quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Raúl David ( 1918/ 2005)



Espero


(origem Ovimbundu)

Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.

O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...

De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.

(Cantares do nosso povo)

Raúl David

**

"O escritor Raúl David morreu no princípio da noite de domingo, na cidade do Lobito, província de Benguela, aos 87 anos. Natural da Ganda, província de Benguela, Raúl David, autor do livro "Colonizado e Colonizadores", faleceu depois de permanecer internado na clínica do Porto do Lobito por mais de 15 dias. Raúl David nasceu em 1918 na cidade da Ganda, província de Benguela. Fez os estudos primários na cidade natal onde passou a infância. Frequentou o seminário católico de Ngalangui. Iniciou a sua actividade literária aos 45 anos de idade. Mas estreia-se aos 57 anos, já no alvorecer da independência. Publicou Colonos e Colonizadores (1974), Escamoteados na Lei (1987), Cantares do nosso Povo, versões escritas de cantos e poemas em língua Umbundu(1987) Narrativas ao Acaso (1988), Ekaluko lya kwafeka (1988) Crónicas de Ontem para ouvir e contar (1989), Da Justiça Tradicional nos Umbundos (ensaio) (1997). A leitura de toda a sua obra permite detectar a existência de um fio condutor que aponta para a predominância da narrativa-testemunho, apesar das incursões que realizou nos domínios da poesia oral em versões escritas e da ensaística. Mesmo assim está subjacente uma intenção de transmitir um conhecimento que, tendo-lhe chegado pela via oral, ele preferiu reduzi-lo a escrito. Por todas estas razões, Raúl David fez-se ao longos desses anos um cultor da memória, o que pode ser comprovado pela sua capacidade de improvisar a narração de experiências e factos ocorridos há mais de cinquenta anos. O que qualifica o seu discurso narrativo no contexto do que é a contribuição para a história social da região de Benguela. A sua proficiência na língua umbundu associada à frescura com que trabalhava quando contava as suas histórias, constituem dois elementos entre tantos daquilo que permite distingui-lo de outros escritores angolanos que usam o português. Nele se reconhece a coexistência actual das línguas nacionais e da língua portuguesa. "
Fonte Angop


***

Fiquei esmagada com a notícia da morte do mais-velho Raúl David. Vejo-o palminhar as ruas da cidade meia despida já quase sem esfalto.
O ano passado chovia dentro da casa do escritor. Era o delegado da cultura, na Província de Benguela.
Guardo um cartão de visita que me enviou quando pedi para falar com ele. Nessa altura foi homenageado pela UEA na passagem do seu 87º aniversário, em Luanda, e o nosso encontro ficou adiado...

Espera, numa outra dimensão teremos que falar, kota David!

paz à tua alma.

mariagomes

terça-feira, fevereiro 22, 2005

entre palavras


"Tormenta" téc: mista - 100x80 - ano 2000 Zamboni



encontras-me no silêncio das esquinas
entre palavras que nos escrevem
encontras-me nas flechas que se atravessam
nos açoites mínimos nos gestos do destino
estarei na primavera com um cravo lúcido na boca
a gritar o nome da praia nómada em que me perdi
serei a flor violenta ausente o vento o sangue
serei a espuma que por ti rebenta
e se mais não for diz ao mundo que ninguém ouve
que o que se sente é escuro sobre a noite
há sempre a palavra pronta dentro do punho.

mariagomes






Edward Eastlin Cummings
( 1894-1962)



"Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco - alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus "poemas" competem.
Eles também competem uns com os outros, com elefantes e com El Greco."


e. e. cummings

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

prece válida


Tenho na prece válida os olhos cegos
das mãos A dor O sangue mil de vil palavras

Deus, ó deus, eu por ti chamo!, agora vem
dizer: pode um pobre mortal sentir a alma
da Poesia-Mãe Senhora sublime A magia?

mariagomes

domingo, fevereiro 20, 2005

o amor simples



vou escrever um nome antiquíssimo na lua convergente
na loucura fugaz em que tropeço.
deve ser o nome de deus que vem de dentro.
o amor simples que teço a equação de um cardo
que me abraça
pela areia lisa. um nome sem camisa.
que sangra extenso no que não acredito.
é mais do que o teu rosto. ou de que o meu próprio grito.

mariagomes
20fev.2005

sábado, fevereiro 19, 2005

... para um dia de reflexão...





