quando as palavras me não chegarem
irei colher a estrela morosa no mar
no mar que a terra me deu
ainda que me atormente o sangue de um açoite
louvo a noite a divina noite ilesa
onde rebenta a tristeza
ou uma rosa.
mariagomes
abril.2006
"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
segunda-feira, abril 17, 2006
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4/17/2006 07:04:00 da tarde
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terça-feira, abril 11, 2006
" Se é que já houve uma crise moral, então foi da cor, da matéria, do sangue e dos seus elementos, das palavras e sons, de tudo aquilo que cria tanto uma obra de arte como a vida. Pois, mesmo se cobrirmos uma tela com protuberâncias de cor, independemente do facto, se podemos ou não reconhecer nela uma silhueta - e até mesmo se recorrermos à palavra e aos sons -, não será por essa razão que nasce, forçosamente, uma autêntica obra de arte"
Marc Chagall
(1887/1985)
in "Marc Chagall
Poesia em quadros"
edição Taschen Público
Marc Chagall
(1887/1985)
in "Marc Chagall
Poesia em quadros"
edição Taschen Público
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4/11/2006 04:01:00 da tarde
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quarta-feira, março 29, 2006

" vou-me embora" fotografia de mariagomes
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3/29/2006 10:16:00 da tarde
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terça-feira, março 28, 2006
e se a poesia vier precipitará aquela velha ponte da infância
em propensão futura
em todo o corpo côncavo da boca
haverá primavera enquanto se deita o poema na flor imatura.
mariagomes
março.06
em propensão futura
em todo o corpo côncavo da boca
haverá primavera enquanto se deita o poema na flor imatura.
mariagomes
março.06
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3/28/2006 04:14:00 da tarde
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segunda-feira, março 27, 2006
este é o rio que nos vestiu com punhais de bruma
as bandeiras feriam a pele
à volta do pedúnculo
da lua
agora as aves abrigam a tonalidade
da sombra uma volúvel noite. e respondem.
mariagomes
26/27.março.06
as bandeiras feriam a pele
à volta do pedúnculo
da lua
agora as aves abrigam a tonalidade
da sombra uma volúvel noite. e respondem.
mariagomes
26/27.março.06
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3/27/2006 11:11:00 da tarde
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sexta-feira, março 24, 2006
O destino dos Livros está ... AQUI
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3/24/2006 04:59:00 da tarde
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...
" Ah,
o que não tem explicação
apetece colher dos teus olhos."
...
Amadeu Baptista
in "Salmo", pag 49
edições Asa
" Ah,
o que não tem explicação
apetece colher dos teus olhos."
...
Amadeu Baptista
in "Salmo", pag 49
edições Asa
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3/24/2006 04:35:00 da tarde
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"a cidade e a luz" fotografia de mariagomes
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3/24/2006 04:25:00 da tarde
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quinta-feira, março 23, 2006
na metamorfose da voragem
*
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.
**
está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.
***
arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as crianças nascem
importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.
mariagomes
18/ 23março.06
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.
**
está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.
***
arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as crianças nascem
importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.
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18/ 23março.06
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3/23/2006 11:01:00 da tarde
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quinta-feira, março 16, 2006
Por los derechos humanos en todo el mundo

" a tua voz!", fotografia de mariagomes
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3/16/2006 10:49:00 da tarde
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quarta-feira, março 15, 2006
há uma hora em que a fenda consterna
perfura a escada a pedra mais alta que apertamos
há uma hora que deslocadamente acaba na cor da cisterna
e as gaivotas voltadas nos ramos.
mariagomes
março.2006
perfura a escada a pedra mais alta que apertamos
há uma hora que deslocadamente acaba na cor da cisterna
e as gaivotas voltadas nos ramos.
mariagomes
março.2006
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3/15/2006 01:42:00 da tarde
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segunda-feira, março 13, 2006
é preciso dedilhar a seiva, devolver aos pássaros a migração
porque a memória é como se nos doesse a língua.
os anjos habitam-na,
são castanhos, geométricos, rolam nos seixos desérticos
e depois transpõem o sol
para que o vento sopre, e nos caiba um bocado de matéria.
mariagomes
março.2006
porque a memória é como se nos doesse a língua.
os anjos habitam-na,
são castanhos, geométricos, rolam nos seixos desérticos
e depois transpõem o sol
para que o vento sopre, e nos caiba um bocado de matéria.
mariagomes
março.2006
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3/13/2006 10:42:00 da manhã
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sábado, março 11, 2006
"No hables en tus poemas del ruiseñor
de Wilde, ni menciones amor, perfume, labio o rosa"
—me dice en los manuales Ariel Rivadeneira—
y yo evito poner en cada verso escrito
un ala, algún jardín, la luna de Virgilio,
y hasta a veces me niego, sentado
en el alféizar, a mirar las heladas
del invierno en España, porque queman
las ramas de los árboles todos y la niebla
me invita a escribir con nostalgia"
y ese signo, nostalgia, —me dicen
los manuales— es señal del pasado,
y se debe escribir sin alma, con estilo,
igual que si torcieras el cuello
de una garza con desprecio en tus dedos.
"Habla de cibernética y de física cuántica,
menciona blog, pantalla, correos
electrónicos" —me aconsejan los críticos—.
Y yo sumo las cifras o despejo ecuaciones,
digo leyes, neones, sistemas invisibles
que arman genios, científicos.
También menciono genes, vídeos,
ordenadores, y hay instantes, incluso,
que hablo sin meditar y construyo asonantes
al decir aeropuertos, submarinos, aviones
y algún laboratorio (...), móviles, cines, clones.
Pero aunque logre versos posmodernos
siguiendo los consejos de sabios
que hablan de poesía como hablar
de la historia, de mercados, teoremas
que establecen los pliegues en las cuerdas
del tiempo, no he logrado escribir
el poema perfecto, e incluso
cuando leo alguna línea aislada
de Wilde entre las sábanas, y todos
mis maestros (con diplomas de masters
y perfil de doctores) se divierten
en bares o en los pubs de internet,
yo lloro como dama sin remedio
y me jode el viejo de Quevedo,
y me arriesgo, en la cama, a que digan
los críticos en los post o en revistas:
"¡qué anticuado y qué griego se volvió
Dolan Mor leyendo a los antiguos!,
si hasta le creció un día, encima
de las cejas, (en lugar de la gorra
ladeada sobre un piercing) un ramo
de laurel...
Pero logró dos cosas: pasar
imperceptible delante de los hombres,
como dijo Epicuro, y escribir con la espalda
inclinada en la hoja, sin cederle la mano
al influjo variable del tiempo y de las modas".
(Inédito)
Dolan Mor (Cuba, 1968): Arte poética, 2006
de Wilde, ni menciones amor, perfume, labio o rosa"
—me dice en los manuales Ariel Rivadeneira—
y yo evito poner en cada verso escrito
un ala, algún jardín, la luna de Virgilio,
y hasta a veces me niego, sentado
en el alféizar, a mirar las heladas
del invierno en España, porque queman
las ramas de los árboles todos y la niebla
me invita a escribir con nostalgia"
y ese signo, nostalgia, —me dicen
los manuales— es señal del pasado,
y se debe escribir sin alma, con estilo,
igual que si torcieras el cuello
de una garza con desprecio en tus dedos.
"Habla de cibernética y de física cuántica,
menciona blog, pantalla, correos
electrónicos" —me aconsejan los críticos—.
Y yo sumo las cifras o despejo ecuaciones,
digo leyes, neones, sistemas invisibles
que arman genios, científicos.
También menciono genes, vídeos,
ordenadores, y hay instantes, incluso,
que hablo sin meditar y construyo asonantes
al decir aeropuertos, submarinos, aviones
y algún laboratorio (...), móviles, cines, clones.
Pero aunque logre versos posmodernos
siguiendo los consejos de sabios
que hablan de poesía como hablar
de la historia, de mercados, teoremas
que establecen los pliegues en las cuerdas
del tiempo, no he logrado escribir
el poema perfecto, e incluso
cuando leo alguna línea aislada
de Wilde entre las sábanas, y todos
mis maestros (con diplomas de masters
y perfil de doctores) se divierten
en bares o en los pubs de internet,
yo lloro como dama sin remedio
y me jode el viejo de Quevedo,
y me arriesgo, en la cama, a que digan
los críticos en los post o en revistas:
"¡qué anticuado y qué griego se volvió
Dolan Mor leyendo a los antiguos!,
si hasta le creció un día, encima
de las cejas, (en lugar de la gorra
ladeada sobre un piercing) un ramo
de laurel...
Pero logró dos cosas: pasar
imperceptible delante de los hombres,
como dijo Epicuro, y escribir con la espalda
inclinada en la hoja, sin cederle la mano
al influjo variable del tiempo y de las modas".
(Inédito)
Dolan Mor (Cuba, 1968): Arte poética, 2006
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3/11/2006 01:41:00 da tarde
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domingo, março 05, 2006

