho humano.
um outro sonho à margem trazia o reino da ternura
onde sílabas pendiam de um piano.


mariagomes
2nov.2004

rente ao passado





quando a morte vier
direita aos meus lábios,
estreita o meu corpo
na febre a descer.

sairei de ti a andar, incerta,
no olhar que falou como se fala
à flor acabada no húmus da terra;
flor que viveu muitas vezes, interna,
em dias maleáveis como dedos
largados em mares cheios de lagos
e significados. mas só quando a morte
vier, e eu ficar rente ao passado.


mariagomes
in. " antologia Escritas 1"
janeiro2004

Manuel Bandeira





PREPARAÇÃO PARA A MORTE


A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é um milagre.
Tudo, menos a morte.
-Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.


Manuel Bandeira

domingo, outubro 31, 2004

feitio de oração*



" Só Deus" Francisco Metrass (1825 - 1861)




ó garrafada das ervas maceradas do breu das brenhas
se adonai de mim e do meu peito lacerado
ó senhora dos remédios

ó doce dona
ó chá
ó unguento
ó destilado
ó camomila
ó belladonna
ó pharmakon

respingai grossas
gotas de vossos venenos
ó doce dona
ó camomila
ó belladonna


serenai minhas irremediáveis pupilas dilatadas
ó senhora dos sem remédios
domai as minhas brutas ânsias acrobáticas
que suspensas piruetam pânicas nas janelas do caos

se desprendem dos trapézios
e tontas buscam o abraço fraterno e solidário dos espaços vácuos
ó garrafada das maceradas ervas do breu das brenhas
adonai-vos do peito lacerado e do lenho oco que ocupo.



*( wally salomão)

declamação de Maria Bethânia

in: cd _ " Preces Cânticos e Súplicas- à Senhora dos Jardins do Céu " na voz de Maria Bethânia



sábado, outubro 30, 2004


"Bailarina Descansando", Peter Max


um ocaso




anda pela areia um ocaso de cerejas
enquanto beijas frontes nítidas.
passo a passo regulo num tempo de ponteiros gastos
um tempo de veredas líquidas.
uma espécie de consolação uma espécie de mão em verso.
contudo sabes que o amanhã abrindo
consumirá a madrugada. não. o teu corpo não.
o teu corpo renascerá secreto de cinzas
como a musa que encantou flores dormindo.

mariagomes
30 out.2004

levíssima onda





tinhas a contemplação das coisas admiráveis.
lares de luares embebidos em lagares
vinho de longitudinal esperança.

e a lembrança era força motora
nos lábios esquecidos.

tinhas o sonho saído com vagar legítimo
um entrar de quem vem
e vai voltar numa levíssima onda.



mariagomes
coimbra.14 dez.2003

o que diz o poeta...






..., trago uma citação de Santo Agostinho que, a meu ver, vem bem a calhar. Disse ele: "O que é o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei. Se me perguntam o que é, então não sei". Sinto o mesmo em relação à poesia.



Jorge Luís Borges
in "O Ofício do Verso"



sexta-feira, outubro 29, 2004

ao sossego tenso



ao sossego tenso de palavras de poeira cíclica
à ternura conseguida ao mar
à mãe exacta ao chão supremo da raiz a este clamor
intenso a essa voz que desdiz obedeço

ao vazio impune ao branco vivo do lume
à incerteza gritante que gira
a um gume de flancos trépidos a medo
à nuvem à noite a uma insólita alegria obedeço.

mariagomes
out.2004

"La Nave de los Locos", António Santos



Enigma







Nascemos de uma pergunta
cada um dos nossos actos
é uma pergunta,
nossos anos são um bosque de perguntas,
tu és uma pergunta e eu sou outra,
Deus é uma mão que desenha, incansável,
universos em formas de perguntas.

Octávio Paz



in " Figuras e Figurações"
apres. e trad. de José Bento
Assírio & Alvim

quarta-feira, outubro 27, 2004

E(ra) o tempo...

( a meu filho)



A cidade adormeceu na encosta da consciência
dos homens de duplo olhar - angélico satânico.
Irreconhecível, corre o rio à margem de azuis;
as tuas lágrimas perfumam lírios!...

