segunda-feira, maio 30, 2005

pétalas da minha sorte



ó flores magoadas, pétalas da minha sorte,
vinde admiráveis flores entontecer a selvagem indolência,
a morte interior em valsa
: o devaneio,
a palavra do derradeiro pensamento que me conduz.
ó flores viradas para sul, docemente,
o vosso coração é uma roupa
no espaço da criança onde guardo o meu próprio lume.

mariagomes
30.maio.2005

sábado, maio 28, 2005

José Craveirinha

O Fernando Costa que vive à beira do Índico, enviou-me este poema de José Craveirinha. "Um contributo", diz ele, no e-mail que me dirigiu...

Saravá, meu irmão!

mariagomes




Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha
( Moçambique)

sexta-feira, maio 27, 2005

esta música


"serenata " - Autor: António Dacosta (1914 - 1990)


esta música ( esta flor)
ao desamparo
vem de uma longínqua visão acesa
esta música que fechou a brecha da tristeza
rasgou os ossos límpidos dos rios as vinhas das últimas luas.

esta música é uma lágrima
a minha fonte
é
o mar elementar.

(...)


mariagomes
26maio.2005

quinta-feira, maio 26, 2005

Yves Bonnefoy


fotografia de David Hamilton



(...)
Aliás, haverá obra de poesia que tenha alguma vez sido realizada para " comunicar" um sentimento, um conhecimento, um pensamento? Um poeta preocupa-se em inventar, em verificar, e isso é viver, não é dizer - só dirá consequentemente. Assim sendo a sua clareza vai a par dos seus enigmas. Explícito quando deve conhecer-se a si próprio, irá calar aquilo que já sabe. Mas ele é grande justamente por causa dessa solidão que procura. A sua verdade irradia pelas suas vias obscuras. E se o poema acabado é válido para todas as mulheres e todos os homens, é porque o seu autor só quis ser ele mesmo, numa experiência privada" (...)

Yves Bonnefoy
(em " Rimbaud"
edições Cotovia)

terça-feira, maio 24, 2005


" benguela, angola" fotografia de mariagomes




Elle est trouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
avec le soleil.

.......

Foi reencontrada.
O quê? - A Eternidade.
É o mar fugido
Com o sol.

Arthur Rimbaud

( França,1854 - 1891)

" Rimbaud", biografia de Yves bonnefoy
edições cotovia, Lda.
trad. de Filipe Jarro

segunda-feira, maio 23, 2005

de mil folhas

curva a tarde.

quero o tremor das pautas inauditas
a edição de um arminho
o não retorno
na pluma
na rotura que em mim se derrama
sei de um surdo ardor contra a montra
sei de um gosto constante
amo o amanhã que se decide
a raiz anatómica ao arrepio passível de um caminho.

volta ao poema descalço urdindo o barco o branco
o tanto que te abraça.

tenho a plenitude do exemplo mínimo na letra
soletro o dorso do dedo cavo e em consciência
perco-me pelo invólucro
sou herdeira de uma cidade filha de um areal de mil folhas
amo-te consumadamente
como um som suave de contracção
como a sílaba de um cisne dormindo no seu domínio.

mariagomes
23.maio.2005

domingo, maio 22, 2005

a água cinzelada


"O Passeante Invisível"- Autor: Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 1992)




talvez, meu amor, saibamos de nós mais do que pensamos.
percorro a parede da possibilidade.
em simultâneo, o útero do dia seguinte.
num novelo, as palavras irão comover a alegria,
a livre circulação das libélulas sob uma flor reactivada.

talvez, meu amor, ao milímetro, meçam as aves,
a água cinzelada de julho.
a busca microscópica do mundo
ou de um sub mundo inexplicável na cor que, ora começa.

mariagomes
22,maio.2005

sexta-feira, maio 20, 2005

William Shakespeare (1564-1616)





Romeu- (...) E ainda me dizeis que o exílio não é a morte?! Não tínheis vós um veneno activo, um punhal bem afiado, qualquer meio de morte repentina? Não teríeis para me matar senão esta palavra: " desterrado?" " Desterrado"! Essa palavra. Padre, emprega-na os condenados do inferno, acompanhando-a de gemidos. Como é que vós, um confessor espiritual, que absolveis os pecados, e que sois meu amigo declarado, tivestes coragem de me atormentardes com a palavra " desterro"?

