"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
quarta-feira, janeiro 11, 2006
há lágrimas silábicas quando se acendem as luzes
e o corpo reproduz-se numa infinita fórmula
oh amor edifica-me a tua trajectória!
mariagomes11Jan.2006
"Pátria é uma palavra que podemos dizer
sem que a maioria do povo a reconheça
Ela não pertence ao léxico das palavras comuns
e se os políticos a referem é quase sempre com a violência
De uma retórica vã"
(…)
Excerto de" Pátria Soberana, seguido de Nova Ficção, 1999."
António Ramos Rosa , in " O Poeta Na Rua", edições Quasi
domingo, janeiro 01, 2006
algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro
e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.
mariagomes
1Jan.2006
sexta-feira, dezembro 30, 2005
"Expresión de Horacio " ("Epístolas")
La poesía no es confiable:
es poesía.
*
No siendo poesía
la mala poesía
es confiable.
*
Si un poema no llega a ser un poema
no es un poema:
es lo que es
Un verdadero poema no es lo que es.
*
El poeta previsible
no es invisible
Al ser visible
no es poeta.
Rolando Revagliatti
"La raza irritable de los poetas", 1999
terça-feira, dezembro 27, 2005
domingo, dezembro 25, 2005
menino jesus dá-nos a solicitude plena dos violoncelos - o repouso.
mariagomes
25 Dez.2005
sábado, dezembro 24, 2005
Um bom Natal

Angola, Uíge, 1991, pau preto, in Pública, " presépios do mundo"
quinta-feira, dezembro 15, 2005

( Hellenic Festival, 31 Aug.01, Ancient Theatre of Epidaurus)
agora só as árvores me dirigem
neste quase inverno mudaram a nudez da minha boca
sou uma pessoa resumida às árvores
sou uma folha
vejo uma flor eterna a cair
e chamo-a
inclino-me sobre a minha pele porque murmurei um nome
vê meu amor esta música não pára de subir.
mariagomes
14/15 de Dez.2005
nota- este poema deve ser lido com o acompanhamento da faixa musical nº 2) Lamentu I do cd Eurípedes Trojan Women, música de Eleni Karaindrou da ECM Records, 2002, cuja capa é exibida na foto)
mariagomes
terça-feira, dezembro 13, 2005