Como gritos sinto coisas aflorarem à memória:
- o copo, a chávena, o gosto infantil do leite bebido pelo pires...
o branco dos lençóis que se estendia até o sol corar o horizonte.
Nos canteiros, as videiras viviam em acidez adunca
as lavadeiras elevavam cânticos à sombra dos mamoeiros.

Era o tempo em que persistiam buganvílias a janelas fechadas
e os patos faziam voos rasantes ao superficial suicídio das acácias
num parecer de sangue manchando o céu aberto.
Seria um prenúncio ou a conjugação de cores que impressionava?
Sei que hoje, meu filho,
as árvores baleadas são acariciadas pelo tempo
que ostenta cicatrizes sem vitórias.


2002, Julho, coimbra.
mariagomes


segunda-feira, outubro 25, 2004

em silêncio. um a um.




os homens estão tristes. não falam de cartas. não escrevem amor.
sucedem-se em silêncio. um a um. perderam as palavras.
vão pela rua tacteando rosas escuras com o cheiro de rosas na boca.
a língua jaz incolor oca nos homens que estão tristes.
a cada segundo escurecem planícies. o mundo é da noite.
e as estrelas tremem nas mãos dos homens que tristes modelam
a mão da luz. da pouca luz que ainda resiste.

mariagomes
set.2004

sexta-feira, outubro 22, 2004






"(...)De pé no tabuado do andaime, com a cabeça violentamente inclinada para trás, ou então deitado, escorrendo-lhe as tintas pela cara, Miguel Ângelo pintava; só perturbava o silêncio sagrado da capela o leve som do aprendiz preparando as tintas ou o gemer de tábuas sob os passos quando o estucador vinha lançar o preparo; nenhum dos ruídos de Roma penetrava ali dentro, tudo era calmo, mais calmo ainda na penumbra dos andaimes. Para Miguel Ângelo era como se estivesse muito longe da terra, como se a terra mesmo ainda não existisse e já na imaginação de Deus fosse surgindo o primeiro homem, depois a primeira mulher, depois toda a multidão de profetas e sibilas que um dia haviam de pregar ao mundo, já prevertido, a palavra divina; (...) "

Agostinho da Silva
in " Biografias II" ... "vida de Miguel Ângelo."


quarta-feira, outubro 20, 2004

a côdea


ao antónio porchia*


às vezes vejo na palavra a côdea da paz que procuro
Sinto viva a imensidão do murmúrio
Mas Hoje Nenhuma rosa se me oferece infinita
Nenhuma estrela sobrevive igual à tua.


mariagomes
out.2004


*N. 1886, Calábria- F.1968, Buenos Aires

"In/Visible Cosmos", by Susannah Hays

Um poeta, um amigo*




Como pomba liberta das mãos



como pomba liberta das mãos,
o poema voa na direcção do espaço;
libertou-se do poeta para o olhar
do mundo inteiro e, sem pudor,
vai contradizer quem o escreveu;
e no futuro dirão que o poeta disse
mas é o poema que o diz e mais ninguém;
e quem souber o que pensava o poeta
esquecê-lo-á - só a poesia importa,
só ela vive para sempre, no poema.
nenhum poeta é imortal, nem livre.
só o poema não desce ao cárcere.
só à poesia é dado regressar do inferno,
e visitá-lo incólume e troçar dele,
e despedir-se com um sorriso amável,
de volta ao seu próprio paraíso.


Gonçalo Bruno de Sousa

domingo, outubro 17, 2004


"Day's End" by Mark Eshbaugh

o meu segredo



se eu te dissesse que as flores bebem na boca do orvalho
a contemplação justa dos jardins
se eu te dissesse que é solto o barro
no tão profundo amor que tem o imaginário
se eu te dissesse que para além o sol busca a solidão de um poeta
e aqui regressa em carne tenra a corola da palavra
a recém-nascida intima alegria desse rosto
se eu te dissesse que há sal no azul
e o céu brota do sangue como se mar houvesse
se eu te dissesse tudo se o silêncio vivesse
se a morte viesse mais cedo meu irmão
para sempre viveria o meu segredo.


