"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
Momento de poesia*
Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão cansado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim
dou conselhos tão biblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.
*José de Almada Negreiros [1893- 1970]
"800 anos de poesia portuguesa"
edição círculo de leitores- 1973
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2/25/2005 05:54:00 da tarde
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Jean Paulhan
"Tudo já foi dito. Sem dúvida. Se as palavras não tivessem mudado de sentido; e o sentido, de palavras."
JEAN PAULHAN
França, (1884-1968)
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2/25/2005 01:13:00 da tarde
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quinta-feira, fevereiro 24, 2005
manhãs feridas
preciso de manhãs feridas de sol-posto
livres como mãos, leves, de poemas,
preciso do contrário de contrários,
preciso do precisar destes dilemas.
quero estar na pele em que se vive
vida, a lida, que sempre pressenti
moldar a luz de quadrantes vários
do impreciso amor que vem de ti.
preciso de tanto, amor,
de amor que não preciso.
mariagomes
junho.2003
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2/24/2005 08:00:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 23, 2005
A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ... parte 1ª

"O título deste ensaio é tão provável de sugerir coisas diferentes a diferentes pessoas que posso ser desculpado por primeiro explicar o que não quero dizer com ele antes de ir começando a explicar o que quero dizer de fato. Quando falamos da "função" de qualquer coisa, tendemos a estar pensando no que essa coisa deveria fazer em vez de no que realmente faz ou tem feito. Essa é uma distinção importante, pois não pretendo falar do que acho que a poesia deveria fazer. Pessoas que nos contam o que a poesia deveria fazer, especialmente se são poetas elas próprias, em geral têm em mente o tipo particular de poesia que gostariam de escrever. É sempre possível, é claro, que a poesia possa ter no futuro um diferente emprego do que tivera no passado; mas, mesmo que assim o seja, é válido decidir primeiro que função ela teve no passado, tanto num tempo como noutro, numa língua como noutra, e universalmente. Eu poderia facilmente escrever sobre o que faço eu mesmo com a poesia, ou o que gostaria de fazer, e então tentar persuadi-los de que isso é exatamente o que todos bons poetas tentaram fazer, ou deveriam ter feito, no passado , apenas não tiveram completo êxito, mas talvez isso não seja culpa deles. Porém, parece-me provável que, se a poesia e quero dizer toda grande poesia não tiver a função social no passado, não seja de se esperar que tenha alguma no futuro.
Quando digo toda grande poesia, tenciono evitar outro modo de que possa tratar do assunto. Alguém pode tomar os diversos tipos de poesia, um após outro, e discutir a função social de cada variedade sucessivamente, sem atingir a questão geral de qual é a função da poesia enquanto poesia. Quero distinguir entre funções gerais e particulares, para que saibamos do que não estamos falando. A poesia pode ter um propósito social deliberado e consciente. Em suas formas mais primitivas esse propósito é muitas vezes bastante claro. Há, por exemplo, runas e cantos antigos, alguns dos quais possuíam fins mágicos um tanto práticos : livrar de mau olhado, curar alguma doença ou aplacar algum demônio. A poesia é usada desde os primeiros tempos em rituais religiosos e, quando cantamos hinos, ainda estamos usando poesia para um propósito social particular. As formas primordiais de épicos e sagas podem ter transmitido o que se tinha por história, antes de sobreviverem apenas para entretenimento comunitário; e, antes do uso da linguagem escrita, uma forma regular de versos deve ter sido extremamente útil à memória ; e a memória dos primitivos bardos, contadores de estórias e estudiosos deve ter sido prodigiosa. Em sociedades mais avançadas, tais como as da antiga Grécia, também são conspícuas as reconhecidas funções sociais da poesia. O drama grego desenvolve-se a partir de ritos religiosos e persiste como uma cerimônia pública formal associada a tradicionais celebrações religiosas; a ode pindárica desenvolve-se em relação a uma ocasião social particular. Certamente, tais usos definidos da poesia deram a esta a estrutura que tornou possível o alcance da perfeição em seus tipos particulares.
Algumas dessas formas, como as do cântico religioso que mencionei, subsistem na poesia mais moderna. «A acepção do termo poesia didática sofreu algumas mudanças. Didático pode significar "transmitindo informação", pode significar "dando instrução moral" ou pode significar algo que compreenda ambos os sentidos. As Geórgicas de Virgílio, por exemplo, são poesia extremamente bela e contêm informações bastante sensatas sobre agricultura. Entretanto, pareceria impossível, no presente, escrever um livro atualizado sobre agricultura que também fosse ótima poesia: em primeiro lugar, o assunto mesmo tornou-se muito mais complicado e científico; em segundo lugar, ele pode ser exposto mais facilmente através da prosa. Também não devemos, como o fizeram os romanos, escrever em verso tratados astronómicos e cosmológicos. O poema cujo intuito ostensivo é o de transmitir informação foi suplantado pela prosa. A poesia didática gradualmente tornou-se limitada à poesia de exortação moral, ou à poesia que visa a persuadir o leitor do ponto de vista do poeta sobre algo. Inclui, portanto, grande parte do que se pode chamar de sátira, embora a sátira esteja imbricada coma poesia burlesca e a paródia, que têm primariamente a intenção de fazer rir. Alguns dos poemas de Dryden, no século XVII, são sátiras no sentido em que pretendem ridicularizar os objetos contra os quais são dirigidos, e também didáticos na intenção de persuadir o leitor de pontos de vista religiosos e políticos particulares; e, ao fazerem-no, também utilizam o método alegórico de disfarçar a realidade em ficção: The Hind and The Panther, que pretende persuadir o leitor de que a Igreja de Roma tinha a retidão moral a seu favor contra a Igreja Anglicana, é seu mais memorável poema deste tipo. No século XIX, um zelo por reformas sociais e políticas inspirou muito da poesia de Shelley."
