Dublin 1854- Paris 1900
Uma noite, chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade, tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse servir como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre criou uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento.
Oscar Wilde
"Poemas em Prosa"
trad. Possidónio Cachapa
Cavalo de Ferro Editores
Physalia physalis
não me perguntem o que vi Para isso Oboés cantam
o azul que anula as anémonas
Há um frio veloz
Eu celebrei aquele inverno turvo
onde os sentidos caíam em solidão erguida.
Não me perguntem o que vi É cega a sede dos crepúsculos
É cedo no céu da minha vida
Nele As minhas mãos sugam apenas as rugas límpidas.
mariagomes
7jan.2005
esta noite sonhei que comia, como antigamente,
em bolas, o pirão das lavadeiras...
lambuzava as mãos no molho da lata assente no fogareiro.
meu corpo de menina aquecia sentado numa pedra de luz
vinda do sol que secava peixe para a banda-sul das pescarias.
sonhei com esses dias, de gozar, na estrada estreita sem palmeiras,
ladeada por morros e mar. o mar que me batia!
(lembras-te, pai, do medo que eu tinha do mar?)
e sonhei também com os olhos abertos das cubatas
que sem pestanejar, me deixavam ver o escuro de pupilas.
de pupilas que não liam mas sabiam, e arregalavam-se aos
desenhos das nuvens e futuras trovoadas...
no meu sonho voltei a ser menina, comi o pirão das lavadeiras
e revi a insónia nos olhos das cubatas!
mariagomes
janeiro.2003
amo a lua imóvel
o circular de pássaros geométricos
quase a florir
nas tuas mãos cientes;
coisas que as manhãs não colhem.
mariagomes
jan.2005
Anne BRIGMAN
ouve. as árvores acendem a luz dos remos
no amor e no medo do mundo.
do mundo velho onde as únicas raízes nos despem os braços.
todos os recados traçam silêncios. inflamam-se aragens a fundo.
não temos mais do que estas margens para cerzir as cinzas volúveis.
não pedimos mais do que os breves espaços
que se abrem miraculosamente entre a alegria e as lágrimas.
mariagomes
4jan.2005
Krista Elrick
sei que as palavras têm plumas
Pesam-me os poemas que não escrevi
Os lençóis alvos A outra luz a ombros fechados
Sei que as palavras são aves no passado.
mariagomes
2jan.2005, 15 h.
esta água que me rasga a pele
mergulha a sombra a faca
sangra o nome de um rosto
sem morada
este tecer constante
abrange a forma de dizer
que a minha mãe revolta
é uma lágrima sagrada.
mariagomes
1.jan.2005
Patrick Demarchelier
que venham rosas descer pela chaminé
e outros sinais avancem em direcção ao sonho.
que o mar vagueie terno pela terra,
sem cadáveres,
pernoite nas palavras,
saliente em hélice o hálito do amor.
e uma lua cresça no teu corpo
na serenidade das coisas que te acordam
como uma flor
na verdade que outros sois inventam.
mariagomes
28.dez.2004
(foto de Eduardo Simões)
A poesia
é uma família
dispersa
de náufragos
bracejando
no tempo
e no espaço.
Augusto de Campos
in Verso Reverso Controverso, 1978.
Ed. Perspectiva.
g
" Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia De chorar, me vinham de outros olhos."
Dante Milano
quando eu nasci havia uma praia de fogo
e de palhaos olhos verdes da minha mãe vigiavam o mar
por uma lágrimasolitariamente os homens abriam o sol ardia a verdade
de um fulgor infinitoquando eu nasci existia um grito
igualmente as estrelas compunham a cor.
mariagomes
dez.2004
“(...) os poetas (...), esses briguentos seres desequilibrados, que falsamente se intitulam apóstolos, mas, em dupla, roem a carne do terceiro. Os poetas, que cantam a pureza, mas que passam ao largo até das proximidades de um banho. Os poetas que esmolam de todos, até dos mendigos, só uma pequena chamada, só um pouco de carinho, só esmolam uma estatuazinha na esquina, a esmola da imortalidade dos mortais, esses cabeças-de-vento, invejosos, pálidos masturbadores, que venderiam sua alma por uma rima, por uma indicação, que expõem no mercado seus segredos mais íntimos, que tiram vantagem até da morte de pais, mães, filhos, e mais tarde, anos passados, ‘numa noite de inspiração’, quebram suas tumbas, abrem seus caixões, e com a lanterna de gatunos da vaidade pesquisam ‘emoções’, como ladrões de tumbas procuram dentes de ouro e jóias, depois confessam e se arrependem, esses necrófilos, esses feirantes. Desculpem, mas eu os odeio.”
Dezsö Kosztolányi, poeta e romancista húngaro ( 1885-1936)
Giordano Rizzardi, Cristo, 2003
"Estamos a sentir a tua falta, pá...
Isto tinha mais piada se tu abrisses um bocadinho o jogo.
Se tornasses inquestionável a tua existência.
És um Deus, que diabo, o que perdias tu com isso?