mariagomes
out.2004








terça-feira, outubro 12, 2004

numa lua


na exactidão das marés
Nos navios que fogem no teu nome
Iço a ferida da memória numa lua transparente
O fogo que não queima
Quando ausente
vem a flor do monte silvar a melodia.

mariagomes
out.2004

sábado, outubro 09, 2004

(de)lírio


minha doce onda azul Atravessas a placidez da praia
como uma gaivota triste A esconder o eco no sol das entranhas
Neste círculo que tanto subsiste.
Ó cal nocturna dos meus sonhos de olhos fechados
tens de verdade O (de)lírio
No campo a palavra submersa A gota do exílio.

mariagomes
out.2004

Malangatana Ngwenya


Óleo s/ tela. 100 x 81 cm. 1986/88



"Uma dor pode ser o nascer de uma alegria"

Malangatana


quinta-feira, outubro 07, 2004

o sono calmo



que fique gravado na parede _ o silêncio
e o sono calmo dos jardins erga a sombra do teu corpo.
que a boca diga dos amantes como a luz que vê
que solucem de ternura os gestos,
a paz com asas de condor.
haja na noite a aurora para que rios possam transbordar.
e que a partir de agora, simplesmente,
se entregue a palavra ao mar.

mariagomes
out,2004

quarta-feira, outubro 06, 2004

para a tua vida





"quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor sincera e desordenada"
Alda Lara



é pequena a minha morte para a tua vida. para a dor sincera
e desordenada que se passeia insone.
morro várias vezes para oeste. o vento aconhega-se na boca.
em confissões e artérias este berço este sangue
esta chuva trôpega pelo rosto.
deslizes, terramotos, hemoptises no feixe das flores.
há barreiras de facas a babarem-se no mar onde não agem os peixes.
é pequena a minha morte para a tua vida. para a tua dor.

mariagomes
out.2004


a saudade


a saudade é fria, meu amor. é uma viagem ao contrário,
como a viagem daquele dia que estremecia o pensamento.
a saudade, meu amor, é mandar um beijo em voz alta,
e ver um rosto perdido na respiração.
no cais, no carril, entre a cidade, no bilhete do metro
com o lápis da memória escrevê-la-ei, para que se apague.

mariagomes
jul.2004 ( revisto out.2004)

o que diz o poeta...


Moçambique



"Todo o poeta, o autêntico, deve-se assumir, sem meneios nem tiques, como cidadão do mundo. Não é equidistância, mas distanciamento inteligente com muitos mais defeitos do que coisas positivas. O poeta - e todo o artista - é um homem. Sempre imperfeito! Vou ler-te esta passagem de um poema de T.S. Eliot: Sobe. / A cama é franca; a escova de dentes na parede pende,/ Põe teus sapatos junto à porta, dorme, para a vida te talhar / O último talho da navalha..."

(...)Para mim, não me interessa o que o escritor, o artista é ou são: interessa-me a sua arte e como ela desafia os poderes, para que o homem sobreviva; para que o homem não se suicide, ele próprio, matando milhares e milhões. E, depois, há as mil máscaras. É um Carnaval de há milhares de anos. Todo o poder corrompe, dizia Confúcio. Todo o Poder chafurda na insensibilidade, no crime, na ignorância, no horror, no sangue quente de suas vítimas. (...)



Heliodoro Baptista em entrevista a MaderaZinco
http://www.maderazinco.tropical.co.mz/entrevista/heliodoro.htm


"Now I See" photo by Frank Grisdale, Canadian, b.1954

domingo, outubro 03, 2004

ao som de violinos



devo prosseguir de olhos abraçados à pátria
que o amanhecer fizer
imune cercar o sol das geadas com brilho
consultar oráculos
e sem custo erguer as casas a cidade
as ruas que regressam da limpidez
da pedra leve
em pedacinhos de outono

e as árvores a subir sempre a subir
ao som de violinos.

mariagomes
3out.2004


árvores em ferida


quando caem folhas, eu chamo por ti, mãe;
morrem pássaros nas palavras que falamos.
pelas janelas,
os ventos suicidas rebentam as paredes, os anos.
daqui a milhões de nada,
a extrema unção está próxima da vida.
quando caem folhas, mãe, as árvores ficam feridas.