parque da cidade dr. manuel braga, coimbra, fotografia de mariagomes, 13 dez.05
segunda-feira, dezembro 12, 2005
as coisas ouviam-se nos teus olhos
eram um pranto o poético dos prados
e no entanto calei mais do que a morte fui a sombra a infância
dos sinos
em cada hora o sol é a memória mais longa que te cabe.
mariagomes
dez.2005
quarta-feira, dezembro 07, 2005
as lâmpadas enternecem a noite do meu corpo
ainda minto ainda brinco na estria espacial chamo por ti
como o gelo que flameja convida-me um epitáfio escrevo o sono das aves que em mim poisam.
mariagomes
7 Dez.2005, 19 h.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
que te escreve
esta voz ecoa no caminho
no que foi ternura
- flor
- luar
- clausura
piano dentro da palavra.
mariagomes
5dez.2005
sábado, dezembro 03, 2005
terrífica.
não consigo escrever, a palavra é feita de um peixe azul.
em consenso inútil,
o mar fica-se pelo tempo que me percorre
e a humildade da cinza.
devolvo-te a voz.
mariagomes
dez.2005
sexta-feira, dezembro 02, 2005
A literatura parte do verso e pode levar séculos a discernir a possibilidade da prosa. Ao fim de quatrocentos anos, os Anglo- Saxónicos deixaram-nos uma poesia não poucas vezes admirável e uma prosa apenas explícita. A palavra, teria sido no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo gastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente como a vizinhança do mar. Eis um exemplo de Vergílio:
'Sunt lacrymae rerum et mentem mortalia tangunt'
Um de Meredith:
'Not till the fire is dying in the grate
Look we for any kinship with the stars.'
Ou este Alexandrino de Lugones, cujo espanhol quer regressar ao latim:
'El hombre numeroso de penas y de días.'
Tais versos perseguem na memória o seu caminho de mudanças.
Ao fim de tantos anos – e demasiados – anos de exercício e de literatura, não professo uma estética. Para quê acrescentar aos limites naturais que nos impõe o hábito os de uma teoria qualquer? As teorias, tal como as convicções de ordem política ou religiosa, não são mais do que estímulos. Variam para cada escritor. Whitham teve razão ao negar a rima; essa negação teria sido uma insensatez no caso de Hugo.
Ao percorrer as provas deste livro, noto com algum desagrado que a cegueira ocupa um lugar queixumoso que não ocupa na minha vida. A cegueira é uma clausura, mas também é uma libertação, uma solidão propícia às invenções, uma chave e uma álgebra."
Buenos Aires, Junho de 1975
Jorge Luís Borges
in “ A rosa profunda”
Obras completas. Vol.III
quarta-feira, novembro 30, 2005
Sofia, é para ti este blog!
mariagomes
30.Nov.2005
domingo, novembro 27, 2005
em dezembro
irradia a rosa que me deu a terra ardida,
o ventre sempiterno.
o sonho, esse, vem em frente,
é uma constelação bordada na bandeira submersa
pelo mar -
escavo clamor de rosto, meu fogo imenso e tão menino.
mariagomes
27.Nov.2005
"Se os espíritos de Homero, Virgílio, Al-Maary* e Milton soubessem que a poesia se tornaria uma mascote dos ricos, teriam abandonado o mundo onde isto pudesse acontecer.
Magoa-me ouvir a linguagem dos espíritos tagarelada pelas línguas dos ignorantes. Flagela-me a alma ver os vinhos das musas fluir nas penas dos fingidores.
E não estou sozinho neste vale da Ofensa. Digamos que sou um entre muitos que vêem o sapo inchado imitar o búfalo.
A poesia, meus caros amigos, é uma incarnação sagrada de um sorriso. A poesia é o suspiro que seca as lágrimas. A poesia é um espírito que habita a alma, cujo alimento é o coração e cujo vinho é o afecto. A poesia que não tenha essa forma é um falso messias.
Ó espíritos dos poetas, que velam por nós, dos céus da Eternidade, nós dirigimo-nos aos altares que vocês adornaram com as pérolas dos vossos pensamentos e as jóias das vossas almas porque o estrondo do metal e o ruído das fábricas nos oprime. Por isso os nossos poemas são pesados como locomotivas e irritantes como apitos de vapor.
E vós, verdadeiros poetas, perdoai-nos. Nós pertencemos ao Novo Mundo onde os homens perseguem os bens materiais; e também a poesia se tornou um bem de consumo, e não um sopro de imortalidade."
* Um poeta árabe do século IX que ficou cego com quatro anos e era considerado um génio
Kahlil Gibran
de poetas e poemas,
in" Pensamentos e meditações"
pag 94, 95
edições pergaminho
quinta-feira, novembro 24, 2005
Ezra Pound
in " Os cantos"
Edição, Assírio & Alvim
tradução e introdução de José Lino Grünewald

"os crisântemos", fotografia de joão gomes
quarta-feira, novembro 23, 2005
a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.
imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.
no fim, vivendo uma pedra branca, branca.
mariagomes
21/23.nov.2005
terça-feira, novembro 22, 2005

....
"Ainda que a propriedade, bem entendida, se não deva nunca transgredir, quer empregando palavras com sentidos que naturalmente lhes não competem, quer usando de modos de dizer que não são próprios da língua, ainda assim, há que reparar que é legítimo violar as mais elementares regras da gramática - no estilo expositivo ou no artístico- se com isso ou a ideia ganha clareza ou firmeza, ou à frase se enriquece o seu conteúdo de sugestão. Se determinado efeito, lógico ou artístico, mais fortemente se obtém do emprego de um substantivo masculino apenso a substantivo feminino, não deve o autor hesitar em fazê-lo.
....
A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela."
Fernando Pessoa
in "A Língua Portuguesa"
pag, 72, 73
edição Assírio & Alvim
sábado, novembro 19, 2005
o sangue eterno
cuja vertigem eleva o sangue eterno da floresta,
as aves desabaram, virgens.
sobre a tarde,
o céu purpúreo coroado com um dilúvio de penas,
concentrou, na imagem, o gelo permeável dos tendões.
agora, as tuas mãos depuram minhas formas ancestrais.
mariagomes
19 de Nov.2005
sexta-feira, novembro 18, 2005
cega, coabita um canto suicida.
Com os punhos em flor,
vem conter a ninfa virada, prematuramente, a esse rio.
Neste poema extremo que se deita triste, fala-me de amor.
mariagomes18.Nov.2005
quinta-feira, novembro 17, 2005

