quarta-feira, junho 08, 2005

Gracias a la vida [ Violeta Parra]*





"Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luzeros e cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre, que yo amo

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oído,
que en todo su ancho
traba noche y da grillos y canarios
martirios, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado

Gracias a la vida,que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abecedario
con él las palavras que pienso y declaro
madre, amigo, hermano y luz alumbrando
la ruta del alma del que estoy amando

Gracias a la vida,que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos
playas y desiertos,montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me dió el corazón que agita su marco
Quando miro el fruto del cerebro humano
quando miro el bueno tan lejos del malo
quando miro el fondo de tus ojos claros

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto
así yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida."


Violeta Parra


*Gracias, Amélia Pais, muchas gracias, por este belo recuerdo que veio refrescar este 8 tão quente!...Coimbra estoira de calor.

mariagomes

" O Papel do Poeta e da Poesia no Mundo"




"enquanto a sociedade mantiver a sua rigidez e as suas múltiplas, patentes ou ocultas, formas de repressão, onde a vida não pode desenvolver-se em toda a plenitude e dignidade, a poesia deverá ser o que ela já é nos mais significativos poetas do nosso tempo: uma afirmação de dignidade e de liberdade humana".(...)
"o poeta moderno, mesmo na sua «déraison» tem razão, porque não testemunha só da anormalidade e da violência do mundo em que vivemos, ele é a afirmação, embora desprezível sob certos pontos de vista, do valor mesmo daquilo que falta aos termos sociais e que, no entanto, constituem o fundamento do homem, da condição humana".

António Ramos Rosa

(in nº22 da Revista " O Tempo e o Modo")

terça-feira, junho 07, 2005

uns chegam cansados da eternidade


Não dissocio a palavra da música. Não dissocio a música da memória porque " memória" é uma palavra muito cara que advém de um silêncio...
- silêncio que é o som que insiste, que bate em mim, interior e exteriormente
:



uns chegam cansados da eternidade.
trazem a mão agarrada
a uma pedra.
falam-me de altas pedras em quebranto.

dêem-me uma palavra.


encontrei um arquipélago
como uma cabeça de malmequeres fendidos.
avessa
como instrumento de angústia

inúmera.
dêem-me uma palavra.
sim o candelabro contínuo
porque eu quero ouvir pelo orifício d’aurora
o sepulto mar que me atravessa.


mariagomes
junho.2005




****

Oráculo


a palavra de espanto
uma flor e um sorriso
trazem telas e um canto
uma margem e um friso.

um claro sul salino
uma pedra no vento
mais um céu opalino
que é do meu sustento.

e na voz peregrina
recolhe o arquipélago
no ramo que declina.

a angústia é um orago
numa fala menina
que anuncia o pressago.

josé félix
2005.06.07



em Escritas





domingo, junho 05, 2005

Pierre Reverdy




o tinto de leite do penacho no momento em que
se agita a praça
Entre as avenidas a estrela
e as casas
Em lugar de gotas de água é o dia que cintila
e voa em volta
O monumento agita-se
A manhã levanta-se e por momentos volta a pôr-se
E quebra-se o dia
A cascata da caserna tem os seus clarins
Nas vozes do céu a que junto
a minha
Tudo é de esperar
Sob as molas que sofre
a sombra rola sem ruído ao fundo
A terra está cheia.

Pierre Reverdy * (1889-1960)
Bruits au réveil, in La Guitarre endormie, 1919


*"Reverdy contribuiu para a construcção do edifício surrealista com a sua reflexão sobre a dificuldade de conciliar o real e o mundo. Jovem, tentou fugir a este mundo, mas depois abraçou-o para melhor se fundir com a natureza e com aquilo e desvendar-lhe os mistérios. ' Ninguém meditou melhor nem soube fazer melhor sobre os meandros profundos da poesia. Nada viria a ser mais importante que as suas teses sobre a imagem poética' reconhecerá mesmo Breton, apesar das opções espirituais e do isolamento deste poeta. A poesia de Reverdy, em busca permanente revisitada, é burilada, simbólica e cheia de delicadeza. " O amor à verdade levado ao extremo na arte, nega-a e destrói. Por isso existe um misterioso limite que o espírito deve saber atingir e não ultrapassar", escreve em Le Grant de Crin ( 1927) colectânea de notas em que previne à cabeça "Notas sobre a arte, que é o homem- o homem, que é Deus, - a religião, que suspende o homem de Deus."