"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
"


na melodia




a chuva tem a cor dos pássaros
as mãos nuas correndo a noção da noite

como qualquer coisa cardíaca
cai

se aqui estivesses
se a tua voz fosse cal da minha asa
haveria um verso
a casa
na melodia da ruína.

mariagomes
fev.2005

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

a certeza


tenho na pedra o condão
esta fúria viva onde tudo é água
tudo me cativa

falta-me a palavra
e o perdão
a certeza de dizer futuro
harpa
flor furtiva.


mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

o mundo, Sofia




( a minha neta)


é teu o mundo, Sofia.
são teus o sol, a lua e o vento.
é tua a concha da canção do entendimento,
na fogueira, que fixa os olhos dos bichos, acesos,
na possibilidade da fábula nascida de palavra verdadeira.
é tua a planície, é teu o monte, é tua a flor que sorri à pedra,
são teus os pássaros voados no azul que medra à passagem única
da música que se vê inteira. e será tudo, intimamente teu, Sofia,

[quando os olhos
da noite, repletos, projectarem sonhos de água no espelho do teu nome,

[ em sabedoria.

mariagomes
21 de junho 2003

"a arvore da vida indígena" Siegfried Kreutzberg




"Silêncio é o Barulho baixinho!..."
Sara Peixoto, 3 anos


"Um livro tem palavras que fazem sonhos."
Joana Cruz, 3 anos

"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos

"Este gelado até inverna as mãos."
Gonçalo Gonçalves, 4 anos

"Estou com tosse. Engoli frio um dia."
Inês Fernandes, 4 anos

"Eu faço magia quando abraço o meu pai.
Cláudio Almeida, 4 anos

"Quando o ar cheira bem é porque os autronautas no espaço estão a comer rebuçados."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O céu à noite é um lençol com estrelas."
Gustavo Almeida, 5 anos

"O Amor é o dobro."
João Cassola, 5 anos

"Os namorados são amigos de casamento"
Areana Semedo, 6 anos




Maria Rosa Colaço




Escrever é tentar perceber o desalinho das coisas
....

P- A Lídia Jorge dizia que a "Rosa Colaço procura atingir a alma do mundo. Fá-lo de um modo lírico". Eu diria que também o faz através das crianças...

R: As crianças entendem muito bem a linguagem poética. Os adultos é que duvidam dessa capacidade.
....

Maria Rosa Colaço
arquivo de " a página da educação" ( nº 142, Fev.2005)

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

ainda me lembro




ainda me lembro de sentir nos pés descalços, passeios de terra batida sombreada por acácias. não importa precisar o tempo, importa realçar que as acácias de benguela cobriam de vermelho o chão para eu brincar... as mangueiras emprestavam ao céu, a folhagem.
no bairro, havia um quarteirão de primos, tios, avós e amigos e lanches de chá servido num bule e pão com doce ou queijo de casca vermelha. ainda a amendoeira junto ao lago dos patos, os vasos para pintar, baloiços cobertos de colchas no palco dos meus teatros. cães, perús, galinheiros e uma mesa tosca debaixo de uma árvore para a avó zé migar as couves da criação.
o quarteirão transbordava de vida e pertencia-me tanto! cada esquina, rapidamente, transformava-se numa fértil passagem para a imaginação...em brincadeiras, pedalava numa bicicleta a encurtar distancias graúdas ou lançava-me em correrias a adivinhar trambolhões e choros. eu gostava tanto de chorar!
partia o coconote depois de chupado o dendém maduro e por todos dividia os tamarindos. as mangas eram mais doces que os doces de ginguba. as bananas tinham sardas. comprava tudo com angolares, moedas que a avó zé depositava na minha mão fazendo milagres de carinho.
ainda oiço o som dos batuques que ensaiavam perto das cubatas, a dança dos tchinganges enfiados em fatos de rede e saias de sisal, no bairro do casseque, lá para as bandas das pescarias. em espaços vazios, os mascarados, faziam estalar chicotes delgados que me amedrontavam atrás dos vidros hermeticamente fechados do carro. então, pedia ao meu pai, no prazer de um choro, para irmos embora.
nas noites mornas, trincava rajás cobertos de chocolate que se faziam numa casa de adobe, na rua da flores. espreitava as tartarugas no hotel mombaka, e com palhinhas bebia puros sumos de ananás transportados por empregados enfarpelados de branco que atravessavam a rua estreita. bem no alto, as palmeiras, numa simbiose, acenavam , em meigos consentimentos, com bandeiras esfiapadas.
eu girava em torno de um gigante vulto que possuía braços morenos e um olhar que derramava poesia, meu pai. naqueles braços, na bóia do mar da minha infância, naveguei milhas de fantasia à superfície de verdades.
havia a praia morena... e o sombreiro que para mim se figurava num chapéu em jeito de cogumelo. só para além existia o outro lado do mundo. o mundo do mal. tudo o que me poderia afligir estava, de algum modo, ligado àquela forma de morro e de mar. as trovoadas e as chuvas torrenciais faziam a curva e abatiam-se sobre a cidade. quando o meu pai me deixou, foi para o sul, também fez a curva do mar.
havia ( ainda há em mim!) uma curva de medo nos degraus que subi pela vida de mãozinhas dadas.
hoje, no sombreiro, morro de um farol apagado, eu perco o meu olhar... e penso que um dia, quando morrer, irei diluir-me naquela curva do mar.


