quinta-feira, fevereiro 03, 2005

A la puta que llevó mis poemas


Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)




Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡POR DIOS!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!

¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero?
Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos
[y enfermos en el rincón.
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50,
pero no mis poemas.

No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros.
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía.

Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)



quarta-feira, fevereiro 02, 2005

oração



oh mãe das alturas!
carrega a dor indómita dos homens
numa face de silêncio num poema sem face para além
percorre as ruas o sal que sai da vida
e se retrai
onde se chora sem ninguém.
oh mãe benevolente!
oh mãe do ventre que vives da memória
ata as tuas mãos às nossas tranças
às horas mansas às fogueiras
que explodem como preces derradeiras!

mariagomes
2fev.2005

photo by Steve McCurry




"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simutâneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos priveligiados- a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formusura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos o sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais - a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint- Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis- elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta não diminui nem se extingue.O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia, pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus."

Eugénio de Andrade
em louvor das crianças,
in " rosto precário"

Anna Akhmatova




Último Brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934



Последний тост


Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,

За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,-
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что бог не спас.

1934



Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.


segunda-feira, janeiro 31, 2005

vegetação intima



vive na vegetação intima como sois que ninguém vê.
reserva-te ao sono verdadeiro.
sê o voo que vem, em bando, trazer as aves, primeiro.

e o mar a seguir o mar na palma das planícies,
o núcleo ingénuo da noite com girassóis altos e tristes.

mariagomes
31jan.2005

quando a noite vem




meu amor, tenho sentido frio em janeiro.
a neve é nítida quando a noite vem trazer
a morte rápida da luz. aquela luz que não chega
ao princípio dos olhos ou ao fim de um caminho.
numa encosta onde as palavras se põem verdes
incendeiam-se as mãos que são poucas.
todas as mãos são poucas para dizê-las.
e como custa escrever, as mãos.
às vezes, é gélida a glândula da escrita.
e eu tenho uma vontade infinita de falar em silêncio.

mariagomes
21.jan.2004


O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos,
mas do branco que fica no papel .

PAUL CLAUDEL
Villeneuve-sur-Fère ( 1868) Paris (1955)

sexta-feira, janeiro 28, 2005


Jean-Nicholas Arthur Rimbaud
(1854-1891)



"Agora corrompo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me fazer vidente: você não está a perceber nada e eu também não lhe sei explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pela desordem de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. A culpa não é minha de maneira nenhuma. É errado dizer: Eu penso. Deve dizer-se: Eu sou pensado. Desculpe o jogo das palavras.
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e que se danem os inconscientes, que discutem sobre coisas que ignoram por completo!"

Arthur Rimbaud

correspondência, a Georges Izambard, Charleville, Maio de 1871 ( excerto)
in ABCedário do Surrealismo
edição de " O público"



quinta-feira, janeiro 27, 2005

TU de Jorge Luis Borges


Gloria Baker Feinstein




Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho

[que a noite passada sonhaste.
Esses homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou
[ as constelações, o homem que construiu a primeira pirâmide,
[ o homem que escreveu os hexagramas do Livro das
[ Mudanças, o forjador que gravou runas na espada de
[ Hengisto, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Léon, o
[ livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de
[ Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara
[ letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em
[ Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, nos barcos, na difícil solidão,
[ na alcova do hábito e do amor.
Um só homem olhou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar a frescura da água, o sabor da fruta
[ e da carne.
Falo do único, desse, do que está sempre sozinho.

Norman, Oklahoma
Jorge Luis Borges

"O ouro dos tigres"
obras completas, vol.II
editorial teorema


Gaylen Morgan

a súbita seara



urge dizer que, hoje, os mares negaram a grandeza da flauta azul
que eu inventei para ti.
houve, num incêndio anexo à palavra,
um poema impossível

de ternura loura, muito loura, a súbita seara da loucura.

mariagomes
27jan.2005

terça-feira, janeiro 25, 2005

Escrever é iniciar uma distância longa
Dizer que a solidão bate como sombra
Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol 

e haver centro.

mariagomes
25.jan.2005



...
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.


António Ramos Rosa
A (in)coerência do fogo
in : As marcas do deserto
Editorial Vega, Lda

segunda-feira, janeiro 24, 2005

um tempo aceso




digamos as coisas com o pensamento posto num sorriso inseparável
Convém-nos a imensa erupção oculta do sonho Há um tempo aceso
nas paredes sensíveis No abraço da torre Aquela mãe vem com

uma lucidez congénita de amoras Traz as mãos ainda em semente.

mariagomes
24jan.2005

sábado, janeiro 22, 2005

apenas flores veladas




não haverá um alvo nos teus olhos,
quando o silêncio cobrir cedros.
as tuas mãos, a salvo, serão a cicatriz do corpo.
nem o vento ouvirá palavras - os momentos que dissermos.
lentamente, apenas flores veladas, brancas,
tão brancas, como rosas baleadas por invernos.

mariagomes
jan.2005


quinta-feira, janeiro 20, 2005


Joni Sternbach


...
Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
...


José Gomes Ferreira
"panfleto contra a paisagem" VI
antologia poética
diabril editora



quarta-feira, janeiro 19, 2005

(no dia do 82º aniversário de Eugénio de Andrade)




importa que a noite desça, te envolva,
invente a voz, sobre esse som
solucem os ponteiros do tacto das papoilas
a esquecerem-se de nós.

mariagomes
19.jan.2005

terça-feira, janeiro 18, 2005

o pão das estrelas




viste uma avezinha pousar no regaço
do céu que a levava para longe?

e os barcos tranquilos como estradas?
e as águas agitadas? e os lemes que ardiam à sorte?

viste a bússola do norte em mares em lírios
quando apareceram de negro as tulipas no instinto do tempo?


houve um movimento mínimo afecto à luz de uma vela
vestimo-nos de sal
das montanhas extraímos o pão das estrelas.

mariagomes
18.jan.2005

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Adolfo Correia da Rocha


Miguel Torga N. 12.08.1907 F. 17.01.1995



"eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raizes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península"...


..../....


Livro de Horas


Aqui, diante de mim,

eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


Miguel Torga

«O Outro Livro de Job».
Coimbra, Ed. Autor, 1936



sábado, janeiro 15, 2005

nas pombas de granito




descobri o tecido da cidade nas pombas de granito
Vi o grão iluminado de um voo
colher o musgo húmido da memória
Guardo o coração da melodia insepulta
em nevoeiro Em deus No que não creio.

mariagomes
15jan.2005




André Kertész

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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