quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Paz poeta e pombas


1929, 2 de Agosto / 1987, 23 Fevereiro




A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa


José Afonso

Raúl David ( 1918/ 2005)



Espero


(origem Ovimbundu)

Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.

O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...

De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.

(Cantares do nosso povo)

Raúl David

**

"O escritor Raúl David morreu no princípio da noite de domingo, na cidade do Lobito, província de Benguela, aos 87 anos. Natural da Ganda, província de Benguela, Raúl David, autor do livro "Colonizado e Colonizadores", faleceu depois de permanecer internado na clínica do Porto do Lobito por mais de 15 dias. Raúl David nasceu em 1918 na cidade da Ganda, província de Benguela. Fez os estudos primários na cidade natal onde passou a infância. Frequentou o seminário católico de Ngalangui. Iniciou a sua actividade literária aos 45 anos de idade. Mas estreia-se aos 57 anos, já no alvorecer da independência. Publicou Colonos e Colonizadores (1974), Escamoteados na Lei (1987), Cantares do nosso Povo, versões escritas de cantos e poemas em língua Umbundu(1987) Narrativas ao Acaso (1988), Ekaluko lya kwafeka (1988) Crónicas de Ontem para ouvir e contar (1989), Da Justiça Tradicional nos Umbundos (ensaio) (1997). A leitura de toda a sua obra permite detectar a existência de um fio condutor que aponta para a predominância da narrativa-testemunho, apesar das incursões que realizou nos domínios da poesia oral em versões escritas e da ensaística. Mesmo assim está subjacente uma intenção de transmitir um conhecimento que, tendo-lhe chegado pela via oral, ele preferiu reduzi-lo a escrito. Por todas estas razões, Raúl David fez-se ao longos desses anos um cultor da memória, o que pode ser comprovado pela sua capacidade de improvisar a narração de experiências e factos ocorridos há mais de cinquenta anos. O que qualifica o seu discurso narrativo no contexto do que é a contribuição para a história social da região de Benguela. A sua proficiência na língua umbundu associada à frescura com que trabalhava quando contava as suas histórias, constituem dois elementos entre tantos daquilo que permite distingui-lo de outros escritores angolanos que usam o português. Nele se reconhece a coexistência actual das línguas nacionais e da língua portuguesa. "
Fonte Angop


***

Fiquei esmagada com a notícia da morte do mais-velho Raúl David. Vejo-o palminhar as ruas da cidade meia despida já quase sem esfalto.
O ano passado chovia dentro da casa do escritor. Era o delegado da cultura, na Província de Benguela.
Guardo um cartão de visita que me enviou quando pedi para falar com ele. Nessa altura foi homenageado pela UEA na passagem do seu 87º aniversário, em Luanda, e o nosso encontro ficou adiado...

Espera, numa outra dimensão teremos que falar, kota David!

paz à tua alma.

mariagomes

terça-feira, fevereiro 22, 2005

entre palavras


"Tormenta" téc: mista - 100x80 - ano 2000 Zamboni



encontras-me no silêncio das esquinas
entre palavras que nos escrevem
encontras-me nas flechas que se atravessam
nos açoites mínimos nos gestos do destino
estarei na primavera com um cravo lúcido na boca
a gritar o nome da praia nómada em que me perdi
serei a flor violenta ausente o vento o sangue
serei a espuma que por ti rebenta
e se mais não for diz ao mundo que ninguém ouve
que o que se sente é escuro sobre a noite
há sempre a palavra pronta dentro do punho.

mariagomes






Edward Eastlin Cummings
( 1894-1962)



"Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco - alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus "poemas" competem.
Eles também competem uns com os outros, com elefantes e com El Greco."


e. e. cummings

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

prece válida


Tenho na prece válida os olhos cegos
das mãos A dor O sangue mil de vil palavras

Deus, ó deus, eu por ti chamo!, agora vem
dizer: pode um pobre mortal sentir a alma
da Poesia-Mãe Senhora sublime A magia?

mariagomes

domingo, fevereiro 20, 2005

o amor simples



vou escrever um nome antiquíssimo na lua convergente
na loucura fugaz em que tropeço.
deve ser o nome de deus que vem de dentro.
o amor simples que teço a equação de um cardo
que me abraça
pela areia lisa. um nome sem camisa.
que sangra extenso no que não acredito.
é mais do que o teu rosto. ou de que o meu próprio grito.

mariagomes
20fev.2005

sábado, fevereiro 19, 2005

... para um dia de reflexão...