(continua...)
Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London, Faber and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori
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2/23/2005 11:51:00 da tarde
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Paz poeta e pombas

1929, 2 de Agosto / 1987, 23 Fevereiro
A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa
José Afonso
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2/23/2005 08:48:00 da tarde
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Raúl David ( 1918/ 2005)
Espero
(origem Ovimbundu)
Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.
O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...
De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.
(Cantares do nosso povo)
Raúl David
**
"O escritor Raúl David morreu no princípio da noite de domingo, na cidade do Lobito, província de Benguela, aos 87 anos. Natural da Ganda, província de Benguela, Raúl David, autor do livro "Colonizado e Colonizadores", faleceu depois de permanecer internado na clínica do Porto do Lobito por mais de 15 dias. Raúl David nasceu em 1918 na cidade da Ganda, província de Benguela. Fez os estudos primários na cidade natal onde passou a infância. Frequentou o seminário católico de Ngalangui. Iniciou a sua actividade literária aos 45 anos de idade. Mas estreia-se aos 57 anos, já no alvorecer da independência. Publicou Colonos e Colonizadores (1974), Escamoteados na Lei (1987), Cantares do nosso Povo, versões escritas de cantos e poemas em língua Umbundu(1987) Narrativas ao Acaso (1988), Ekaluko lya kwafeka (1988) Crónicas de Ontem para ouvir e contar (1989), Da Justiça Tradicional nos Umbundos (ensaio) (1997). A leitura de toda a sua obra permite detectar a existência de um fio condutor que aponta para a predominância da narrativa-testemunho, apesar das incursões que realizou nos domínios da poesia oral em versões escritas e da ensaística. Mesmo assim está subjacente uma intenção de transmitir um conhecimento que, tendo-lhe chegado pela via oral, ele preferiu reduzi-lo a escrito. Por todas estas razões, Raúl David fez-se ao longos desses anos um cultor da memória, o que pode ser comprovado pela sua capacidade de improvisar a narração de experiências e factos ocorridos há mais de cinquenta anos. O que qualifica o seu discurso narrativo no contexto do que é a contribuição para a história social da região de Benguela. A sua proficiência na língua umbundu associada à frescura com que trabalhava quando contava as suas histórias, constituem dois elementos entre tantos daquilo que permite distingui-lo de outros escritores angolanos que usam o português. Nele se reconhece a coexistência actual das línguas nacionais e da língua portuguesa. "
Fonte Angop
***
Fiquei esmagada com a notícia da morte do mais-velho Raúl David. Vejo-o palminhar as ruas da cidade meia despida já quase sem esfalto.
O ano passado chovia dentro da casa do escritor. Era o delegado da cultura, na Província de Benguela.
Guardo um cartão de visita que me enviou quando pedi para falar com ele. Nessa altura foi homenageado pela UEA na passagem do seu 87º aniversário, em Luanda, e o nosso encontro ficou adiado...
Espera, numa outra dimensão teremos que falar, kota David!
paz à tua alma.
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2/23/2005 03:24:00 da tarde
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terça-feira, fevereiro 22, 2005
entre palavras

"Tormenta" téc: mista - 100x80 - ano 2000 Zamboni
encontras-me no silêncio das esquinas
entre palavras que nos escrevem
encontras-me nas flechas que se atravessam
nos açoites mínimos nos gestos do destino
estarei na primavera com um cravo lúcido na boca
a gritar o nome da praia nómada em que me perdi
serei a flor violenta ausente o vento o sangue
serei a espuma que por ti rebenta
e se mais não for diz ao mundo que ninguém ouve
que o que se sente é escuro sobre a noite
há sempre a palavra pronta dentro do punho.
mariagomes
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2/22/2005 03:49:00 da tarde
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Edward Eastlin Cummings
( 1894-1962)
"Se o poeta é alguém, ele é alguém para quem as coisas feitas importam muito pouco - alguém que é obcecado pelo Fazer. Como todas as obsessões, a obsessão de Fazer tem desvantagens; por exemplo, meu único interesse em fazer dinheiro seria fazê-lo. Mas felizmente eu preferiria fazer quase tudo o mais, inclusive locomotivas e rosas. É com rosas e locomotivas (para não mencionar acrobatas primavera eletricidade Coney Island o 4 de Julho os olhos dos camundongos e as Cataratas do Niágara) que meus "poemas" competem.
Eles também competem uns com os outros, com elefantes e com El Greco."
e. e. cummings
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2/22/2005 01:17:00 da tarde
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segunda-feira, fevereiro 21, 2005
prece válida
Tenho na prece válida os olhos cegos
das mãos A dor O sangue mil de vil palavras
Deus, ó deus, eu por ti chamo!, agora vem
dizer: pode um pobre mortal sentir a alma
da Poesia-Mãe Senhora sublime A magia?
mariagomes
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2/21/2005 07:42:00 da tarde
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domingo, fevereiro 20, 2005
o amor simples
vou escrever um nome antiquíssimo na lua convergente
na loucura fugaz em que tropeço.
deve ser o nome de deus que vem de dentro.
o amor simples que teço a equação de um cardo
que me abraça
pela areia lisa. um nome sem camisa.
que sangra extenso no que não acredito.