"perdi as funções com que fui programado em criança, sou agora um homem sem fé. o que não compreendo torna-se para mim obscuro e muitas vezes surrealista. neste trabalho, as minhas fotografias são quase sempre um espelho da minha perda e do meu vazio."
direitos reservados ao autor, nelson d'aires
quarta-feira, novembro 16, 2005
eu confino a vida como um barco envelhecendo o sono;
esta hora de pássaros,
o tempo móvel,
na madrugada, quando se inibem as palavras.
mariagomes
16.nov.2005
segunda-feira, novembro 14, 2005
de noite, velo por ti na geografia de estrelas implacáveis.
Oh silêncio de símbolos onde me sento,
é minha a voz íntima de muralhas.
mariagomes
14 de nov.2005
domingo, novembro 13, 2005
DEFINIÇÃO
Miguel de Unamuno
sábado, novembro 12, 2005
Le Chant de Virgile

La musique des flûtes et des lyres
se mêle au bruit des crécelles et
les voix des jeunes chatent un chant sacré:
um son merveilleux et puissant s'élève
vers les cieux qui réjuit les dieux.
Sappho de Lesbos
os poetas da Antiquidade na música da Renascença
edição harmonia mundi, s.a., 2001
sexta-feira, novembro 11, 2005
aí cabe um limite.
Ou talvez, de tuas mãos, ninguém grite.
mariagomes
10.Nov.2005
quinta-feira, novembro 10, 2005
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o último suspiro."
Sayd Bahodine Majrouh
in " A Voz secreta das mulheres afegãs,
o suicídio e o canto"
p, 49
versão de Ana Hatherly
edições cavalo de ferro
Apontamento do Filo-Café de Vigo, a 5 de Novembro...

(Pub " Sete Mares", Vigo)
terça-feira, novembro 08, 2005
em pedra, a minha coroa

( Quinta das Lágrimas, 7.Nov.2005, Coimbra)
para haver uma árvore, lançarei a terra à tua luz;
o orvalho fulminante
agarrado secretamente ao lume.
depois, irromperá a folha
da impressão de um ramo doce e nu.
como tu, Inês, eu peço que talhem, em pedra,
a minha coroa
no pecado que propaga o linho, na fonte trigueira;
no gume da humanidade que ainda se transfigura,
para haver uma árvore.
mariagomes
out/nov.2005
segunda-feira, outubro 31, 2005
o significado das águas
a mágoa que se expunha a cobrir o mel da manhã.
e nós lá dentro
como se tudo estivesse, abertamente
no rumor da falésia.
um pássaro forjou o significado das águas.
mariagomes
31deout.2005
sábado, outubro 29, 2005
a seiva
Chegava a integridade de um outono -
a seiva, àquela simples casa que morria
de súbito, e amava.
mariagomes
out.2005
quarta-feira, outubro 26, 2005
os últimos peregrinos
e o resto aberto a quem passa
e nos diz:
- estes são os últimos peregrinos,
têm o nódulo da língua ligada ao sol.
amanhã o mar é o mesmo,
os mesmos peixes lavrarão, no azul, a boca de outro caminho.
mariagomes
26out.2005
terça-feira, outubro 25, 2005
César Fernández Moreno

tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir (...)
fragmento de "Las palabras",
De Argentino hasta la muerte,
Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1963
César Fernández Moreno (Argentina, 1919-1985)
Paul Gauguin

"Where Do We Come From? What Are We? Where Are We Going?"
(Oil on canvas)
a música de um pássaro triste
a música de um pássaro triste.
lançariam os dédalos o projéctil
de um sinónimo destinado à rua?
de onde nasceram os pomos que o céu incorpora?
e esta árvore na imortalidade da lâmpada?
e um suicida?
vê como demora o silêncio, vê como se nega o poema
ao abandono, “nas estátuas que são gente nossa”.(1)
mariagomes
24 de out.2005
(1) in "Mãe", Miguel Torga
domingo, outubro 23, 2005
na página
ouve, eu tenho uma lua nova,
dobro-a com os dedos,
na página.
o mar apagou-se não sei porquê!
os sinos ousam no deserto,
nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.
mariagomes
23.out.2005

