sábado, abril 09, 2005

com o sangue fixo


a minha pátria divorciou-se das rosas encarnadas
que falavam comigo com o sangue fixo
a arder

a minha pátria caiu sem luta num precipício
consome-se nua

proibida
quer as palavras das loucas incertezas impolutas.


mariagomes
9abril.2005

sexta-feira, abril 08, 2005

os melros



só eu movi os melros na tempestade
elevei a árvore
dos dedos na poesia profana
celebrei as nuvens
na batuta dos maestros
esquecidas
pelas tômbolas da sorte
e na voz de um poeta que disse
que a morte é uma formosa flor ensandecida
só eu arranhei as guelras
como os cachimbos secos dos velhos
a viver do mar

só eu
e o músculo contaminado de um olhar.

mariagomes
7deabril2005

quarta-feira, abril 06, 2005

e a erosão




não posso dizer dos olhos, assim,
contidos nesta manhã inacabada.
há gritos negros e a erosão
branca, nos corpos, abre a luz
cheia de sede.

não fosse esse pedido de palavras,
eu escreveria o poema da paz
que anseia os meus sentidos.
porém, é tarde.
nunca disse que habito uma cidade.
as minhas mãos movem-me.
como ninguém, toco o perfil
melancólico e dócil do fim da minha vida.

mariagomes
6deabril.2005

terça-feira, abril 05, 2005

as romãs e as rosas




podiam ser mais os sinos,
as chuvas, as romãs
e as rosas


podiam ser mais os linhos
entregues ao abraço corroído pelo homem


e serem mais as mães
e os pais
dos meus ramos ágeis.


mariagomes
5deabril.2005

segunda-feira, abril 04, 2005


Holly Roberts



"-Poesia serve para isso.
-Isso, o quê?
-Para esconder o amor, revelando-o.
Como a roupa que esconde o corpo e
revela a forma. "


trecho " de Amor " de Manoel Lobato


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domingo, abril 03, 2005

esse anjo eterno



do sol vem esse anjo eterno que torna em música
a impressão telúrica
de ser em simultâneo água
de um ramo só
do sol eu tenho o solo idolatrado
os olhos importando das miragens um desespero frágil
e o som
a parecer-se quase com o minério
como uma súplica ou uma lágrima litúrgica.


mariagomes
3abril.2005, 18 h

tenho que escrever




tenho que escrever um poema deitado
na noite farta
apagando o candeeiro
que nos conduz à plataforma fria do asfalto
um poema sem culatra
na terra
um poema que não cale a lezíria
sobretudo que não fale
da guerra.

mariagomes
abril.2005

sábado, abril 02, 2005

Flaubert

"A linguagem é uma chaleira rachada que batemos para fazer os ursos dançarem. Quando o que queríamos mesmo era mexer com a clemência das estrelas. "

Gustave Flaubert (França,1821-1880).

quinta-feira, março 31, 2005

José António Gonçalves (N.13.06.54 F.29.03.05)




" ...
dêem-me o vosso arado. deixai-me cultivar vossas terras
áridas, vossos desertos secos. deixai-me soçobrar
nos vossos barcos náufragos. deixai-me criar epitáfios
fogueiras, lendas. deixai-me com os vossos filhos vagando pelas
montanhas, pela lã das ovelhas. pelas
ventanias. deixai-me construir um ruído mudo de silêncio
uma voz calada, mais vibrante que esta branda fala
para dizer-vos um poema sou poeta nasci rosa
no orvalho transparente das manhãs."

José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)
PORTO SANTO, VERÃO DE 1973

com um pássaro no coração




olha não é possível que regressem as buganvílias da vida
há o nada a manhã terrível a treva
que afoga a paisagem
que nos oferecem os comboios
de um abismo final ou
uma faca de palavras numa entrega

olha tremem difíceis as feições
de um território jazem janelas a cheirar a sol
e eu estou aqui com um pássaro no coração em ferida.

mariagomes
31março.2005, 17h


e a expressão



onde a rosa? onde o cravo? e a expressão
apensa de um jardim?
oiço um rumor a água tensa
de um trago de amor animal e delicado
oiço um recado
sereníssima
vou buscar a noite e tranco-a dentro de mim.


mariagomes
março.2005

segunda-feira, março 28, 2005




"Não há pergunta sobre o para quê de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido de ser é o ser. "

Vergílio Ferreira (1916-1997)

domingo, março 27, 2005

nada de novo




lamento, amigo, não trazer nada de novo.
nem a procura é intensa
nem o encontro de um nome nos diz seja o que for.
as mesas permanecem
à espera dos retratos da família.