é mais do que o teu rosto. ou de que o meu próprio grito.
mariagomes
20fev.2005
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2/20/2005 04:03:00 da tarde
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sábado, fevereiro 19, 2005
... para um dia de reflexão...
"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"
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2/19/2005 10:34:00 da tarde
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na melodia
a chuva tem a cor dos pássaros
as mãos nuas correndo a noção da noite
como qualquer coisa cardíaca
cai
se aqui estivesses
se a tua voz fosse cal da minha asa
haveria um verso
a casa
na melodia da ruína.
mariagomes
fev.2005
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2/19/2005 01:39:00 da tarde
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sexta-feira, fevereiro 18, 2005
a certeza
tenho na pedra o condão
esta fúria viva onde tudo é água
tudo me cativa
falta-me a palavra
e o perdão
a certeza de dizer futuro
harpa
flor furtiva.
mariagomes
fev.2005
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2/18/2005 11:19:00 da manhã
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quinta-feira, fevereiro 17, 2005
o mundo, Sofia
( a minha neta)
é teu o mundo, Sofia.
são teus o sol, a lua e o vento.
é tua a concha da canção do entendimento,
na fogueira, que fixa os olhos dos bichos, acesos,
na possibilidade da fábula nascida de palavra verdadeira.
é tua a planície, é teu o monte, é tua a flor que sorri à pedra,
são teus os pássaros voados no azul que medra à passagem única
da música que se vê inteira. e será tudo, intimamente teu, Sofia,
[quando os olhos
da noite, repletos, projectarem sonhos de água no espelho do teu nome,
[ em sabedoria.
mariagomes
21 de junho 2003
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2/17/2005 07:43:00 da tarde
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"a arvore da vida indígena" Siegfried Kreutzberg
"Silêncio é o Barulho baixinho!..."
Sara Peixoto, 3 anos
"Um livro tem palavras que fazem sonhos."
Joana Cruz, 3 anos
"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual"
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos
"Este gelado até inverna as mãos."
Gonçalo Gonçalves, 4 anos
"Estou com tosse. Engoli frio um dia."
Inês Fernandes, 4 anos
"Eu faço magia quando abraço o meu pai.
Cláudio Almeida, 4 anos
"Quando o ar cheira bem é porque os autronautas no espaço estão a comer rebuçados."
Gustavo Almeida, 5 anos
"O céu à noite é um lençol com estrelas."
Gustavo Almeida, 5 anos
"O Amor é o dobro."
João Cassola, 5 anos
"Os namorados são amigos de casamento"
Areana Semedo, 6 anos
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2/17/2005 07:24:00 da tarde
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Maria Rosa Colaço
Escrever é tentar perceber o desalinho das coisas
....
P- A Lídia Jorge dizia que a "Rosa Colaço procura atingir a alma do mundo. Fá-lo de um modo lírico". Eu diria que também o faz através das crianças...
R: As crianças entendem muito bem a linguagem poética. Os adultos é que duvidam dessa capacidade.
....
Maria Rosa Colaço
arquivo de " a página da educação" ( nº 142, Fev.2005)
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2/17/2005 12:10:00 da manhã
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quarta-feira, fevereiro 16, 2005
ainda me lembro
ainda me lembro de sentir nos pés descalços, passeios de terra batida sombreada por acácias. não importa precisar o tempo, importa realçar que as acácias de benguela cobriam de vermelho o chão para eu brincar... as mangueiras emprestavam ao céu, a folhagem.
no bairro, havia um quarteirão de primos, tios, avós e amigos e lanches de chá servido num bule e pão com doce ou queijo de casca vermelha. ainda a amendoeira junto ao lago dos patos, os vasos para pintar, baloiços cobertos de colchas no palco dos meus teatros. cães, perús, galinheiros e uma mesa tosca debaixo de uma árvore para a avó zé migar as couves da criação.
o quarteirão transbordava de vida e pertencia-me tanto! cada esquina, rapidamente, transformava-se numa fértil passagem para a imaginação...em brincadeiras, pedalava numa bicicleta a encurtar distancias graúdas ou lançava-me em correrias a adivinhar trambolhões e choros. eu gostava tanto de chorar!
partia o coconote depois de chupado o dendém maduro e por todos dividia os tamarindos. as mangas eram mais doces que os doces de ginguba. as bananas tinham sardas. comprava tudo com angolares, moedas que a avó zé depositava na minha mão fazendo milagres de carinho.
ainda oiço o som dos batuques que ensaiavam perto das cubatas, a dança dos tchinganges enfiados em fatos de rede e saias de sisal, no bairro do casseque, lá para as bandas das pescarias. em espaços vazios, os mascarados, faziam estalar chicotes delgados que me amedrontavam atrás dos vidros hermeticamente fechados do carro. então, pedia ao meu pai, no prazer de um choro, para irmos embora.
nas noites mornas, trincava rajás cobertos de chocolate que se faziam numa casa de adobe, na rua da flores. espreitava as tartarugas no hotel mombaka, e com palhinhas bebia puros sumos de ananás transportados por empregados enfarpelados de branco que atravessavam a rua estreita. bem no alto, as palmeiras, numa simbiose, acenavam , em meigos consentimentos, com bandeiras esfiapadas.
eu girava em torno de um gigante vulto que possuía braços morenos e um olhar que derramava poesia, meu pai. naqueles braços, na bóia do mar da minha infância, naveguei milhas de fantasia à superfície de verdades.