mariagomes
set.2004

Vergílio Ferreira [1916-1996]


Vergílio Ferreira



"Um corpo e o que em obra superior ele produz. Como é fascinante pensá-lo!
Um novelo de tripas, de sebo, de matéria viscosa e repelente, um incansável produtor de lixo. Uma podridão insofrida, impaciente de se manifestar, de rebentar o que a trava, sustida a custo a toda a hora para a decência do convívio, um equilíbrio difícil em dois pés precários, uma latrina ambulante, um saco de esterco. E simultaneamente, na visibilidade disso, a harmonia de uma face, a sua possível beleza e sobretudo o prodígio de uma palavra, uma ideia, um gesto, uma obra de arte. Construir o máximo de sublimidade sobre o mais baixo e vil e asqueroso. Um homem. Dá vontade de chorar. De alegria, de ternura, de compaixão. Dá vontade de enlouquecer."


Vergílio Ferreira in Pensar

sexta-feira, outubro 01, 2004


foto por Steve McCurry

uma letra



preciso de te dizer
que me perdi pelos templos
olhando as aves que voam sem direcção.

preciso de te dizer
que um rio limpo corre onde há o muro
porque um menino lê uma letra enorme no futuro.

mariagomes
out.2004

dúbios

I

eu sei. já fizemos o amor.
a tarde deitou-se sobre o corpo da cegueira.
vieram, depois, os olhos duplos do silêncio.
nada mais resta
que esta cadeira sonhada de nascentes dúbios.

II

hoje, responderam as estrelas;
uma criança, ausente, revelou uma palavra.
e a noite surgiu e caminhou para uma ideia.
declinou o verbo das coisas.
os fragmentos. a erosão. a cadeira.


III

eu sei. o amanhã está, incrivelmente,vivo.
vê como eu falo! sem sair
falo com o coração para fora. com o teu coração.
há poentes difíceis por dentro.
que as verdades inventam, a partir.


mariagomes
set.2004

quinta-feira, setembro 30, 2004

Yehudi Menuhin [1916- 1999]

Yehudi Menuhin (1916-1999)



"É a arte que pode estruturar a personalidade dos jovens cidadãos no sentido da abertura de espírito, do respeito pelo próximo, do desejo de paz. É a cultura, de facto, que permite a cada pessoa enriquecer-se com o passado para participar na criação do futuro. (...) a arte é uma antena preciosa para captar o futuro que não pode ser reservado só a alguns."

Yehudi Menuhin


a curva longa




a curva longa crava um sorriso ao luar.
na maresia equidistante na pele inquieta
veio a noite trazer a colina do verbo amar;

eu amo as estrelas apagadas
o som das brisas a cidade nua

das coisas apetecidas eu amo a mais antiga
entre auroras e trevas resignadas à loucura.

mariagomes
17set.2004

quarta-feira, setembro 29, 2004

Auto-Retrato de Natureza Morta






Auto-Retrato da Natureza Morta
Autor: Simão César Dórdio Gomes (1890 - 1976)
Século: XX Ano: 1924 Tipo: óleo sobre tela
dimensões: 150 x 90 cm Local: Colecção particular (Porto)


na: Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses







morremos


morremos num mar de gaivotas enganadas
pelo vento que apareceu agora.
escutámos cem águas
o rumor de horas inabitadas.
morremos em tempestades
morremos demasiado tarde e juntos
porque o sol sobrevivia
e o chão atravessava os mapas da poesia.

mariagomes
29set.2004


**

atravessámos as águas com o vento d'outrora
e mais as línguas de fogo que nos
saíam dos dedos.
a poesia é um trabalho dos deuses
e aos homens resta esperar pelo fogo
e pelo desejo de consumir o ventre da criação.