(in ABCedário do Surrealismo, publico.pt)

sexta-feira, junho 03, 2005

das coisas, o perfil

eu prefiro dizer, das coisas, o perfil.
inquietar a sombra, o abismo
que escorre pelos ombros húmidos da noite.
eu prefiro ter a ponte
por onde passa o pranto estupendo
dos deuses, a carne e o sangue.
enquanto falo,
há florestas que se desbastam brutalmente
inclinando o mar
e o rural; há rosas
a nascerem continuadamente, e a minha morte
coberta de rosas.
eu prefiro dizer, das coisas, o perfil.
frequentar o meu corpo em quanto calo.

mariagomes
junho.2005

terça-feira, maio 31, 2005

"Encarcerar a asa"


Sebastião da Gama


"Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há muita asa que não pensa; asas que não sintam é que não.
Mas eu não preciso do símbolo para ver os pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno. Para que vivemos no mundo há tanto tempo, se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma?... Até os das fábulas, quando calha... Ora pensem lá um bocadinho no " Leão Moribundo"... É um leão mesmo, ou é principalmente um leão. Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!
Asa encarcerada não. Nem asa de pássaro nem asa de grilo. Uma fê-la o Senhor e disse-lhe: " Voa!" À outra: " Canta!" A nenhuma ( nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse numa gaiola. No entanto é a gaiola o domicílio habitual muito habitual do pássaro e do grilo. Ao grilo prendem-no as crianças, sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os pais sob o sorriso dos filhos. Má escola esta. Principalmente porque se diz: "Que bem que canta!, Que bem que canta!". Nem se chega a aprender a diferença que vai do canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado canta lá?!... Os pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, nas beiras do telhado... Os grilos é na toca ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros."

Sebastião da Gama
O segredo é amar ( 1947)


Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, em 10 de Abril de 1924, e faleceu em Lisboa em 1952. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido professor durante dois anos na Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Desde a juventude atingido pela tuberculose, foi, por prescrição médica, viver para a Arrábida. Obras: Serra-Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951), Pelo Sonho é que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967 – compilação de David Mourão-Ferreira), O Segredo é Amar (1969).

segunda-feira, maio 30, 2005

pétalas da minha sorte



ó flores magoadas, pétalas da minha sorte,
vinde admiráveis flores entontecer a selvagem indolência,
a morte interior em valsa
: o devaneio,
a palavra do derradeiro pensamento que me conduz.
ó flores viradas para sul, docemente,
o vosso coração é uma roupa
no espaço da criança onde guardo o meu próprio lume.

mariagomes
30.maio.2005

sábado, maio 28, 2005

José Craveirinha

O Fernando Costa que vive à beira do Índico, enviou-me este poema de José Craveirinha. "Um contributo", diz ele, no e-mail que me dirigiu...

Saravá, meu irmão!

mariagomes




Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha
( Moçambique)

sexta-feira, maio 27, 2005

esta música


"serenata " - Autor: António Dacosta (1914 - 1990)


esta música ( esta flor)
ao desamparo
vem de uma longínqua visão acesa
esta música que fechou a brecha da tristeza
rasgou os ossos límpidos dos rios as vinhas das últimas luas.

esta música é uma lágrima
a minha fonte
é
o mar elementar.

(...)


mariagomes
26maio.2005

quinta-feira, maio 26, 2005

Yves Bonnefoy


fotografia de David Hamilton



(...)
Aliás, haverá obra de poesia que tenha alguma vez sido realizada para " comunicar" um sentimento, um conhecimento, um pensamento? Um poeta preocupa-se em inventar, em verificar, e isso é viver, não é dizer - só dirá consequentemente. Assim sendo a sua clareza vai a par dos seus enigmas. Explícito quando deve conhecer-se a si próprio, irá calar aquilo que já sabe. Mas ele é grande justamente por causa dessa solidão que procura. A sua verdade irradia pelas suas vias obscuras. E se o poema acabado é válido para todas as mulheres e todos os homens, é porque o seu autor só quis ser ele mesmo, numa experiência privada" (...)

Yves Bonnefoy
(em " Rimbaud"
edições Cotovia)

terça-feira, maio 24, 2005


" benguela, angola" fotografia de mariagomes




Elle est trouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
avec le soleil.

.......

Foi reencontrada.
O quê? - A Eternidade.
É o mar fugido
Com o sol.

Arthur Rimbaud

( França,1854 - 1891)

" Rimbaud", biografia de Yves bonnefoy
edições cotovia, Lda.
trad. de Filipe Jarro

segunda-feira, maio 23, 2005

de mil folhas

curva a tarde.

quero o tremor das pautas inauditas
a edição de um arminho
o não retorno
na pluma
na rotura que em mim se derrama
sei de um surdo ardor contra a montra
sei de um gosto constante
amo o amanhã que se decide
a raiz anatómica ao arrepio passível de um caminho.

volta ao poema descalço urdindo o barco o branco
o tanto que te abraça.

tenho a plenitude do exemplo mínimo na letra
soletro o dorso do dedo cavo e em consciência
perco-me pelo invólucro
sou herdeira de uma cidade filha de um areal de mil folhas
amo-te consumadamente
como um som suave de contracção
como a sílaba de um cisne dormindo no seu domínio.

mariagomes
23.maio.2005

domingo, maio 22, 2005

a água cinzelada


"O Passeante Invisível"- Autor: Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 1992)




talvez, meu amor, saibamos de nós mais do que pensamos.
percorro a parede da possibilidade.
em simultâneo, o útero do dia seguinte.
num novelo, as palavras irão comover a alegria,
a livre circulação das libélulas sob uma flor reactivada.

