domingo, outubro 22, 2006


[...]
" Para mim o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou...
Não, nem sequer é a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga - imponderável, translúcida : a gentileza. Sim, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo - a gentileza... Daí uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, a romãs e cores!..."
" Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!..."
Mas logo serenando:
- A boa gente que aí vai meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de penar... O meu mundo interior ampliou-se - volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrível. Ah Lúcio! Tenho medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer na vida, perdido nele...
"... E aí tem assunto para uma das suas novelas: um homem que à força de se concentrar, desaparecesse da vida - imigrado no seu mundo interior...
" Não lhe digo eu? A maldita literatura..."
[...]

Mário de Sá- Carneiro

in "A Confissão de Lúcio"
edição Alma Azul

sexta-feira, outubro 20, 2006

( a dmc)


Amar as palavras que se pontificam.

Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.

mariagomes
16.out.06, 22h

quarta-feira, outubro 11, 2006


Olha, mãe, a luz do Outono. A estrela incomensurável.
Sobre ela corre a casa. Os corpos fluidos. E são tardios.
Nos meus olhos estão imagens.

Emerge friamente dos flancos dos meus dedos a cumplicidade dos rios.

mariagomes
10/11Out.2006

terça-feira, outubro 10, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.

Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.

mariagomes
6 de Out.2006

segunda-feira, outubro 02, 2006

"Sempre aspirei por uma forma mais ampla, que não fosse nem poesia nem prosa em demasia e permitisse a compreensão, sem expor ninguém, nem autor nem leitor, a grandes tormentos. Na sua essência, a poesia é algo horrível:
Nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós, e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre, e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris. É por isso que se afirmam, com razão, que a poesia é ditada por um espírito, embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo. É difícil entender a soberba dos poetas, por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta. Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas , e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer? Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado, alguém poderá pensar que estou brincando apenas, ou que encontrei uma outra maneira de elogiar a Arte através da ironia. Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos, que ajudam a suportar a dor e a desgraça. Mas isso não é o mesmo que examinar milhares de obras oriundas direto das clínicas psiquiátricas. Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece, e nós próprios diferentes de nossos delírios. Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia, para obter respeito de parentes e vizinhos. A vantagem da poesia consiste no fato de lembrar-nos da dificuldade de manter a identidade, pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta, e hóspedes invisíveis entram e saem. Concordo, o que estou contando aqui não é poesia. Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade, sob uma pressão insuportável e apenas na esperança de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento. "

Czeslaw Milosz
(1911-2004) Polónia

sábado, setembro 30, 2006

( um tributo a Torga)

no mar colhi o amor, o trigo ao longe, a meninice do vagar
as coisas, como rosas, por exemplo.

ao anoitecer os dedos floriam
eu tive a ventura de ver sorrir o sol, na sede de um país de círios.

mariagomes
30 Set.2006

terça-feira, setembro 26, 2006

[...]“Felizmente que os poetas, como os ciganos, são a vergonha do consenso universal. Nunca se demoram em cada terra senão o tempo suficiente para colherem nela o fruto mais doirado” [...]

Miguel Torga

in " ensaios e discursos"
publicações dom quixote

segunda-feira, setembro 04, 2006

somente nasces flor na minha morte - fidelíssima fractura

dilacerei as rosas
e os espinhos areando a dor debulhando a noite

somente tu se fores a pedra e um arminho.

mariagomes
4 de Set.2006

domingo, agosto 20, 2006

às vezes penso no precioso silêncio desabitado

eu vivo mortalmente a manhã do mundo. aludo
como um navio ao largo.

mariagomes
agosto.2006

sexta-feira, agosto 11, 2006

e a orfandade soçobra ocêanica, em ti, em mim.
somos filhos ignotos do mar grande.
somos peixes voadores, rosas
flores morfológicas a nascerem e a desaparecerem. eu vi.
[...]

mariagomes
11ag.2006



quinta-feira, agosto 03, 2006

tenho nas mãos bocados de qualquer coisa aparente
direi apenas o impenitente que projecta formas acossadas
pela sombra das aves e das águas

eu procuro milagres!

mariagomes
3agosto.2006, 15 h.

domingo, julho 30, 2006

não tocarei na palavra velada pelo amor
é preciso que um vulcão a beije
cheire a mar o som
que estremeça mansa a boca

que se declarem as minhas mãos loucas e pagãs

ficará imune o ardor livre a sensação de haver
em movimento
um altar curvo ou o alimento sobre a mãe.

não tocarei na arrebatada loucura terrestre
no silêncio que cresce das macieiras
que se declarem os rios que respiram inexoráveis
as noites insolúveis e sãs.