"a janela", fotografia de mariagomes
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3/05/2006 12:16:00 da manhã
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quinta-feira, março 02, 2006
quisera o rumor das águas diante das palavras
onde se faz a conversão das coisas
nesta sensível madrugada
na mão esquiva quando os plátanos aleitam pássaros
não tenho o sol para te oferecer
eu saí da convulsão dos teus olhos
inacessível.
mariagomes
março.2006
onde se faz a conversão das coisas
nesta sensível madrugada
na mão esquiva quando os plátanos aleitam pássaros
não tenho o sol para te oferecer
eu saí da convulsão dos teus olhos
inacessível.
mariagomes
março.2006
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3/02/2006 10:53:00 da tarde
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terça-feira, fevereiro 21, 2006
as aves morrem branquíssimas nas paredes
de torpor
e quando o vidro roça um vento que se basta
oh meu amor
os dias debruçam-se a candeias rubras que me afastam.
mariagomes
20fev.2006
de torpor
e quando o vidro roça um vento que se basta
oh meu amor
os dias debruçam-se a candeias rubras que me afastam.
mariagomes
20fev.2006
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2/21/2006 02:29:00 da tarde
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domingo, fevereiro 19, 2006

Desculpem a súbita mudança de ritmo! Mas não podia deixar de vos dar a conhecer uma obra que vem do sul do pacífico. Nas minhas arrumações e desarrumações na música, descobri este cd que é resultado de um trabalho de 10 anos efectuado por David Fanshawe, compositor, fotógrafo, coleccionador de música étnica, personagem cinematográfico e da televisão.
Quem aprecia este "estilo" ( como eu ) vai gostar de ouvir monumental recolha.
A importação e distribuição em Portugal é ( ou foi) de mc/ mundo da canção, Porto, e o título do cd é " Music of the South Pacific", recordings by David Fanshawe, ARC Music Productions Int Ld. Product of United Kingdom, 2002.
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2/19/2006 06:23:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 15, 2006
onde o grito doa
inventa outra palavra até o argênteo
porfia o campo que imprevisto voa.
mariagomes
15fev.2006
inventa outra palavra até o argênteo
porfia o campo que imprevisto voa.
mariagomes
15fev.2006
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2/15/2006 06:03:00 da tarde
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domingo, fevereiro 12, 2006

" vivo", fotografia de mariagomes
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2/12/2006 11:17:00 da tarde
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lavar a palavra
lavá-la na ambiguidade da veia tumular do vocabulário
ante um credo somado à imagem da cicuta.
mariagomes
fev.2006
lavá-la na ambiguidade da veia tumular do vocabulário
ante um credo somado à imagem da cicuta.
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fev.2006
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2/12/2006 12:53:00 da tarde
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sexta-feira, fevereiro 10, 2006
as caves apressaram-se há muito tempo
o chão rebenta
recrudesce
tu sabes
a todo o momento
o gongo de uma seara amarelece nas tuas mãos
violetas
afeiçoas-te à decisão outonal de não dizer.
mariagomes
fev.2006
o chão rebenta
recrudesce
tu sabes
a todo o momento
o gongo de uma seara amarelece nas tuas mãos
violetas
afeiçoas-te à decisão outonal de não dizer.
mariagomes
fev.2006
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2/10/2006 11:46:00 da manhã
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terça-feira, fevereiro 07, 2006
queria que nascesses da lua a deslumbrar as janelas
dantes um poema ardia dentro de ti
como uma expressão cabendo descalça
alagava-me os lábios
queria também que nesta terça-feira dia 7 de Fevereiro
não houvesse sirena única que me dissesse
o mar bateu cem vezes em vezes por ti chamou
os pescadores foram à terra degolar a fome
porque na terra pai as alvas dilatam a memória
e agora a memória está outra vez a bater no mar
contra o silêncio das coisas obscuras.
mariagomes
7 Fev.2006
dantes um poema ardia dentro de ti
como uma expressão cabendo descalça
alagava-me os lábios
queria também que nesta terça-feira dia 7 de Fevereiro
não houvesse sirena única que me dissesse
o mar bateu cem vezes em vezes por ti chamou
os pescadores foram à terra degolar a fome
porque na terra pai as alvas dilatam a memória
e agora a memória está outra vez a bater no mar
contra o silêncio das coisas obscuras.
mariagomes
7 Fev.2006
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2/07/2006 07:51:00 da tarde
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domingo, fevereiro 05, 2006
tendem para uma religiosidade transitável
mas eu não sei para onde nos levam as palavras
por vezes vejo-as detonarem a agudeza do sangue
como aves a povoarem
devagarinho
o retumbar da marimba da ressurreição.
mariagomes
fev.2006
mas eu não sei para onde nos levam as palavras
por vezes vejo-as detonarem a agudeza do sangue
como aves a povoarem
devagarinho
o retumbar da marimba da ressurreição.
mariagomes
fev.2006
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2/05/2006 08:56:00 da tarde
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quinta-feira, fevereiro 02, 2006
desisto do brilho dos astros, das cascatas de pedra
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.
se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.
mariagomes
2 de Fev.2006
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.
se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.
mariagomes
2 de Fev.2006
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2/02/2006 07:37:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 31, 2006
é difícil diluir a ternura cobrir o chão estender os braços
para a fistula que janeiro finda
temos a medida do tempo a poeira insípida
que nos queima a pele onde o mar já existiu
nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil
e hoje o dia é válido.
mariagomes
31 Jan.2006
para a fistula que janeiro finda
temos a medida do tempo a poeira insípida
que nos queima a pele onde o mar já existiu
nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil
e hoje o dia é válido.
mariagomes
31 Jan.2006
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1/31/2006 05:38:00 da tarde
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(...)
"Eu não acredito na imortalidade de coisa alguma; e embora um poema deva valer por si próprio, como obra independente do autor e da sequência da criação a que este foi dando, eu todavia penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação, que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente autobiográficos – a poesia é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade - pois que será esta senão a busca de uma verdade que está para lá da actividade estética , e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? -, ultrapassa precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convincente das criações poéticas , e concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artista são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros, a generosidade que lhes foi negada."
Jorge de Sena
do prefácio ( 1960) da 1ª edição de Poesia-I ( 1961)
obras de Jorge de Sena, antologia poética, edições Asa
"Eu não acredito na imortalidade de coisa alguma; e embora um poema deva valer por si próprio, como obra independente do autor e da sequência da criação a que este foi dando, eu todavia penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação, que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente autobiográficos – a poesia é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade - pois que será esta senão a busca de uma verdade que está para lá da actividade estética , e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? -, ultrapassa precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convincente das criações poéticas , e concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artista são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros, a generosidade que lhes foi negada."
Jorge de Sena
do prefácio ( 1960) da 1ª edição de Poesia-I ( 1961)
obras de Jorge de Sena, antologia poética, edições Asa
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1/31/2006 03:05:00 da tarde
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segunda-feira, janeiro 30, 2006
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1/30/2006 03:30:00 da tarde
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sábado, janeiro 28, 2006
Memória de Carlos Gouveia, "GOIA"