Frei Lourenço- Oh insensato! Escuta-me um instante!

Romeu- Oh! Ides falar-me ainda de desterro?

Frei Lourenço- Vou dar-te uma armadura para te livrares dessa palavra. A filosofia, doce leite da adversidade, há-de consolar-te, apesar de desterrado.

Romeu- Apesar de desterrado? Que se enforque a filosofia! Se essa filosofia não pode criar uma Julieta, mudar de lugar uma cidade, revogar a sentença de um príncipe, de nada serve, nada vale. Não me faleis mais nisso.

Frei Lourenço- Agora vejo que os loucos não têm ouvidos.

Romeu- Como haviam eles de ter quando os sábios não têm olhos?
(...)



William Shakespeare

excerto de Acto III, Cena III ," ROMEU E JULIETA"
Colecção dirigida por Urbano Tavares Rodrigues.

os links fogem...


peço desculpa aos meus amigos... realmente este template é melhor para escrever, é melhor para as imagens, mais confortável, mas os links colocados no canto superior esquerdo também me fogem, digo isto porque alguns já me escreveram por esse mesmo motivo...
Não sei como resolver a questão! Alguém sabe de um segredo para agarrar um link, aqui neste blog, quando se abre a respectiva janela?
Estou a ver que terei que reduzir os meus favoritos, coisa que não queria fazer!

abraço a todos
mariagomes

quinta-feira, maio 19, 2005

Ezra Pound e E.E. Cummings...


Ezra Pound



"A Respeito de Ezra Pound - a poesia por acaso é uma arte; e os artistas por acaso são seres humanos.

Um artista não vive uma qualquer abstracção geográfica, superimposta a uma parte deste belo planeta pela inimaginação de inanimais e consagrada à proposição segundo a qual um massacre é uma virtude social porque o assassínio é um vício individual. Nem um artista vive num qualquer soi-disant mundo, nem vive num qualquer suposto "universo". Quanto a algumas ilusões fúteis como o " passado", e o " presente" e o " futuro" de abrir aspas fechar aspas humanidade, podem ser suficientemente grandes para um ou dois biliões de supermecanizados e submentecaptos mas são demasiado pequenos para um ser humano."

O país estritamente ilimitável de cada artista é ele próprio.

Um artista que traia esse país cometeu suicídios; e nem mesmo um bom advogado pode matar os mortos. Mas um ser humano que é verdadeiro por si próprio- quem quer que ele próprio seja - é imortal; e todas as bombas atómicas e todos os antiartistas em tempo espacial jamais civilizarão a imortalidade."

E.E. Cummings
(in " seis inconferências"
assírio & alvim)




e. e. cummings (1894 - 1962)




quarta-feira, maio 18, 2005

&


foto de Peggy Washburn US, b.1963




meti-me pela metáfora como quem anseia o céu.

&
estavam sinos a tocar a ternura mais alta
temporária dos teus dedos.


&
a minha mão foi mais longe
cavou a limpidez acutilante dos campos
nos pirilampos que caíam da luz.


mariagomes
maio,2005

terça-feira, maio 17, 2005

Alejandra Pizarnik





Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?


Alejandra Pizarnik, (Argentina, 1936/1971)

"tapeçaria virtual" de Augusto Mota

segunda-feira, maio 16, 2005

deixo-me iluminar...


deixo-me iluminar pelas grandes construções.
peço o ar às gaivotas, à manhã das açucenas.
tranquilamente táctil,
vou com o pensamento híbrido calar a minha fome.
vou ao fundo de mim,
às marés feitas, às amarras.
levanto-me em todas as calçadas
onde tropeçam toldos,
e uma tarde.
estou numa rua versátil, no início.
esqueci-me das palavras
que entraram inteiras.
e vivo.
creio que ouvi a voz dos animais;
em crivo, a claridade, o cálculo,
a voz da pedra,

o infinito a derramar-se de uma catedral.

