terça-feira, maio 31, 2005

"Encarcerar a asa"


Sebastião da Gama


"Encarcerar a asa é encarcerar a alma. Isso sim. É que há muita asa que não pensa; asas que não sintam é que não.
Mas eu não preciso do símbolo para ver os pássaros na gaiola. Basta-me ser fraterno. Para que vivemos no mundo há tanto tempo, se não sabemos ainda que os bichos são criaturas com alma?... Até os das fábulas, quando calha... Ora pensem lá um bocadinho no " Leão Moribundo"... É um leão mesmo, ou é principalmente um leão. Quantas vezes se esquecem os fabulistas de que era de homens que queriam falar!
Asa encarcerada não. Nem asa de pássaro nem asa de grilo. Uma fê-la o Senhor e disse-lhe: " Voa!" À outra: " Canta!" A nenhuma ( nem a nós deu a ordem, claro está) que se metesse numa gaiola. No entanto é a gaiola o domicílio habitual muito habitual do pássaro e do grilo. Ao grilo prendem-no as crianças, sob o sorriso dos pais. Ao pássaro os pais sob o sorriso dos filhos. Má escola esta. Principalmente porque se diz: "Que bem que canta!, Que bem que canta!". Nem se chega a aprender a diferença que vai do canto ao choro. Pois um pássaro encarcerado canta lá?!... Os pássaros cantam é nas linhas do telefone, nas árvores, nas beiras do telhado... Os grilos é na toca ou ao pé da serralha. Na gaiola choram. É o fado dos ferros."

Sebastião da Gama
O segredo é amar ( 1947)


Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, em 10 de Abril de 1924, e faleceu em Lisboa em 1952. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, tendo sido professor durante dois anos na Escola Industrial e Comercial de Estremoz. Desde a juventude atingido pela tuberculose, foi, por prescrição médica, viver para a Arrábida. Obras: Serra-Mãe (1945), Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946), Cabo da Boa Esperança (1947), Campo Aberto (1951), Pelo Sonho é que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967 – compilação de David Mourão-Ferreira), O Segredo é Amar (1969).

segunda-feira, maio 30, 2005

pétalas da minha sorte



ó flores magoadas, pétalas da minha sorte,
vinde admiráveis flores entontecer a selvagem indolência,
a morte interior em valsa
: o devaneio,
a palavra do derradeiro pensamento que me conduz.
ó flores viradas para sul, docemente,
o vosso coração é uma roupa
no espaço da criança onde guardo o meu próprio lume.

mariagomes
30.maio.2005

sábado, maio 28, 2005

José Craveirinha

O Fernando Costa que vive à beira do Índico, enviou-me este poema de José Craveirinha. "Um contributo", diz ele, no e-mail que me dirigiu...

Saravá, meu irmão!

mariagomes




Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha
( Moçambique)

sexta-feira, maio 27, 2005

esta música


"serenata " - Autor: António Dacosta (1914 - 1990)


esta música ( esta flor)
ao desamparo
vem de uma longínqua visão acesa
esta música que fechou a brecha da tristeza
rasgou os ossos límpidos dos rios as vinhas das últimas luas.

esta música é uma lágrima
a minha fonte
é
o mar elementar.

(...)


mariagomes
26maio.2005

quinta-feira, maio 26, 2005

Yves Bonnefoy


fotografia de David Hamilton



(...)
Aliás, haverá obra de poesia que tenha alguma vez sido realizada para " comunicar" um sentimento, um conhecimento, um pensamento? Um poeta preocupa-se em inventar, em verificar, e isso é viver, não é dizer - só dirá consequentemente. Assim sendo a sua clareza vai a par dos seus enigmas. Explícito quando deve conhecer-se a si próprio, irá calar aquilo que já sabe. Mas ele é grande justamente por causa dessa solidão que procura. A sua verdade irradia pelas suas vias obscuras. E se o poema acabado é válido para todas as mulheres e todos os homens, é porque o seu autor só quis ser ele mesmo, numa experiência privada" (...)

Yves Bonnefoy
(em " Rimbaud"
edições Cotovia)

terça-feira, maio 24, 2005


" benguela, angola" fotografia de mariagomes




Elle est trouvée.
Quoi? - L'Éternité.
C'est la mer allée
avec le soleil.

.......

Foi reencontrada.
O quê? - A Eternidade.
É o mar fugido
Com o sol.

Arthur Rimbaud

( França,1854 - 1891)

" Rimbaud", biografia de Yves bonnefoy
edições cotovia, Lda.
trad. de Filipe Jarro

segunda-feira, maio 23, 2005

de mil folhas

curva a tarde.

quero o tremor das pautas inauditas
a edição de um arminho
o não retorno
na pluma
na rotura que em mim se derrama
sei de um surdo ardor contra a montra
sei de um gosto constante
amo o amanhã que se decide
a raiz anatómica ao arrepio passível de um caminho.

volta ao poema descalço urdindo o barco o branco
o tanto que te abraça.

tenho a plenitude do exemplo mínimo na letra
soletro o dorso do dedo cavo e em consciência
perco-me pelo invólucro
sou herdeira de uma cidade filha de um areal de mil folhas
amo-te consumadamente
como um som suave de contracção
como a sílaba de um cisne dormindo no seu domínio.

mariagomes
23.maio.2005

domingo, maio 22, 2005

a água cinzelada


"O Passeante Invisível"- Autor: Maria Helena Vieira da Silva (1908 - 1992)




talvez, meu amor, saibamos de nós mais do que pensamos.
percorro a parede da possibilidade.
em simultâneo, o útero do dia seguinte.
num novelo, as palavras irão comover a alegria,
a livre circulação das libélulas sob uma flor reactivada.

talvez, meu amor, ao milímetro, meçam as aves,
a água cinzelada de julho.
a busca microscópica do mundo
ou de um sub mundo inexplicável na cor que, ora começa.

mariagomes
22,maio.2005

sexta-feira, maio 20, 2005

William Shakespeare (1564-1616)





Romeu- (...) E ainda me dizeis que o exílio não é a morte?! Não tínheis vós um veneno activo, um punhal bem afiado, qualquer meio de morte repentina? Não teríeis para me matar senão esta palavra: " desterrado?" " Desterrado"! Essa palavra. Padre, emprega-na os condenados do inferno, acompanhando-a de gemidos. Como é que vós, um confessor espiritual, que absolveis os pecados, e que sois meu amigo declarado, tivestes coragem de me atormentardes com a palavra " desterro"?

Frei Lourenço- Oh insensato! Escuta-me um instante!