in " Coração transplantado"
Carlos Gouveia, "Goia", nascido em Peniche, Portugal, há 76 anos, faleceu hoje, em Lisboa, vítima de doença prolongada.
Residiu 74 anos na cidade de Benguela, República de Angola. Autor de diversos livros de poesia e crónicas e exímio caricaturista, deixa-nos na certeza de que " chorar não é violência, chorar a ferida que nos dói é alimento"...
mariagomes
nota: " Coração transplantado" foi-me oferecido por Carlos Gouveia, " Goia", em forma de livro manufacturado, a 23 de Março de 2004, em Benguela. Não quis o poeta que eu ficasse com esse coração "transplantado" pela editora, mas com um exemplar totalmente trabalhado por si. Diz-nos , " há que salvar a poesia na mensagem que ela nos impõe, na sua liberdade de expressão, a preocupação de nenhuma regra" . Pelo facto de se ter dedicado, também e ainda mais à pintura, desenho e caricatura, "Goia" relativizava o trabalho de uma gráfica. Era o artista a dar lugar à urgência, e ao tempo.
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1/28/2006 10:53:00 da tarde
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" o caminho das flores", fotografia de mariagomes
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1/28/2006 09:12:00 da tarde
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domingo, janeiro 22, 2006
era uma casa
que elegia a imagem do entendimento como se fosse sua
era um país secreto onde eu te procurava como procurava o peixe
que disseminava a lua
era a infância anelada na palavra casa era um século mais à frente
era a modelação rara da manhã o folgo o ar subido ardente.
mariagomes
22jan.2006
que elegia a imagem do entendimento como se fosse sua
era um país secreto onde eu te procurava como procurava o peixe
que disseminava a lua
era a infância anelada na palavra casa era um século mais à frente
era a modelação rara da manhã o folgo o ar subido ardente.
mariagomes
22jan.2006
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1/22/2006 12:46:00 da tarde
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segunda-feira, janeiro 16, 2006
(a maria joão pires, pianista)
dói abrir o silêncio físico da asa
reter a rósea espuma
dói ouvir a mão sangrar seguir tão rente
verter no sangue o limite do mar como um mistério
dói possuir a sério.
mariagomes
16 de jan.2006
dói abrir o silêncio físico da asa
reter a rósea espuma
dói ouvir a mão sangrar seguir tão rente
verter no sangue o limite do mar como um mistério
dói possuir a sério.
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16 de jan.2006
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1/16/2006 11:32:00 da tarde
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domingo, janeiro 15, 2006
a minha alma começa de um templo tatuado.
à sombra começam coisas a tomar forma:
a flor, a seara, a mesa.
numa dicção acesa alimentam-me as aves.
quando eu me for embora
levarei o corpo desprovido de promessas. a alma, não.
mariagomes
15Jan.2006
à sombra começam coisas a tomar forma:
a flor, a seara, a mesa.
numa dicção acesa alimentam-me as aves.
quando eu me for embora
levarei o corpo desprovido de promessas. a alma, não.
mariagomes
15Jan.2006
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sábado, janeiro 14, 2006

Malangatana
" olhar e sentir Malangatana, saber como pregar esse olhar-e-sentir na casa moira"
Noé da Luz
o meu agradecimento a Noé da Luz pelo que me tem vindo a ensinar deste mestre da pintura moçambicana!
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quarta-feira, janeiro 11, 2006
Desenha-me nas mãos a dormência dos olhos
há lágrimas silábicas quando se acendem as luzes
e o corpo reproduz-se numa infinita fórmula
oh amor edifica-me a tua trajectória!
mariagomes11Jan.2006
há lágrimas silábicas quando se acendem as luzes
e o corpo reproduz-se numa infinita fórmula
oh amor edifica-me a tua trajectória!
mariagomes11Jan.2006
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1/11/2006 09:07:00 da tarde
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"Pátria é uma palavra que podemos dizer
sem que a maioria do povo a reconheça
Ela não pertence ao léxico das palavras comuns
e se os políticos a referem é quase sempre com a violência
De uma retórica vã"
(…)
Excerto de" Pátria Soberana, seguido de Nova Ficção, 1999."
António Ramos Rosa , in " O Poeta Na Rua", edições Quasi
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1/11/2006 12:26:00 da manhã
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domingo, janeiro 01, 2006
algum dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto
algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro
e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.
mariagomes
1Jan.2006
algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro
e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.
mariagomes
1Jan.2006
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1/01/2006 04:06:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 30, 2005
"Genus irritabile vatum"
"Expresión de Horacio " ("Epístolas")
La poesía no es confiable:
es poesía.
*
No siendo poesía
la mala poesía
es confiable.
*
Si un poema no llega a ser un poema
no es un poema:
es lo que es
Un verdadero poema no es lo que es.
*
El poeta previsible
no es invisible
Al ser visible
no es poeta.
Rolando Revagliatti
"La raza irritable de los poetas", 1999
"Expresión de Horacio " ("Epístolas")
La poesía no es confiable:
es poesía.
*
No siendo poesía
la mala poesía
es confiable.
*
Si un poema no llega a ser un poema
no es un poema:
es lo que es
Un verdadero poema no es lo que es.
*
El poeta previsible
no es invisible
Al ser visible
no es poeta.
Rolando Revagliatti
"La raza irritable de los poetas", 1999
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12/30/2005 07:39:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 27, 2005
domingo, dezembro 25, 2005
menino jesus dá-nos a solicitude plena dos violoncelos - o repouso.
mariagomes
25 Dez.2005
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12/25/2005 05:08:00 da tarde
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sábado, dezembro 24, 2005
Um bom Natal

Angola, Uíge, 1991, pau preto, in Pública, " presépios do mundo"
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12/24/2005 06:51:00 da tarde
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quinta-feira, dezembro 15, 2005