448
Eis um Poeta - Aquele que
Tira surpreendentes sentidos
Das significações habituais -
E uma Essência tão vasta
Das espécies familiares
Que pereceram diante da Porta -
Que nos espanta não termos sido Nós
A captá-la - antes-
De Imagens, o Revelador -
O Poeta - é Ele-
Quem nos investe - Por Antítese -
Numa perpétua Indigência -
Dessa Herança - tão inconsciente -
Que Roubo algum - o poderia prejudicar -
Ele próprio - para Si Próprio- um Tesouro-
Estranho - ao próprio Tempo -
Emily Dickinson
in "Emily Dickinson
Poemas e Cartas"
pag, 55, edições Cotovia
tradução de Nuno Júdice
sábado, outubro 22, 2005
de algum lado
de algum lado;
sobre a pele, existe a hora de coisas impassíveis.
os comboios brancos,
aquela flor voltada à janela, falando-nos.
não, meu amor, não podemos perder a raiz
de um corpo incandescente, agora, derramado.
mariagomes
out.2005
segunda-feira, outubro 17, 2005

(W. Eugene Smith in art.transidex.ro)
Ao despertar, nesta manhã cinzenta de chuva, a Sofia* exclamou:
-" Avó, apagaram a rua!"
(*Sofia Gomes, 3 anos)
mariagomes
Coimbra,17 , out.2005
domingo, outubro 16, 2005
Rudolf Steiner
( fotografia de Ruben Moraes)
"A natureza faz do homem um ser natural; a sociedade faz dele um ser social. Somente o homem é capaz de fazer de si um ser livre".
Rudolf Steiner
sexta-feira, outubro 14, 2005
nada de novo
nem a procura é intensa
nem o encontro de um nome nos diz seja o que for.
as mesas permanecem à espera dos retratos da família.
e os livros guardam toda a poesia.
mariagomes
27.março,2005
quinta-feira, outubro 13, 2005

...
"Palavras, frases, sílabas, astros que giram ao redor de um centro fixo. Dois corpos, muitos seres que se encontram numa palavra. O papel cobre-se de letras indeléveis, que ninguém disse, que ninguém ditou, que caíram ali e ardem e queimam e se apagam. Assim pois, existe a poesia, o amor existe. E se eu não existo, existes tu." (...)
Octavio Paz " Águia ou Sol?"
(recolha de Amélia Pais in " Falar Poesia 1, 1ª série.)
quarta-feira, outubro 12, 2005

10 Quem é essa que desponta como a aurora bela como a lua
fulgurante como o sol terrível como as coisas insígnes?
Cântico dos Cânticos
pag. 67
edição bilingue
Tradução de José Tolentino Mendonça
edições Cotovia, Lda
domingo, outubro 09, 2005
Esta Mudança De Mor Espanto
Ta Muda Tenpu
Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.
Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.
Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba
Ku dosura.Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.
Luís Vaz de Camões
tradução para crioulo de Cabo Verde é de José Luís Tavares
sábado, outubro 08, 2005
Nâzim Hikmet :20.01.1902/ 03.06.1963 ( Turquia)
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser fiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei:
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude tocar e compreender
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
20 de Setembro de 1960
Nâzim Hikmet
in " Poemas da prisão e do exílio"
editora & etc
Tradução de Rui Caeiro
segunda-feira, outubro 03, 2005
na existência pura
levantar a delicada forma da carne, da imagem ao nervo,
a morte que transcende a constelação
de um precoce outono perdido na folha onde escrevo.
ah se tu soubesses
como é redonda a levedura que me sela o gesto.
mariagomes
3out.2005
António Maria Lisboa*

(fotografia de mariagomes)
in " A Phala, Um século De Poesia"( 1888-1988)
edição Assírio & Alvim
*António Maria Lisboa (1928-1953) nasceu e faleceu em Lisboa. Foi um dos introdutores do surrealismo em Portugal, tendo colaborado nas sessões do JUBA e nas exposições do Grupo Surrealista Dissidente. Escreveu Erro Próprio (1950), o principal manifesto do surrealismo português, e foi redactor de Afixação Proibida em colaboração com Mário Cesariny de Vasconcelos.
Obras: Ossóptico (Lisboa, 1952), Isso Ontem Único (Lisboa, 1953), A Verticalidade e a Chave (Lisboa, 1956), Exercício sobre o Sono e a Vigília de Alfred Jarry seguido de O Senhor Cágado e o Menino (Lisboa, 1958), Poesia (Lisboa, 1977; 2ª ed., Lisboa 1995).
domingo, outubro 02, 2005
de um coágulo
uma vez , alguém, apertava a intimidade.
trazia pela mão a noite,
como rendimento o coração determinado.
pai, uma vez, uma ilha oferecia a vida,
vastíssima têmpera de um coágulo.
marigomes
2.out.2005
sexta-feira, setembro 23, 2005
tão completa
tão completa quanto esta manhã,
é a lua cerzida pela sombra
aos olhos abertos da calçada,
a minúcia da meditação,
ou o teu rosto em triângulo
ou agosto que deflagrou.
mariagomes
23set.2005
quarta-feira, setembro 21, 2005
a Sofia e uma resposta...
A Sofia*, hoje, disse-me:
- "Avó, eu tenho uma resposta de prendas: o dinheiro."
( *Sofia Gomes, 3 anos de idade)
mariagomes
20Set.2005
segunda-feira, setembro 19, 2005
Hiroshi Watanabe