Romeu- Oh! Ides falar-me ainda de desterro?

Frei Lourenço- Vou dar-te uma armadura para te livrares dessa palavra. A filosofia, doce leite da adversidade, há-de consolar-te, apesar de desterrado.

Romeu- Apesar de desterrado? Que se enforque a filosofia! Se essa filosofia não pode criar uma Julieta, mudar de lugar uma cidade, revogar a sentença de um príncipe, de nada serve, nada vale. Não me faleis mais nisso.

Frei Lourenço- Agora vejo que os loucos não têm ouvidos.

Romeu- Como haviam eles de ter quando os sábios não têm olhos?
(...)



William Shakespeare

excerto de Acto III, Cena III ," ROMEU E JULIETA"
Colecção dirigida por Urbano Tavares Rodrigues.

os links fogem...


peço desculpa aos meus amigos... realmente este template é melhor para escrever, é melhor para as imagens, mais confortável, mas os links colocados no canto superior esquerdo também me fogem, digo isto porque alguns já me escreveram por esse mesmo motivo...
Não sei como resolver a questão! Alguém sabe de um segredo para agarrar um link, aqui neste blog, quando se abre a respectiva janela?
Estou a ver que terei que reduzir os meus favoritos, coisa que não queria fazer!

abraço a todos
mariagomes

quinta-feira, maio 19, 2005

Ezra Pound e E.E. Cummings...


Ezra Pound



"A Respeito de Ezra Pound - a poesia por acaso é uma arte; e os artistas por acaso são seres humanos.

Um artista não vive uma qualquer abstracção geográfica, superimposta a uma parte deste belo planeta pela inimaginação de inanimais e consagrada à proposição segundo a qual um massacre é uma virtude social porque o assassínio é um vício individual. Nem um artista vive num qualquer soi-disant mundo, nem vive num qualquer suposto "universo". Quanto a algumas ilusões fúteis como o " passado", e o " presente" e o " futuro" de abrir aspas fechar aspas humanidade, podem ser suficientemente grandes para um ou dois biliões de supermecanizados e submentecaptos mas são demasiado pequenos para um ser humano."

O país estritamente ilimitável de cada artista é ele próprio.

Um artista que traia esse país cometeu suicídios; e nem mesmo um bom advogado pode matar os mortos. Mas um ser humano que é verdadeiro por si próprio- quem quer que ele próprio seja - é imortal; e todas as bombas atómicas e todos os antiartistas em tempo espacial jamais civilizarão a imortalidade."

E.E. Cummings
(in " seis inconferências"
assírio & alvim)




e. e. cummings (1894 - 1962)




quarta-feira, maio 18, 2005

&


foto de Peggy Washburn US, b.1963




meti-me pela metáfora como quem anseia o céu.

&
estavam sinos a tocar a ternura mais alta
temporária dos teus dedos.


&
a minha mão foi mais longe
cavou a limpidez acutilante dos campos
nos pirilampos que caíam da luz.


mariagomes
maio,2005

terça-feira, maio 17, 2005

Alejandra Pizarnik





Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão, comerei?


Alejandra Pizarnik, (Argentina, 1936/1971)

"tapeçaria virtual" de Augusto Mota

segunda-feira, maio 16, 2005

deixo-me iluminar...


deixo-me iluminar pelas grandes construções.
peço o ar às gaivotas, à manhã das açucenas.
tranquilamente táctil,
vou com o pensamento híbrido calar a minha fome.
vou ao fundo de mim,
às marés feitas, às amarras.
levanto-me em todas as calçadas
onde tropeçam toldos,
e uma tarde.
estou numa rua versátil, no início.
esqueci-me das palavras
que entraram inteiras.
e vivo.
creio que ouvi a voz dos animais;
em crivo, a claridade, o cálculo,
a voz da pedra,

o infinito a derramar-se de uma catedral.

mariagomes
maio.2005

antilírica




veio de maio o meu último corpo.
ouvi-me a navegar no leme da lisura.
sentindo a pele

no açaime de uma estrela,
veio a prumo o meu último corpo;
um licor, em arco, que se estendia rubro
ao que de mim faziam parte.
ofereci-lhe a embriaguez
dos braços das areias, a pique,
o primeiro cacto.
veio-me de maio a alma, a lucidez,
eu cravei a carne da canção
na misteriosa missiva das paredes,
a quente, antilírica paixão de frutos verdes.

mariagomes
maio.2005

sexta-feira, maio 13, 2005

à queima-roupa



depois todas as coisas se fizeram
para ti.
havia lágrimas, partículas de lágrimas,
ofício imperecível de gerações mudas.
vida justaposta ao sonho que te apanhou à queima-roupa.
na raiz quadrada onde se põe a lume
a louca transfiguração,
quero inverter um lírio, uma dádiva fortuita;
profundamente literária.
como se me viesse uma vontade iníqua
de perecer húmida na paisagem humana.

mariagomes
13, maio.2005

Camões e Jorge de Sena...



...

Ah falso pensamento, que me enganas!
Fazes-me por a boca onde não devo,
Com palavras de doudo, e quase insanas!
Como alçar-te tão alto assi me atrevo?
Tais asas dou-tas eu, ou tu mas dás?
Levas-me tu a mim, ou eu te levo?
Não poderei eu ir onde tu vás?
Porém, pois ir não posso onde tu fores,
Quando fores, não tornes onde estás.

Luis Vaz de Camões

....

"Aí reside a sua originalidade; aí está o seu mérito de ser um dos mais excepcionais poetas de todos os tempos. A sua grandeza existe e impõe-se por si própria, tanto mais consoladoramente quanto suportamos, de hoje em dia, a sensação ridícula de vivermos num país de notabilidades às dúzias, às grosas, às carradas, tantas são as figuras e os factos comemorados quotidianamente, com frequência quase horária ou uma culposa consciência de colocar um pouco de cevada no rabo do asno morto." (...)

Jorge de Sena



in " cadernos de poesia"
edição campo das letras

segunda-feira, maio 09, 2005

Benito Jerónimo Feijoo




"Lo grande de la poesía es aquella actividad
persuasiva que se mete dentro del alma
y mueve el corazón hacia la parte que quiere el poeta "


Benito Jerónimo Feijoo -
Espanha - 1676-1764

domingo, maio 08, 2005

o futuro arde




Ó bela flor, ó manhã formosa,
há madrugadas extensas no fóssil do meu ser.
lá dentro, o futuro arde.
medieval,
o futuro cede.
e eu não sei deter
de qualquer maneira
o consentimento da voz que te quiser.
as minhas saudades são diagonais,
como demónios de luz
levam-me para trás.

mariagomes
6.maio.2005

sábado, maio 07, 2005

o questionário



O meu amigo e Poeta e conterrâneo José Félix, autor do blog "A Teia de Aranha”, passou-me este questionário para as mãos. E eu vou responder,



Não podendo sair do Farenheit 451, que livro quererias ser?