havia a praia morena... e o sombreiro que para mim se figurava num chapéu em jeito de cogumelo. só para além existia o outro lado do mundo. o mundo do mal. tudo o que me poderia afligir estava, de algum modo, ligado àquela forma de morro e de mar. as trovoadas e as chuvas torrenciais faziam a curva e abatiam-se sobre a cidade. quando o meu pai me deixou, foi para o sul, também fez a curva do mar.
havia ( ainda há em mim!) uma curva de medo nos degraus que subi pela vida de mãozinhas dadas.
hoje, no sombreiro, morro de um farol apagado, eu perco o meu olhar... e penso que um dia, quando morrer, irei diluir-me naquela curva do mar.
mariagomes
Benguela,10 out.1999
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2/16/2005 06:59:00 da tarde
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"Fiz [esta carta] mais longa apenas porque me faltou o tempo de a fazer mais breve."
BLAISE PASCAL
BLAISE PASCAL
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2/16/2005 01:46:00 da manhã
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segunda-feira, fevereiro 14, 2005
à mercê do fogo
é inevitável o figurino da palavra ao vento
para que saibas que o poeta vive à mercê do fogo
a poesia não é um logro na música da razão
pode ser o amor a incendiar uma flauta pura
no coração da fala haver um deus maior
e parecer tão pouco
o que te toca com dedos de sol num cerne louco.
mariagomes
11dez.2004
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2/14/2005 11:16:00 da tarde
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a inflacção de Joaquim Pessoa

Patrick Demarchelier
Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.
Joaquim Pessoa
"125 poemas- antologia poética"
Litexa - Editora, 1989
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2/14/2005 09:08:00 da tarde
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domingo, fevereiro 13, 2005
nos meus versos
nos meus versos tens o amor; o entendimento
que sobrevive a um holocausto de palavras.
e o pensamento do papel que não é meu.
e as rimas que também não foram minhas.
nos meus versos, pelo fogo do amor que fica, tu caminhas.
mariagomes
set.2004, (revisto em fev.2005)
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2/13/2005 07:44:00 da tarde
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o papel plausível
denunciei ao mundo a ondulação do mar. o papel plausível dos acasos.
os traços que me fizeram sonhar. e perdi. perdi a luz vasta das estrias.
marítima encosto-me à cidade. tenho o hábito de um barco. juntos
o rio e o rumor da minha voz são um só lírio a uma lua lívida de frio.
mariagomes
fev.2005
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2/13/2005 12:50:00 da tarde
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quinta-feira, fevereiro 10, 2005
a emoção ao criar
Augusto dos Anjos
(1884 - 1914)
Em entrevista concedida a Licínio Dias dos Santos em 1914, o grande poeta Augusto dos Anjos indagado sobre o que sentia de anormal quando estava criando seus versos, respondeu:
- "Uma série indescritível de fenômenos nervosos acompanhados, muitas vezes de uma vontade de chorar. "
(Extraído do EU E OUTRAS POESIAS Editora Bertrand, 2001)
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2/10/2005 01:19:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 09, 2005
palavras iguais
porque eu não quero palavras iguais nascerá a metáfora do aceno.
a promessa ainda que a expressiva anulação do silêncio
nos fale, irá o estio ao teu coração ao hemisfério
onde viveu o vento em mais que movimento ou valsa.
haverá um brio uma aventura ou uma espécie de remessa falsa.
mariagomes
9.fev.2005
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2/09/2005 08:09:00 da tarde
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segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Ternura de Vinicius de Moraes
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar [ extático da aurora.
Vinicius de Moraes
antologia "Vinicius de Moraes
- Poesia completa e prosa",
Editora Nova Aguilar
- Rio de Janeiro, 1998, pág. 259
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2/07/2005 02:41:00 da tarde
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domingo, fevereiro 06, 2005
a neve caiu
ouve, a neve caiu vulgarmente.
É a branca aurora que se estende.
oh terra silenciosa,
traz-me a flor que chega a nascer, luminosa,
traz-me o fogo, o céu do inverno que vive,
sem as escuras nuvens a crivarem-se no lugar onde estive.
mariagomes
6fev.2005
É a branca aurora que se estende.
oh terra silenciosa,
traz-me a flor que chega a nascer, luminosa,
traz-me o fogo, o céu do inverno que vive,
sem as escuras nuvens a crivarem-se no lugar onde estive.
mariagomes
6fev.2005
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2/06/2005 10:17:00 da tarde
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sexta-feira, fevereiro 04, 2005
foi a lua
foi a lua que fez a forma dos cavalos lícitos
deu o trigo a galope para matar a fome.
a lua não tinha nome.
tinha a luz dos desenhos imprevistos .
mariagomes
fev.2005
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2/04/2005 01:22:00 da tarde
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quinta-feira, fevereiro 03, 2005
A la puta que llevó mis poemas
Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)
Algunos dicen que debemos eliminar del poema
los remordimientos personales,
permanecer abstractos, hay cierta razón en esto, pero
¡POR DIOS!
¡Doce poemas perdidos y no tengo copias!
¡Y también te llevaste mis cuadros, los mejores!
¡Es intolerable!
¿Tratas de joderme como a los demás?
¿Por qué no te llevaste mejor mi dinero?
Usualmente lo sacan de los dormitorios y de los pantalones borrachos
[y enfermos en el rincón.
La próxima vez llévate mi brazo izquierdo o un billete de 50,
pero no mis poemas.