( Hellenic Festival, 31 Aug.01, Ancient Theatre of Epidaurus)
agora só as árvores me dirigem
neste quase inverno mudaram a nudez da minha boca
sou uma pessoa resumida às árvores
sou uma folha
vejo uma flor eterna a cair
e chamo-a
inclino-me sobre a minha pele porque murmurei um nome
vê meu amor esta música não pára de subir.
mariagomes
14/15 de Dez.2005
nota- este poema deve ser lido com o acompanhamento da faixa musical nº 2) Lamentu I do cd Eurípedes Trojan Women, música de Eleni Karaindrou da ECM Records, 2002, cuja capa é exibida na foto)
mariagomes
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12/15/2005 03:22:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 13, 2005

parque da cidade dr. manuel braga, coimbra, fotografia de mariagomes, 13 dez.05
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12/13/2005 07:54:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 12, 2005
quando a tua outra face tinha o futuro dentro de uma giesta
as coisas ouviam-se nos teus olhos
as coisas ouviam-se nos teus olhos
divinas
com subtérrea liberdade
eram um pranto o poético dos prados
e no entanto calei mais do que a morte fui a sombra a infância
dos sinos
em cada hora o sol é a memória mais longa que te cabe.
mariagomes
dez.2005
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12/12/2005 03:56:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 07, 2005
nunca é tarde mãe
as lâmpadas enternecem a noite do meu corpo
ainda minto ainda brinco na estria espacial chamo por ti
como o gelo que flameja convida-me um epitáfio escrevo o sono das aves que em mim poisam.
mariagomes
7 Dez.2005, 19 h.
as lâmpadas enternecem a noite do meu corpo
ainda minto ainda brinco na estria espacial chamo por ti
como o gelo que flameja convida-me um epitáfio escrevo o sono das aves que em mim poisam.
mariagomes
7 Dez.2005, 19 h.
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12/07/2005 07:54:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 05, 2005
esta voz que persegue como a pedra
que te escreve
esta voz ecoa no caminho
no que foi ternura
que te escreve
esta voz ecoa no caminho
no que foi ternura
- flor
- luar
- clausura
piano dentro da palavra.
mariagomes
5dez.2005
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12/05/2005 06:54:00 da tarde
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sábado, dezembro 03, 2005
olha,há mais do que a lucidez da água batendo nos escombros,
terrífica.
não consigo escrever, a palavra é feita de um peixe azul.
em consenso inútil,
o mar fica-se pelo tempo que me percorre
e a humildade da cinza.
devolvo-te a voz.
mariagomes
dez.2005
terrífica.
não consigo escrever, a palavra é feita de um peixe azul.
em consenso inútil,
o mar fica-se pelo tempo que me percorre
e a humildade da cinza.
devolvo-te a voz.
mariagomes
dez.2005
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12/03/2005 06:00:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 02, 2005
"A doutrina romântica de uma Musa inspiradora dos poetas foi a que professaram os clássicos; a doutrina clássica do poema como uma operação de inteligência foi enunciada por um romântico, Poe, por volta de 1846. O facto é paradoxal. Excepto alguns casos isolados de inspiração onírica - o sonho do pastor foi referido por Beda, o ilustre sonho de Colidge -, é evidente que ambas as doutrinas têm o seu quê de verdadeiro, embora correspondam a diversa fases do processo. ( por Musa devemos entender aquilo a que os Hebreus e Milton chamaram o Espírito e a que a nossa triste mitologia chama o Subconsciente). No que me diz respeito, o processo é mais ou menos variável. Começo por avistar uma forma, uma espécie de ilha remota, que será depois um conto ou uma poesia. Vejo o fim e vejo o princípio, não o que se encontra entre os dois. Isso é-me revelado gradualmente, quando os astros ou o acaso são propícios. Por mais de uma vez tenho de desbravar o caminho pela zona da sombra. Tento intervir o menos possível na evolução da obra. Não quero que a distorçam as minhas opiniões, que são o mais frívolo que temos. O conceito de arte comprometida é uma ingenuidade, porque ninguém sabe ao certo o que executa. Um escritor, admitiu Kliping, pode conceber uma história, mas não penetrar na sua lição moral. Deve ser leal à sua imaginação e não às meras circunstâncias efémeras de uma suposta “realidade”.
A literatura parte do verso e pode levar séculos a discernir a possibilidade da prosa. Ao fim de quatrocentos anos, os Anglo- Saxónicos deixaram-nos uma poesia não poucas vezes admirável e uma prosa apenas explícita. A palavra, teria sido no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo gastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente como a vizinhança do mar. Eis um exemplo de Vergílio:
'Sunt lacrymae rerum et mentem mortalia tangunt'
Um de Meredith:
'Not till the fire is dying in the grate
Look we for any kinship with the stars.'
Ou este Alexandrino de Lugones, cujo espanhol quer regressar ao latim:
'El hombre numeroso de penas y de días.'
Tais versos perseguem na memória o seu caminho de mudanças.
Ao fim de tantos anos – e demasiados – anos de exercício e de literatura, não professo uma estética. Para quê acrescentar aos limites naturais que nos impõe o hábito os de uma teoria qualquer? As teorias, tal como as convicções de ordem política ou religiosa, não são mais do que estímulos. Variam para cada escritor. Whitham teve razão ao negar a rima; essa negação teria sido uma insensatez no caso de Hugo.
Ao percorrer as provas deste livro, noto com algum desagrado que a cegueira ocupa um lugar queixumoso que não ocupa na minha vida. A cegueira é uma clausura, mas também é uma libertação, uma solidão propícia às invenções, uma chave e uma álgebra."
Buenos Aires, Junho de 1975
Jorge Luís Borges
in “ A rosa profunda”
Obras completas. Vol.III
A literatura parte do verso e pode levar séculos a discernir a possibilidade da prosa. Ao fim de quatrocentos anos, os Anglo- Saxónicos deixaram-nos uma poesia não poucas vezes admirável e uma prosa apenas explícita. A palavra, teria sido no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo gastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente como a vizinhança do mar. Eis um exemplo de Vergílio:
'Sunt lacrymae rerum et mentem mortalia tangunt'
Um de Meredith:
'Not till the fire is dying in the grate
Look we for any kinship with the stars.'
Ou este Alexandrino de Lugones, cujo espanhol quer regressar ao latim:
'El hombre numeroso de penas y de días.'
Tais versos perseguem na memória o seu caminho de mudanças.
Ao fim de tantos anos – e demasiados – anos de exercício e de literatura, não professo uma estética. Para quê acrescentar aos limites naturais que nos impõe o hábito os de uma teoria qualquer? As teorias, tal como as convicções de ordem política ou religiosa, não são mais do que estímulos. Variam para cada escritor. Whitham teve razão ao negar a rima; essa negação teria sido uma insensatez no caso de Hugo.
Ao percorrer as provas deste livro, noto com algum desagrado que a cegueira ocupa um lugar queixumoso que não ocupa na minha vida. A cegueira é uma clausura, mas também é uma libertação, uma solidão propícia às invenções, uma chave e uma álgebra."
Buenos Aires, Junho de 1975
Jorge Luís Borges
in “ A rosa profunda”
Obras completas. Vol.III
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12/02/2005 09:05:00 da tarde
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quarta-feira, novembro 30, 2005
Sofia, é para ti este blog!
porque também se escreve com o olhar...
mariagomes
30.Nov.2005
mariagomes
30.Nov.2005
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11/30/2005 05:26:00 da tarde
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domingo, novembro 27, 2005
talvez eu queira devolver uma janela aos anéis secretos;
em dezembro
irradia a rosa que me deu a terra ardida,
o ventre sempiterno.
o sonho, esse, vem em frente,
é uma constelação bordada na bandeira submersa
pelo mar -
escavo clamor de rosto, meu fogo imenso e tão menino.
mariagomes
27.Nov.2005
em dezembro
irradia a rosa que me deu a terra ardida,
o ventre sempiterno.
o sonho, esse, vem em frente,
é uma constelação bordada na bandeira submersa
pelo mar -
escavo clamor de rosto, meu fogo imenso e tão menino.
mariagomes
27.Nov.2005
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11/27/2005 07:54:00 da tarde
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....
"Se os espíritos de Homero, Virgílio, Al-Maary* e Milton soubessem que a poesia se tornaria uma mascote dos ricos, teriam abandonado o mundo onde isto pudesse acontecer.
Magoa-me ouvir a linguagem dos espíritos tagarelada pelas línguas dos ignorantes. Flagela-me a alma ver os vinhos das musas fluir nas penas dos fingidores.
E não estou sozinho neste vale da Ofensa. Digamos que sou um entre muitos que vêem o sapo inchado imitar o búfalo.
A poesia, meus caros amigos, é uma incarnação sagrada de um sorriso. A poesia é o suspiro que seca as lágrimas. A poesia é um espírito que habita a alma, cujo alimento é o coração e cujo vinho é o afecto. A poesia que não tenha essa forma é um falso messias.
Ó espíritos dos poetas, que velam por nós, dos céus da Eternidade, nós dirigimo-nos aos altares que vocês adornaram com as pérolas dos vossos pensamentos e as jóias das vossas almas porque o estrondo do metal e o ruído das fábricas nos oprime. Por isso os nossos poemas são pesados como locomotivas e irritantes como apitos de vapor.
E vós, verdadeiros poetas, perdoai-nos. Nós pertencemos ao Novo Mundo onde os homens perseguem os bens materiais; e também a poesia se tornou um bem de consumo, e não um sopro de imortalidade."
* Um poeta árabe do século IX que ficou cego com quatro anos e era considerado um génio
Kahlil Gibran
de poetas e poemas,
in" Pensamentos e meditações"
pag 94, 95
edições pergaminho
"Se os espíritos de Homero, Virgílio, Al-Maary* e Milton soubessem que a poesia se tornaria uma mascote dos ricos, teriam abandonado o mundo onde isto pudesse acontecer.
Magoa-me ouvir a linguagem dos espíritos tagarelada pelas línguas dos ignorantes. Flagela-me a alma ver os vinhos das musas fluir nas penas dos fingidores.
E não estou sozinho neste vale da Ofensa. Digamos que sou um entre muitos que vêem o sapo inchado imitar o búfalo.
A poesia, meus caros amigos, é uma incarnação sagrada de um sorriso. A poesia é o suspiro que seca as lágrimas. A poesia é um espírito que habita a alma, cujo alimento é o coração e cujo vinho é o afecto. A poesia que não tenha essa forma é um falso messias.
Ó espíritos dos poetas, que velam por nós, dos céus da Eternidade, nós dirigimo-nos aos altares que vocês adornaram com as pérolas dos vossos pensamentos e as jóias das vossas almas porque o estrondo do metal e o ruído das fábricas nos oprime. Por isso os nossos poemas são pesados como locomotivas e irritantes como apitos de vapor.
E vós, verdadeiros poetas, perdoai-nos. Nós pertencemos ao Novo Mundo onde os homens perseguem os bens materiais; e também a poesia se tornou um bem de consumo, e não um sopro de imortalidade."
* Um poeta árabe do século IX que ficou cego com quatro anos e era considerado um génio
Kahlil Gibran
de poetas e poemas,
in" Pensamentos e meditações"
pag 94, 95
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11/27/2005 02:52:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 24, 2005
“ Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza.”
Ezra Pound
in " Os cantos"
Edição, Assírio & Alvim
tradução e introdução de José Lino Grünewald
Ezra Pound
in " Os cantos"
Edição, Assírio & Alvim
tradução e introdução de José Lino Grünewald
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11/24/2005 11:09:00 da tarde
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"os crisântemos", fotografia de joão gomes
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11/24/2005 10:15:00 da tarde
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quarta-feira, novembro 23, 2005
quando em mim nada houver, imaginai o incenso nu;
a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.
imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.
no fim, vivendo uma pedra branca, branca.
mariagomes
21/23.nov.2005
a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.
imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.
no fim, vivendo uma pedra branca, branca.
mariagomes
21/23.nov.2005
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11/23/2005 12:26:00 da manhã
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terça-feira, novembro 22, 2005