mariagomes
Benguela,10 out.1999

"Fiz [esta carta] mais longa apenas porque me faltou o tempo de a fazer mais breve."

BLAISE PASCAL

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

à mercê do fogo


é inevitável o figurino da palavra ao vento
para que saibas que o poeta vive à mercê do fogo
a poesia não é um logro na música da razão

pode ser o amor a incendiar uma flauta pura
no coração da fala haver um deus maior
e parecer tão pouco
o que te toca com dedos de sol num cerne louco.

mariagomes
11dez.2004

a inflacção de Joaquim Pessoa


Patrick Demarchelier



Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.


Joaquim Pessoa

"125 poemas- antologia poética"
Litexa - Editora, 1989

domingo, fevereiro 13, 2005

nos meus versos



nos meus versos tens o amor; o entendimento
que sobrevive a um holocausto de palavras.

e o pensamento do papel que não é meu.
e as rimas que também não foram minhas.
nos meus versos, pelo fogo do amor que fica, tu caminhas.

mariagomes
set.2004, (revisto em fev.2005)

o papel plausível



denunciei ao mundo a ondulação do mar. o papel plausível dos acasos.
os traços que me fizeram sonhar. e perdi. perdi a luz vasta das estrias.
marítima encosto-me à cidade. tenho o hábito de um barco. juntos

o rio e o rumor da minha voz são um só lírio a uma lua lívida de frio.

mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

a emoção ao criar


Augusto dos Anjos
(1884 - 1914)



Em entrevista concedida a Licínio Dias dos Santos em 1914, o grande poeta Augusto dos Anjos indagado sobre o que sentia de anormal quando estava criando seus versos, respondeu:
- "Uma série indescritível de fenômenos nervosos acompanhados, muitas vezes de uma vontade de chorar. "

(Extraído do EU E OUTRAS POESIAS Editora Bertrand, 2001)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

palavras iguais



porque eu não quero palavras iguais nascerá a metáfora do aceno.
a promessa ainda que a expressiva anulação do silêncio
nos fale, irá o estio ao teu coração ao hemisfério
onde viveu o vento em mais que movimento ou valsa.
haverá um brio uma aventura ou uma espécie de remessa falsa.

mariagomes
9.fev.2005

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Ternura de Vinicius de Moraes





Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar [ extático da aurora.


Vinicius de Moraes

antologia "Vinicius de Moraes

- Poesia completa e prosa",
Editora Nova Aguilar
- Rio de Janeiro, 1998, pág. 259

domingo, fevereiro 06, 2005

a neve caiu

ouve, a neve caiu vulgarmente.
É a branca aurora que se estende.
oh terra silenciosa,
traz-me a flor que chega a nascer, luminosa,
traz-me o fogo, o céu do inverno que vive,
sem as escuras nuvens a crivarem-se no lugar onde estive.

mariagomes
6fev.2005

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

foi a lua



foi a lua que fez a forma dos cavalos lícitos
deu o trigo a galope para matar a fome.
a lua não tinha nome.
tinha a luz dos desenhos imprevistos .

mariagomes
fev.2005

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

A la puta que llevó mis poemas


Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)




Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡POR DIOS!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!

¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero?
Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos
[y enfermos en el rincón.
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50,
pero no mis poemas.

No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros.
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía.

Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)



quarta-feira, fevereiro 02, 2005

oração



oh mãe das alturas!
carrega a dor indómita dos homens
numa face de silêncio num poema sem face para além
percorre as ruas o sal que sai da vida
e se retrai
onde se chora sem ninguém.
oh mãe benevolente!
oh mãe do ventre que vives da memória
ata as tuas mãos às nossas tranças
às horas mansas às fogueiras
que explodem como preces derradeiras!

mariagomes
2fev.2005

photo by Steve McCurry




"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simutâneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos priveligiados- a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formusura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos o sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais - a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint- Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis- elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta não diminui nem se extingue.O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia, pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus."

Eugénio de Andrade
em louvor das crianças,
in " rosto precário"

Anna Akhmatova




Último Brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934



Последний тост


Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,

За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,-
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что бог не спас.

1934



Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.


segunda-feira, janeiro 31, 2005

vegetação intima



vive na vegetação intima como sois que ninguém vê.
reserva-te ao sono verdadeiro.
sê o voo que vem, em bando, trazer as aves, primeiro.

e o mar a seguir o mar na palma das planícies,
o núcleo ingénuo da noite com girassóis altos e tristes.

mariagomes
31jan.2005

quando a noite vem




meu amor, tenho sentido frio em janeiro.
a neve é nítida quando a noite vem trazer
a morte rápida da luz. aquela luz que não chega
ao princípio dos olhos ou ao fim de um caminho.
numa encosta onde as palavras se põem verdes
incendeiam-se as mãos que são poucas.
todas as mãos são poucas para dizê-las.
e como custa escrever, as mãos.
às vezes, é gélida a glândula da escrita.
e eu tenho uma vontade infinita de falar em silêncio.

mariagomes
21.jan.2004


O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos,
mas do branco que fica no papel .

PAUL CLAUDEL
Villeneuve-sur-Fère ( 1868) Paris (1955)

sexta-feira, janeiro 28, 2005


Jean-Nicholas Arthur Rimbaud
(1854-1891)



"Agora corrompo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me fazer vidente: você não está a perceber nada e eu também não lhe sei explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pela desordem de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. A culpa não é minha de maneira nenhuma. É errado dizer: Eu penso. Deve dizer-se: Eu sou pensado. Desculpe o jogo das palavras.
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e que se danem os inconscientes, que discutem sobre coisas que ignoram por completo!"

Arthur Rimbaud

correspondência, a Georges Izambard, Charleville, Maio de 1871 ( excerto)
in ABCedário do Surrealismo
edição de " O público"



quinta-feira, janeiro 27, 2005

TU de Jorge Luis Borges


Gloria Baker Feinstein




Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho

[que a noite passada sonhaste.
Esses homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou
[ as constelações, o homem que construiu a primeira pirâmide,
[ o homem que escreveu os hexagramas do Livro das
[ Mudanças, o forjador que gravou runas na espada de
[ Hengisto, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Léon, o
[ livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de
[ Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara
[ letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em
[ Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, nos barcos, na difícil solidão,
[ na alcova do hábito e do amor.
Um só homem olhou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar a frescura da água, o sabor da fruta
[ e da carne.
Falo do único, desse, do que está sempre sozinho.

Norman, Oklahoma
Jorge Luis Borges

"O ouro dos tigres"
obras completas, vol.II
editorial teorema


Gaylen Morgan

a súbita seara



urge dizer que, hoje, os mares negaram a grandeza da flauta azul
que eu inventei para ti.
houve, num incêndio anexo à palavra,
um poema impossível

de ternura loura, muito loura, a súbita seara da loucura.

mariagomes
27jan.2005

terça-feira, janeiro 25, 2005

Escrever é iniciar uma distância longa
Dizer que a solidão bate como sombra
Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol 

e haver centro.

mariagomes
25.jan.2005



...
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.