No soy Shakespeare pero puede ser que algún día ya no escriba más,
abstractos o de los otros.
Siempre habrá dinero y putas y borrachos
hasta que caiga la última bomba,
pero como dijo Dios,
cruzándose de piernas:
veo que he creado muchos poetas pero no mucha poesía.
Charles Bukowski (EEUU, 1920-1994)
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2/03/2005 04:28:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 02, 2005
oração
oh mãe das alturas!
carrega a dor indómita dos homens
numa face de silêncio num poema sem face para além
percorre as ruas o sal que sai da vida
e se retrai
onde se chora sem ninguém.
oh mãe benevolente!
oh mãe do ventre que vives da memória
ata as tuas mãos às nossas tranças
às horas mansas às fogueiras
que explodem como preces derradeiras!
mariagomes
2fev.2005
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2/02/2005 08:53:00 da tarde
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photo by Steve McCurry
"Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simutâneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos priveligiados- a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formusura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos o sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais - a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint- Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis- elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta não diminui nem se extingue.O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam de fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia, pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus."
Eugénio de Andrade
em louvor das crianças,
in " rosto precário"
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2/02/2005 02:45:00 da tarde
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Anna Akhmatova
Último Brinde
Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada vêem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.
1934
Последний тост
Я пью за разоренный дом,
За злую жизнь мою,
За одиночество вдвоем,
И за тебя я пью,-
За ложь меня предавших губ,
За мертвый холод глаз,
За то, что мир жесток и груб,
За то, что бог не спас.
1934
Anna Akhmatova, pseudónimo de Anna Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.
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2/02/2005 02:02:00 da tarde
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segunda-feira, janeiro 31, 2005
vegetação intima
vive na vegetação intima como sois que ninguém vê.
reserva-te ao sono verdadeiro.
sê o voo que vem, em bando, trazer as aves, primeiro.
e o mar a seguir o mar na palma das planícies,
o núcleo ingénuo da noite com girassóis altos e tristes.
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31jan.2005
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1/31/2005 01:44:00 da tarde
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quando a noite vem
meu amor, tenho sentido frio em janeiro.
a neve é nítida quando a noite vem trazer
a morte rápida da luz. aquela luz que não chega
ao princípio dos olhos ou ao fim de um caminho.
numa encosta onde as palavras se põem verdes
incendeiam-se as mãos que são poucas.
todas as mãos são poucas para dizê-las.
e como custa escrever, as mãos.
às vezes, é gélida a glândula da escrita.
e eu tenho uma vontade infinita de falar em silêncio.
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21.jan.2004
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1/31/2005 01:33:00 da tarde
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O poema não é feito dessas letras que eu espeto como pregos,
mas do branco que fica no papel .
PAUL CLAUDEL
Villeneuve-sur-Fère ( 1868) Paris (1955)
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1/31/2005 01:29:00 da tarde
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sexta-feira, janeiro 28, 2005
Jean-Nicholas Arthur Rimbaud
(1854-1891)
"Agora corrompo-me o mais possível. Por quê? Quero ser poeta e trabalho para me fazer vidente: você não está a perceber nada e eu também não lhe sei explicar. Trata-se de chegar ao desconhecido pela desordem de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes, mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. A culpa não é minha de maneira nenhuma. É errado dizer: Eu penso. Deve dizer-se: Eu sou pensado. Desculpe o jogo das palavras.
Eu é outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino, e que se danem os inconscientes, que discutem sobre coisas que ignoram por completo!"
Arthur Rimbaud
correspondência, a Georges Izambard, Charleville, Maio de 1871 ( excerto)
in ABCedário do Surrealismo
edição de " O público"
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1/28/2005 07:15:00 da tarde
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quinta-feira, janeiro 27, 2005
TU de Jorge Luis Borges
Gloria Baker Feinstein
Um só homem nasceu, um só homem morreu na terra.
Afirmar o contrário é mera estatística, é uma adição impossível
Não menos impossível que somar o cheiro da chuva e o sonho
[que a noite passada sonhaste.
Esses homem é Ulisses, Abel, Caim, o primeiro homem que ordenou
[ as constelações, o homem que construiu a primeira pirâmide,
[ o homem que escreveu os hexagramas do Livro das
[ Mudanças, o forjador que gravou runas na espada de
[ Hengisto, o arqueiro Einar Tamberskelver, Luis de Léon, o
[ livreiro que engendrou Samuel Johnson, o jardineiro de
[ Voltaire, Darwin na proa do Beagle, um judeu na câmara
[ letal, com o tempo, tu e eu.
Um só homem morreu em Ílion, no Metauro, em Hastings, em
[ Austerlitz, em Trafalgar, em Gettysburg.
Um só homem morreu nos hospitais, nos barcos, na difícil solidão,
[ na alcova do hábito e do amor.
Um só homem olhou a vasta aurora.
Um só homem sentiu no paladar a frescura da água, o sabor da fruta
[ e da carne.
Falo do único, desse, do que está sempre sozinho.
Norman, Oklahoma
Jorge Luis Borges
"O ouro dos tigres"
obras completas, vol.II
editorial teorema
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1/27/2005 05:10:00 da tarde
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Gaylen Morgan
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1/27/2005 01:09:00 da tarde
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a súbita seara
urge dizer que, hoje, os mares negaram a grandeza da flauta azul
que eu inventei para ti.
houve, num incêndio anexo à palavra,
um poema impossível
de ternura loura, muito loura, a súbita seara da loucura.
