domingo, julho 31, 2005


fotografia de Ansel Adams in art.transindex.ro

sábado, julho 30, 2005

sem ambição

combino formas sem ambição infinita
cai uma frente o futuro uma chuva que avança
para um refúgio de horas que se quebram nos quadris.

há uma claridade audaz que me cega
há um abismo doente de alegria
a infância que vê o mar sempre assim iluminado.

ó deserto impassível ó água corrente e castanha ó rio feliz
abre o meu coração como se a morte fosse uma taça
com feitio de coisas feitas pelo oceano.

o meu coração está mais calmo bate como espírito incriado.


mariagomes
julho.2005

quinta-feira, julho 28, 2005

( sem título)

perdi-me num requesto secular...
perdi-me no perfil de um poente,
e as amoras amadurecem.

o que escrevo é nada, enquanto os luares correm.
há uma dilatação a urdir a fábula, e o ébano.

meu amor, deixa que seja minha a anuência da música.
a música é uma ínsua no tempo.

mariagomes
julho.2005

quarta-feira, julho 27, 2005



....

"Digo no meu escandir privado:
já alcancei a membrana da romã
fruto áfrico neste patamar sagrado
onde o repouso cala o grito da manhã."
....

Heliodoro Baptista


excerto do poema "história irrasurável"
in " Nos Joelhos do Silêncio"
editorial caminho, 2005

ante a margem

até esse amor ficou,
preciso de acordar as pedras do sol.
só depois partirei comigo,
como eu sou,
na delonga do mar
interior

ante a margem e um equívoco.

mariagomes
julho.2005

terça-feira, julho 26, 2005

e.e.cummings

"...citarei muito brevemente um livro maravilhoso, com o qual me familiarizei pela primeira vez através de uma amiga maravilhosa chamada Hildegarde Watson - um livro cujo título em português é Cartas A Um Jovem Poeta, e cujo autor é o poeta alemão Rainer Maria Rilke:

'As obras de arte são de uma solidão infinita e nada nos toca tão pouco como a crítica. Apenas o amor as pode alcançar e deter e julgar equitativamente.'

Na minha orgulhosa e modesta opinião, estas duas frases valem toda a soi-disant crítica das artes que já existiu ou que algum dia existirá. Discordem delas tanto quanto quiserem, mas nunca as esqueçam; porque se as esquecerem terão esquecido o mistério que vocês têm sido, o mistério que serão, e o mistério que agora são-

tantos seres ( tantos demónios e deuses
cada qual mais ganancioso de que todos) é um homem
( tão facilmente um em outro se esconde;
e não pode o homem, sendo todos, fugir a nenhum)

tão vasto tumulto é o mais simples desejo:
tão impiedoso massacre a esperança
mais inocente ( tão profunda é a mente da carne
e tão desperto o que o acordar chama dormir)

assim nunca está mais sozinho o homem só
( o seu mais breve respirar vive o ano de algum planeta,
a sua mais longa vida é a pulsação de algum sol;
a sua menor imobilidade percorre a mais jovem estrela)

- como pode um louco que a si próprio se chama " Eu" supor
que entende um não numerável quem? "

....

E.E. Cummings
in " eu seis inconferências"
edição assírio e alvim

no comments

domingo, julho 24, 2005

imaginário

são minhas as águas que se calam,
é meu o poema perdido, e uns girassóis,

e esta ânsia
devoluta no silêncio que poderia ter nascido.

nada mais tenho, oh lago imaginário.

mariagomes
24julho2005

sexta-feira, julho 22, 2005

" Memória"


(@ fotografia de mariagomes)



De todos os cilícios, um, apenas,
Me foi grato sofrer:
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego.

Coimbra, 1 de Novembro de 1983

Miguel Torga

quinta-feira, julho 21, 2005


Rua Ferreira Borges, Coimbra, 21 de Julho de 2005 @mariagomes

Mia Couto

“Eis a diferença:
Os que antes morriam de fome
Passaram a morrer por falta de comida.”


( taberneiro Tuzébio)

Mia Couto

in “ Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”

Editorial caminho

quarta-feira, julho 20, 2005

A Morte do Valente

Mamava no verde das tetas de coqueiros,
e no regaço de areias amadas pelo vento,
gostava de brincar com pedras fixas
sem medo, batidas pelo mar.

Um dia descobriu outra identidade;
nome: Valente
filho de: Vontades
idade: Militar

E marchou.

Tanto marchou que, num voo desventrou a terra,
qual ave ferida caiu na cratera da vida.
Ficou-lhe a bater o coração, e à cintura
um coágulo de revólver figurado...

Circulou num andar de ruínas pelas ruas,
lambeu o lixo de muitas vaidades.
Com raiva engolida no tempero da fome
consultou o mercado trocado de valores:
- uma galinha valia mais do que a pólvora!
num gesto herdado de pensar ao vento,
acariciou a cintura...
Logo, de todos os quadrantes partiram balas...
O mundo armado no medo da verdade
atingiu um astro na sua idoneidade.


mariagomes
dezembro, 2002

Sebastião Salgado



"Refugee From Gondan, Mali 1985 "

terça-feira, julho 19, 2005

OBJETIVO




"Os verdadeiros versos não são para embalar, mas para abalar"

Mário Quintana





gradualmente



despir os olhos gradualmente à emoção dos regatos
algo visto intocável
é esse manto de cambraia

o azul da carne
a cintura
no prolongamento de um vulto que sustenta a luxúria.


mariagomes
julh.2005

domingo, julho 17, 2005

" Regatas em Argenteiul"






"...a primeira impressão a que somos sensíveis, nunca deve ser perdida"...

Claude Monet

( a enrique granados)

hoje, não há rosas em casa.
há a consagração vermelha de guitarras
e o navio
saindo das profundezas
com muitas partituras de paris
tocadas,
em valsa, por monet.

mariagomes
julho2005

sexta-feira, julho 15, 2005

difícil aventura

vem comigo fazer a tal viagem.
a poesia foi pensada
na funda, difícil, aventura de filtrar o que somos.
oferece-me um rio,
o outro lado
do trigo que sobrou da eternidade.

mariagomes
julho.2005

quinta-feira, julho 14, 2005

a pergunta de Sofia...

A Sofia* apontou o dedo para um livro, e fez-me a seguinte pergunta : "de quem é essa palavra?"

Hoje, aprendi com a minha neta que a palavra é um livro.


mariagomes



( * com 2 anos e 10 meses)

artCanal



"Vênus" de Zamboni
téc: mista - 80x100- ano 2000

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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