António Ramos Rosa
A (in)coerência do fogo
in : As marcas do deserto
Editorial Vega, Lda

segunda-feira, janeiro 24, 2005

um tempo aceso




digamos as coisas com o pensamento posto num sorriso inseparável
Convém-nos a imensa erupção oculta do sonho Há um tempo aceso
nas paredes sensíveis No abraço da torre Aquela mãe vem com

uma lucidez congénita de amoras Traz as mãos ainda em semente.

mariagomes
24jan.2005

sábado, janeiro 22, 2005

apenas flores veladas




não haverá um alvo nos teus olhos,
quando o silêncio cobrir cedros.
as tuas mãos, a salvo, serão a cicatriz do corpo.
nem o vento ouvirá palavras - os momentos que dissermos.
lentamente, apenas flores veladas, brancas,
tão brancas, como rosas baleadas por invernos.

mariagomes
jan.2005


quinta-feira, janeiro 20, 2005


Joni Sternbach


...
Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
...


José Gomes Ferreira
"panfleto contra a paisagem" VI
antologia poética
diabril editora



quarta-feira, janeiro 19, 2005

(no dia do 82º aniversário de Eugénio de Andrade)




importa que a noite desça, te envolva,
invente a voz, sobre esse som
solucem os ponteiros do tacto das papoilas
a esquecerem-se de nós.

mariagomes
19.jan.2005

terça-feira, janeiro 18, 2005

o pão das estrelas




viste uma avezinha pousar no regaço
do céu que a levava para longe?

e os barcos tranquilos como estradas?
e as águas agitadas? e os lemes que ardiam à sorte?

viste a bússola do norte em mares em lírios
quando apareceram de negro as tulipas no instinto do tempo?


houve um movimento mínimo afecto à luz de uma vela
vestimo-nos de sal
das montanhas extraímos o pão das estrelas.

mariagomes
18.jan.2005

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Adolfo Correia da Rocha


Miguel Torga N. 12.08.1907 F. 17.01.1995



"eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raizes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península"...


..../....


Livro de Horas


Aqui, diante de mim,

eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


Miguel Torga

«O Outro Livro de Job».
Coimbra, Ed. Autor, 1936



sábado, janeiro 15, 2005

nas pombas de granito




descobri o tecido da cidade nas pombas de granito
Vi o grão iluminado de um voo
colher o musgo húmido da memória
Guardo o coração da melodia insepulta
em nevoeiro Em deus No que não creio.

mariagomes
15jan.2005




André Kertész

quinta-feira, janeiro 13, 2005




(...)
"Um verso bom não permite ser lido em voz baixa, ou em silêncio. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido: o verso exige ser pronunciado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto.
Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos Gregos que denominamos por Homero, que diz na Odisseia: " os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar". A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero menos belamente: " tout aboutit en un livre" ( " tudo vai dar a um livro") Aqui temos as duas diferenças; os Gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objecto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas a ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes." (...)

Jorge Luis Borges
in Sete Noites
obras completas volume III
editorial teorema

quarta-feira, janeiro 12, 2005

de lábios abertos



Com o sol das areias/ em cada folha,/
na coroa o sopro/ ainda húmido das estrelas.
eugénio de andrade



fui feliz como as palmeiras! tive alegria,
a cal, a chuva, o sono de uma pátria presente.
uma palavra, de lábios abertos,
ofereceu-me um poema:
pronunciei o verão de cada sílaba
em pedras cheias.


mariagomes
12.jan.2005

terça-feira, janeiro 11, 2005





(...)
Quem desconfia, lendo um poema, que a vida sangra, incomoda,
que o mundo não passa do peso acumulado do que imaginamos ser?


Floriano Martins

em " o diabo da carga"

(Fortaleza, 1957) poeta, editor, ensaísta e tradutor




domingo, janeiro 09, 2005

por ouvir



por ouvir ficaram os plátanos
aquele movimento de música nas árvores
depois tempestades d' oiro
- os risos estendidos na areia branca -
e os teus braços que cediam inexplicáveis e graves.

mariagomes

8jan.2005


..../....


por ouvir ficaram vozes abertas,
aquela alegria de crianças soltas,
antes da onda aterradora
- os corpos estendidos aos pedaços na areia suja -
trouxeram o ruído estridente de um silencio planetário
que transcende a lágrima sincera ou a hipócrita esmola...