....
"Ainda que a propriedade, bem entendida, se não deva nunca transgredir, quer empregando palavras com sentidos que naturalmente lhes não competem, quer usando de modos de dizer que não são próprios da língua, ainda assim, há que reparar que é legítimo violar as mais elementares regras da gramática - no estilo expositivo ou no artístico- se com isso ou a ideia ganha clareza ou firmeza, ou à frase se enriquece o seu conteúdo de sugestão. Se determinado efeito, lógico ou artístico, mais fortemente se obtém do emprego de um substantivo masculino apenso a substantivo feminino, não deve o autor hesitar em fazê-lo.
....
A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela."
Fernando Pessoa
in "A Língua Portuguesa"
pag, 72, 73
edição Assírio & Alvim
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11/22/2005 08:48:00 da tarde
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sábado, novembro 19, 2005
o sangue eterno
Oh noite infinita,
cuja vertigem eleva o sangue eterno da floresta,
as aves desabaram, virgens.
sobre a tarde,
o céu purpúreo coroado com um dilúvio de penas,
concentrou, na imagem, o gelo permeável dos tendões.
agora, as tuas mãos depuram minhas formas ancestrais.
mariagomes
19 de Nov.2005
cuja vertigem eleva o sangue eterno da floresta,
as aves desabaram, virgens.
sobre a tarde,
o céu purpúreo coroado com um dilúvio de penas,
concentrou, na imagem, o gelo permeável dos tendões.
agora, as tuas mãos depuram minhas formas ancestrais.
mariagomes
19 de Nov.2005
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11/19/2005 06:37:00 da tarde
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sexta-feira, novembro 18, 2005
A neve voltou branca e fria;
cega, coabita um canto suicida.
Com os punhos em flor,
vem conter a ninfa virada, prematuramente, a esse rio.
Neste poema extremo que se deita triste, fala-me de amor.
mariagomes18.Nov.2005
cega, coabita um canto suicida.
Com os punhos em flor,
vem conter a ninfa virada, prematuramente, a esse rio.
Neste poema extremo que se deita triste, fala-me de amor.
mariagomes18.Nov.2005
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11/18/2005 10:13:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 17, 2005

"perdi as funções com que fui programado em criança, sou agora um homem sem fé. o que não compreendo torna-se para mim obscuro e muitas vezes surrealista. neste trabalho, as minhas fotografias são quase sempre um espelho da minha perda e do meu vazio."
direitos reservados ao autor, nelson d'aires
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11/17/2005 11:16:00 da tarde
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quarta-feira, novembro 16, 2005
para escrever um poema
eu confino a vida como um barco envelhecendo o sono;
esta hora de pássaros,
o tempo móvel,
na madrugada, quando se inibem as palavras.
mariagomes
16.nov.2005
eu confino a vida como um barco envelhecendo o sono;
esta hora de pássaros,
o tempo móvel,
na madrugada, quando se inibem as palavras.
mariagomes
16.nov.2005
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11/16/2005 11:57:00 da manhã
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segunda-feira, novembro 14, 2005
amo-te pelas alamedas, cercada;
de noite, velo por ti na geografia de estrelas implacáveis.
Oh silêncio de símbolos onde me sento,
é minha a voz íntima de muralhas.
mariagomes
14 de nov.2005
de noite, velo por ti na geografia de estrelas implacáveis.
Oh silêncio de símbolos onde me sento,
é minha a voz íntima de muralhas.
mariagomes
14 de nov.2005
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11/14/2005 02:08:00 da tarde
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domingo, novembro 13, 2005
DEFINIÇÃO
"Por cultura entendo a mais intensa vida interior, a de mais batalha, a de mais inquietação, a de mais ânsia ."
Miguel de Unamuno
Miguel de Unamuno
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11/13/2005 03:30:00 da tarde
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sábado, novembro 12, 2005
Le Chant de Virgile