Um Livro em branco à espera de uma palavra.


Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?

Não propriamente por uma personagem… É comum ficar apanhadinha pelo todo de um romance, ficar lá dentro, sem me apetecer sair!



Qual foi o último livro que compraste?

Dos três que comprei, escolho um: “ eu: seis inconferências “ de E.E. Cummings .


Que livros estás a ler?

Estou a ler “ O Perfume” de Patrick Suskind e “ Cadernos de Poesia” Reprodução Fac-similada dirigida por Luís Adriano Carlos e Joana Matos Frias.
È sempre assim, paralelamente ao romance, um livro de Poesia.



Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

Não sei quantos levaria, muitos… mas de certeza que “ O ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e " O Livro do Desassossego” de Bernardo Soares iriam debaixo do braço…



A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

Já muitos fizeram este questionário, com toda a certeza! Num relance passo a estes amigos, porque os leio com prazer : à Maria Azenha do blog “ Pátria d' Água” ao Torquato da Luz do blog Ofício Diário, e à Alma do Beco um blog de bons poetas irmãos de além-mar.





sexta-feira, maio 06, 2005

Quintana, a verdade e a mentira...




Faço parte de algumas Listas de Poesia, é a minha forma de estar net. Tenho amigos, alguns, muitos conhecidos e gosto desse intercâmbio salutar. Isto vem a propósito de, para uma dessas Listas, um amigo ter enviado algumas frases de Mário Quintana, o poeta que encanta porque tem o condão de me transportar para o terreno da infância, e a infância acaba por ser o húmus da verdadeira Poesia.

Quintana disse que “ A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Ora, quando eu era criança, quando ainda nem ler sabia!, eu contava as coisas à minha maneira, misturando a verdade à mentira…. Se é que se pode entender por mentira, a imaginação prodigiosa que uma criança pode ter! Meus pais sabiam destrinçar, na devida altura, as coisas, ouviam-me com toda a atenção... Mas, os meus irmãos não. Muitas vezes, eu era chamada para relatar qualquer facto que tivesse presenciado, e não raras eram as vezes que meus dois irmãos diziam: “ é mentira! tudo o que ela diz é mentira.” Sucede que nem eles, nem eu deixávamos de ter razão. A mentira residia precisamente naquilo que deveria ter acontecido, o pormenor que faltou no que eu tinha visto.

Um belo dia, resolvi contar tudo, sem acrescentar vírgulas. E para meu espanto, de novo, aquela acusação “ é mentira!...” jesus!, como me senti agredida. Gritei então com os dois pulmões: “ Aconteceu verdade!”
Esta frase soou-lhes estranha, e por isso durante algum tempo, meus irmãos, crianças também, riram a bandeiras despregadas. E eu fiquei, claro, mais sozinha do que nunca, com a verdade que tinha acontecido.

mariagomes
maio, 2005

quinta-feira, maio 05, 2005

Livros..... Blaise Cendras


"Retrato de Blaise Cendras", 1924,
de TARSILA DO AMARAL





Há livros que falam do canal do Panamá
Não sei o que dizem os catálogos das bibliotecas
E não ouço os diários das finanças
Embora os boletins da Bolsa sejam a nossa oração quotidiana

O Canal do Panamá está intimamente ligado à minha infância...
Eu brincava debaixo da mesa
Dissecava moscas
Minha mãe contava-me as aventuras dos seus sete irmãos
Dos meus tios
E quando recebia cartas
Deslumbramento!
Cartas com belos selos exóticos que trazem versos de Rimbaud no exergo
Nesse dia já não me contava mais nada
E eu ficava triste debaixo da mesa.
Foi também por essa altura que li a história do tremor de terra de Lisboa
Mas creio bem
Que a derrocada de Panamá é duma importância mais universal
Porque me perturbou a infância.

BLAISE CENDRAS (1887-1961)
Poesia em Viagem



"jamais rastejarei... meu mundo é o universo."


Ludwig van Beethoven

quarta-feira, maio 04, 2005

o dom do azul


uma palavra some
como uma gaivota húmida toca o dom do azul ,
o ardor de não dizer.

eu peço a minha mãe que me diga
ainda a aurora,
que me diga
que a noite se devora
porque eu quero divagar na palavra
com uma infância grande, por viver.


mariagomes
maio.2005

terça-feira, maio 03, 2005





foi este um dos presentes que recebi pelo dia da mãe, um bonito romance, " leve como uma pena", tal como o anunciam. E eu precisava de ler qualquer coisa, assim, tão leve.
Nunca tinha lido nada de Haruki Murakami, gostei, li-o de um só fôlego.


(...)
" Certo?
Certíssimo!

Salto da cama. Corro as velhas cortinas desbotadas e abro a janela. Ponho a cabeça de fora e ergo os olhos para o céu. Lá está ela, uma meia lua em tons borolentos, pendurada no céu. Que bom. Estamos ambos a olhar a mesma Lua do mesmo mundo. Estamos ligados à realidade através do mesmo fio. Só preciso de o ir puxando devagarinho para mim. Estico os dedos e ponho-me a olhar fixamente para a palma das mãos, à procura de sinais de sangue. Não encontro nada. Nem o cheiro a sangue, nem resquícios de sangue coagulado. Silenciosamente, sem ninguém dar por isso, deve ter sido absorvido"

"Sputnik meu amor", Haruki Murakami
edição casa das letras

domingo, maio 01, 2005

de asas


foto de Sebastião Salgado




há gestos que se demoram,
cheios de asas
seguram a pureza de segundos.

são os teus, mãe, em todos os mundos.

mariagomes
4 de maio.2003

sexta-feira, abril 29, 2005

a espinal medula




disseram-me
: não escrevas os sabores desse verão,

tens as varandas
de um violino imenso,
a espinal medula, deus e o céu.

lembrei-me, então,
que poderia ter nascido do brilho peregrino
um poeta ateu.

mariagomes
abril.2005

quinta-feira, abril 28, 2005


GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER (1836-1870)




-¿Qué es poesía?- dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul:
¿qué es poesía? ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía... eres tú.


GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER

a ti, Rhea




a ti eu me dirijo, Rhea,
com os tornozelos festivos da última primavera
e da lua rubra
dou-te a noite benéfica de uma criança
toco a marimba da minha mãe crioula.

mariagomes
abril.2005

domingo, abril 17, 2005

hoje ou amanhã



hoje ou amanhã, a lareira apagará o gosto.
acerca disso eu hei-de escrever.
poisarão no meu corpo poemas, nitidamente felizes,
sem palavras.
na assimetria de um entardecer uma pátria qualquer,
uma só flor, uma face
ou um traço definir-me-á.
não sei de que horizonte virá o vento.
nem sei tampouco se do mar lançarei a concha
da alegria côncava da criança.
contudo, eu hei-de escrever - o deserto
as dunas as ameaças e as casas próximas.

mariagomes
16abril.2005

sábado, abril 16, 2005

que a noite vê




deixa-me ter nos poetas idos o silêncio do sol
fazer uma onda
com a força desses dedos
sonhar mais do que um sonho subir o ritmo
amarelecido na maré

deixa-me ler milhões de palavras luz
deixa-me ver as coisas que a noite vê.

mariagomes
abril.2005

sexta-feira, abril 15, 2005




"Os versos são experiências e é preciso ter vivido muito para escrever um só verso."


Rainer Maria Rilke

quinta-feira, abril 14, 2005

na respiração de um livro



hei-de ter-te na respiração de um livro
e ficar só num poema com um amor que não morreu
como a pálida penumbra
que me habita - casa estéril

inutilmente caiada.

mariagomes
14abril.2004

segunda-feira, abril 11, 2005

E. Bonavena / Angola


(Edward Weston)

1. goteja
a
lâmina
amor!



E. Bonavena
de "Ulcerado de Míngua Lua", Angola, 1987



E. Bonavena, pseudónimo de Nelson Pestana, nascido em Luanda, em 1955.

sábado, abril 09, 2005

com o sangue fixo


a minha pátria divorciou-se das rosas encarnadas
que falavam comigo com o sangue fixo
a arder

a minha pátria caiu sem luta num precipício
consome-se nua

proibida
quer as palavras das loucas incertezas impolutas.


mariagomes
9abril.2005

sexta-feira, abril 08, 2005

os melros



só eu movi os melros na tempestade
elevei a árvore
dos dedos na poesia profana
celebrei as nuvens
na batuta dos maestros
esquecidas
pelas tômbolas da sorte
e na voz de um poeta que disse
que a morte é uma formosa flor ensandecida
só eu arranhei as guelras
como os cachimbos secos dos velhos
a viver do mar

só eu
e o músculo contaminado de um olhar.

mariagomes
7deabril2005

quarta-feira, abril 06, 2005

e a erosão




não posso dizer dos olhos, assim,
contidos nesta manhã inacabada.
há gritos negros e a erosão
branca, nos corpos, abre a luz
cheia de sede.

não fosse esse pedido de palavras,
eu escreveria o poema da paz
que anseia os meus sentidos.
porém, é tarde.
nunca disse que habito uma cidade.
as minhas mãos movem-me.
como ninguém, toco o perfil
melancólico e dócil do fim da minha vida.

mariagomes
6deabril.2005

terça-feira, abril 05, 2005

as romãs e as rosas




podiam ser mais os sinos,
as chuvas, as romãs
e as rosas


podiam ser mais os linhos
entregues ao abraço corroído pelo homem


e serem mais as mães
e os pais
dos meus ramos ágeis.


mariagomes
5deabril.2005

segunda-feira, abril 04, 2005


Holly Roberts



"-Poesia serve para isso.
-Isso, o quê?
-Para esconder o amor, revelando-o.
Como a roupa que esconde o corpo e
revela a forma. "


trecho " de Amor " de Manoel Lobato


http://scripto.weblogger.terra.com.br/

domingo, abril 03, 2005

esse anjo eterno



do sol vem esse anjo eterno que torna em música
a impressão telúrica
de ser em simultâneo água
de um ramo só
do sol eu tenho o solo idolatrado
os olhos importando das miragens um desespero frágil
e o som
a parecer-se quase com o minério
como uma súplica ou uma lágrima litúrgica.


mariagomes
3abril.2005, 18 h

tenho que escrever




tenho que escrever um poema deitado
na noite farta
apagando o candeeiro
que nos conduz à plataforma fria do asfalto
um poema sem culatra
na terra
um poema que não cale a lezíria
sobretudo que não fale
da guerra.

mariagomes
abril.2005

sábado, abril 02, 2005

Flaubert

"A linguagem é uma chaleira rachada que batemos para fazer os ursos dançarem. Quando o que queríamos mesmo era mexer com a clemência das estrelas. "

Gustave Flaubert (França,1821-1880).

quinta-feira, março 31, 2005

José António Gonçalves (N.13.06.54 F.29.03.05)




" ...
dêem-me o vosso arado. deixai-me cultivar vossas terras
áridas, vossos desertos secos. deixai-me soçobrar
nos vossos barcos náufragos. deixai-me criar epitáfios
fogueiras, lendas. deixai-me com os vossos filhos vagando pelas
montanhas, pela lã das ovelhas. pelas
ventanias. deixai-me construir um ruído mudo de silêncio
uma voz calada, mais vibrante que esta branda fala
para dizer-vos um poema sou poeta nasci rosa
no orvalho transparente das manhãs."

José António Gonçalves
(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)
PORTO SANTO, VERÃO DE 1973

com um pássaro no coração




olha não é possível que regressem as buganvílias da vida
há o nada a manhã terrível a treva
que afoga a paisagem
que nos oferecem os comboios
de um abismo final ou
uma faca de palavras numa entrega

olha tremem difíceis as feições
de um território jazem janelas a cheirar a sol
e eu estou aqui com um pássaro no coração em ferida.

mariagomes
31março.2005, 17h


e a expressão



onde a rosa? onde o cravo? e a expressão
apensa de um jardim?
oiço um rumor a água tensa
de um trago de amor animal e delicado
oiço um recado
sereníssima
vou buscar a noite e tranco-a dentro de mim.


mariagomes
março.2005

segunda-feira, março 28, 2005




"Não há pergunta sobre o para quê de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido de ser é o ser. "

Vergílio Ferreira (1916-1997)

domingo, março 27, 2005

nada de novo




lamento, amigo, não trazer nada de novo.
nem a procura é intensa
nem o encontro de um nome nos diz seja o que for.
as mesas permanecem
à espera dos retratos da família.

e os livros guardam toda a poesia.

mariagomes
27março.2005

sexta-feira, março 25, 2005

as fogueiras de Pavese




estão prontas as fogueiras de Pavese
vertem-se os sinais
as chamas
que as portas atravessam
e a voz estática nas nuvens
clama
está pronto o livre exílio
do mar
este navio onde morri e vivo.


mariagomes
março.2005




"Algo sobreviveu no meio das ruínas. Algo acessível e próximo: a linguagem. Contudo, a própria linguagem teve que se erguer por entre as suas próprias ruínas, salvar os espaços em que se quedou mudo o horror, por entre as mil trevas que mortificam o discurso. Nesta língua, o alemão, procurei escrever poesia. Apenas para falar, orientar-me, indagar, imaginar a realidade. Deste modo a poesia encontra-se sempre no caminho para a língua originária."