mariagomes
julho06

quarta-feira, julho 26, 2006

os olhos não predizem o sereno abraço das quedas
o mar
e os morros

toda a prisão íntima arde longe de mim.


mariagomes
julh.2006
entrego-me ao abandono
como a aurora que derrama o mel das abelhas fluviais.
sou tua
nasci de uma lança fulgente. de um fôlego.

mariagomes
julho.06

segunda-feira, julho 24, 2006

doravante volvida nas puríssimas flores de pedra
ó derradeira pedra ponto em fuga ó criança intacta ao pé do mar
quem de ti me arrancou?

na tua face antevejo lágrimas
lá dentro lágrimas ceifando e a toada do sangue a fiar.

mariagomes
julh.06

quarta-feira, julho 19, 2006

ei-la continuamente cega intuitiva
é um poema a expiação um anjo ferido

o luar é ainda uma gota a mergulhar

ei-la de novo ao tear - a terra anciã
oráculo tremor invisível
sobe às mais altas torres da felicidade pela manhã.


mariagomes
julh.06

domingo, julho 02, 2006

eu acolho-te na fonte de palidez pura

sonhei murar os cristais solares dos liames da loucura
a grande noite.

mariagomes
29jun.06

sexta-feira, junho 30, 2006

[...]"o poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção - decerto nem sempre muito esperançada - de um dia dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho - têm um rumo.
Para onde? Em direcção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que para o poema o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade."[...]

PAUL CELAN
"arte poética, o meridiano e outros textos"
edições cotovia
tradução joão barrento

domingo, junho 25, 2006

deixa que um pássaro cubra o contorno alucinante
e oculto do meu canto
porque eu estou na impressão das coisas

os meus olhos são pássaros
- os pássaros alma inclinada sobre a noite

falo-te devagar do ventre onde vivi

escuto o marulhar de um silêncio proferido
indizível divisa a tua alma

o que semeará o linho
se por ti espera o cosmos do meu leito
e as pedras caminham longas pela estrada

não sei o que te diga
fixam-me as paredes como se eu fosse o sol perdível

mais uma vez as coisas vivem
e o sol ( oh essência!)
deixa que um pássaro cubra o contorno alucinante
e oculto do meu canto.

mariagomes
jun.06

quinta-feira, junho 08, 2006

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. "


(...)

excerto do poema "Aniversário" de Álvaro de Campos

quarta-feira, junho 07, 2006

serei eu o incêndio negro,
seduzirás tu os jasmins de junho.


virá o cunho de uma lágrima lunar,
ou um poema que tarda
e se desfolha.

mariagomes
7 jun.2006

terça-feira, junho 06, 2006

sexta-feira, maio 26, 2006

deixarei a terra quando nada mais houver.
quando o amor se fizer e as garças trocarem os remos dos rios
lançarei as sibilas aos navios.

tu serás o concreto fio dócil do meu frio.

mariagomes
26.maio.06

domingo, abril 30, 2006

Nicanor Parra: What is poetry?, 1989

todo lo que se dice es poesía

todo lo que se escribe es prosa

todo lo que se mueve es poesía

lo que no cambia de lugar es prosa


De Chistes para desorientar a la poesía, 1989.
En Poéticas

sexta-feira, abril 28, 2006


"em abril, a sanfona e o cravo", fotografia de mariagomes

segunda-feira, abril 17, 2006

quando as palavras me não chegarem
irei colher a estrela morosa no mar

no mar que a terra me deu
ainda que me atormente o sangue de um açoite
louvo a noite a divina noite ilesa
onde rebenta a tristeza
ou uma rosa.


mariagomes
abril.2006

terça-feira, abril 11, 2006

" Se é que já houve uma crise moral, então foi da cor, da matéria, do sangue e dos seus elementos, das palavras e sons, de tudo aquilo que cria tanto uma obra de arte como a vida. Pois, mesmo se cobrirmos uma tela com protuberâncias de cor, independemente do facto, se podemos ou não reconhecer nela uma silhueta - e até mesmo se recorrermos à palavra e aos sons -, não será por essa razão que nasce, forçosamente, uma autêntica obra de arte"

Marc Chagall
(1887/1985)

in "Marc Chagall
Poesia em quadros"
edição Taschen Público

quarta-feira, março 29, 2006


" vou-me embora" fotografia de mariagomes

terça-feira, março 28, 2006

e se a poesia vier precipitará aquela velha ponte da infância
em propensão futura
em todo o corpo côncavo da boca
haverá primavera enquanto se deita o poema na flor imatura.

mariagomes
março.06



segunda-feira, março 27, 2006

este é o rio que nos vestiu com punhais de bruma
as bandeiras feriam a pele
à volta do pedúnculo
da lua


agora as aves abrigam a tonalidade
da sombra uma volúvel noite. e respondem.

mariagomes
26/27.março.06

sexta-feira, março 24, 2006

O destino dos Livros está ... AQUI
...