(fotografia de Hiroshi Watanabe)
à sensação do voo
agora, um cântico coage, imaculado, à sensação do voo.
passo por escadas infindas,
emudeço os ramos dos negros céus do jugo.
juro
que o sangue do meu coração absorve a face das espigas.
juro
que tomo a tua boca, anónima,
quando se incendeia a membrana do vento brando.
todas as pedras se foram,
pela manhã tombada,
em silos púberes, silenciosamente belos, que interpelam.
mariagomes
16 Agosto/Set.2005
nesta madrugada
crê nas palavras.
há palavras que têm o teu nome
na quietude das tâmaras.
como provisão solar, viajo entre o amor e o mar,
e o cerco
que serve um ateneu de mãos raras.
mariagomes
18agosto/set.2005
domingo, setembro 18, 2005
ARTE
André Gide

(fotografia de Augusto Mota)
"Pensamento outonal:
Ainda que só por dentro, as pessoas, como as folhas das árvores,
deviam poder ficar cada dia mais bonitas
antes de cairem por terra."
Augusto Mota
14.09.2005
AUGUSTO MOTA nasceu em Ortigosa, Leiria, em 1936. Licenciado em Filologia Germânica. Foi professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria / Escola Secundária Domingos Sequeira, de 1959 a 1996.
Trabalhou em desenho, pintura, mosaico, gravura e publicidade. É autor de diversas capas de livros, assim como de ilustrações para livros de poesia. Fez maquetas e cenários para grupos de teatro de amadores. Executou painéis decorativos de grandes dimensões para estabelecimentos comerciais de Leiria, sendo ainda autor de muitos logotipos de empresas e associações desta região.
Na década de 60 colaborou activamente, com textos e ilustrações, no movimento cultural dos suplementos e páginas literárias da imprensa regional.
Com o seu filme Variações sobre o mesmo traço, pintado e desenhado directamente sobre película de 8mm, obteve em festivais de cinema de amadores, na sua categoria, três primeiros prémios: Figueira da Foz 1963. Rio Maior 1963, Guimarães 1966, além de uma medalha de honra em Andorra, em 1966.
Em 1959 publicou em Coimbra, em edição de autor, o caderno de prosa Quadriculado. É o autor dos textos das bandas desenhadas Wanya, escala em Orongo (desenho de Nelson Dias / edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1973) e Copra, a flor da memória (desenho de Nelson Dias, fanzine “Copra”, nº 3, Coimbra, 1974). Está representado na antologia Hiroxima (Nova Realidade, Tomar, 1967) e em Juntos por Lorosae (Jorlis, Leiria, 1999).
Tem vindo a colaborar, com textos curtos, na revista Rodapé da Biblioteca Municipal de Beja, tendo inéditos os seguintes escritos: Metáfora, (1962), O Artifício da Loucura (1964), A Geografia do Prazer (2000) e Sujeito Indeterminado – breviário de textos brevíssimos (2003)
Em 1988, no dia da cidade, a Câmara Municipal de Leiria atribuiu-lhe o Galardão do Município “pela sua valiosa e multifacetada obra artística e cultural”.
exposições mais recentes:
Colectiva de Artistas de Leiria, Galeria 57, Leiria, 1998
Colectiva de Artistas de Leiria “Ars Multiplicata”, Rheine, Alemanha, 1999
Colectiva de Artistas de Leiria “Ars Multiplicata”, Leiria, 2000
Individual, “Quadras & Quadros”, 2ª Festa do Livro, Beja, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Confraria do Pão, Monte das Galegas, Terena, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Museu Municipal de Estremoz, 2001
Colectiva internacional “25 anos do Cinanima”, Centro Multimeios, Espinho, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Galeria da Biblioteca Municipal de Redondo, 2003
Individual, “Quadras & Quadros”, Galeria da Livraria Arquivo, Leiria, 2003
Individual, “Quadras & Quadros”, SAAL 2004, Cortes, Leiria, 2004
Individual, “46 Fotopoemas” , Escola Superior de Educação de Leiria, Fev. 2005
sábado, setembro 17, 2005
tudo se concentra
descanso, enfim, na mão a infância longa,
para que o ar nos traga um norte
de claridade cálida,
no espanto.
eu tenho ainda o mármore assinalando
letras de marfim eleitas;
vejo animais à solta,
até os mares alcançam marinheiros,
catapultam-se no céu estrelas suspeitas.
e tudo é tão enorme!
em tudo bate um coração, tudo se concentra.
mariagomes
17 de Set.2005
quinta-feira, setembro 15, 2005
por fim...
por fim,
a dificuldade de entender visivelmente setembro
na desordem dos dedos livres.
na silhueta de tocadores estendida sobre a mesa de alaúdes
não vale a pena os pássaros deporem,
a sul também o corpo vive!
mariagomes
15 Set.2005
quarta-feira, setembro 14, 2005
"Seja o que for que vos venham a dizer, uma coisa é indiscutível: a escrita só existe a partir do sentir. E se estão a usar palavras, também têm de usar pensamentos e imagens dado que as palavras são feitas de pensamentos e de imagens. Se estivessem a escrever música, usariam notas e instrumentos. Se estivessem a pintar um quadro usariam uma tela ou papel. Mas todas estas coisas só adquirem vida se forem impulsionadas pelo sentir, um sentir que, neste caso, vem de dentro de vós e que, podem estar certos, nunca se esgotará. Quanto mais o procurarem, mais o acharão."
(...)
Ted Hughes
in " O Fazer da Poesia"
tradução de Helder Moura Pereira
edição Assírio & Alvim
pag. 138