Paul Celan, ao receber o Prémio Büchner, em 1962
excerto de uma crónica do Jornal " O Público", 27jan.2oo5

quinta-feira, março 24, 2005

o olhar


Afghan Girl, Pakistan, 1985, by Steve McCurry




talvez não seja o olhar que prende
é a pele que sai da lua lavada

a parede que coincide


num dedo
encosta a noite à palavra.


mariagomes
março.2005

quarta-feira, março 23, 2005

"Um escritor é uma pessoa para quem escrever é mais difícil do que para as outras pessoas"

Thomas Mann

N. 06/06/1875, Lübeck, Alemanha, F.12/08/1955, Zürich, Suíça

sexta-feira, março 18, 2005

ao solo ao luar



voltei a ouvir a música descendo na delicadeza funda
de uma chama
voltei ao lugar do sono e do incêndio
ao solo ao luar magro dos cães
voltei e vi a pátria escorrendo na esmola tranquila dos sóis.


mariagomes
18março.2005

quinta-feira, março 17, 2005

A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ...parte 3ª




"Observamos que a poesia distingue-se de toda outra arte por ter um valor pelo povo que é da raça e língua do poeta, valor que não pode ter por nenhum outro. É verdade que até a música e a pintura possuem um caráter local e racial: mas certamente as dificuldades de apreciação nessas artes, para um estrangeiro, são muito menores. É verdade por outro lado que textos em prosa têm um significado em sua língua original que se perde na tradução; mas todos sentimos que perdemos muito menos ao ler um romance em tradução que ao ler um poema; e na tradução de alguns tipos de trabalho científico a perda é virtualmente nula. Que a poesia é muito mais local que a prosa pode-se ver na história das línguas europeias. Ao longo da Idade Média e até há poucas centenas de anos, o latim permanecia a língua para filosofia, teologia e ciência. O impulso rumo ao uso literário das línguas dos povos começou com a poesia. E isso parece perfeitamente natural quando percebemos que a poesia, primariamente, diz respeito à expressão do sentimento e da emoção; e que o sentimento e a emoção são particulares, enquanto o pensamento é geral. É mais fácil pensar numa língua estrangeira do que nela sentir. Portanto, nenhuma arte é mais obstinadamente nacional que a poesia. Um povo pode ter sua língua detraída, suprimida, e outra língua compelida sobre as escolas; mas a menos que se lhe ensine a sentir numa nova língua, a antiga não foi erradicada e reaparecerá na poesia, que é o veículo do sentimento. Acabo de dizer "sentir numa nova língua", e quero dizer algo mais que meramente "exprimir seus sentimentos numa nova língua". Um pensamento expresso numa língua diferente pode ser praticamente o mesmo pensamento, mas um sentimento ou uma emoção expressa numa língua diferente não é o mesmo sentimento ou emoção. Uma das razões para aprendermos bem pelo menos uma língua estrangeira é que adquirimos um tipo de personalidade suplementar; uma das razões para não adquirirmos uma nova língua em lugar da nossa é que a maioria de nós não quer tornar-se uma pessoa diferente. Uma língua superior raramente pode ser exterminada exceto pelo extermínio das pessoas que a falam. Quando uma língua suplanta outra é muitas vezes porque possui vantagens que a elevam e que oferecem não uma mera diferença, mas uma gama mais ampla e mais refinada que a língua primitiva não só para pensar, mas para sentir.

Emoção e sentimento são então mais bem expressos na língua comum das pessoas isto é, na língua comum a todas as classes: a estrutura, o ritmo,a sonoridade, o estilo de uma língua exprimem a personalidade do povo que a fala. Quando digo que é a poesia, em vez da prosa, que se preocupa com a expressão da emoção e do sentimento, não quero dizer que a poesia não precisa possuir conteúdo intelectual ou significado, ou que a grande poesia não contém mais desse significado que a poesia inferior. Porém, desenvolver esta investigação me tiraria de meu objetivo imediato. Considerarei de acordo que as pessoas encontram a expressão mais consciente de suas mais profundas emoções na poesia de sua própria língua, em vez de em qualquer outra arte ou na poesia de outras línguas. Isso não significa, é claro, que a verdadeira poesia está limitada a sentimentos que todos podem reconhecer e compreender; não devemos limitar a poesia à poesia popular. Basta que, num povo homogêneo, os sentimentos dos mais refinados e complexos indivíduos tenham algo em comum com os sentimentos dos mais grosseiros e simples, algo que não têm em comum com os de pessoas de seu mesmo nível que falam outra língua. E, quando uma civilização é saudável, o grande poeta terá algo a dizer a seus compatriotas em todos os níveis de educação.

Podemos dizer que o dever do poeta, como poeta, é apenas indiretamente para com seu povo; seu dever direto é para com sua língua: primeiro, preservar e, segundo, ampliar e aperfeiçoar. Ao exprimir o que outras pessoas sentem,ele também está mudando o sentimento, por torná-lo mais consciente; está fazendo-as mais sabedoras do que já sentem, e portanto ensinando-as algo sobre si mesmas. Ele, no entanto, não é apenas uma pessoa mais conscienteque as demais; é, além disso, individualmente distinto das outras pessoas,e também de outros poetas, e pode fazer seus leitores conscientemente compartilhar novos sentimentos que até então não haviam vivenciado. Essa é a diferença entre o escritor que é meramente excêntrico ou louco e o autêntico poeta. Aquele pode ter sentimentos que são únicos mas não podem ser compartilhados, e que são, portanto, inúteis; este descobre novas variações de sensibilidade que podem ser apropriadas por outrem. E, ao exprimi-las, ele está desenvolvendo e enriquecendo a língua que fala.