"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
"


na melodia




a chuva tem a cor dos pássaros
as mãos nuas correndo a noção da noite

como qualquer coisa cardíaca
cai

se aqui estivesses
se a tua voz fosse cal da minha asa
haveria um verso
a casa
na melodia da ruína.

mariagomes
fev.2005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

a certeza


tenho na pedra o condão
esta fúria viva onde tudo é água
tudo me cativa

falta-me a palavra
e o perdão
a certeza de dizer futuro
harpa
flor furtiva.


mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

o mundo, Sofia




( a minha neta)


é teu o mundo, Sofia.
são teus o sol, a lua e o vento.
é tua a concha da canção do entendimento,
na fogueira, que fixa os olhos dos bichos, acesos,
na possibilidade da fábula nascida de palavra verdadeira.
é tua a planície, é teu o monte, é tua a flor que sorri à pedra,
são teus os pássaros voados no azul que medra à passagem única
da música que se vê inteira. e será tudo, intimamente teu, Sofia,

[quando os olhos
da noite, repletos, projectarem sonhos de água no espelho do teu nome,

[ em sabedoria.

mariagomes
21 de junho 2003

"a arvore da vida indígena" Siegfried Kreutzberg




"Silêncio é o Barulho baixinho!..."
Sara Peixoto, 3 anos


"Um livro tem palavras que fazem sonhos."
Joana Cruz, 3 anos

"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos

"Este gelado até inverna as mãos."
Gonçalo Gonçalves, 4 anos

"Estou com tosse. Engoli frio um dia."
Inês Fernandes, 4 anos

"Eu faço magia quando abraço o meu pai.
Cláudio Almeida, 4 anos

"Quando o ar cheira bem é porque os autronautas no espaço estão a comer rebuçados."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O céu à noite é um lençol com estrelas."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O Amor é o dobro."
João Cassola, 5 anos

"Os namorados são amigos de casamento"
Areana Semedo, 6 anos




Maria Rosa Colaço




Escrever é tentar perceber o desalinho das coisas
....

P- A Lídia Jorge dizia que a "Rosa Colaço procura atingir a alma do mundo. Fá-lo de um modo lírico". Eu diria que também o faz através das crianças...

R: As crianças entendem muito bem a linguagem poética. Os adultos é que duvidam dessa capacidade.
....

Maria Rosa Colaço
arquivo de " a página da educação" ( nº 142, Fev.2005)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