José Dias Egipto

10jan.2005




sexta-feira, janeiro 07, 2005

O Artista


Dublin 1854- Paris 1900



Uma noite, chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade, tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse servir como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre criou uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento.


Oscar Wilde
"Poemas em Prosa"
trad. Possidónio Cachapa
Cavalo de Ferro Editores

não me perguntem


Physalia physalis



não me perguntem o que vi Para isso Oboés cantam
o azul que anula as anémonas
Há um frio veloz
Eu celebrei aquele inverno turvo
onde os sentidos caíam em solidão erguida.

Não me perguntem o que vi É cega a sede dos crepúsculos
É cedo no céu da minha vida
Nele As minhas mãos sugam apenas as rugas límpidas.

mariagomes
7jan.2005

quinta-feira, janeiro 06, 2005

o pirão das lavadeiras





esta noite sonhei que comia, como antigamente,
em bolas, o pirão das lavadeiras...
lambuzava as mãos no molho da lata assente no fogareiro.
meu corpo de menina aquecia sentado numa pedra de luz
vinda do sol que secava peixe para a banda-sul das pescarias.

sonhei com esses dias, de gozar, na estrada estreita sem palmeiras,
ladeada por morros e mar. o mar que me batia!
(lembras-te, pai, do medo que eu tinha do mar?)

e sonhei também com os olhos abertos das cubatas
que sem pestanejar, me deixavam ver o escuro de pupilas.
de pupilas que não liam mas sabiam, e arregalavam-se aos
desenhos das nuvens e futuras trovoadas...

no meu sonho voltei a ser menina, comi o pirão das lavadeiras
e revi a insónia nos olhos das cubatas!

mariagomes
janeiro.2003

quarta-feira, janeiro 05, 2005

declaração


amo a lua imóvel
o circular de pássaros geométricos
quase a florir
nas tuas mãos cientes;
coisas que as manhãs não colhem.

mariagomes
jan.2005

terça-feira, janeiro 04, 2005

no amor e no medo


Anne BRIGMAN



ouve. as árvores acendem a luz dos remos
no amor e no medo do mundo.
do mundo velho onde as únicas raízes nos despem os braços.
todos os recados traçam silêncios. inflamam-se aragens a fundo.
não temos mais do que estas margens para cerzir as cinzas volúveis.
não pedimos mais do que os breves espaços
que se abrem miraculosamente entre a alegria e as lágrimas.

mariagomes
4jan.2005

domingo, janeiro 02, 2005

as palavras


Krista Elrick




sei que as palavras têm plumas
Pesam-me os poemas que não escrevi
Os lençóis alvos A outra luz a ombros fechados
Sei que as palavras são aves no passado.

mariagomes
2jan.2005, 15 h.

sábado, janeiro 01, 2005

sem morada



esta água que me rasga a pele
mergulha a sombra a faca
sangra o nome de um rosto
sem morada
este tecer constante
abrange a forma de dizer
que a minha mãe revolta
é uma lágrima sagrada.

mariagomes
1.jan.2005



Patrick Demarchelier



terça-feira, dezembro 28, 2004

que venham rosas




que venham rosas descer pela chaminé
e outros sinais avancem em direcção ao sonho.
que o mar vagueie terno pela terra,
sem cadáveres,
pernoite nas palavras,
saliente em hélice o hálito do amor.
e uma lua cresça no teu corpo
na serenidade das coisas que te acordam
como uma flor
na verdade que outros sois inventam.

mariagomes
28.dez.2004

segunda-feira, dezembro 27, 2004

o que diz o poeta...


(foto de Eduardo Simões)



A poesia
é uma família
dispersa
de náufragos
bracejando
no tempo
e no espaço.

Augusto de Campos

in Verso Reverso Controverso, 1978.
Ed. Perspectiva.


sábado, dezembro 25, 2004

quando eu nasci

g


" Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
De chorar, me vinham de outros olhos."
Dante Milano


quando eu nasci havia uma praia de fogo
e de palha

os olhos verdes da minha mãe vigiavam o mar
por uma lágrima

solitariamente os homens abriam o sol ardia a verdade
de um fulgor infinito

quando eu nasci existia um grito
igualmente as estrelas compunham a cor.