Já disse quase o suficiente sobre as diferenças impalpáveis do sentir entre um povo e outro, diferenças que são confirmadas, e ampliadas, por suas diferentes línguas. Mas as pessoas não apenas vivenciam o mundo diferentemente em diferentes lugares; vivenciam-no diferentemente em tempos diferentes. De fato, nossa sensibilidade está constantemente mudando, como muda o mundo em nosso redor: o nosso não é o mesmo que o dos chineses ou dos hindus, mas também não é o mesmo que o dos nossos ancestrais, passadas várias centenas de anos. Não é o mesmo que o de nossos pais; e, finalmente, nós próprios não somos bem as mesmas pessoas que éramos há um ano. Isto é óbvio; mas o que não é tão óbvio é que esta é a razão por que não podemos nos permitir parar de escrever poesia. A maioria das pessoas educadas sente certo orgulho dos grandes autores de sua língua embora possa nunca lê-los, exatamente como é orgulhosa de qualquer outro mérito de seu país: uns poucos autores até se tornam célebres o bastante para serem mencionados de vez em quando em discursos políticos. Porém, a maior parte das pessoas não se dá conta de que isso não é suficiente; de que a menos que elas continuem a produzir grandes autores, e especialmente grandes poetas, sua língua se deteriorará, sua cultura se deteriorará e talvez seja absorvida por uma mais forte.

Um ponto, é claro, é que se não temos literatura viva nos tornaremos mais e mais alienados da literatura do passado; a não ser que mantenhamos uma continuidade, nossa literatura do passado se tornará mais e mais remota até que nos esteja tão estranha quanto a literatura de um povo estrangeiro. Porque nossa língua continua mudando; nosso modo de vida muda de todas as maneiras sob a pressão de mudanças materiais em nosso meio ambiente; e a não ser que tenhamos aqueles poucos homens que combinem uma excepcional sensibilidade com um poder excepcional sobre as palavras, nossa própria habilidade não apenas de exprimir, mas até de sentir mesmo as mais grosseiras emoções, degenerará."

( continua...)

T. S. Eliot, 1943
Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London,
Faber and and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori

quarta-feira, março 16, 2005

no amor e no medo




no amor e no medo as árvores acendem a luz
os remos
a única raiz que nos despe os braços
todos os recados se traçam
inflamam aragens a fundo

não temos mais do que estas margens
para cerzir as cinzas volúveis do mundo

não pedimos mais do que os breves espaços
que se abrem
miraculosamente
entre a alegria e as lágrimas.


mariagomes
2005

vestígios


vê como fremem os poentes
e de outrora nos chegam definidas
as fronteiras.
entrego-me à ternura que explora os abismos
inquieta quero a torre mais alta
de um eclipse no meu âmago. quero amar

a pele as palavras uns vestígios.

mariagomes
março,2005

segunda-feira, março 14, 2005

Rui Mendes e Álvaro de Portugal


" Sem título" - Álvaro de Portugal



"Podes entrar, mas não feches a luz, nem as portadas das janelas.
Se o fizesses, eu morreria por aqui, debaixo do abismo desta noite contínua, onde possuo o esquecimento dos meus dias num livro fechado, como o limbo de uma bela adormecida.
Ouve: só tenho esta luz por companhia, só esta luz na sua centrífuga piedade é quem guarda o ermo dos meus soturnos pensamentos.
Senta-te aí, mas de forma que te não veja!
Sim, também é o desejo de não ter sede de nada, ou de ninguém, dentro de mim, que faz com que eu chegue a pontos, por vezes, de não conseguir fechar os olhos, ou abrir os dedos das mãos, com receio que a luz de mim se arrependa, e parta para outro lugar, sempiterno, e me venha a deixar órfã de si, flagelada.
Sim, eu sei em que estás a pensar.
É verdade, sustento-me das imagens fugazes, despojos de anjos e demónios, que se me plasmam fixamente nos olhos, lívidos assombros girando velozmente na retina, e isso deixa-me prostrada, envenena-me, até ao árctico fogo das lágrimas.
E é por isso, é bem por isso, que os meus olhos, estás a ouvir-me, estão cheios de sombras, pesados das sombras que atravessam o infinito da clausura dos espelhos que, por todo o lado, vagueiam por esta casa minguante, despojada, sem purpurinas nem grinaldas, pelas escadas e pelos corredores.
Pelas minhas escadas e corredores, quando a febre do cansaço se apodera do labirinto do meu corpo, e começa a cortar-me o sangue nas veias, e eu procuro arrastar-me pelo chão para, respirando melhor, me afastar da minha morte.
É assim. Vou guardando, no regaço da alma, estas paredes massacradas pela viuvez dos retratos, desde a infância dos meus sentidos, sempre a idear que ainda deve ser possível haver jardins frondosos, plantados no alto mar, e crianças lá dentro, brincando, na insónia vibrante dos ventos e das marés.
Custa a acreditar, mas é bem verdade: tens razão – alimento-me das mortificadas trevas do sonho!
Escusas de me olhar de maneira tão assassina, eu sei que estou nua.
Estou nua como uma pedra ou uma árvore peregrina, porque sinto, tumultuosa, a dor que regressa à solidão.
Ouço em ti, uma insodável e saudosa canção de embalar!

Rui Mendes
Janeiro, 2005








terça-feira, março 08, 2005

de van gogh



creio que nunca te falei de maio de um país
imaginado
dos girassóis de van gogh

eu existi nos braços nus
das janelas
entre o pólen do amanhecer e o passado
.



mariagomes
março.2005

HONORÉ DAUMIER ( 1808 - 1879 )



"Famoso por suas litografias, Daumier não se considerava um pintor. Republicano, ele encontrou na defesa de seus ideais liberais o tema de seus desenhos. Grande caricaturista, satirizava a política, a corrupção dos ministros e deputados da França após a restauração da monarquia de Luis Felipe. Faz litografias para a Imprensa e com os seus trabalhos denuncia o autoritarismo, a hipocrisia, a violência e a inquietude do período em que viveu.

Uma observação de um amigo sobre Daumier:
...Passando por um bairro operário de Paris, o artista deteve-se um instante, apertou o braço do outro e sussurrou, com voz emocionada: 'Nós, nós ainda temos a arte para nos consolar. Mas, e eles? O que é que eles têm?' Logo depois, despediu-se em silêncio e subiu, triste, as ruelas que levavam a seu estúdio. "


Gênios da Pintura, Daumier, Abril Cultural.
1999, Colégio Rainha da Paz, projectos educação artística

Ernst Cassirer , Alemanha, (1874-1945)



"A poesia é uma das formas em que um homem pode julgar-se a si e à sua vida. É um autoconhecimento e autocrítica."