(fotografia de Augusto Mota)
"Os dias deviam começar sempre assim, a transbordar de uma suave religiosidade panteísta!"
Augusto Mota
13 Set. 2005
terça-feira, setembro 13, 2005
falo de jardins
resvalo por te querer, flor verde do meu seio.
sem caminho,
levanto a aurora com um arado,
colho câmaras de sede que hão-de vir.
preciso da tua eternidade
da noite meia,
dessa contínua canção que me descobre
quando digo que
- hoje irá anoitecer.
mariagomes
13 Set.2005
sexta-feira, setembro 09, 2005
senta-se o destino da chuva
a delinear a humanidade de ninguém.
mariagomes
9set.2005
Orazio Centaro

"Greek Tragedy,I" fotografia de Orazio Centaro
quinta-feira, setembro 08, 2005
a rua respira
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.
certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.
ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.
mariagomes
7 de Set.2005
sábado, setembro 03, 2005
o amor
os levantes vêm do fim.
é assim o amor, ondulação lírica
na língua
inexplicável do fogo.
um roubo.
mariagomes
3set.2005
sexta-feira, setembro 02, 2005

"a Poesia é a confissão sincera do Pensamento mais íntimo de uma idade"
Antero de Quental
(In Prosas I, p.306, Coimbra, Imprensa da Universidade)
*Antero de Quental (1842-1891) nasceu em Ponta Delgada, Açores. Frequentou a Universidade de Coimbra, tendo passado depois algum tempo em Paris. Viajou pelos Estados Unidos e Canadá, fixando-se em Lisboa. Pertenceu à à chamada Geração de Setenta, grupo que pretendia renovar a mentalidade portuguesa, e participou nas Conferências do Casino. Foi amigo, entre outros, de Eça de Queirós e Oliveira Martins. Atacado por uma doença do foro psiquiátrico, regressa aos Açores onde se suicida. As suas obras vão da poesia à reflexão filosófica: Raios de Extinta Luz, Odes Modernas, Primaveras Românticas, Sonetos, Prosas e Cartas.
terça-feira, agosto 30, 2005
inquietação
há nisto tudo uma inquietação como se a morte viesse vestida.
vê pela palavra. a palavra sabe o que é amar
e no entanto
tenta a solidão das cinzas.
mariagomes
30agosto2005
domingo, agosto 21, 2005
Daniel Faria

"Socorre-me, devolve-me a leveza
Da tão primeira nuvem que avistares."
Daniel Faria
in" Explicação das Árvores e de outros animais"
edição Fundação Manuel Leão
pág.58
sábado, agosto 13, 2005
existir

