"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
segunda-feira, janeiro 31, 2005
O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos,
mas do branco que fica no papel .
PAUL CLAUDEL
Villeneuve-sur-Fère ( 1868) Paris (1955)
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1/31/2005 01:29:00 da tarde
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sexta-feira, janeiro 28, 2005
Jean-Nicholas Arthur Rimbaud
(1854-1891)
"Agora corrompo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me fazer vidente: você não está a perceber nada e eu também não lhe sei explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pela desordem de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. A culpa não é minha de maneira nenhuma. É errado dizer: Eu penso. Deve dizer-se: Eu sou pensado. Desculpe o jogo das palavras.
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e que se danem os inconscientes, que discutem sobre coisas que ignoram por completo!"
Arthur Rimbaud
correspondência, a Georges Izambard, Charleville, Maio de 1871 ( excerto)
in ABCedário do Surrealismo
edição de " O público"
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1/28/2005 07:15:00 da tarde
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quinta-feira, janeiro 27, 2005
TU de Jorge Luis Borges
Gloria Baker Feinstein
Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho
[que a noite passada sonhaste.
Esses homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou
[ as constelações, o homem que construiu a primeira pirâmide,
[ o homem que escreveu os hexagramas do Livro das
[ Mudanças, o forjador que gravou runas na espada de
[ Hengisto, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Léon, o
[ livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de
[ Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara
[ letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em
[ Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, nos barcos, na difícil solidão,
[ na alcova do hábito e do amor.
Um só homem olhou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar a frescura da água, o sabor da fruta
[ e da carne.
Falo do único, desse, do que está sempre sozinho.
Norman, Oklahoma
Jorge Luis Borges
"O ouro dos tigres"
obras completas, vol.II
editorial teorema
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1/27/2005 05:10:00 da tarde
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Gaylen Morgan
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1/27/2005 01:09:00 da tarde
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a súbita seara
urge dizer que, hoje, os mares negaram a grandeza da flauta azul
que eu inventei para ti.
houve, num incêndio anexo à palavra,
um poema impossível
de ternura loura, muito loura, a súbita seara da loucura.
mariagomes
27jan.2005
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1/27/2005 01:49:00 da manhã
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terça-feira, janeiro 25, 2005
Escrever é iniciar uma distância longa
Dizer que a solidão bate como sombra Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol
e haver centro.
mariagomes
25.jan.2005
Dizer que a solidão bate como sombra Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol
e haver centro.
mariagomes
25.jan.2005
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1/25/2005 02:37:00 da tarde
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...
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.
António Ramos Rosa
A (in)coerência do fogo
in : As marcas do deserto
Editorial Vega, Lda
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1/25/2005 11:43:00 da manhã
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segunda-feira, janeiro 24, 2005
um tempo aceso
digamos as coisas com o pensamento posto num sorriso inseparável
Convém-nos a imensa erupção oculta do sonho Há um tempo aceso
nas paredes sensíveis No abraço da torre Aquela mãe vem com
uma lucidez congénita de amoras Traz as mãos ainda em semente.
mariagomes
24jan.2005
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1/24/2005 06:50:00 da tarde
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sábado, janeiro 22, 2005
apenas flores veladas
não haverá um alvo nos teus olhos,
quando o silêncio cobrir cedros.
as tuas mãos, a salvo, serão a cicatriz do corpo.
nem o vento ouvirá palavras - os momentos que dissermos.
lentamente, apenas flores veladas, brancas,
tão brancas, como rosas baleadas por invernos.
mariagomes
jan.2005
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1/22/2005 01:28:00 da manhã
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quinta-feira, janeiro 20, 2005
Joni Sternbach
...
Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
...