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27jan.2005
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1/27/2005 01:49:00 da manhã
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terça-feira, janeiro 25, 2005
Escrever é iniciar uma distância longa
Dizer que a solidão bate como sombra Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol
e haver centro.
mariagomes
25.jan.2005
Dizer que a solidão bate como sombra Como o vento de uma fria fresta
escrever é não haver sol
e haver centro.
mariagomes
25.jan.2005
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1/25/2005 02:37:00 da tarde
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...
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.
António Ramos Rosa
A (in)coerência do fogo
in : As marcas do deserto
Editorial Vega, Lda
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1/25/2005 11:43:00 da manhã
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segunda-feira, janeiro 24, 2005
um tempo aceso
digamos as coisas com o pensamento posto num sorriso inseparável
Convém-nos a imensa erupção oculta do sonho Há um tempo aceso
nas paredes sensíveis No abraço da torre Aquela mãe vem com
uma lucidez congénita de amoras Traz as mãos ainda em semente.
mariagomes
24jan.2005
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1/24/2005 06:50:00 da tarde
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sábado, janeiro 22, 2005
apenas flores veladas
não haverá um alvo nos teus olhos,
quando o silêncio cobrir cedros.
as tuas mãos, a salvo, serão a cicatriz do corpo.
nem o vento ouvirá palavras - os momentos que dissermos.
lentamente, apenas flores veladas, brancas,
tão brancas, como rosas baleadas por invernos.
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jan.2005
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1/22/2005 01:28:00 da manhã
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quinta-feira, janeiro 20, 2005
Joni Sternbach
...
Deixem-nos o planeta despido de árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulámos todos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
...
José Gomes Ferreira
"panfleto contra a paisagem" VI
antologia poética
diabril editora
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1/20/2005 01:30:00 da tarde
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quarta-feira, janeiro 19, 2005
(no dia do 82º aniversário de Eugénio de Andrade)
importa que a noite desça, te envolva,
invente a voz, sobre esse som
solucem os ponteiros do tacto das papoilas
a esquecerem-se de nós.
mariagomes
19.jan.2005
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1/19/2005 06:32:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 18, 2005
o pão das estrelas
viste uma avezinha pousar no regaço
do céu que a levava para longe?
e os barcos tranquilos como estradas?
e as águas agitadas? e os lemes que ardiam à sorte?
viste a bússola do norte em mares em lírios
quando apareceram de negro as tulipas no instinto do tempo?
houve um movimento mínimo afecto à luz de uma vela
vestimo-nos de sal
das montanhas extraímos o pão das estrelas.
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18.jan.2005
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1/18/2005 04:24:00 da tarde
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segunda-feira, janeiro 17, 2005
Adolfo Correia da Rocha
Miguel Torga N. 12.08.1907 F. 17.01.1995
"eu sou quem sou. Torga é uma planta transmontana, urze campestre, cor de vinho, com as raízes muito agarradas e duras, metidas entre as rochas. Assim como eu sou duro e tenho raizes em rochas duras, rígidas, Miguel Torga é um nome ibérico, característico da nossa península"...
..../....
Livro de Horas
Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.
Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.
Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.
Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.
Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.
Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.
Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!
Miguel Torga
«O Outro Livro de Job».
Coimbra, Ed. Autor, 1936
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1/17/2005 06:25:00 da tarde
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sábado, janeiro 15, 2005
nas pombas de granito
descobri o tecido da cidade nas pombas de granito
Vi o grão iluminado de um voo
colher o musgo húmido da memória
Guardo o coração da melodia insepulta
em nevoeiro Em deus No que não creio.
mariagomes
15jan.2005
André Kertész
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1/15/2005 08:47:00 da tarde
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quinta-feira, janeiro 13, 2005
(...)
"Um verso bom não permite ser lido em voz baixa, ou em silêncio. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido: o verso exige ser pronunciado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto.
Há duas frases que o confirmam. Uma é a de Homero ou a dos Gregos que denominamos por Homero, que diz na Odisseia: " os deuses tecem desventuras aos homens para que as gerações vindouras tenham alguma coisa que cantar". A outra, muito posterior, é de Mallarmé e repete o que disse Homero menos belamente: " tout aboutit en un livre" ( " tudo vai dar a um livro") Aqui temos as duas diferenças; os Gregos falam de gerações que cantam, Mallarmé fala de um objecto, de uma coisa entre as coisas, um livro. Mas a ideia é a mesma, a ideia de que nós somos feitos para a arte, somos feitos para a memória, somos feitos para a poesia ou possivelmente somos feitos para o esquecimento. Mas há algo que resta e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente diferentes." (...)
Jorge Luis Borges
in Sete Noites
obras completas volume III
editorial teorema
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1/13/2005 01:59:00 da tarde
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quarta-feira, janeiro 12, 2005
de lábios abertos
Com o sol das areias/ em cada folha,/
na coroa o sopro/ ainda húmido das estrelas.
eugénio de andrade
fui feliz como as palmeiras! tive alegria,
a cal, a chuva, o sono de uma pátria presente.
uma palavra, de lábios abertos,
ofereceu-me um poema:
pronunciei o verão de cada sílaba
em pedras cheias.
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12.jan.2005
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1/12/2005 06:48:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 11, 2005
(...)
Quem desconfia, lendo um poema, que a vida sangra, incomoda,
que o mundo não passa do peso acumulado do que imaginamos ser?