La musique des flûtes et des lyres
se mêle au bruit des crécelles et
les voix des jeunes chatent un chant sacré:
um son merveilleux et puissant s'élève
vers les cieux qui réjuit les dieux.
Sappho de Lesbos
os poetas da Antiquidade na música da Renascença
edição harmonia mundi, s.a., 2001
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11/12/2005 08:00:00 da tarde
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sexta-feira, novembro 11, 2005
da tranquilidade da palavra arranca o retrato da loucura,
aí cabe um limite.
Ou talvez, de tuas mãos, ninguém grite.
mariagomes
10.Nov.2005
aí cabe um limite.
Ou talvez, de tuas mãos, ninguém grite.
mariagomes
10.Nov.2005
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11/11/2005 01:27:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 10, 2005
"Esta mulher exilada não pára de morrer
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o último suspiro."
Sayd Bahodine Majrouh
in " A Voz secreta das mulheres afegãs,
o suicídio e o canto"
p, 49
versão de Ana Hatherly
edições cavalo de ferro
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o último suspiro."
Sayd Bahodine Majrouh
in " A Voz secreta das mulheres afegãs,
o suicídio e o canto"
p, 49
versão de Ana Hatherly
edições cavalo de ferro
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11/10/2005 07:25:00 da tarde
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Apontamento do Filo-Café de Vigo, a 5 de Novembro...

(Pub " Sete Mares", Vigo)
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11/10/2005 06:20:00 da tarde
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terça-feira, novembro 08, 2005
em pedra, a minha coroa

( Quinta das Lágrimas, 7.Nov.2005, Coimbra)
para haver uma árvore, lançarei a terra à tua luz;
o orvalho fulminante
agarrado secretamente ao lume.
depois, irromperá a folha
da impressão de um ramo doce e nu.
como tu, Inês, eu peço que talhem, em pedra,
a minha coroa
no pecado que propaga o linho, na fonte trigueira;
no gume da humanidade que ainda se transfigura,
para haver uma árvore.
mariagomes
out/nov.2005
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11/08/2005 10:00:00 da manhã
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segunda-feira, outubro 31, 2005
o significado das águas
Havia uma cidade de chuva incendiada,
a mágoa que se expunha a cobrir o mel da manhã.
e nós lá dentro
como se tudo estivesse, abertamente
no rumor da falésia.
um pássaro forjou o significado das águas.
mariagomes
31deout.2005
a mágoa que se expunha a cobrir o mel da manhã.
e nós lá dentro
como se tudo estivesse, abertamente
no rumor da falésia.
um pássaro forjou o significado das águas.
mariagomes
31deout.2005
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10/31/2005 11:57:00 da manhã
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sábado, outubro 29, 2005
a seiva
Outrora, eclodiam os desertos.
Chegava a integridade de um outono -
a seiva, àquela simples casa que morria
de súbito, e amava.
mariagomes
out.2005
Chegava a integridade de um outono -
a seiva, àquela simples casa que morria
de súbito, e amava.
mariagomes
out.2005
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10/29/2005 02:19:00 da tarde
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quarta-feira, outubro 26, 2005
os últimos peregrinos
Inventamos palavras cerceando o interior,
e o resto aberto a quem passa
e nos diz:
- estes são os últimos peregrinos,
têm o nódulo da língua ligada ao sol.
amanhã o mar é o mesmo,
os mesmos peixes lavrarão, no azul, a boca de outro caminho.
mariagomes
26out.2005
e o resto aberto a quem passa
e nos diz:
- estes são os últimos peregrinos,
têm o nódulo da língua ligada ao sol.
amanhã o mar é o mesmo,
os mesmos peixes lavrarão, no azul, a boca de outro caminho.
mariagomes
26out.2005
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10/26/2005 04:21:00 da tarde
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terça-feira, outubro 25, 2005
César Fernández Moreno

tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir (...)
fragmento de "Las palabras",
De Argentino hasta la muerte,
Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1963
César Fernández Moreno (Argentina, 1919-1985)
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10/25/2005 09:53:00 da tarde
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Paul Gauguin

"Where Do We Come From? What Are We? Where Are We Going?"
(Oil on canvas)
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10/25/2005 12:19:00 da manhã
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a música de um pássaro triste
eu não sei porque cantaste ao meu olvido,
a música de um pássaro triste.
lançariam os dédalos o projéctil
de um sinónimo destinado à rua?
de onde nasceram os pomos que o céu incorpora?
e esta árvore na imortalidade da lâmpada?
e um suicida?
vê como demora o silêncio, vê como se nega o poema
ao abandono, “nas estátuas que são gente nossa”.(1)
mariagomes
24 de out.2005
(1) in "Mãe", Miguel Torga
a música de um pássaro triste.
lançariam os dédalos o projéctil
de um sinónimo destinado à rua?
de onde nasceram os pomos que o céu incorpora?
e esta árvore na imortalidade da lâmpada?
e um suicida?
vê como demora o silêncio, vê como se nega o poema
ao abandono, “nas estátuas que são gente nossa”.(1)
mariagomes
24 de out.2005
(1) in "Mãe", Miguel Torga
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10/25/2005 12:06:00 da manhã
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domingo, outubro 23, 2005
na página
ouve, eu tenho uma lua nova,
dobro-a com os dedos,
na página.
o mar apagou-se não sei porquê!
os sinos ousam no deserto,
nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.
mariagomes
23.out.2005
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10/23/2005 01:03:00 da tarde
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448
Eis um Poeta - Aquele que
Tira surpreendentes sentidos
Das significações habituais -
E uma Essência tão vasta
Das espécies familiares
Que pereceram diante da Porta -
Que nos espanta não termos sido Nós
A captá-la - antes-
De Imagens, o Revelador -
O Poeta - é Ele-
Quem nos investe - Por Antítese -
Numa perpétua Indigência -
Dessa Herança - tão inconsciente -
Que Roubo algum - o poderia prejudicar -
Ele próprio - para Si Próprio- um Tesouro-
Estranho - ao próprio Tempo -
Emily Dickinson
in "Emily Dickinson
Poemas e Cartas"
pag, 55, edições Cotovia
tradução de Nuno Júdice
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10/23/2005 11:52:00 da manhã
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sábado, outubro 22, 2005
de algum lado
não podemos perder o que sobra da luz
de algum lado;
sobre a pele, existe a hora de coisas impassíveis.
os comboios brancos,
aquela flor voltada à janela, falando-nos.
não, meu amor, não podemos perder a raiz
de um corpo incandescente, agora, derramado.
mariagomes
out.2005
de algum lado;
sobre a pele, existe a hora de coisas impassíveis.
os comboios brancos,
aquela flor voltada à janela, falando-nos.
não, meu amor, não podemos perder a raiz
de um corpo incandescente, agora, derramado.
mariagomes
out.2005
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10/22/2005 12:54:00 da tarde
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segunda-feira, outubro 17, 2005

(W. Eugene Smith in art.transidex.ro)
Ao despertar, nesta manhã cinzenta de chuva, a Sofia* exclamou:
-" Avó, apagaram a rua!"
(*Sofia Gomes, 3 anos)
mariagomes
Coimbra,17 , out.2005
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10/17/2005 12:17:00 da tarde
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domingo, outubro 16, 2005
Rudolf Steiner
"No meu interior vive algo que me guia com mais acerto do que o grau de discernimento que possuo atualmente."
( fotografia de Ruben Moraes)
"A natureza faz do homem um ser natural; a sociedade faz dele um ser social. Somente o homem é capaz de fazer de si um ser livre".
( fotografia de Ruben Moraes)
"A natureza faz do homem um ser natural; a sociedade faz dele um ser social. Somente o homem é capaz de fazer de si um ser livre".
Rudolf Steiner
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10/16/2005 06:06:00 da tarde
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sexta-feira, outubro 14, 2005
nada de novo
lamento, amigo, não trazer nada de novo.
nem a procura é intensa
nem o encontro de um nome nos diz seja o que for.
as mesas permanecem à espera dos retratos da família.
e os livros guardam toda a poesia.
mariagomes
27.março,2005
nem a procura é intensa
nem o encontro de um nome nos diz seja o que for.
as mesas permanecem à espera dos retratos da família.
e os livros guardam toda a poesia.
mariagomes
27.março,2005
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10/14/2005 07:42:00 da tarde
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quinta-feira, outubro 13, 2005