ainda me lembro




ainda me lembro de sentir nos pés descalços, passeios de terra batida sombreada por acácias. não importa precisar o tempo, importa realçar que as acácias de benguela cobriam de vermelho o chão para eu brincar... as mangueiras emprestavam ao céu, a folhagem.
no bairro, havia um quarteirão de primos, tios, avós e amigos e lanches de chá servido num bule e pão com doce ou queijo de casca vermelha. ainda a amendoeira junto ao lago dos patos, os vasos para pintar, baloiços cobertos de colchas no palco dos meus teatros. cães, perús, galinheiros e uma mesa tosca debaixo de uma árvore para a avó zé migar as couves da criação.
o quarteirão transbordava de vida e pertencia-me tanto! cada esquina, rapidamente, transformava-se numa fértil passagem para a imaginação...em brincadeiras, pedalava numa bicicleta a encurtar distancias graúdas ou lançava-me em correrias a adivinhar trambolhões e choros. eu gostava tanto de chorar!
partia o coconote depois de chupado o dendém maduro e por todos dividia os tamarindos. as mangas eram mais doces que os doces de ginguba. as bananas tinham sardas. comprava tudo com angolares, moedas que a avó zé depositava na minha mão fazendo milagres de carinho.
ainda oiço o som dos batuques que ensaiavam perto das cubatas, a dança dos tchinganges enfiados em fatos de rede e saias de sisal, no bairro do casseque, lá para as bandas das pescarias. em espaços vazios, os mascarados, faziam estalar chicotes delgados que me amedrontavam atrás dos vidros hermeticamente fechados do carro. então, pedia ao meu pai, no prazer de um choro, para irmos embora.
nas noites mornas, trincava rajás cobertos de chocolate que se faziam numa casa de adobe, na rua da flores. espreitava as tartarugas no hotel mombaka, e com palhinhas bebia puros sumos de ananás transportados por empregados enfarpelados de branco que atravessavam a rua estreita. bem no alto, as palmeiras, numa simbiose, acenavam , em meigos consentimentos, com bandeiras esfiapadas.
eu girava em torno de um gigante vulto que possuía braços morenos e um olhar que derramava poesia, meu pai. naqueles braços, na bóia do mar da minha infância, naveguei milhas de fantasia à superfície de verdades.
havia a praia morena... e o sombreiro que para mim se figurava num chapéu em jeito de cogumelo. só para além existia o outro lado do mundo. o mundo do mal. tudo o que me poderia afligir estava, de algum modo, ligado àquela forma de morro e de mar. as trovoadas e as chuvas torrenciais faziam a curva e abatiam-se sobre a cidade. quando o meu pai me deixou, foi para o sul, também fez a curva do mar.
havia ( ainda há em mim!) uma curva de medo nos degraus que subi pela vida de mãozinhas dadas.
hoje, no sombreiro, morro de um farol apagado, eu perco o meu olhar... e penso que um dia, quando morrer, irei diluir-me naquela curva do mar.


mariagomes
Benguela,10 out.1999

"Fiz [esta carta] mais longa apenas porque me faltou o tempo de a fazer mais breve."

BLAISE PASCAL

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

à mercê do fogo


é inevitável o figurino da palavra ao vento
para que saibas que o poeta vive à mercê do fogo
a poesia não é um logro na música da razão

pode ser o amor a incendiar uma flauta pura
no coração da fala haver um deus maior
e parecer tão pouco
o que te toca com dedos de sol num cerne louco.

mariagomes
11dez.2004

a inflacção de Joaquim Pessoa


Patrick Demarchelier



Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.


Joaquim Pessoa

"125 poemas- antologia poética"
Litexa - Editora, 1989

domingo, fevereiro 13, 2005

nos meus versos



nos meus versos tens o amor; o entendimento
que sobrevive a um holocausto de palavras.

e o pensamento do papel que não é meu.
e as rimas que também não foram minhas.
nos meus versos, pelo fogo do amor que fica, tu caminhas.

mariagomes
set.2004, (revisto em fev.2005)

o papel plausível



denunciei ao mundo a ondulação do mar. o papel plausível dos acasos.
os traços que me fizeram sonhar. e perdi. perdi a luz vasta das estrias.
marítima encosto-me à cidade. tenho o hábito de um barco. juntos

o rio e o rumor da minha voz são um só lírio a uma lua lívida de frio.

mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

a emoção ao criar


Augusto dos Anjos
(1884 - 1914)



Em entrevista concedida a Licínio Dias dos Santos em 1914, o grande poeta Augusto dos Anjos indagado sobre o que sentia de anormal quando estava criando seus versos, respondeu:
- "Uma série indescritível de fenômenos nervosos acompanhados, muitas vezes de uma vontade de chorar. "

(Extraído do EU E OUTRAS POESIAS Editora Bertrand, 2001)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

palavras iguais



porque eu não quero palavras iguais nascerá a metáfora do aceno.
a promessa ainda que a expressiva anulação do silêncio
nos fale, irá o estio ao teu coração ao hemisfério
onde viveu o vento em mais que movimento ou valsa.
haverá um brio uma aventura ou uma espécie de remessa falsa.

mariagomes
9.fev.2005

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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