Ernst Cassirer

sábado, março 05, 2005

por detrás do espelho



só o vento sopra por detrás do espelho o trevo
subindo rubro sobre a folha
no ardor de um beijo. perdoa-me.

vejo o coração das magnólias atravesso
uma espada amargurada num suicídio de silêncio.
nas minhas mãos
o deserto tímido intimo surge do tempo
ante a glória de vermos o sol
morrendo no abraço.
dilacero os dedos

digo adeus à cúmplice ventura de florir.
perdoa-me. ser poeta é ter a carne
na cicatriz da imagem. sentir os olhos a escorrer
na boca. morrer em cada página.


mariagomes
março.2005


N.1916, Brasil, Manoel de Barros


"No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos-
O verbo tem que pegar delírio.
As coisas não querem mais ser vistas por pessoas
razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul-
Que nem uma criança que você olha de ave."


(..............)


"Minha relação com as palavras é orgástica. Escrevo porque preciso ter relações com elas para viver em paz. Depois que uso uma palavra nova, ela me beija. Quer dizer que gostou de mim. Eu sou de bem com as palavras que uso por que elas me são"


Manoel de Barros

quinta-feira, março 03, 2005

os cisnes


impossível alcançar o céu.
os versos escrevem-me na languidez das fontes.

ontem os meus passos calavam as falésias
vertiam-se abobadas de sangue
pela fissura das planícies.
devo ao sol esta vontade de guardar os cisnes.


mariagomes
3,março, 2005

quarta-feira, março 02, 2005


FORREST MOSES

post scriptum




a tristeza na tarde principia
vai pela caleira sombria revolver
a memória dos anjos
regressamos à abundância rubra
das máscaras
que a ternura impõe.
o cabelo de um silêncio loiro
afasta-se
nós temos palavras em maio

para a distância órfã dos pássaros.



p.s - " não há silêncio que não se acabe
quando chegar o momento, espera-me"


pablo neruda


mariagomes


A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ... parte 2ª




...

"Quanto à poesia dramática, há uma função social de um tipo que lhe é agora peculiar. Pois enquanto a maior parte da poesia atual se escreve para ser lida a sós, ou em voz alta em companhia de poucos, o verso dramático em si tem como função produzir uma impressão imediata e coletiva sobre um grande número de pessoas reunidas para assistir a um episódio imaginário representado num palco. A poesia dramática é diferente de qualquer outra, mas, como suas leis específicas são as do drama, sua função está mesclada com a função do drama em geral, e não estou aqui interessado nas funções sociais específicas do drama.

Quanto à função específica da poesia filosófica, isso envolveria uma análise e um relato histórico de certa extensão. Acho que mencionei tipos de poesia o suficiente para deixar claro que a função específica de cada uma está relacionada a alguma outra função: da poesia dramática com o drama, da poesia didática de informação com a função de seu tema, da poesia didática de filosofia, religião, política ou moral com a função de cada um desses assuntos. Podemos considerar a função de qualquer um desses tipos e ainda assim deixar intocada a questão da função da poesia. Pois tudo isso pode ser tratado em prosa.

Mas antes de prosseguir, quero afastar uma objeção que pode ser levantada. As pessoas às vezes desconfiam da poesia que possui um propósito particular: poesia na qual o poeta está advogando opiniões sociais, morais, políticas ou religiosas. E estão muito mais inclinadas a dizer que ela não é poesia quando não gostam das opiniões particulares; do mesmo modo que outras pessoas muitas vezes pensam que algo é verdadeira poesia porque por acaso exprime um ponto de vista que apreciam. Devo dizer que esta questão se um poeta está usando sua poesia para advogar ou atacar um comportamento social não importa. Versos ruins podem ficar transitoriamente em voga quando o poeta reflete uma atitude popular do momento; mas a real poesia sobrevive não só a uma mudança de opinião popular, mas à completa extinção do interesse pelas questões com as quais o poeta estava tão apaixonadamente preocupado. O poema de Lucrécio persiste um grande poema, embora suas noções de física e astronomia estejam desacreditadas; os de Dryden, embora as disputas políticas do século XVII não mais nos interessem; exatamente como um grande poema do passado ainda pode dar grande prazer, embora seu tema seja algum que devamos hoje tratar em prosa.

Agora, se devemos encontrar a essencial função social da poesia, temos de olhar antes para suas mais óbvias funções, aquelas que deve desempenhar se é que deve desempenhar alguma. Penso que a primeira de que podemos ter certeza é a de que a poesia deve proporcionar prazer. Se você perguntar que tipo de prazer, só posso então responder que é o tipo de prazer que a poesia proporciona: simplesmente porque qualquer outra resposta nos levaria a divagações sobre estética e a questão geral da natureza da arte.

Suponho que se concordará que todo bom poeta, seja ele um grande poeta ou não, tem algo a dar-nos além de prazer: pois se fosse apenas prazer, o prazer mesmo não poderia ser do tipo mais elevado. Além de qualquer intenção específica que possa ter a poesia, tais como as que já exemplifiquei em seus vários tipos, há sempre a comunicação de alguma nova experiência, ou uma inédita compreensão do familiar, ou a expressão de algo que vivenciamos mas para o qual não temos palavras, o que engrandece nossa consciência ou refina nossa sensibilidade. Mas não é com tal benefício individual dado pela poesia, não mais que com a qualidade do prazer individual, que este ensaio está preocupado. Creio que todos entendemos ambos o tipo de prazer que a poesia pode proporcionar e o tipo de diferença, além do prazer, que ela faz às nossas vidas. Sem produzir esses dois efeitos, ela simplesmente não é poesia. Podemos admitir isso, mas ao mesmo tempo não notar algo que ela faz por nós coletivamente, como sociedade. E digo isso em seu sentido mais amplo. Pois julgo importante que todo povo deva ter sua poesia própria, não simplesmente para aqueles que apreciam poesia, essas pessoas poderiam sempre aprender outra língua e apreciar sua poesia, mas porque isso realmente faz diferença à sociedade como um todo, e isto vale para as que não gostam de poesia. Incluo até aqueles que não sabem os nomes de seus próprios poetas nacionais. Esse é o real assunto deste ensaio. "

...

( continua...)

Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London, Faber and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori



"Os verdadeiros livros devem ser filhos não da luz do dia e da conversa, mas da obscuridade e do silêncio."

(..............)

"A leitura é uma amizade. "


MARCEL PROUST
França. ( 1971-1922)


segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Declaração de Amor*


Clarice Lispector
Ucrânia 1920, Brasil 1977


"Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguajem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisto de uma frase. Eu gosto de manejá-la - como gosto de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes para nos dar para sempre uma herança de língua já feita.

Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
"









sábado, fevereiro 26, 2005

o tempo dos barcos


Alfred Gockel



enquanto bordas o tempo dos barcos
constróis a casa com a luz pequena.
nos sonos longos, és tu que anoiteces.
colhes a curva de um rosto,
com clareza
teces a alma vã da firmeza
nos colos finos, na lâmina dos rios.
ó doce pescador, madrugada que fosse
a foice dos meus poemas,
dá-me os pássaros alinhados
as minhas penas.
ó cegas torres de marfim,
na excentricidade vagabunda da fadiga
começa o meu fim.

26.fev.2005
mariagomes

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Momento de poesia*



Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão cansado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim
dou conselhos tão biblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.


*José de Almada Negreiros [1893- 1970]
"800 anos de poesia portuguesa"
edição círculo de leitores- 1973

Jean Paulhan



"Tudo já foi dito. Sem dúvida. Se as palavras não tivessem mudado de sentido; e o sentido, de palavras."

JEAN PAULHAN

França, (1884-1968)

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

manhãs feridas


preciso de manhãs feridas de sol-posto
livres como mãos, leves, de poemas,
preciso do contrário de contrários,
preciso do precisar destes dilemas.

quero estar na pele em que se vive
vida, a lida, que sempre pressenti
moldar a luz de quadrantes vários
do impreciso amor que vem de ti.

preciso de tanto, amor,
de amor que não preciso.

mariagomes
junho.2003

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ... parte 1ª






"O título deste ensaio é tão provável de sugerir coisas diferentes a diferentes pessoas que posso ser desculpado por primeiro explicar o que não quero dizer com ele antes de ir começando a explicar o que quero dizer de fato. Quando falamos da "função" de qualquer coisa, tendemos a estar pensando no que essa coisa deveria fazer em vez de no que realmente faz ou tem feito. Essa é uma distinção importante, pois não pretendo falar do que acho que a poesia deveria fazer. Pessoas que nos contam o que a poesia deveria fazer, especialmente se são poetas elas próprias, em geral têm em mente o tipo particular de poesia que gostariam de escrever. É sempre possível, é claro, que a poesia possa ter no futuro um diferente emprego do que tivera no passado; mas, mesmo que assim o seja, é válido decidir primeiro que função ela teve no passado, tanto num tempo como noutro, numa língua como noutra, e universalmente. Eu poderia facilmente escrever sobre o que faço eu mesmo com a poesia, ou o que gostaria de fazer, e então tentar persuadi-los de que isso é exatamente o que todos bons poetas tentaram fazer, ou deveriam ter feito, no passado , apenas não tiveram completo êxito, mas talvez isso não seja culpa deles. Porém, parece-me provável que, se a poesia e quero dizer toda grande poesia não tiver a função social no passado, não seja de se esperar que tenha alguma no futuro.

Quando digo toda grande poesia, tenciono evitar outro modo de que possa tratar do assunto. Alguém pode tomar os diversos tipos de poesia, um após outro, e discutir a função social de cada variedade sucessivamente, sem atingir a questão geral de qual é a função da poesia enquanto poesia. Quero distinguir entre funções gerais e particulares, para que saibamos do que não estamos falando. A poesia pode ter um propósito social deliberado e consciente. Em suas formas mais primitivas esse propósito é muitas vezes bastante claro. Há, por exemplo, runas e cantos antigos, alguns dos quais possuíam fins mágicos um tanto práticos : livrar de mau olhado, curar alguma doença ou aplacar algum demônio. A poesia é usada desde os primeiros tempos em rituais religiosos e, quando cantamos hinos, ainda estamos usando poesia para um propósito social particular. As formas primordiais de épicos e sagas podem ter transmitido o que se tinha por história, antes de sobreviverem apenas para entretenimento comunitário; e, antes do uso da linguagem escrita, uma forma regular de versos deve ter sido extremamente útil à memória ; e a memória dos primitivos bardos, contadores de estórias e estudiosos deve ter sido prodigiosa. Em sociedades mais avançadas, tais como as da antiga Grécia, também são conspícuas as reconhecidas funções sociais da poesia. O drama grego desenvolve-se a partir de ritos religiosos e persiste como uma cerimônia pública formal associada a tradicionais celebrações religiosas; a ode pindárica desenvolve-se em relação a uma ocasião social particular. Certamente, tais usos definidos da poesia deram a esta a estrutura que tornou possível o alcance da perfeição em seus tipos particulares.

Algumas dessas formas, como as do cântico religioso que mencionei, subsistem na poesia mais moderna. «A acepção do termo poesia didática sofreu algumas mudanças. Didático pode significar "transmitindo informação", pode significar "dando instrução moral" ou pode significar algo que compreenda ambos os sentidos. As Geórgicas de Virgílio, por exemplo, são poesia extremamente bela e contêm informações bastante sensatas sobre agricultura. Entretanto, pareceria impossível, no presente, escrever um livro atualizado sobre agricultura que também fosse ótima poesia: em primeiro lugar, o assunto mesmo tornou-se muito mais complicado e científico; em segundo lugar, ele pode ser exposto mais facilmente através da prosa. Também não devemos, como o fizeram os romanos, escrever em verso tratados astronómicos e cosmológicos. O poema cujo intuito ostensivo é o de transmitir informação foi suplantado pela prosa. A poesia didática gradualmente tornou-se limitada à poesia de exortação moral, ou à poesia que visa a persuadir o leitor do ponto de vista do poeta sobre algo. Inclui, portanto, grande parte do que se pode chamar de sátira, embora a sátira esteja imbricada coma poesia burlesca e a paródia, que têm primariamente a intenção de fazer rir. Alguns dos poemas de Dryden, no século XVII, são sátiras no sentido em que pretendem ridicularizar os objetos contra os quais são dirigidos, e também didáticos na intenção de persuadir o leitor de pontos de vista religiosos e políticos particulares; e, ao fazerem-no, também utilizam o método alegórico de disfarçar a realidade em ficção: The Hind and The Panther, que pretende persuadir o leitor de que a Igreja de Roma tinha a retidão moral a seu favor contra a Igreja Anglicana, é seu mais memorável poema deste tipo. No século XIX, um zelo por reformas sociais e políticas inspirou muito da poesia de Shelley."

(continua...)

Ensaio retirado de seu livro On Poetry and Poets, London, Faber and Faber, 1971.
Tradução de Bruno I. Mori


Paz poeta e pombas


1929, 2 de Agosto / 1987, 23 Fevereiro




A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa


José Afonso

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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