...
"Palavras, frases, sílabas, astros que giram ao redor de um centro fixo. Dois corpos, muitos seres que se encontram numa palavra. O papel cobre-se de letras indeléveis, que ninguém disse, que ninguém ditou, que caíram ali e ardem e queimam e se apagam. Assim pois, existe a poesia, o amor existe. E se eu não existo, existes tu." (...)
Octavio Paz " Águia ou Sol?"
(recolha de Amélia Pais in " Falar Poesia 1, 1ª série.)
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10/13/2005 12:19:00 da tarde
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quarta-feira, outubro 12, 2005

10 Quem é essa que desponta como a aurora bela como a lua
fulgurante como o sol terrível como as coisas insígnes?
Cântico dos Cânticos
pag. 67
edição bilingue
Tradução de José Tolentino Mendonça
edições Cotovia, Lda
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10/12/2005 04:33:00 da tarde
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domingo, outubro 09, 2005
Esta Mudança De Mor Espanto
Ta Muda Tenpu
Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.
Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.
Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba
Ku dosura.Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.
Luís Vaz de Camões
tradução para crioulo de Cabo Verde é de José Luís Tavares
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10/09/2005 08:44:00 da tarde
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sábado, outubro 08, 2005
Nâzim Hikmet :20.01.1902/ 03.06.1963 ( Turquia)
Os cantos dos homens são mais belos que os homens,
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser fiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei:
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude tocar e compreender
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
20 de Setembro de 1960
Nâzim Hikmet
in " Poemas da prisão e do exílio"
editora & etc
Tradução de Rui Caeiro
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.
Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser fiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei:
nunca também os cantos me enganaram.
Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.
Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude tocar e compreender
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...
20 de Setembro de 1960
Nâzim Hikmet
in " Poemas da prisão e do exílio"
editora & etc
Tradução de Rui Caeiro
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10/08/2005 02:48:00 da tarde
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segunda-feira, outubro 03, 2005
na existência pura
quero fotografar o poema na existência pura,
levantar a delicada forma da carne, da imagem ao nervo,
a morte que transcende a constelação
de um precoce outono perdido na folha onde escrevo.
ah se tu soubesses
como é redonda a levedura que me sela o gesto.
mariagomes
3out.2005
levantar a delicada forma da carne, da imagem ao nervo,
a morte que transcende a constelação
de um precoce outono perdido na folha onde escrevo.
ah se tu soubesses
como é redonda a levedura que me sela o gesto.
mariagomes
3out.2005
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10/03/2005 07:46:00 da tarde
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António Maria Lisboa*

(fotografia de mariagomes)
in " A Phala, Um século De Poesia"( 1888-1988)
edição Assírio & Alvim
*António Maria Lisboa (1928-1953) nasceu e faleceu em Lisboa. Foi um dos introdutores do surrealismo em Portugal, tendo colaborado nas sessões do JUBA e nas exposições do Grupo Surrealista Dissidente. Escreveu Erro Próprio (1950), o principal manifesto do surrealismo português, e foi redactor de Afixação Proibida em colaboração com Mário Cesariny de Vasconcelos.
Obras: Ossóptico (Lisboa, 1952), Isso Ontem Único (Lisboa, 1953), A Verticalidade e a Chave (Lisboa, 1956), Exercício sobre o Sono e a Vigília de Alfred Jarry seguido de O Senhor Cágado e o Menino (Lisboa, 1958), Poesia (Lisboa, 1977; 2ª ed., Lisboa 1995).
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10/03/2005 05:04:00 da tarde
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domingo, outubro 02, 2005
de um coágulo
não saias. vou contar-te uma história pequenina;
uma vez , alguém, apertava a intimidade.
trazia pela mão a noite,
como rendimento o coração determinado.
pai, uma vez, uma ilha oferecia a vida,
vastíssima têmpera de um coágulo.
marigomes
2.out.2005
uma vez , alguém, apertava a intimidade.
trazia pela mão a noite,
como rendimento o coração determinado.
pai, uma vez, uma ilha oferecia a vida,
vastíssima têmpera de um coágulo.
marigomes
2.out.2005
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10/02/2005 02:29:00 da tarde
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sexta-feira, setembro 23, 2005
tão completa
tão completa quanto esta manhã,
é a lua cerzida pela sombra
aos olhos abertos da calçada,
a minúcia da meditação,
ou o teu rosto em triângulo
ou agosto que deflagrou.
mariagomes
23set.2005
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9/23/2005 08:58:00 da manhã
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quarta-feira, setembro 21, 2005
a Sofia e uma resposta...
A Sofia*, hoje, disse-me:
- "Avó, eu tenho uma resposta de prendas: o dinheiro."
( *Sofia Gomes, 3 anos de idade)
mariagomes
20Set.2005
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9/21/2005 01:35:00 da manhã
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segunda-feira, setembro 19, 2005
Hiroshi Watanabe