@fotografia de Fernando Costa ( Maputo), "Kruger National Park, S.A."
pela idêntica razão de existir
os pássaros caminham sobre a voz dos búzios.
mariagomes
agosto.2005
de um sopro

fotografia de Fernando Costa ( Maputo) " Kruger National Park, S.A."
as naus entardecem de um sopro ébrio.
e eu sonho, órfã,
com o pão da seriedade,
com a luz do sol que conforta
e se afunda convalescente.
encontrarei a paz neste tumulto
a esvair-se
por um ministério.
mariagomes
agosto.2005
sexta-feira, agosto 12, 2005
No último post esqueci-me de deixar o meu beijinho de agradecimento ao meu irmão de Maputo, Fernando Costa, pela fotografia. Ou pelas fotografias, porque ele enviou, quase, um album. Irei seleccioná-las e publicá-las, são belíssimas e falam de África.
Muito obrigada, pelo brilho que vieste dar à Romã.
mariagomes
Kruger National Park, África do Sul

@fotografia de Fernando Costa ( Maputo)
quarta-feira, agosto 10, 2005
com amor
com amor deram-me o sol.
em jorro,
a viagem que ilibava a janela.
era o crepúsculo,
alterno à capela, de um riso fundo.
mariagomes
agosto.2005
terça-feira, agosto 09, 2005
A poesia... de Torquato da Luz
A poesia não é um código secreto
acessível apenas a alguns
nem uma sucessão de palavras
ininteligível pelo próprio autor.
A poesia é uma tentativa
de entender a vida.
(2005)
Torquato da Luz
segunda-feira, agosto 08, 2005
a dor antiga
voltou a dor antiga, a que definia a fronteira.
sei que trago a pétala que se estiola,
ponta a ponta,
e que a poesia padece.
converto-me numa frente,
arquejante,
como a vela que, em junho, acendeste a nossa senhora.
era, ainda, a infância.
eu morria, matinal, só com a minha sede,
perseguindo a paz de abraçar vendavais.
ardem-me as mãos, mãe!
mariagomes
agosto.2005
domingo, agosto 07, 2005
Silêncio Que Estão Dormindo Os Lagos E As Açucenas

"Hoy siento gran emoción
Voy a cantarle a mi tierra
A esa famosa región
llamada "perla sureña"
...
"Cienfuegos, yo a ti te llevo
metido en mi corazón, "
...
Ibrahim Ferrer
excerto de "Cienfuegos, Tiene Su Guaguancóby "
quando as gaivotas cantam
o dorso, a um céu aberto
tu perguntas: acendem-se ofertas?
abrigo os braços
num grito insondável
no azul
no teu sexo
quando as gaivotas cantam
é como se nada mais houvesse.
mariagomes
agosto.2005
sexta-feira, agosto 05, 2005
Meu Deus, o que foi que nós fizémos?

...
"Meu Deus, o que foi que nós fizemos?"
'Eram 8h 16min 8s. do dia 6 de agosto de 1945. A interrogação foi a primeira reação de um dos tripulantes do Enola Gay, após presenciar a devastação produzida pela primeira bomba atômica jogada sobre uma cidade povoada.Enola Gay foi o nome dado ao avião norte-americano B-29 pelo seu comandante em homenagem à própria mãe. A cidade era Hiroxima, no Japão, que desapareceu em baixo de uma nuvem em forma de cogumelo. As notícias sobre a cidade eram desencontradas, e ninguém sabia exatamente o que ocorrera. No dia 9 outra bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Nagasaki. Os norte-americanos haviam treinado durante meses uma esquadrilha de B-29 para um ataque especial. Nos aviões, quase ninguém sabia o que transportava.Morreram cerca de 100 mil pessoas em Hiroxima e 80 mil em Nagasaki. As vítimas eram civis, cidadãos comuns, já que nenhuma das duas cidades era alvo militar muito importante. O cenário histórico dessa tragédia que permanece até hoje na memória de milhares de japoneses era a guerra no Pacífico, entre Japão e Estados Unidos no contexto do término da Segunda Guerra Mundial.'
....
quinta-feira, agosto 04, 2005
dá-me uma lei, uma flor nas avenidas de vénus,
ou o planeta onde escorro como se erguesse o inferno.
pela primeira vez, o azul sibila certeiro.
mariagomes
4 de agosto,2005, 22 h e 45
quarta-feira, agosto 03, 2005
a mesa posta
a primavera é pequena, imóvel.
nasce para sul à natureza,
espessa,
para uma pausa.
diz que palavras irrompem de catedrais,
porque a arte é autobiográfica
confessa a dualidade do rio onde mergulham facas e beleza.
mariagomes
agosto.2005
terça-feira, agosto 02, 2005
DESCRIÇÃO DE POETA

