fotografia de Ansel Adams in art.transindex.ro
combino formas sem ambição infinita
cai uma frente o futuro uma chuva que avança
para um refúgio de horas que se quebram nos quadris.
há uma claridade audaz que me cega
há um abismo doente de alegria
a infância que vê o mar sempre assim iluminado.
ó deserto impassível ó água corrente e castanha ó rio feliz
abre o meu coração como se a morte fosse uma taça
com feitio de coisas feitas pelo oceano.
o meu coração está mais calmo bate como espírito incriado.
mariagomes
julho.2005
perdi-me num requesto secular...perdi-me no perfil de um poente,
e as amoras amadurecem. o que escrevo é nada, enquanto os luares correm.há uma dilatação a urdir a fábula, e o ébano.
meu amor, deixa que seja minha a anuência da música.
a música é uma ínsua no tempo.
mariagomes
julho.2005
....
"Digo no meu escandir privado:
já alcancei a membrana da romã
fruto áfrico neste patamar sagrado
onde o repouso cala o grito da manhã."
....
Heliodoro Baptista
excerto do poema "história irrasurável"
in " Nos Joelhos do Silêncio"
editorial caminho, 2005
até esse amor ficou, preciso de acordar as pedras do sol. só depois partirei comigo,como eu sou,
na delonga do mar
interior ante a margem e um equívoco.
mariagomes
julho.2005
"...citarei muito brevemente um livro maravilhoso, com o qual me familiarizei pela primeira vez através de uma amiga maravilhosa chamada Hildegarde Watson - um livro cujo título em português é Cartas A Um Jovem Poeta, e cujo autor é o poeta alemão Rainer Maria Rilke:
'As obras de arte são de uma solidão infinita e nada nos toca tão pouco como a crítica. Apenas o amor as pode alcançar e deter e julgar equitativamente.'
Na minha orgulhosa e modesta opinião, estas duas frases valem toda a soi-disant crítica das artes que já existiu ou que algum dia existirá. Discordem delas tanto quanto quiserem, mas nunca as esqueçam; porque se as esquecerem terão esquecido o mistério que vocês têm sido, o mistério que serão, e o mistério que agora são-
tantos seres ( tantos demónios e deuses
cada qual mais ganancioso de que todos) é um homem
( tão facilmente um em outro se esconde;
e não pode o homem, sendo todos, fugir a nenhum)
tão vasto tumulto é o mais simples desejo:
tão impiedoso massacre a esperança
mais inocente ( tão profunda é a mente da carne
e tão desperto o que o acordar chama dormir)
assim nunca está mais sozinho o homem só
( o seu mais breve respirar vive o ano de algum planeta,
a sua mais longa vida é a pulsação de algum sol;
a sua menor imobilidade percorre a mais jovem estrela)
- como pode um louco que a si próprio se chama " Eu" supor
que entende um não numerável quem? "
....
E.E. Cummings
in " eu seis inconferências"
edição assírio e alvim
são minhas as águas que se calam,é meu o poema perdido, e uns girassóis, e esta ânsia devoluta no silêncio que poderia ter nascido. nada mais tenho, oh lago imaginário.
mariagomes
24julho2005
(@ fotografia de mariagomes)De todos os cilícios, um, apenas,
Me foi grato sofrer:
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego.
Coimbra, 1 de Novembro de 1983
Miguel Torga
Rua Ferreira Borges, Coimbra, 21 de Julho de 2005 @mariagomes
“Eis a diferença:
Os que antes morriam de fome
Passaram a morrer por falta de comida.”( taberneiro Tuzébio)Mia Couto
in “ Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”Editorial caminho
Mamava no verde das tetas de coqueiros,
e no regaço de areias amadas pelo vento,
gostava de brincar com pedras fixas
sem medo, batidas pelo mar.
Um dia descobriu outra identidade;
nome: Valente
filho de: Vontades
idade: Militar
E marchou.
Tanto marchou que, num voo desventrou a terra,
qual ave ferida caiu na cratera da vida.
Ficou-lhe a bater o coração, e à cintura
um coágulo de revólver figurado...
Circulou num andar de ruínas pelas ruas,
lambeu o lixo de muitas vaidades.
Com raiva engolida no tempero da fome
consultou o mercado trocado de valores:
- uma galinha valia mais do que a pólvora!
num gesto herdado de pensar ao vento,
acariciou a cintura...
Logo, de todos os quadrantes partiram balas...
O mundo armado no medo da verdade
atingiu um astro na sua idoneidade.
mariagomes
dezembro, 2002
"Refugee From Gondan, Mali 1985 "
"Os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar" Mário Quintana
despir os olhos gradualmente à emoção dos regatos
algo visto intocável
é esse manto de cambraia o azul da carne
a cintura
no prolongamento de um vulto que sustenta a luxúria.
mariagomesjulh.2005

"...a primeira impressão a que somos sensíveis, nunca deve ser perdida"... Claude Monet
hoje, não há rosas em casa. há a consagração vermelha de guitarras e o navio
saindo das profundezas
com muitas partituras de paris tocadas,
em valsa, por monet.
mariagomes
julho2005
vem comigo fazer a tal viagem. a poesia foi pensadana funda, difícil, aventura de filtrar o que somos.oferece-me um rio, o outro ladodo trigo que sobrou da eternidade. mariagomesjulho.2005
A Sofia* apontou o dedo para um livro, e fez-me a seguinte pergunta : "de quem é essa palavra?"
Hoje, aprendi com a minha neta que a palavra é um livro.
mariagomes( * com 2 anos e 10 meses)
"Vênus" de Zambonitéc: mista - 80x100- ano 2000