Floriano Martins
em " o diabo da carga"
(Fortaleza, 1957) poeta, editor, ensaísta e tradutor
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1/11/2005 01:33:00 da tarde
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domingo, janeiro 09, 2005
por ouvir
por ouvir ficaram os plátanos
aquele movimento de música nas árvores
depois tempestades d' oiro
- os risos estendidos na areia branca -
e os teus braços que cediam inexplicáveis e graves.
mariagomes
8jan.2005
..../....
por ouvir ficaram vozes abertas,
aquela alegria de crianças soltas,
antes da onda aterradora
- os corpos estendidos aos pedaços na areia suja -
trouxeram o ruído estridente de um silencio planetário
que transcende a lágrima sincera ou a hipócrita esmola...
José Dias Egipto
10jan.2005
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1/09/2005 07:22:00 da tarde
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sexta-feira, janeiro 07, 2005
O Artista
Dublin 1854- Paris 1900
Uma noite, chegou à sua alma o desejo de moldar uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento. E lançou-se ao mundo para procurar bronze.
Mas todo o bronze da Terra tinha desaparecido; em parte nenhuma deste mundo existia metal desse que pudesse ser encontrado. A não ser o que cobria a imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre.
Na verdade, tinha ele mesmo, com as suas próprias mãos, criado e deposto esta imagem no túmulo da única coisa que alguma vez amara na vida. Na sepultura daquilo que antes de morrer mais amara, colocou ele esta imagem do seu criar, para que pudesse servir como um sinal do amor do homem que não morrerá nunca, e um símbolo do lamento do homem que durará para sempre. E em todo o mundo não havia outro bronze excepto o bronze desta imagem.
Ele pegou na imagem que tinha esculpido e colocou-a numa grande fornalha, entregando-a ao fogo.
E a partir do bronze da imagem d'O Lamento Que Dura Para Sempre criou uma imagem d'O Prazer Que Nos Habita Um Só Momento.
Oscar Wilde
"Poemas em Prosa"
trad. Possidónio Cachapa
Cavalo de Ferro Editores
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1/07/2005 06:05:00 da tarde
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não me perguntem
Physalia physalis
não me perguntem o que vi Para isso Oboés cantam
o azul que anula as anémonas
Há um frio veloz
Eu celebrei aquele inverno turvo
onde os sentidos caíam em solidão erguida.
Não me perguntem o que vi É cega a sede dos crepúsculos
É cedo no céu da minha vida
Nele As minhas mãos sugam apenas as rugas límpidas.
mariagomes
7jan.2005
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1/07/2005 02:03:00 da tarde
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quinta-feira, janeiro 06, 2005
o pirão das lavadeiras
esta noite sonhei que comia, como antigamente,
em bolas, o pirão das lavadeiras...
lambuzava as mãos no molho da lata assente no fogareiro.
meu corpo de menina aquecia sentado numa pedra de luz
vinda do sol que secava peixe para a banda-sul das pescarias.
sonhei com esses dias, de gozar, na estrada estreita sem palmeiras,
ladeada por morros e mar. o mar que me batia!
(lembras-te, pai, do medo que eu tinha do mar?)
e sonhei também com os olhos abertos das cubatas
que sem pestanejar, me deixavam ver o escuro de pupilas.
de pupilas que não liam mas sabiam, e arregalavam-se aos
desenhos das nuvens e futuras trovoadas...
no meu sonho voltei a ser menina, comi o pirão das lavadeiras
e revi a insónia nos olhos das cubatas!
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janeiro.2003
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1/06/2005 06:18:00 da tarde
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quarta-feira, janeiro 05, 2005
declaração
amo a lua imóvel
o circular de pássaros geométricos
quase a florir
nas tuas mãos cientes;
coisas que as manhãs não colhem.
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jan.2005
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1/05/2005 07:20:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 04, 2005
no amor e no medo
Anne BRIGMAN
ouve. as árvores acendem a luz dos remos
no amor e no medo do mundo.
do mundo velho onde as únicas raízes nos despem os braços.
todos os recados traçam silêncios. inflamam-se aragens a fundo.
não temos mais do que estas margens para cerzir as cinzas volúveis.
não pedimos mais do que os breves espaços
que se abrem miraculosamente entre a alegria e as lágrimas.
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4jan.2005
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1/04/2005 01:54:00 da tarde
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domingo, janeiro 02, 2005
as palavras
Krista Elrick
sei que as palavras têm plumas
Pesam-me os poemas que não escrevi
Os lençóis alvos A outra luz a ombros fechados
Sei que as palavras são aves no passado.
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2jan.2005, 15 h.
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1/02/2005 03:22:00 da tarde
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sábado, janeiro 01, 2005
sem morada
esta água que me rasga a pele
mergulha a sombra a faca
sangra o nome de um rosto
sem morada
este tecer constante
abrange a forma de dizer
que a minha mãe revolta
é uma lágrima sagrada.
mariagomes
1.jan.2005
Patrick Demarchelier
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1/01/2005 01:29:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 28, 2004
que venham rosas
que venham rosas descer pela chaminé
e outros sinais avancem em direcção ao sonho.
que o mar vagueie terno pela terra,
sem cadáveres,
pernoite nas palavras,
saliente em hélice o hálito do amor.
e uma lua cresça no teu corpo
na serenidade das coisas que te acordam
como uma flor
na verdade que outros sois inventam.
mariagomes
28.dez.2004
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12/28/2004 11:53:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 27, 2004
o que diz o poeta...
(foto de Eduardo Simões)
A poesia
é uma família
dispersa
de náufragos
bracejando
no tempo
e no espaço.