(fotografia de Hiroshi Watanabe)
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9/19/2005 03:48:00 da tarde
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à sensação do voo
todas as pedras se foram.
agora, um cântico coage, imaculado, à sensação do voo.
passo por escadas infindas,
emudeço os ramos dos negros céus do jugo.
juro
que o sangue do meu coração absorve a face das espigas.
juro
que tomo a tua boca, anónima,
quando se incendeia a membrana do vento brando.
todas as pedras se foram,
pela manhã tombada,
em silos púberes, silenciosamente belos, que interpelam.
mariagomes
16 Agosto/Set.2005
agora, um cântico coage, imaculado, à sensação do voo.
passo por escadas infindas,
emudeço os ramos dos negros céus do jugo.
juro
que o sangue do meu coração absorve a face das espigas.
juro
que tomo a tua boca, anónima,
quando se incendeia a membrana do vento brando.
todas as pedras se foram,
pela manhã tombada,
em silos púberes, silenciosamente belos, que interpelam.
mariagomes
16 Agosto/Set.2005
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9/19/2005 03:32:00 da tarde
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nesta madrugada
nesta madrugada de coisas impossíveis,
crê nas palavras.
há palavras que têm o teu nome
na quietude das tâmaras.
como provisão solar, viajo entre o amor e o mar,
e o cerco
que serve um ateneu de mãos raras.
mariagomes
18agosto/set.2005
crê nas palavras.
há palavras que têm o teu nome
na quietude das tâmaras.
como provisão solar, viajo entre o amor e o mar,
e o cerco
que serve um ateneu de mãos raras.
mariagomes
18agosto/set.2005
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9/19/2005 12:48:00 da tarde
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domingo, setembro 18, 2005
ARTE
"A Arte nasce de constrangimento, vive de luta e morre de liberdade"
André Gide
André Gide
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9/18/2005 12:54:00 da tarde
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(fotografia de Augusto Mota)
"Pensamento outonal:
Ainda que só por dentro, as pessoas, como as folhas das árvores,
deviam poder ficar cada dia mais bonitas
antes de cairem por terra."
Augusto Mota
14.09.2005
AUGUSTO MOTA nasceu em Ortigosa, Leiria, em 1936. Licenciado em Filologia Germânica. Foi professor da Escola Industrial e Comercial de Leiria / Escola Secundária Domingos Sequeira, de 1959 a 1996.
Trabalhou em desenho, pintura, mosaico, gravura e publicidade. É autor de diversas capas de livros, assim como de ilustrações para livros de poesia. Fez maquetas e cenários para grupos de teatro de amadores. Executou painéis decorativos de grandes dimensões para estabelecimentos comerciais de Leiria, sendo ainda autor de muitos logotipos de empresas e associações desta região.
Na década de 60 colaborou activamente, com textos e ilustrações, no movimento cultural dos suplementos e páginas literárias da imprensa regional.
Com o seu filme Variações sobre o mesmo traço, pintado e desenhado directamente sobre película de 8mm, obteve em festivais de cinema de amadores, na sua categoria, três primeiros prémios: Figueira da Foz 1963. Rio Maior 1963, Guimarães 1966, além de uma medalha de honra em Andorra, em 1966.
Em 1959 publicou em Coimbra, em edição de autor, o caderno de prosa Quadriculado. É o autor dos textos das bandas desenhadas Wanya, escala em Orongo (desenho de Nelson Dias / edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1973) e Copra, a flor da memória (desenho de Nelson Dias, fanzine “Copra”, nº 3, Coimbra, 1974). Está representado na antologia Hiroxima (Nova Realidade, Tomar, 1967) e em Juntos por Lorosae (Jorlis, Leiria, 1999).
Tem vindo a colaborar, com textos curtos, na revista Rodapé da Biblioteca Municipal de Beja, tendo inéditos os seguintes escritos: Metáfora, (1962), O Artifício da Loucura (1964), A Geografia do Prazer (2000) e Sujeito Indeterminado – breviário de textos brevíssimos (2003)
Em 1988, no dia da cidade, a Câmara Municipal de Leiria atribuiu-lhe o Galardão do Município “pela sua valiosa e multifacetada obra artística e cultural”.
exposições mais recentes:
Colectiva de Artistas de Leiria, Galeria 57, Leiria, 1998
Colectiva de Artistas de Leiria “Ars Multiplicata”, Rheine, Alemanha, 1999
Colectiva de Artistas de Leiria “Ars Multiplicata”, Leiria, 2000
Individual, “Quadras & Quadros”, 2ª Festa do Livro, Beja, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Confraria do Pão, Monte das Galegas, Terena, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Museu Municipal de Estremoz, 2001
Colectiva internacional “25 anos do Cinanima”, Centro Multimeios, Espinho, 2001
Individual, “Quadras & Quadros”, Galeria da Biblioteca Municipal de Redondo, 2003
Individual, “Quadras & Quadros”, Galeria da Livraria Arquivo, Leiria, 2003
Individual, “Quadras & Quadros”, SAAL 2004, Cortes, Leiria, 2004
Individual, “46 Fotopoemas” , Escola Superior de Educação de Leiria, Fev. 2005
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9/18/2005 09:51:00 da manhã
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sábado, setembro 17, 2005
tudo se concentra
( a meu pai)
descanso, enfim, na mão a infância longa,
para que o ar nos traga um norte
de claridade cálida,
no espanto.
eu tenho ainda o mármore assinalando
letras de marfim eleitas;
vejo animais à solta,
até os mares alcançam marinheiros,
catapultam-se no céu estrelas suspeitas.
e tudo é tão enorme!
em tudo bate um coração, tudo se concentra.
mariagomes
17 de Set.2005
descanso, enfim, na mão a infância longa,
para que o ar nos traga um norte
de claridade cálida,
no espanto.
eu tenho ainda o mármore assinalando
letras de marfim eleitas;
vejo animais à solta,
até os mares alcançam marinheiros,
catapultam-se no céu estrelas suspeitas.
e tudo é tão enorme!
em tudo bate um coração, tudo se concentra.
mariagomes
17 de Set.2005
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9/17/2005 09:12:00 da tarde
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quinta-feira, setembro 15, 2005
por fim...
por fim,
a dificuldade de entender visivelmente setembro
na desordem dos dedos livres.
na silhueta de tocadores estendida sobre a mesa de alaúdes
não vale a pena os pássaros deporem,
a sul também o corpo vive!
mariagomes
15 Set.2005
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9/15/2005 11:12:00 da tarde
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quarta-feira, setembro 14, 2005
....
"Seja o que for que vos venham a dizer, uma coisa é indiscutível: a escrita só existe a partir do sentir. E se estão a usar palavras, também têm de usar pensamentos e imagens dado que as palavras são feitas de pensamentos e de imagens. Se estivessem a escrever música, usariam notas e instrumentos. Se estivessem a pintar um quadro usariam uma tela ou papel. Mas todas estas coisas só adquirem vida se forem impulsionadas pelo sentir, um sentir que, neste caso, vem de dentro de vós e que, podem estar certos, nunca se esgotará. Quanto mais o procurarem, mais o acharão."
(...)
Ted Hughes
in " O Fazer da Poesia"
tradução de Helder Moura Pereira
edição Assírio & Alvim
pag. 138
"Seja o que for que vos venham a dizer, uma coisa é indiscutível: a escrita só existe a partir do sentir. E se estão a usar palavras, também têm de usar pensamentos e imagens dado que as palavras são feitas de pensamentos e de imagens. Se estivessem a escrever música, usariam notas e instrumentos. Se estivessem a pintar um quadro usariam uma tela ou papel. Mas todas estas coisas só adquirem vida se forem impulsionadas pelo sentir, um sentir que, neste caso, vem de dentro de vós e que, podem estar certos, nunca se esgotará. Quanto mais o procurarem, mais o acharão."
(...)
Ted Hughes
in " O Fazer da Poesia"
tradução de Helder Moura Pereira
edição Assírio & Alvim
pag. 138
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9/14/2005 11:58:00 da tarde
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(fotografia de Augusto Mota)
"Os dias deviam começar sempre assim, a transbordar de uma suave religiosidade panteísta!"
Augusto Mota
13 Set. 2005
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9/14/2005 09:32:00 da manhã
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terça-feira, setembro 13, 2005
falo de jardins
falo de jardins.
resvalo por te querer, flor verde do meu seio.
sem caminho,
levanto a aurora com um arado,
colho câmaras de sede que hão-de vir.
preciso da tua eternidade
da noite meia,
dessa contínua canção que me descobre
quando digo que
- hoje irá anoitecer.
mariagomes
13 Set.2005
resvalo por te querer, flor verde do meu seio.
sem caminho,
levanto a aurora com um arado,
colho câmaras de sede que hão-de vir.
preciso da tua eternidade
da noite meia,
dessa contínua canção que me descobre
quando digo que
- hoje irá anoitecer.
mariagomes
13 Set.2005
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9/13/2005 06:09:00 da tarde
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sexta-feira, setembro 09, 2005
oh meu amor, gotejam corredores gelados,
senta-se o destino da chuva
a delinear a humanidade de ninguém.
mariagomes
9set.2005
senta-se o destino da chuva
a delinear a humanidade de ninguém.
mariagomes
9set.2005
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9/09/2005 02:31:00 da tarde
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Orazio Centaro

"Greek Tragedy,I" fotografia de Orazio Centaro
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9/09/2005 11:18:00 da manhã
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quinta-feira, setembro 08, 2005
a rua respira
a rua respira de um amarelo minúsculo,
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.
certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.
ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.
mariagomes
7 de Set.2005
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.
certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.
ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.
mariagomes
7 de Set.2005
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