Jorge Vicente

**

uma outra morte um outro caminho do sol
abri-me à energia do teu corpo como um
texto orgânico


eis a poesia e o amor
árvore. Gritaste, por mim
parti


José Gil


** em Encontro de Escritas

terça-feira, setembro 28, 2004

os caminhos



o amanhã dirá do esplendor, os caminhos que pisamos.
a lembrança,
a terra inteira da palavra
que foi silenciosamente nossa.
loira, de trigo, verdadeira como uma sílaba,
como uma criança.


mariagomes
28set.2004

marguerite yourcenar







(...)“e os impérios, como os homens, já não têm tempo para se instruírem à custa das suas faltas. Onde quer que um tecelão remendar o seu pano, onde um calculador hábil corrigir os seus erros, onde o artista retocar a sua obra-prima ainda imperfeita ou apenas danificada, a natureza prefere repartir sem intermediário a argila e o caos, e esse esbanjamento é o que se chama a ordem das coisas.” (...)

“memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

segunda-feira, setembro 27, 2004

da noite




Trabalho de Renan Cepeda



da noite eu quero as areias sem rodeios
que levam sonhos
e lavram-nos como aves ou veleiros
da noite eu quero a luz dos desertos intermináveis
as queimadas o escuro
da noite eu quero as palavras a prumo
em fios de estrelas e lágrimas.


mariagomes
set.2004






"Mano Dnesiana" por Dorothea Lange

sexta-feira, setembro 24, 2004

a dizer o instante



olha as tuas mãos a escrever poemas
a dizer o instante
a consumir o fogo que se expande.

olha as tuas mãos a chorar nas minhas.

olha! são searas são vinhas que tangem a beleza
e a embebedam de sinais.

mariagomes
24set.2004

inadvertidamente
a chuva floriu!...
oiço um tear de palavras,
é o poema a cantar.

mariagomes
coimbra, 18 de maio de 2003

William Butler Yeats [1865-1939]


W. B. Yeats, Irlanda



" Um só verso pode exigir horas e horas de trabalho, mas se não parecer dom de um só instante todo o nosso tecer e destecer são inúteis"

William Butler Yeats

para ti. para mim.



e os teus passos encontrados numa acácia tinham a inocência
despida. a terra. o cheiro da chuva plantava um incêndio
de sombras. e as sombras ardiam. para ti. para mim.
bebíamos das conchas no espaço que as manhãs faziam.
(lembras-te?) existíamos num desejo. descalços. tínhamos
papoilas. pérgolas de adobe e ventos imersos em muitas palavras.

mariagomes
set.2004

contemplo o corpo



contemplo o corpo onde nascia. eu fui.
as minhas mãos foram meus olhos abertos
a uma luz tão branca e serena
entre formas densas. e eu vivia devagar
ao alcance das cigarras pela onda que nascia.
longe, a rosa, em cinzas,
simplesmente prometida ao mar. eu fui.

mariagomes
set.2004



quinta-feira, setembro 23, 2004

Eugénio de Andrade


(1923)



"(...)
a música que me sai dos dedos ama o silêncio, e a suprema ambição do poeta é integrá-lo no canto" (...)"



Eugénio de Andrade

in " rosto precário"


com sílabas de silêncio




poderia dizer um poema todos os dias
Ou dizer o dia todo num poema Mas estou ocupada
Estou ocupada com sílabas de silêncio
Com um céu claro sem rimas
Há em mim um mito maior que ruínas!
O teu coração A face da tua mão Ocupam-me
A palavra inteira que vê e viaja Ocupa-me
É um privilégio voltar a este lugar
Ao cheiro dos marinheiros Ao branco
Ao tanto sol Ao ar dos baloiços
Estou ocupada Tenho a memória na pele Bem funda
O sal a escaldar na noite Numa irmandade fecunda.


mariagomes
jul.2004





by Jerry Avenaim

quarta-feira, setembro 22, 2004

As palavras de Dylan Thomas




"Ao escrever sobre o que sentimos acabamos por vezes a sentir o que escrevemos porque o escrevemos. Explico-me. Às vezes, escrevem-se coisas porque vão umas com as outras, porque rimam significados ou simplesmente ficam bem. Porque as palavras procuram outras de uma certa maneira irrecusável. E depois já está. As palavras possuem esse poder de moldar o que a mão ao escrevê-las queria dizer. Escrever não é um acto de um sentido só, uma espécie de rua de sentido único entre o que temos dentro e o que aparece de fora, escrito. Este «de fora» que parece ser a escrita, se molda o que depois ao ler sentimos, é porque está ainda «de dentro». Mas às vezes o cansaço apodera-se de nós, e temos vontade de parar. Não sei se de escrever se de sentir, possivelmente de estar sempre a pensar nisso. Parar: vontade de fechar os olhos e ver."

