( Quinta das Lágrimas, 7.Nov.2005, Coimbra)para haver uma árvore, lançarei a terra à tua luz;
o orvalho fulminante
agarrado secretamente ao lume.
depois, irromperá a folha
da impressão de um ramo doce e nu.
como tu, Inês, eu peço que talhem, em pedra,
a minha coroa
no pecado que propaga o linho, na fonte trigueira;
no gume da humanidade que ainda se transfigura,
para haver uma árvore.mariagomesout/nov.2005
Havia uma cidade de chuva incendiada,
a mágoa que se expunha a cobrir o mel da manhã.
e nós lá dentro
como se tudo estivesse, abertamente
no rumor da falésia.
um pássaro forjou o significado das águas.
mariagomes31deout.2005
Outrora, eclodiam os desertos.
Chegava a integridade de um outono -
a seiva, àquela simples casa que morria
de súbito, e amava.mariagomesout.2005
Inventamos palavras cerceando o interior, e o resto aberto a quem passae nos diz: - estes são os últimos peregrinos, têm o nódulo da língua ligada ao sol. amanhã o mar é o mesmo, os mesmos peixes lavrarão, no azul, a boca de outro caminho. mariagomes26out.2005
tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir (...)fragmento de "Las palabras",De Argentino hasta la muerte, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1963César Fernández Moreno (Argentina, 1919-1985)
"Where Do We Come From? What Are We? Where Are We Going?" (Oil on canvas)
eu não sei porque cantaste ao meu olvido,
a música de um pássaro triste.
lançariam os dédalos o projéctil
de um sinónimo destinado à rua?
de onde nasceram os pomos que o céu incorpora?
e esta árvore na imortalidade da lâmpada?
e um suicida?
vê como demora o silêncio, vê como se nega o poema
ao abandono, “nas estátuas que são gente nossa”.(1)
mariagomes
24 de out.2005
(1) in "Mãe", Miguel Torga
ouve, eu tenho uma lua nova, dobro-a com os dedos, na página. o mar apagou-se não sei porquê!os sinos ousam no deserto,nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.
mariagomes
23.out.2005
448Eis um Poeta - Aquele que
Tira surpreendentes sentidos
Das significações habituais -
E uma Essência tão vasta
Das espécies familiares
Que pereceram diante da Porta -
Que nos espanta não termos sido Nós
A captá-la - antes-
De Imagens, o Revelador -
O Poeta - é Ele-
Quem nos investe - Por Antítese -
Numa perpétua Indigência -
Dessa Herança - tão inconsciente -
Que Roubo algum - o poderia prejudicar -
Ele próprio - para Si Próprio- um Tesouro-
Estranho - ao próprio Tempo -
Emily Dickinson
in "Emily Dickinson
Poemas e Cartas"
pag, 55, edições Cotovia
tradução de Nuno Júdice
não podemos perder o que sobra da luz
de algum lado;
sobre a pele, existe a hora de coisas impassíveis.
os comboios brancos,
aquela flor voltada à janela, falando-nos.
não, meu amor, não podemos perder a raiz
de um corpo incandescente, agora, derramado.
mariagomes
out.2005
(W. Eugene Smith in art.transidex.ro)Ao despertar, nesta manhã cinzenta de chuva, a Sofia* exclamou:
-" Avó, apagaram a rua!"(*Sofia Gomes, 3 anos)mariagomesCoimbra,17 , out.2005
"No meu interior vive algo que me guia com mais acerto do que o grau de discernimento que possuo atualmente."
( fotografia de Ruben Moraes)
"A natureza faz do homem um ser natural; a sociedade faz dele um ser social. Somente o homem é capaz de fazer de si um ser livre".
Rudolf Steiner
lamento, amigo, não trazer nada de novo. nem a procura é intensanem o encontro de um nome nos diz seja o que for.as mesas permanecem à espera dos retratos da família.e os livros guardam toda a poesia.mariagomes27.março,2005

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"Palavras, frases, sílabas, astros que giram ao redor de um centro fixo. Dois corpos, muitos seres que se encontram numa palavra. O papel cobre-se de letras indeléveis, que ninguém disse, que ninguém ditou, que caíram ali e ardem e queimam e se apagam. Assim pois, existe a poesia, o amor existe. E se eu não existo, existes tu." (...)
Octavio Paz " Águia ou Sol?"
(recolha de Amélia Pais in " Falar Poesia 1, 1ª série.)
10 Quem é essa que desponta como a aurora bela como a luafulgurante como o sol terrível como as coisas insígnes?Cântico dos Cânticospag. 67edição bilingueTradução de José Tolentino Mendonçaedições Cotovia, Lda
Ta Muda TenpuTa muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.
Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.
Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba
Ku dosura.Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.
Luís Vaz de Camões
tradução para crioulo de Cabo Verde é de José Luís Tavares
Os cantos dos homens são mais belos que os homens,
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser fiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei:
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude tocar e compreender
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
20 de Setembro de 1960
Nâzim Hikmetin " Poemas da prisão e do exílio"
editora & etc
Tradução de Rui Caeiro
quero fotografar o poema na existência pura,levantar a delicada forma da carne, da imagem ao nervo, a morte que transcende a constelação de um precoce outono perdido na folha onde escrevo.ah se tu soubesses como é redonda a levedura que me sela o gesto. mariagomes3out.2005
(fotografia de mariagomes)in " A Phala, Um século De Poesia"( 1888-1988)edição Assírio & Alvim*António Maria Lisboa (1928-1953) nasceu e faleceu em Lisboa. Foi um dos introdutores do surrealismo em Portugal, tendo colaborado nas sessões do JUBA e nas exposições do Grupo Surrealista Dissidente. Escreveu Erro Próprio (1950), o principal manifesto do surrealismo português, e foi redactor de Afixação Proibida em colaboração com Mário Cesariny de Vasconcelos.
Obras: Ossóptico (Lisboa, 1952), Isso Ontem Único (Lisboa, 1953), A Verticalidade e a Chave (Lisboa, 1956), Exercício sobre o Sono e a Vigília de Alfred Jarry seguido de O Senhor Cágado e o Menino (Lisboa, 1958), Poesia (Lisboa, 1977; 2ª ed., Lisboa 1995).
não saias. vou contar-te uma história pequenina;uma vez , alguém, apertava a intimidade.
trazia pela mão a noite,
como rendimento o coração determinado.
pai, uma vez, uma ilha oferecia a vida,
vastíssima têmpera de um coágulo.
marigomes
2.out.2005