Augusto de Campos
in Verso Reverso Controverso, 1978.
Ed. Perspectiva.
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12/27/2004 01:05:00 da tarde
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sábado, dezembro 25, 2004
quando eu nasci
g
" Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
De chorar, me vinham de outros olhos."
Dante Milano
quando eu nasci havia uma praia de fogo
e de palha
os olhos verdes da minha mãe vigiavam o mar
por uma lágrima
solitariamente os homens abriam o sol ardia a verdade
de um fulgor infinito
quando eu nasci existia um grito
igualmente as estrelas compunham a cor.
mariagomes
dez.2004
" Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
De chorar, me vinham de outros olhos."
Dante Milano
quando eu nasci havia uma praia de fogo
e de palha
os olhos verdes da minha mãe vigiavam o mar
por uma lágrima
solitariamente os homens abriam o sol ardia a verdade
de um fulgor infinito
quando eu nasci existia um grito
igualmente as estrelas compunham a cor.
mariagomes
dez.2004
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12/25/2004 07:14:00 da manhã
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“(...) os poetas (...), esses briguentos seres desequilibrados, que falsamente se intitulam apóstolos, mas, em dupla, roem a carne do terceiro. Os poetas, que cantam a pureza, mas que passam ao largo até das proximidades de um banho. Os poetas que esmolam de todos, até dos mendigos, só uma pequena chamada, só um pouco de carinho, só esmolam uma estatuazinha na esquina, a esmola da imortalidade dos mortais, esses cabeças-de-vento, invejosos, pálidos masturbadores, que venderiam sua alma por uma rima, por uma indicação, que expõem no mercado seus segredos mais íntimos, que tiram vantagem até da morte de pais, mães, filhos, e mais tarde, anos passados, ‘numa noite de inspiração’, quebram suas tumbas, abrem seus caixões, e com a lanterna de gatunos da vaidade pesquisam ‘emoções’, como ladrões de tumbas procuram dentes de ouro e jóias, depois confessam e se arrependem, esses necrófilos, esses feirantes. Desculpem, mas eu os odeio.”
Dezsö Kosztolányi, poeta e romancista húngaro ( 1885-1936)
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12/25/2004 06:50:00 da manhã
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sexta-feira, dezembro 24, 2004
Giordano Rizzardi, Cristo, 2003
"Estamos a sentir a tua falta, pá...
Isto tinha mais piada se tu abrisses um bocadinho o jogo.
Se tornasses inquestionável a tua existência.
És um Deus, que diabo, o que perdias tu com isso?
Desta vez não virias como homem, assim como te conhecemos,
guedelhudo, magricelas, o corpo enrolado nuns trapinhos, meio
Jim Morrison, meio Mahatma Gandhi. E não levarias tanto tempo como 33
anos a fazer efeito.
Terias que ser outra coisa. Uma água de chuva, uma água que caísse
de um céu imaculadamente azul, directamente da fonte divina.
Uma água que emendasse o que está mal. Fertilizasse o que está seco.
Uma água impossível de conceber. Vês?
Não beliscaríamos a tua natureza metafísica. Serias um espírito áqueo
e santo. A diferença é que poderíamos guardar-te em reservatórios e
distribuir-te através da rede pública.
E, assim, te teríamos numa sopa,
numa piscina, num copo, num chichi, numa lágrima.
Existirias em nós; não serias, como agora, uma alegoria algures no
coração e apenas alcançável pela virtude da fé.
És muito difícil, meu. E a tua malta aqui no terceiro planeta é um bocado
passada dos carretos.
Se fosses água, era entre mim e ti. Podia beber-te, podias dessedentar-me.
A verdade é que estamos a sentir a tua falta, pá. Não desse corpo que
abandonas-te numa cruz e que hoje faz de ti uma vedeta universal.
É um corpo que já não habitas, que importância pode ter?
Lembra-nos que somos mortais, e isso não é bom. Angustia-nos.
Mas se voltares, desta vez, fica por cá, evidentemente para todos.
Escolhe uma forma de ser. Eu falei-te da água. Mas podes regressar
como fogo e existirás num cigarro aceso; como vento e impregnarás o ar que
respiramos; como terra e serás a fonte da nossa sobrevivência.
Qualquer coisa que possamos sentir a todo o momento e nos torne mais
sábios, mais tolerantes,mais gregários.
Depois, teremos tempo para discutir a questão do bacalhau,
do peru, e das rabanadas.
Mas por mim e já que se fala nisso, pode perfeitamente continuar na noite
de 24 para 25 de Dezembro..."
Fernando Marques
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12/24/2004 03:07:00 da tarde
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domingo, dezembro 12, 2004
" O abandono. O vazio. A indiferença. Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma é tua para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio."
Vergílio Ferreira
in " Escrever"
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mariagomes
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12/12/2004 09:33:00 da tarde
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segunda-feira, novembro 29, 2004
além do muro
viras-te para a vida
e os cipestres atrevem-se além do muro.
na aurora fria cintila ainda a noite
aquele compromisso claro
de celebrar a necessidade de ser criança.
mariagomes
nov.2004
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mariagomes
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11/29/2004 01:04:00 da tarde
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domingo, novembro 28, 2004
Daniel Faria ( 1971- 1999)
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer da magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti.
E a flor que te estendo,mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
Daniel Faria
Do livro "Dos Líquidos"
In Anos 90 e Agora, Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa
Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, Maio de 2001
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mariagomes
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11/28/2004 10:08:00 da tarde
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