Desta vez não virias como homem, assim como te conhecemos,
guedelhudo, magricelas, o corpo enrolado nuns trapinhos, meio
Jim Morrison, meio Mahatma Gandhi. E não levarias tanto tempo como 33
anos a fazer efeito.
Terias que ser outra coisa. Uma água de chuva, uma água que caísse
de um céu imaculadamente azul, directamente da fonte divina.
Uma água que emendasse o que está mal. Fertilizasse o que está seco.
Uma água impossível de conceber. Vês?
Não beliscaríamos a tua natureza metafísica. Serias um espírito áqueo
e santo. A diferença é que poderíamos guardar-te em reservatórios e
distribuir-te através da rede pública.
E, assim, te teríamos numa sopa,
numa piscina, num copo, num chichi, numa lágrima.
Existirias em nós; não serias, como agora, uma alegoria algures no
coração e apenas alcançável pela virtude da fé.
És muito difícil, meu. E a tua malta aqui no terceiro planeta é um bocado
passada dos carretos.
Se fosses água, era entre mim e ti. Podia beber-te, podias dessedentar-me.
A verdade é que estamos a sentir a tua falta, pá. Não desse corpo que
abandonas-te numa cruz e que hoje faz de ti uma vedeta universal.
É um corpo que já não habitas, que importância pode ter?
Lembra-nos que somos mortais, e isso não é bom. Angustia-nos.
Mas se voltares, desta vez, fica por cá, evidentemente para todos.
Escolhe uma forma de ser. Eu falei-te da água. Mas podes regressar
como fogo e existirás num cigarro aceso; como vento e impregnarás o ar que
respiramos; como terra e serás a fonte da nossa sobrevivência.
Qualquer coisa que possamos sentir a todo o momento e nos torne mais
sábios, mais tolerantes,mais gregários.
Depois, teremos tempo para discutir a questão do bacalhau,
do peru, e das rabanadas.
Mas por mim e já que se fala nisso, pode perfeitamente continuar na noite
de 24 para 25 de Dezembro..."
Fernando Marques
" O abandono. O vazio. A indiferença. Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma é tua para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio."
Vergílio Ferreira
in " Escrever"
viras-te para a vida
e os cipestres atrevem-se além do muro.
na aurora fria cintila ainda a noite
aquele compromisso claro
de celebrar a necessidade de ser criança.
mariagomes
nov.2004
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer da magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti.
E a flor que te estendo,mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
Daniel Faria
Do livro "Dos Líquidos"
In Anos 90 e Agora, Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2001
albano martins
(...)
No seu novo livro Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto, diz que «As palavras / só conhecem o limbo, a rigorosa / película da sede». As palavras são o rebordo ou o interior do ser?
São o rebordo, mas é o interior que elas buscam. A palavra é, em sentido etimológico, a parábola, termo de origem grega que, entre outras coisas, significa «semelhança», «comparação». Compara-se o que se conhece, o que se mostra ou «aparece» ao olhar. Visando embora a essência, é só a aparência (o rebordo) que as palavras cingem.
Quando na sua poesia, em mais de 50 anos de vida literária, fala, por exemplo, do «esplendor da carne», é em si um sentimento de totalidade?
É a afirmação, sem receios e tabus, da beleza do corpo, contra a moral hipócrita e repressiva que vê a nudez (ou a carne) como um pecado e a alma como uma entidade separada do corpo. Não há, porém, alma sem corpo, ou vice-versa. Eles são a demonstração da operação matemática estabelecida por Almada Negreiros em que 1+ 1 é igual a 1.
Nessa soma ontológica, nessa unidade, o poeta será um corpo inexplicável em que «São vivas todas as marés»? Estou a citar um poema seu...
Inexplicáveis são às vezes as marés, que tudo submergem ou subvertem, ao arrepio da vontade. Mas é melhor, então, aceitar o embalo da onda e naufragar, talvez, ou, como diz o meu amigo, pintor e poeta Cruzeiro Seixas, «morrer em pleno voo».
ALBANO MARTINS em entrevista a
MARIA AUGUSTA SILVA
Gloria Baker Feinstein, b.1954
gradeias lágrimas neste céu
sem luar são passíveis as janelas
procuras a maneira finita da neve que cai nas estrelas
em nenhuma viagem foste tão longe
ao pormenor do sol subentendes a distância
e no entanto o mar parecendo pouco é teu
será sempre um ventre aberto onde pairam
gaivotas precoces onde perto gravita o vento.
mariagomes
nov.2004
habito o sentido de uma linha secreta
um corpo
esta marca que trago
em grieg tenho a alma os lábios
os olhos indo
como se uma primavera me fechasse
como se houvessem flores espelhadas
e dos caminhos o sol saísse.
mariagomes
nov.2004
apaguem todos os meus poemas de noite numa insónia funda
deixem que o branco vingue
como o silêncio dos planaltos longos onde me demorei.
estive somente a sacudir manhãs que dominam a dor.
agora que os caminhos estreitam
partem imagens absurdas cores cheiros
e mais qualquer coisa que criei em frente aos espelhos.
mariagomes
21.nov.2004
OUTONAL
Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia
A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa
*Amélia Pais
outono - José Malhoa (1855 - 1933)