e os livros guardam toda a poesia.

mariagomes
27março.2005

sexta-feira, março 25, 2005

as fogueiras de Pavese




estão prontas as fogueiras de Pavese
vertem-se os sinais
as chamas
que as portas atravessam
e a voz estática nas nuvens
clama
está pronto o livre exílio
do mar
este navio onde morri e vivo.


mariagomes
março.2005




"Algo sobreviveu no meio das ruínas. Algo acessível e próximo: a linguagem. Contudo, a própria linguagem teve que se erguer por entre as suas próprias ruínas, salvar os espaços em que se quedou mudo o horror, por entre as mil trevas que mortificam o discurso. Nesta língua, o alemão, procurei escrever poesia. Apenas para falar, orientar-me, indagar, imaginar a realidade. Deste modo a poesia encontra-se sempre no caminho para a língua originária."

Paul Celan, ao receber o Prémio Büchner, em 1962
excerto de uma crónica do Jornal " O Público", 27jan.2oo5

quinta-feira, março 24, 2005

o olhar


Afghan Girl, Pakistan, 1985, by Steve McCurry




talvez não seja o olhar que prende
é a pele que sai da lua lavada

a parede que coincide


num dedo
encosta a noite à palavra.


mariagomes
março.2005

quarta-feira, março 23, 2005

"Um escritor é uma pessoa para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas"

Thomas Mann

N. 06/06/1875, Lübeck, Alemanha, F.12/08/1955, Zürich, Suíça

sexta-feira, março 18, 2005

ao solo ao luar



voltei a ouvir a música descendo na delicadeza funda
de uma chama
voltei ao lugar do sono e do incêndio
ao solo ao luar magro dos cães
voltei e vi a pátria escorrendo na esmola tranquila dos sóis.


mariagomes
18março.2005

quinta-feira, março 17, 2005

A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ...parte 3ª




"Observamos que a poesia distingue-se de toda outra arte por ter um valor pelo povo que é da raça e língua do poeta, valor que não pode ter por nenhum outro. É verdade que até a música e a pintura possuem um caráter local e racial: mas certamente as dificuldades de apreciação nessas artes, para um estrangeiro, são muito menores. É verdade por outro lado que textos em prosa têm um significado em sua língua original que se perde na tradução; mas todos sentimos que perdemos muito menos ao ler um romance em tradução que ao ler um poema; e na tradução de alguns tipos de trabalho científico a perda é virtualmente nula. Que a poesia é muito mais local que a prosa pode-se ver na história das línguas europeias. Ao longo da Idade Média e até há poucas centenas de anos, o latim permanecia a língua para filosofia, teologia e ciência. O impulso rumo ao uso literário das línguas dos povos começou com a poesia. E isso parece perfeitamente natural quando percebemos que a poesia, primariamente, diz respeito à expressão do sentimento e da emoção; e que o sentimento e a emoção são particulares, enquanto o pensamento é geral. É mais fácil pensar numa língua estrangeira do que nela sentir. Portanto, nenhuma arte é mais obstinadamente nacional que a poesia. Um povo pode ter sua língua detraída, suprimida, e outra língua compelida sobre as escolas; mas a menos que se lhe ensine a sentir numa nova língua, a antiga não foi erradicada e reaparecerá na poesia, que é o veículo do sentimento. Acabo de dizer "sentir numa nova língua", e quero dizer algo mais que meramente "exprimir seus sentimentos numa nova língua". Um pensamento expresso numa língua diferente pode ser praticamente o mesmo pensamento, mas um sentimento ou uma emoção expressa numa língua diferente não é o mesmo sentimento ou emoção. Uma das razões para aprendermos bem pelo menos uma língua estrangeira é que adquirimos um tipo de personalidade suplementar; uma das razões para não adquirirmos uma nova língua em lugar da nossa é que a maioria de nós não quer tornar-se uma pessoa diferente. Uma língua superior raramente pode ser exterminada exceto pelo extermínio das pessoas que a falam. Quando uma língua suplanta outra é muitas vezes porque possui vantagens que a elevam e que oferecem não uma mera diferença, mas uma gama mais ampla e mais refinada que a língua primitiva não só para pensar, mas para sentir.