José Gomes Ferreira
"panfleto contra a paisagem" VI
antologia poética
diabril editora
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1/20/2005 01:30:00 da tarde
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quarta-feira, janeiro 19, 2005
(no dia do 82º aniversário de Eugénio de Andrade)
importa que a noite desça, te envolva,
invente a voz, sobre esse som
solucem os ponteiros do tacto das papoilas
a esquecerem-se de nós.
mariagomes
19.jan.2005
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1/19/2005 06:32:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 18, 2005
o pão das estrelas
viste uma avezinha pousar no regaço
do céu que a levava para longe?
e os barcos tranquilos como estradas?
e as águas agitadas? e os lemes que ardiam à sorte?
viste a bússola do norte em mares em lírios
quando apareceram de negro as tulipas no instinto do tempo?
houve um movimento mínimo afecto à luz de uma vela
vestimo-nos de sal
das montanhas extraímos o pão das estrelas.
mariagomes
18.jan.2005
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1/18/2005 04:24:00 da tarde
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segunda-feira, janeiro 17, 2005
Adolfo Correia da Rocha
Miguel Torga N. 12.08.1907 F. 17.01.1995
"eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raizes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península"...
..../....
Livro de Horas
Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!
Miguel Torga
«O Outro Livro de Job».
Coimbra, Ed. Autor, 1936
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1/17/2005 06:25:00 da tarde
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sábado, janeiro 15, 2005
nas pombas de granito
descobri o tecido da cidade nas pombas de granito
Vi o grão iluminado de um voo
colher o musgo húmido da memória
Guardo o coração da melodia insepulta
em nevoeiro Em deus No que não creio.
mariagomes
15jan.2005
André Kertész
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1/15/2005 08:47:00 da tarde
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quinta-feira, janeiro 13, 2005
(...)
"Um verso bom não permite ser lido em voz baixa, ou em silêncio. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido: o verso exige ser pronunciado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto.
Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos Gregos que denominamos por Homero, que diz na Odisseia: " os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar". A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero menos belamente: " tout aboutit en un livre" ( " tudo vai dar a um livro") Aqui temos as duas diferenças; os Gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objecto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas a ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes." (...)
Jorge Luis Borges
in Sete Noites
obras completas volume III
editorial teorema
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1/13/2005 01:59:00 da tarde
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quarta-feira, janeiro 12, 2005
de lábios abertos
Com o sol das areias/ em cada folha,/
na coroa o sopro/ ainda húmido das estrelas.
eugénio de andrade
fui feliz como as palmeiras! tive alegria,
a cal, a chuva, o sono de uma pátria presente.
uma palavra, de lábios abertos,
ofereceu-me um poema:
pronunciei o verão de cada sílaba
em pedras cheias.
mariagomes
12.jan.2005
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1/12/2005 06:48:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 11, 2005
(...)
Quem desconfia, lendo um poema, que a vida sangra, incomoda,
que o mundo não passa do peso acumulado do que imaginamos ser?
Floriano Martins
em " o diabo da carga"
(Fortaleza, 1957) poeta, editor, ensaísta e tradutor
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1/11/2005 01:33:00 da tarde
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domingo, janeiro 09, 2005
por ouvir
por ouvir ficaram os plátanos
aquele movimento de música nas árvores
depois tempestades d' oiro
- os risos estendidos na areia branca -
e os teus braços que cediam inexplicáveis e graves.
mariagomes
8jan.2005
..../....
por ouvir ficaram vozes abertas,
aquela alegria de crianças soltas,
antes da onda aterradora
- os corpos estendidos aos pedaços na areia suja -
trouxeram o ruído estridente de um silencio planetário
que transcende a lágrima sincera ou a hipócrita esmola...
José Dias Egipto
10jan.2005
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1/09/2005 07:22:00 da tarde
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sexta-feira, janeiro 07, 2005
O Artista
Dublin 1854- Paris 1900
Uma noite, chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade, tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse servir como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre criou uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento.
Oscar Wilde
"Poemas em Prosa"
trad. Possidónio Cachapa
Cavalo de Ferro Editores
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1/07/2005 06:05:00 da tarde
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não me perguntem
Physalia physalis
não me perguntem o que vi Para isso Oboés cantam
o azul que anula as anémonas
Há um frio veloz
Eu celebrei aquele inverno turvo
onde os sentidos caíam em solidão erguida.
Não me perguntem o que vi É cega a sede dos crepúsculos
É cedo no céu da minha vida
Nele As minhas mãos sugam apenas as rugas límpidas.
mariagomes
7jan.2005
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1/07/2005 02:03:00 da tarde
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