"O poema é o acto social de uma pessoa solitária".
William Butler Yeats ( 1865-1939)
corpo a corpo
o sol do regresso a sombra acocorada
o princípio subversivo da chuva
e as minhas mãos que se cravaram no nada.
corpo a corpo arranco os espelhos que ficaram à espera.
mariagomes
agosto.2005
domingo, julho 31, 2005
esta lua
e ninguém sabe que enlaça o poema dos verdes ramos.
esta lua é uma graça, à distância estremece
ao ser de sábia mão.
esta lua é um redondo manifesto.
o meu barco, de repente, balança, em silêncio, em fúria;
esta lua insinua.
mariagomes
julh.2005

fotografia de Ansel Adams in art.transindex.ro
sábado, julho 30, 2005
sem ambição
cai uma frente o futuro uma chuva que avança
para um refúgio de horas que se quebram nos quadris.
há uma claridade audaz que me cega
há um abismo doente de alegria
a infância que vê o mar sempre assim iluminado.
ó deserto impassível ó água corrente e castanha ó rio feliz
abre o meu coração como se a morte fosse uma taça
com feitio de coisas feitas pelo oceano.
o meu coração está mais calmo bate como espírito incriado.
mariagomes
julho.2005
quinta-feira, julho 28, 2005
( sem título)
perdi-me no perfil de um poente,
e as amoras amadurecem.
o que escrevo é nada, enquanto os luares correm.
há uma dilatação a urdir a fábula, e o ébano.
meu amor, deixa que seja minha a anuência da música.
a música é uma ínsua no tempo.
mariagomes
julho.2005
quarta-feira, julho 27, 2005

....
"Digo no meu escandir privado:
já alcancei a membrana da romã
fruto áfrico neste patamar sagrado
onde o repouso cala o grito da manhã."
....
Heliodoro Baptista
excerto do poema "história irrasurável"
in " Nos Joelhos do Silêncio"
editorial caminho, 2005
ante a margem
preciso de acordar as pedras do sol.
só depois partirei comigo,
como eu sou,
na delonga do mar
interior
ante a margem e um equívoco.
mariagomes
julho.2005
terça-feira, julho 26, 2005
e.e.cummings
'As obras de arte são de uma solidão infinita e nada nos toca tão pouco como a crítica. Apenas o amor as pode alcançar e deter e julgar equitativamente.'
Na minha orgulhosa e modesta opinião, estas duas frases valem toda a soi-disant crítica das artes que já existiu ou que algum dia existirá. Discordem delas tanto quanto quiserem, mas nunca as esqueçam; porque se as esquecerem terão esquecido o mistério que vocês têm sido, o mistério que serão, e o mistério que agora são-
tantos seres ( tantos demónios e deuses
cada qual mais ganancioso de que todos) é um homem
( tão facilmente um em outro se esconde;
e não pode o homem, sendo todos, fugir a nenhum)
tão vasto tumulto é o mais simples desejo:
tão impiedoso massacre a esperança
mais inocente ( tão profunda é a mente da carne
e tão desperto o que o acordar chama dormir)
assim nunca está mais sozinho o homem só
( o seu mais breve respirar vive o ano de algum planeta,
a sua mais longa vida é a pulsação de algum sol;
a sua menor imobilidade percorre a mais jovem estrela)
- como pode um louco que a si próprio se chama " Eu" supor
que entende um não numerável quem? "
....
E.E. Cummings
in " eu seis inconferências"
edição assírio e alvim
domingo, julho 24, 2005
imaginário
é meu o poema perdido, e uns girassóis,
e esta ânsia
devoluta no silêncio que poderia ter nascido.
nada mais tenho, oh lago imaginário.
mariagomes
24julho2005
sexta-feira, julho 22, 2005
" Memória"

(@ fotografia de mariagomes)
De todos os cilícios, um, apenas,
Me foi grato sofrer:
Cinquenta anos de desassossego
A ver correr,
Serenas,
As águas do Mondego.
Coimbra, 1 de Novembro de 1983
Miguel Torga
quinta-feira, julho 21, 2005
Mia Couto
Os que antes morriam de fome
Passaram a morrer por falta de comida.”
( taberneiro Tuzébio)
Mia Couto
in “ Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”
Editorial caminho
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- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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