talvez, meu amor, ao milímetro, meçam as aves,
a água cinzelada de julho.
a busca microscópica do mundo
ou de um sub mundo inexplicável na cor que, ora começa.

mariagomes
22,maio.2005

sexta-feira, maio 20, 2005

William Shakespeare (1564-1616)





Romeu- (...) E ainda me dizeis que o exílio não é a morte?! Não tínheis vós um veneno activo, um punhal bem afiado, qualquer meio de morte repentina? Não teríeis para me matar senão esta palavra: " desterrado?" " Desterrado"! Essa palavra. Padre, emprega-na os condenados do inferno, acompanhando-a de gemidos. Como é que vós, um confessor espiritual, que absolveis os pecados, e que sois meu amigo declarado, tivestes coragem de me atormentardes com a palavra " desterro"?

Frei Lourenço- Oh insensato! Escuta-me um instante!

Romeu- Oh! Ides falar-me ainda de desterro?

Frei Lourenço- Vou dar-te uma armadura para te livrares dessa palavra. A filosofia, doce leite da adversidade, há-de consolar-te, apesar de desterrado.

Romeu- Apesar de desterrado? Que se enforque a filosofia! Se essa filosofia não pode criar uma Julieta, mudar de lugar uma cidade, revogar a sentença de um príncipe, de nada serve, nada vale. Não me faleis mais nisso.

Frei Lourenço- Agora vejo que os loucos não têm ouvidos.

Romeu- Como haviam eles de ter quando os sábios não têm olhos?
(...)



William Shakespeare

excerto de Acto III, Cena III ," ROMEU E JULIETA"
Colecção dirigida por Urbano Tavares Rodrigues.

os links fogem...


peço desculpa aos meus amigos... realmente este template é melhor para escrever, é melhor para as imagens, mais confortável, mas os links colocados no canto superior esquerdo também me fogem, digo isto porque alguns já me escreveram por esse mesmo motivo...
Não sei como resolver a questão! Alguém sabe de um segredo para agarrar um link, aqui neste blog, quando se abre a respectiva janela?
Estou a ver que terei que reduzir os meus favoritos, coisa que não queria fazer!

abraço a todos
mariagomes

quinta-feira, maio 19, 2005

Ezra Pound e E.E. Cummings...


Ezra Pound



"A Respeito de Ezra Pound - a poesia por acaso é uma arte; e os artistas por acaso são seres humanos.

Um artista não vive uma qualquer abstracção geográfica, superimposta a uma parte deste belo planeta pela inimaginação de inanimais e consagrada à proposição segundo a qual um massacre é uma virtude social porque o assassínio é um vício individual. Nem um artista vive num qualquer soi-disant mundo, nem vive num qualquer suposto "universo". Quanto a algumas ilusões fúteis como o " passado", e o " presente" e o " futuro" de abrir aspas fechar aspas humanidade, podem ser suficientemente grandes para um ou dois biliões de supermecanizados e submentecaptos mas são demasiado pequenos para um ser humano."

O país estritamente ilimitável de cada artista é ele próprio.

Um artista que traia esse país cometeu suicídios; e nem mesmo um bom advogado pode matar os mortos. Mas um ser humano que é verdadeiro por si próprio- quem quer que ele próprio seja - é imortal; e todas as bombas atómicas e todos os antiartistas em tempo espacial jamais civilizarão a imortalidade."

E.E. Cummings
(in " seis inconferências"
assírio & alvim)




e. e. cummings (1894 - 1962)




quarta-feira, maio 18, 2005

&


foto de Peggy Washburn US, b.1963




meti-me pela metáfora como quem anseia o céu.

&
estavam sinos a tocar a ternura mais alta
temporária dos teus dedos.


&
a minha mão foi mais longe
cavou a limpidez acutilante dos campos
nos pirilampos que caíam da luz.


mariagomes
maio,2005

terça-feira, maio 17, 2005

Alejandra Pizarnik





Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?


Alejandra Pizarnik, (Argentina, 1936/1971)

"tapeçaria virtual" de Augusto Mota

segunda-feira, maio 16, 2005

deixo-me iluminar...


deixo-me iluminar pelas grandes construções.
peço o ar às gaivotas, à manhã das açucenas.
tranquilamente táctil,
vou com o pensamento híbrido calar a minha fome.
vou ao fundo de mim,
às marés feitas, às amarras.
levanto-me em todas as calçadas
onde tropeçam toldos,
e uma tarde.
estou numa rua versátil, no início.
esqueci-me das palavras
que entraram inteiras.
e vivo.
creio que ouvi a voz dos animais;
em crivo, a claridade, o cálculo,
a voz da pedra,

o infinito a derramar-se de uma catedral.

mariagomes
maio.2005

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
Estou no Blog.com.pt

Free Site Counters



Free Site Counters