sábado, maio 07, 2005

o questionário



O meu amigo e Poeta e conterrâneo José Félix, autor do blog "A Teia de Aranha”, passou-me este questionário para as mãos. E eu vou responder,



Não podendo sair do Farenheit 451, que livro quererias ser?

Um Livro em branco à espera de uma palavra.


Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?

Não propriamente por uma personagem… É comum ficar apanhadinha pelo todo de um romance, ficar lá dentro, sem me apetecer sair!



Qual foi o último livro que compraste?

Dos três que comprei, escolho um: “ eu: seis inconferências “ de E.E. Cummings .


Que livros estás a ler?

Estou a ler “ O Perfume” de Patrick Suskind e “ Cadernos de Poesia” Reprodução Fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias.
È sempre assim, paralelamente ao romance, um livro de Poesia.



Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

Não sei quantos levaria, muitos… mas de certeza que “ O ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e " O Livro do Desassossego” de Bernardo Soares iriam debaixo do braço…



A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

Já muitos fizeram este questionário, com toda a certeza! Num relance passo a estes amigos, porque os leio com prazer : à Maria Azenha do blog “ Pátria d' Água” ao Torquato da Luz do blog Ofício Diário, e à Alma do Beco um blog de bons poetas irmãos de além-mar.





sexta-feira, maio 06, 2005

Quintana, a verdade e a mentira...




Faço parte de algumas Listas de Poesia, é a minha forma de estar net. Tenho amigos, alguns, muitos conhecidos e gosto desse intercâmbio salutar. Isto vem a propósito de, para uma dessas Listas, um amigo ter enviado algumas frases de Mário Quintana, o poeta que encanta porque tem o condão de me transportar para o terreno da infância, e a infância acaba por ser o húmus da verdadeira Poesia.

Quintana disse que “ A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Ora, quando eu era criança, quando ainda nem ler sabia!, eu contava as coisas à minha maneira, misturando a verdade à mentira…. Se é que se pode entender por mentira, a imaginação prodigiosa que uma criança pode ter! Meus pais sabiam destrinçar, na devida altura, as coisas, ouviam-me com toda a atenção... Mas, os meus irmãos não. Muitas vezes, eu era chamada para relatar qualquer facto que tivesse presenciado, e não raras eram as vezes que meus dois irmãos diziam: “ é mentira! tudo o que ela diz é mentira.” Sucede que nem eles, nem eu deixávamos de ter razão. A mentira residia precisamente naquilo que deveria ter acontecido, o pormenor que faltou no que eu tinha visto.

Um belo dia, resolvi contar tudo, sem acrescentar vírgulas. E para meu espanto, de novo, aquela acusação “ é mentira!...” jesus!, como me senti agredida. Gritei então com os dois pulmões: “ Aconteceu verdade!”
Esta frase soou-lhes estranha, e por isso durante algum tempo, meus irmãos, crianças também, riram a bandeiras despregadas. E eu fiquei, claro, mais sozinha do que nunca, com a verdade que tinha acontecido.

mariagomes
maio, 2005

quinta-feira, maio 05, 2005

Livros..... Blaise Cendras


"Retrato de Blaise Cendras", 1924,
de TARSILA DO AMARAL





Há livros que falam do canal do Panamá
Não sei o que dizem os catálogos das bibliotecas
E não ouço os diários das finanças
Embora os boletins da Bolsa sejam a nossa oração quotidiana

O Canal do Panamá está intimamente ligado à minha infância...
Eu brincava debaixo da mesa
Dissecava moscas
Minha mãe contava-me as aventuras dos seus sete irmãos
Dos meus tios
E quando recebia cartas
Deslumbramento!
Cartas com belos selos exóticos que trazem versos de Rimbaud no exergo
Nesse dia já não me contava mais nada
E eu ficava triste debaixo da mesa.
Foi também por essa altura que li a história do tremor de terra de Lisboa
Mas creio bem
Que a derrocada de Panamá é duma importância mais universal
Porque me perturbou a infância.

BLAISE CENDRAS (1887-1961)
Poesia em Viagem



"jamais rastejarei... meu mundo é o universo."


Ludwig van Beethoven

quarta-feira, maio 04, 2005

o dom do azul


uma palavra some
como uma gaivota húmida toca o dom do azul ,
o ardor de não dizer.

eu peço a minha mãe que me diga
ainda a aurora,
que me diga
que a noite se devora
porque eu quero divagar na palavra
com uma infância grande, por viver.


mariagomes
maio.2005

terça-feira, maio 03, 2005





foi este um dos presentes que recebi pelo dia da mãe, um bonito romance, " leve como uma pena", tal como o anunciam. E eu precisava de ler qualquer coisa, assim, tão leve.
Nunca tinha lido nada de Haruki Murakami, gostei, li-o de um só fôlego.


(...)
" Certo?
Certíssimo!

Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons borolentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim. Estico os dedos e ponho-me a olhar fixamente para a palma das mãos, à procura de sinais de sangue. Não encontro nada. Nem o cheiro a sangue, nem resquícios de sangue coagulado. Silenciosamente, sem ninguém dar por isso, deve ter sido absorvido"

"Sputnik meu amor", Haruki Murakami
edição casa das letras

domingo, maio 01, 2005

de asas


foto de Sebastião Salgado




há gestos que se demoram,
cheios de asas
seguram a pureza de segundos.

são os teus, mãe, em todos os mundos.

mariagomes
4 de maio.2003

sexta-feira, abril 29, 2005

a espinal medula




disseram-me
: não escrevas os sabores desse verão,

tens as varandas
de um violino imenso,
a espinal medula, deus e o céu.

lembrei-me, então,
que poderia ter nascido do brilho peregrino
um poeta ateu.

mariagomes
abril.2005

quinta-feira, abril 28, 2005


GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER (1836-1870)




-¿Qué es poesía?- dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul:
¿qué es poesía? ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía... eres tú.


GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER

a ti, Rhea




a ti eu me dirijo, Rhea,
com os tornozelos festivos da última primavera
e da lua rubra
dou-te a noite benéfica de uma criança
toco a marimba da minha mãe crioula.

mariagomes
abril.2005

domingo, abril 17, 2005

hoje ou amanhã



hoje ou amanhã, a lareira apagará o gosto.
acerca disso eu hei-de escrever.
poisarão no meu corpo poemas, nitidamente felizes,
sem palavras.
na assimetria de um entardecer uma pátria qualquer,
uma só flor, uma face
ou um traço definir-me-á.
não sei de que horizonte virá o vento.
nem sei tampouco se do mar lançarei a concha
da alegria côncava da criança.
contudo, eu hei-de escrever - o deserto
as dunas as ameaças e as casas próximas.

mariagomes
16abril.2005

sábado, abril 16, 2005

que a noite vê




deixa-me ter nos poetas idos o silêncio do sol
fazer uma onda
com a força desses dedos
sonhar mais do que um sonho subir o ritmo
amarelecido na maré

deixa-me ler milhões de palavras luz
deixa-me ver as coisas que a noite vê.

mariagomes
abril.2005

sexta-feira, abril 15, 2005




"Os versos são experiências e é preciso ter vivido muito para escrever um só verso."


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, abril 14, 2005

na respiração de um livro



hei-de ter-te na respiração de um livro
e ficar só num poema com um amor que não morreu
como a pálida penumbra
que me habita - casa estéril

inutilmente caiada.

mariagomes
14abril.2004

segunda-feira, abril 11, 2005

E. Bonavena / Angola


(Edward Weston)

1. goteja
a
lâmina
amor!



E. Bonavena
de "Ulcerado de Míngua Lua", Angola, 1987



E. Bonavena, pseudónimo de Nelson Pestana, nascido em Luanda, em 1955.

sábado, abril 09, 2005

com o sangue fixo


a minha pátria divorciou-se das rosas encarnadas
que falavam comigo com o sangue fixo
a arder

a minha pátria caiu sem luta num precipício
consome-se nua

proibida
quer as palavras das loucas incertezas impolutas.


mariagomes
9abril.2005

sexta-feira, abril 08, 2005

os melros



só eu movi os melros na tempestade
elevei a árvore
dos dedos na poesia profana
celebrei as nuvens
na batuta dos maestros
esquecidas
pelas tômbolas da sorte
e na voz de um poeta que disse
que a morte é uma formosa flor ensandecida
só eu arranhei as guelras
como os cachimbos secos dos velhos
a viver do mar

só eu
e o músculo contaminado de um olhar.

mariagomes
7deabril2005

quarta-feira, abril 06, 2005

e a erosão




não posso dizer dos olhos, assim,
contidos nesta manhã inacabada.
há gritos negros e a erosão
branca, nos corpos, abre a luz
cheia de sede.

não fosse esse pedido de palavras,
eu escreveria o poema da paz
que anseia os meus sentidos.
porém, é tarde.
nunca disse que habito uma cidade.
as minhas mãos movem-me.
como ninguém, toco o perfil
melancólico e dócil do fim da minha vida.

mariagomes
6deabril.2005

terça-feira, abril 05, 2005

as romãs e as rosas




podiam ser mais os sinos,
as chuvas, as romãs
e as rosas


podiam ser mais os linhos
entregues ao abraço corroído pelo homem


e serem mais as mães
e os pais
dos meus ramos ágeis.


mariagomes
5deabril.2005

segunda-feira, abril 04, 2005


Holly Roberts



"-Poesia serve para isso.
-Isso, o quê?
-Para esconder o amor, revelando-o.
Como a roupa que esconde o corpo e
revela a forma. "


trecho " de Amor " de Manoel Lobato


http://scripto.weblogger.terra.com.br/

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
Estou no Blog.com.pt

Free Site Counters



Free Site Counters