Dylan Thomas


terça-feira, setembro 21, 2004


"Il volo”, Ennio Trimarchi

Rainer Maria Rilke [1875-1926]




"Só uma coisa é necessária: a solidão ... E o seu crescimento é doloroso como o das crianças e triste como a ante-primavera. Caminhar em si próprio e, durante horas, não encontrar ninguém, a isto é que é preciso chegar..."

[Rilke, in Cartas a um Poeta]



domingo, setembro 19, 2004

espero-te...




espero-te em cada poema
não é suficiente a solidão que me alimenta
que me prolonga
e me guarda tão pequena.
nenhum de nós tem manhãs de seda
nem a embriaguez do sol
que desce pelos dedos da candura
nenhum de nós interiormente se transfigura
espero-te em cada poema
no instante mais vasto num espírito cego
na casa de um astro

onde o tempo começa.

mariagomes
set.2004

os poemas*



os poemas não se escrevem;

gravam-se em cada pedra subtraída.
só assim, os poemas têm vida.


* a meu pai


mariagomes
set.2004

sábado, setembro 18, 2004


“a memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado, onde jazem sem honras, mortos que eles deixaram de amar. toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento”

in “memórias de Adriano”
marguerite yourcenar

Lionel Lofton "Reflections"

domingo, agosto 29, 2004

a romã de vidro

é breve a vida de uma romã de vidro, senão hibernar. meus amigos, tenho o meu contacto no perfil. pode ser que, um dia regresse, com o mesmo blog ou outro, mas mantendo sempre a minha identidade.

foi bom navegar, foi bom estar convosco.

a todos o meu abraço

mariagomes



romãs de vidro

um dia, ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
ag.2004

em silêncio



espera a palavra do ermo do luar.
em silêncio uma sílaba cegou.
na noite anónima
o vento duma estrela vinda

nos teus olhos descreve um arco
vive e suplica o movimento.

mariagomes
29ag.2004

sábado, agosto 28, 2004


Daniele Bianchi, “Gregor S.”
inchiostro di china e acquarello su carta
cm 33 x 24, 2002 da La metamorfosi di Franza Kafka

sexta-feira, agosto 27, 2004

o lugar da poesia*




*ao josé a. gonçalves e ao josé félix


não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia.
o que fazer do que antecede, do que digo ,
do que é excessivo, às vezes, como uma lâmpada alegre.
estou presa num poema.
estou prestes a explodir em espuma.
procuro um lugar. os olhos, a parede.
vou pendurar a minha poesia nos olhos da parede.
vai escorrer pela cal húmida.
vai desfazer as mãos redondas das lágrimas.
depois, quando não mais houver, sem o olhar,
sento-me num degrau qualquer de magnólias
e acaricio-as como se ali nascesse o mar.

mariagomes

ag.2004

quinta-feira, agosto 26, 2004

o primeiro reduto



Ainda que não venhas chega-me a palavra
O primeiro reduto do silêncio
Num solstício eu sonho com sombras
E ao sol
Oiço a claridade a nudez
E tenho a sensação de tudo haver
Em convulsão num corpo

uma vez.

mariagomes
jul.2004

na origem



amo-te com as palavras puras do teu corpo
Os meus lábios alimentam-se da ilusão lisa
No sussuro de um pássaro que vem da tua alma
Bate as asas na origem

mariagomes
jul.2004

Larry COLWELL "New York City Ballet- Balanchine Choreographer"

quarta-feira, agosto 25, 2004

escrever



escrever a noite
depois, escrever em ti
com o meu corpo, a noite que escrevi.

mariagomes
maio.2004

chegará janeiro


desperta-te a velocidade oculta
Pelo sono atravessa o espelho A luz prevista
Ao longe a lua E a formula escura de dizer
que a noite habita Reflecte Toma a forma-mãe
Nunca dirás as coisas necessárias
Chegará janeiro e a anuência mista de um país de espuma
Vês a cidade lassa e um vazio que te abraça Risca.