mariagomes
dez.2004


“(...) os poetas (...), esses briguentos seres desequilibrados, que falsamente se intitulam apóstolos, mas, em dupla, roem a carne do terceiro. Os poetas, que cantam a pureza, mas que passam ao largo até das proximidades de um banho. Os poetas que esmolam de todos, até dos mendigos, só uma pequena chamada, só um pouco de carinho, só esmolam uma estatuazinha na esquina, a esmola da imortalidade dos mortais, esses cabeças-de-vento, invejosos, pálidos masturbadores, que venderiam sua alma por uma rima, por uma indicação, que expõem no mercado seus segredos mais íntimos, que tiram vantagem até da morte de pais, mães, filhos, e mais tarde, anos passados, ‘numa noite de inspiração’, quebram suas tumbas, abrem seus caixões, e com a lanterna de gatunos da vaidade pesquisam ‘emoções’, como ladrões de tumbas procuram dentes de ouro e jóias, depois confessam e se arrependem, esses necrófilos, esses feirantes. Desculpem, mas eu os odeio.”

Dezsö Kosztolányi, poeta e romancista húngaro ( 1885-1936)

sexta-feira, dezembro 24, 2004


Giordano Rizzardi, Cristo, 2003




"Estamos a sentir a tua falta, pá...
Isto tinha mais piada se tu abrisses um bocadinho o jogo.
Se tornasses inquestionável a tua existência.
És um Deus, que diabo, o que perdias tu com isso?
Desta vez não virias como homem, assim como te conhecemos,
guedelhudo, magricelas, o corpo enrolado nuns trapinhos, meio
Jim Morrison, meio Mahatma Gandhi. E não levarias tanto tempo como 33
anos a fazer efeito.
Terias que ser outra coisa. Uma água de chuva, uma água que caísse
de um céu imaculadamente azul, directamente da fonte divina.
Uma água que emendasse o que está mal. Fertilizasse o que está seco.
Uma água impossível de conceber. Vês?
Não beliscaríamos a tua natureza metafísica. Serias um espírito áqueo
e santo. A diferença é que poderíamos guardar-te em reservatórios e
distribuir-te através da rede pública.
E, assim, te teríamos numa sopa,
numa piscina, num copo, num chichi, numa lágrima.
Existirias em nós; não serias, como agora, uma alegoria algures no
coração e apenas alcançável pela virtude da fé.
És muito difícil, meu. E a tua malta aqui no terceiro planeta é um bocado
passada dos carretos.
Se fosses água, era entre mim e ti. Podia beber-te, podias dessedentar-me.
A verdade é que estamos a sentir a tua falta, pá. Não desse corpo que
abandonas-te numa cruz e que hoje faz de ti uma vedeta universal.
É um corpo que já não habitas, que importância pode ter?
Lembra-nos que somos mortais, e isso não é bom. Angustia-nos.
Mas se voltares, desta vez, fica por cá, evidentemente para todos.
Escolhe uma forma de ser. Eu falei-te da água. Mas podes regressar
como fogo e existirás num cigarro aceso; como vento e impregnarás o ar que
respiramos; como terra e serás a fonte da nossa sobrevivência.
Qualquer coisa que possamos sentir a todo o momento e nos torne mais
sábios, mais tolerantes,mais gregários.
Depois, teremos tempo para discutir a questão do bacalhau,
do peru, e das rabanadas.
Mas por mim e já que se fala nisso, pode perfeitamente continuar na noite
de 24 para 25 de Dezembro..."


Fernando Marques

domingo, dezembro 12, 2004



" O abandono. O vazio. A indiferença. Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma é tua para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio."

Vergílio Ferreira
in " Escrever"

segunda-feira, novembro 29, 2004

além do muro


viras-te para a vida
e os cipestres atrevem-se além do muro.
na aurora fria cintila ainda a noite
aquele compromisso claro
de celebrar a necessidade de ser criança.

mariagomes
nov.2004

domingo, novembro 28, 2004

Daniel Faria ( 1971- 1999)




Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer da magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti.
E a flor que te estendo,mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.


Daniel Faria


Do livro "Dos Líquidos"
In Anos 90 e Agora, Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2001

quinta-feira, novembro 25, 2004

o que diz o poeta...


albano martins




(...)
No seu novo livro Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto, diz que «As palavras / só conhecem o limbo, a rigorosa / película da sede». As palavras são o rebordo ou o interior do ser?