Emoção e sentimento são então mais bem expressos na língua comum das pessoas isto é, na língua comum a todas as classes: a estrutura, o ritmo,a sonoridade, o estilo de uma língua exprimem a personalidade do povo que a fala. Quando digo que é a poesia, em vez da prosa, que se preocupa com a expressão da emoção e do sentimento, não quero dizer que a poesia não precisa possuir conteúdo intelectual ou significado, ou que a grande poesia não contém mais desse significado que a poesia inferior. Porém, desenvolver esta investigação me tiraria de meu objetivo imediato. Considerarei de acordo que as pessoas encontram a expressão mais consciente de suas mais profundas emoções na poesia de sua própria língua, em vez de em qualquer outra arte ou na poesia de outras línguas. Isso não significa, é claro, que a verdadeira poesia está limitada a sentimentos que todos podem reconhecer e compreender; não devemos limitar a poesia à poesia popular. Basta que, num povo homogêneo, os sentimentos dos mais refinados e complexos indivíduos tenham algo em comum com os sentimentos dos mais grosseiros e simples, algo que não têm em comum com os de pessoas de seu mesmo nível que falam outra língua. E, quando uma civilização é saudável, o grande poeta terá algo a dizer a seus compatriotas em todos os níveis de educação.

Podemos dizer que o dever do poeta, como poeta, é apenas indiretamente para com seu povo; seu dever direto é para com sua língua: primeiro, preservar e, segundo, ampliar e aperfeiçoar. Ao exprimir o que outras pessoas sentem,ele também está mudando o sentimento, por torná-lo mais consciente; está fazendo-as mais sabedoras do que já sentem, e portanto ensinando-as algo sobre si mesmas. Ele, no entanto, não é apenas uma pessoa mais conscienteque as demais; é, além disso, individualmente distinto das outras pessoas,e também de outros poetas, e pode fazer seus leitores conscientemente compartilhar novos sentimentos que até então não haviam vivenciado. Essa é a diferença entre o escritor que é meramente excêntrico ou louco e o autêntico poeta. Aquele pode ter sentimentos que são únicos mas não podem ser compartilhados, e que são, portanto, inúteis; este descobre novas variações de sensibilidade que podem ser apropriadas por outrem. E, ao exprimi-las, ele está desenvolvendo e enriquecendo a língua que fala.

Já disse quase o suficiente sobre as diferenças impalpáveis do sentir entre um povo e outro, diferenças que são confirmadas, e ampliadas, por suas diferentes línguas. Mas as pessoas não apenas vivenciam o mundo diferentemente em diferentes lugares; vivenciam-no diferentemente em tempos diferentes. De fato, nossa sensibilidade está constantemente mudando, como muda o mundo em nosso redor: o nosso não é o mesmo que o dos chineses ou dos hindus, mas também não é o mesmo que o dos nossos ancestrais, passadas várias centenas de anos. Não é o mesmo que o de nossos pais; e, finalmente, nós próprios não somos bem as mesmas pessoas que éramos há um ano. Isto é óbvio; mas o que não é tão óbvio é que esta é a razão por que não podemos nos permitir parar de escrever poesia. A maioria das pessoas educadas sente certo orgulho dos grandes autores de sua língua embora possa nunca lê-los, exatamente como é orgulhosa de qualquer outro mérito de seu país: uns poucos autores até se tornam célebres o bastante para serem mencionados de vez em quando em discursos políticos. Porém, a maior parte das pessoas não se dá conta de que isso não é suficiente; de que a menos que elas continuem a produzir grandes autores, e especialmente grandes poetas, sua língua se deteriorará, sua cultura se deteriorará e talvez seja absorvida por uma mais forte.

Um ponto, é claro, é que se não temos literatura viva nos tornaremos mais e mais alienados da literatura do passado; a não ser que mantenhamos uma continuidade, nossa literatura do passado se tornará mais e mais remota até que nos esteja tão estranha quanto a literatura de um povo estrangeiro. Porque nossa língua continua mudando; nosso modo de vida muda de todas as maneiras sob a pressão de mudanças materiais em nosso meio ambiente; e a não ser que tenhamos aqueles poucos homens que combinem uma excepcional sensibilidade com um poder excepcional sobre as palavras, nossa própria habilidade não apenas de exprimir, mas até de sentir mesmo as mais grosseiras emoções, degenerará."

( continua...)

T. S. Eliot, 1943
Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London,
Faber and and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori

quarta-feira, março 16, 2005

no amor e no medo




no amor e no medo as árvores acendem a luz
os remos
a única raiz que nos despe os braços
todos os recados se traçam
inflamam aragens a fundo

não temos mais do que estas margens
para cerzir as cinzas volúveis do mundo

não pedimos mais do que os breves espaços
que se abrem
miraculosamente
entre a alegria e as lágrimas.


mariagomes
2005

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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