mariagomes
ag.2004

segunda-feira, agosto 23, 2004

a noite límpida

"
"The Rest" by Pablo Picasso



dorme;
pelo amor das cerejeiras chegou a noite límpida.
um ciciar como vinha o vento
que ardia, furto do lume do teu corpo.
pelo amor todo dos frutos, consome
a brancura inatingível das primaveras; dorme.

mariagomes
ag.2004

domingo, agosto 22, 2004

neste ofício





neste ofício neste beijo de dedos solitários
a palavra acaricia a fundo
um chão capaz de erguer a luz do mundo
o poema a casa o pão

mariagomes
jul.2004

sábado, agosto 21, 2004

os peixes vivos


Mãe
Veio uma canção camponesa sugerir o sul
Veio devagar com o vapor dos pássaros
Sopra lenta e solidamente sobre as minhas mãos
Sabes Mãe Eu só sei falar de mãos
Marés e ilhas sem pescadores
Sustentam-me ventos e bússolas
onde dormem os berços das crianças todas
Sustenta-me o hábito de trazer o verde As areias
As fotografias Os fogos extintos Por fora
As águas cheias de peixes
Os peixes vivos no convés da memória.

mariagomes
jul.2004

by Dorothea Lange - "Migrant Mother", 1936

ao meio dia



vivem rosas ao meio dia.
sorriem com as mãos do silêncio,
sorriem com o coração declaradamente aberto
e clandestino; com o sangue dos espinhos
dentro de agosto, ao meio dia, vivem rosas.


mariagomes
ag.2004

sexta-feira, agosto 20, 2004


Creation Of Adam by Michelangelo Buonarroti

quarta-feira, agosto 18, 2004





alegrias brancas


segurei as folhas
nos sorrisos despidos de pétalas sonoras
segurei a boca nas mesmas palavras
e o corpo a continuar a qualquer hora
segurei alegrias brancas
nos olhos do tempo a morte difícil
a luz franca que vem e fica
segurei a cegueira em fita em arrepio
até ao sangue plano do poema a fio.

mariagomes
ag.2004





segunda-feira, agosto 16, 2004

desse tempo


um poente em cada porto,
e o mar que vem dizer a hora lírica das horas.
e o deserto, fingidamente, morto.
desse tempo, eu nascia.
sabe-me a sol, o grito,
o que dentro de mim varia a cada instante.

mariagomes
16.ag.2004

e as muralhas



onde os homens inventam os batuques
a madrugada é, num dialecto puro,
o pé das caminhadas audíveis dos poetas
onde a enseada é cega, são as cadências férteis
e as muralhas cismam no futuro.



mariagomes
jun.2004

" natureza ressuscitada"



Autor: Eduardo Luiz (1932 - 1988)
Século: XX Ano: 1972
Tipo: óleo sobre tela
Dimensões: 140 x 85 cm
Local: Colecção particular (Lisboa)

em : Galeria de Pintura de Teixeira Pinto (Abre-Latas), com hiperligação ao Blog Pintores Portugueses

domingo, agosto 15, 2004

acto de nascer


eu quero na primavera morrer,
prolongar a vida
sem ter um gélido chão que me acolha.

quero reciclar-me numa folha;
amadurecer como um doce fruto

na língua da serpente
que sente a tentação de amante sorte.

mariagomes

março,2000


o poema



o poema vem, por dentro, a percorrer
em sentido único uma inclinação contrária.
e eu sustento-o.

mariagomes
ag.2004

coisas de verdade




Ontem A lua mostrou-me os olhos
Eram redondos e viam coisas de verdade
Na voz de um verso
Ela chorava pela partida da boneca
e a despedida
Numa inocência cúmplice foi a claridade.

mariagomes
ag2004



JOYCE STOLAROFF

sábado, agosto 14, 2004

romãs de vidro


um dia ficaste triste como a noite.
e nunca mais a noite foi.
o tempo tem um rosto. e as manhãs
são romãs de vidro.

és, sobre o exílio, o muro que a língua eleva.
tanges uma lira;
cabe-te uma canção
uma canção de amanhecer imperecível.

mariagomes
agosto, 2004

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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