mariagomes
maio.2005

antilírica




veio de maio o meu último corpo.
ouvi-me a navegar no leme da lisura.
sentindo a pele

no açaime de uma estrela,
veio a prumo o meu último corpo;
um licor, em arco, que se estendia rubro
ao que de mim faziam parte.
ofereci-lhe a embriaguez
dos braços das areias, a pique,
o primeiro cacto.
veio-me de maio a alma, a lucidez,
eu cravei a carne da canção
na misteriosa missiva das paredes,
a quente, antilírica paixão de frutos verdes.

mariagomes
maio.2005

sexta-feira, maio 13, 2005

à queima-roupa



depois todas as coisas se fizeram
para ti.
havia lágrimas, partículas de lágrimas,
ofício imperecível de gerações mudas.
vida justaposta ao sonho que te apanhou à queima-roupa.
na raiz quadrada onde se põe a lume
a louca transfiguração,
quero inverter um lírio, uma dádiva fortuita;
profundamente literária.
como se me viesse uma vontade iníqua
de perecer húmida na paisagem humana.

mariagomes
13, maio.2005

Camões e Jorge de Sena...



...

Ah falso pensamento, que me enganas!
Fazes-me por a boca onde não devo,
Com palavras de doudo, e quase insanas!
Como alçar-te tão alto assi me atrevo?
Tais asas dou-tas eu, ou tu mas dás?
Levas-me tu a mim, ou eu te levo?
Não poderei eu ir onde tu vás?
Porém, pois ir não posso onde tu fores,
Quando fores, não tornes onde estás.

Luis Vaz de Camões

....

"Aí reside a sua originalidade; aí está o seu mérito de ser um dos mais excepcionais poetas de todos os tempos. A sua grandeza existe e impõe-se por si própria, tanto mais consoladoramente quanto suportamos, de hoje em dia, a sensação ridícula de vivermos num país de notabilidades às dúzias, às grosas, às carradas, tantas são as figuras e os factos comemorados quotidianamente, com frequência quase horária ou uma culposa consciência de colocar um pouco de cevada no rabo do asno morto." (...)

Jorge de Sena



in " cadernos de poesia"
edição campo das letras

segunda-feira, maio 09, 2005

Benito Jerónimo Feijoo




"Lo grande de la poesía es aquella actividad
persuasiva que se mete dentro del alma
y mueve el corazón hacia la parte que quiere el poeta "


Benito Jerónimo Feijoo -
Espanha - 1676-1764

domingo, maio 08, 2005

o futuro arde




Ó bela flor, ó manhã formosa,
há madrugadas extensas no fóssil do meu ser.
lá dentro, o futuro arde.
medieval,
o futuro cede.
e eu não sei deter
de qualquer maneira
o consentimento da voz que te quiser.
as minhas saudades são diagonais,
como demónios de luz
levam-me para trás.

mariagomes
6.maio.2005

sábado, maio 07, 2005

o questionário



O meu amigo e Poeta e conterrâneo José Félix, autor do blog "A Teia de Aranha”, passou-me este questionário para as mãos. E eu vou responder,



Não podendo sair do Farenheit 451, que livro quererias ser?

Um Livro em branco à espera de uma palavra.


Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?

Não propriamente por uma personagem… É comum ficar apanhadinha pelo todo de um romance, ficar lá dentro, sem me apetecer sair!



Qual foi o último livro que compraste?

Dos três que comprei, escolho um: “ eu: seis inconferências “ de E.E. Cummings .


Que livros estás a ler?

Estou a ler “ O Perfume” de Patrick Suskind e “ Cadernos de Poesia” Reprodução Fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias.
È sempre assim, paralelamente ao romance, um livro de Poesia.



Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

Não sei quantos levaria, muitos… mas de certeza que “ O ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e " O Livro do Desassossego” de Bernardo Soares iriam debaixo do braço…



A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

Já muitos fizeram este questionário, com toda a certeza! Num relance passo a estes amigos, porque os leio com prazer : à Maria Azenha do blog “ Pátria d' Água” ao Torquato da Luz do blog Ofício Diário, e à Alma do Beco um blog de bons poetas irmãos de além-mar.





Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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