São o rebordo, mas é o interior que elas buscam. A palavra é, em sentido etimológico, a parábola, termo de origem grega que, entre outras coisas, significa «semelhança», «comparação». Compara-se o que se conhece, o que se mostra ou «aparece» ao olhar. Visando embora a essência, é só a aparência (o rebordo) que as palavras cingem.

Quando na sua poesia, em mais de 50 anos de vida literária, fala, por exemplo, do «esplendor da carne», é em si um sentimento de totalidade?

É a afirmação, sem receios e tabus, da beleza do corpo, contra a moral hipócrita e repressiva que vê a nudez (ou a carne) como um pecado e a alma como uma entidade separada do corpo. Não há, porém, alma sem corpo, ou vice-versa. Eles são a demonstração da operação matemática estabelecida por Almada Negreiros em que 1+ 1 é igual a 1.

Nessa soma ontológica, nessa unidade, o poeta será um corpo inexplicável em que «São vivas todas as marés»? Estou a citar um poema seu...

Inexplicáveis são às vezes as marés, que tudo submergem ou subvertem, ao arrepio da vontade. Mas é melhor, então, aceitar o embalo da onda e naufragar, talvez, ou, como diz o meu amigo, pintor e poeta Cruzeiro Seixas, «morrer em pleno voo».


ALBANO MARTINS em entrevista a
MARIA AUGUSTA SILVA

sem luar


Gloria Baker Feinstein, b.1954




gradeias lágrimas neste céu
sem luar são passíveis as janelas
procuras a maneira finita da neve que cai nas estrelas
em nenhuma viagem foste tão longe
ao pormenor do sol subentendes a distância
e no entanto o mar parecendo pouco é teu
será sempre um ventre aberto onde pairam
gaivotas precoces onde perto gravita o vento.

mariagomes
nov.2004

quarta-feira, novembro 24, 2004

em grieg



habito o sentido de uma linha secreta
um corpo
esta marca que trago
em grieg tenho a alma os lábios
os olhos indo
como se uma primavera me fechasse
como se houvessem flores espelhadas
e dos caminhos o sol saísse.

mariagomes
nov.2004

domingo, novembro 21, 2004

apaguem todos os meus poemas...




apaguem todos os meus poemas de noite numa insónia funda
deixem que o branco vingue
como o silêncio dos planaltos longos onde me demorei.
estive somente a sacudir manhãs que dominam a dor.
agora que os caminhos estreitam
partem imagens absurdas cores cheiros
e mais qualquer coisa que criei em frente aos espelhos.

mariagomes
21.nov.2004

sábado, novembro 20, 2004

Um poeta, um amigo *



OUTONAL



Cai uma folha no poente destes dias
O que era nítido torna-se difuso
Babel renasce em cinzas de um deserto próprio
E o vento busca em vão uma harmonia

A solidão é em mim um oásis às avessas
Lutando em vão contra a miragem certa





*Amélia Pais




outono - José Malhoa (1855 - 1933)


domingo, novembro 14, 2004

dentro do peito



a lua nascida nas tuas mãos de longe
um saibro na linha visível, o cansaço,
quase perfeito o escândalo do sol
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
o sândalo de labaredas que engolem a eito
túneis de lágrimas alheias
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
o coração, a denúncia sonâmbula de sorrisos,
ruídos de substâncias órfãs, sem idade
um homem feito que corrompe a claridade
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
a ânsia do verbo mal trajado, de um poema longo
o leito alado da neblina nua, o sal mendigo da rua,
guardo tudo, meu amor, dentro do peito.
guardo cidades, torres a tiro, madrugadas,
um frio, o brilho de rosas em ruína,
um defeito, vazios, tudo que haja, meu amor,
eu guardo dentro do peito.

mariagomes
nov.2004

sexta-feira, novembro 12, 2004

o sangue que me nutre




vejo a foz das palavras famintas
no descanso dos teus dedos.
sigo o curso das escamas ardentes neste outono.
a pétala do teu sonho dilui o vento
no areal interno da luta.
vem. sobram asas sobre o mar desabrigado.
vem anjo sedutor proferir a oração o fim
a lâmpada acesa do meu ser.
obriga um rio a correr. obriga o grito
o sangue que me nutre a dizer.

mariagomes
12.nov.2004

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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