" Ah,
o que não tem explicação
apetece colher dos teus olhos."

...

Amadeu Baptista
in "Salmo", pag 49
edições Asa

"a cidade e a luz" fotografia de mariagomes

quinta-feira, março 23, 2006

na metamorfose da voragem

*
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.

a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.

**

está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram

abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.

***

arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira

e as crianças nascem

importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.

mariagomes
18/ 23março.06

quinta-feira, março 16, 2006

quarta-feira, março 15, 2006

há uma hora em que a fenda consterna
perfura a escada a pedra mais alta que apertamos

há uma hora que deslocadamente acaba na cor da cisterna

e as gaivotas voltadas nos ramos.

mariagomes

março.2006

segunda-feira, março 13, 2006

é preciso dedilhar a seiva, devolver aos pássaros a migração
porque a memória é como se nos doesse a língua.

os anjos habitam-na,
são castanhos, geométricos, rolam nos seixos desérticos
e depois transpõem o sol
para que o vento sopre, e nos caiba um bocado de matéria.

mariagomes
março.2006

sábado, março 11, 2006

"No hables en tus poemas del ruiseñor
de Wilde, ni menciones amor, perfume, labio o rosa"
—me dice en los manuales Ariel Rivadeneira—
y yo evito poner en cada verso escrito
un ala, algún jardín, la luna de Virgilio,
y hasta a veces me niego, sentado
en el alféizar, a mirar las heladas
del invierno en España, porque queman
las ramas de los árboles todos y la niebla
me invita a escribir con nostalgia"
y ese signo, nostalgia, —me dicen
los manuales— es señal del pasado,
y se debe escribir sin alma, con estilo,
igual que si torcieras el cuello
de una garza con desprecio en tus dedos.

"Habla de cibernética y de física cuántica,
menciona blog, pantalla, correos
electrónicos" —me aconsejan los críticos—.
Y yo sumo las cifras o despejo ecuaciones,
digo leyes, neones, sistemas invisibles
que arman genios, científicos.
También menciono genes, vídeos,
ordenadores, y hay instantes, incluso,
que hablo sin meditar y construyo asonantes
al decir aeropuertos, submarinos, aviones
y algún laboratorio (...), móviles, cines, clones.

Pero aunque logre versos posmodernos
siguiendo los consejos de sabios
que hablan de poesía como hablar
de la historia, de mercados, teoremas
que establecen los pliegues en las cuerdas
del tiempo, no he logrado escribir
el poema perfecto, e incluso
cuando leo alguna línea aislada
de Wilde entre las sábanas, y todos
mis maestros (con diplomas de masters
y perfil de doctores) se divierten
en bares o en los pubs de internet,
yo lloro como dama sin remedio
y me jode el viejo de Quevedo,
y me arriesgo, en la cama, a que digan
los críticos en los post o en revistas:
"¡qué anticuado y qué griego se volvió
Dolan Mor leyendo a los antiguos!,
si hasta le creció un día, encima
de las cejas, (en lugar de la gorra
ladeada sobre un piercing) un ramo
de laurel...
Pero logró dos cosas: pasar
imperceptible delante de los hombres,
como dijo Epicuro, y escribir con la espalda
inclinada en la hoja, sin cederle la mano
al influjo variable del tiempo y de las modas".

(Inédito)

Dolan Mor (Cuba, 1968): Arte poética, 2006

domingo, março 05, 2006

quinta-feira, março 02, 2006

quisera o rumor das águas diante das palavras
onde se faz a conversão das coisas


nesta sensível madrugada
na mão esquiva quando os plátanos aleitam pássaros
não tenho o sol para te oferecer

eu saí da convulsão dos teus olhos
inacessível.

mariagomes
março.2006

terça-feira, fevereiro 21, 2006

as aves morrem branquíssimas nas paredes
de torpor

e quando o vidro roça um vento que se basta
oh meu amor
os dias debruçam-se a candeias rubras que me afastam.

mariagomes
20fev.2006

domingo, fevereiro 19, 2006



Desculpem a súbita mudança de ritmo! Mas não podia deixar de vos dar a conhecer uma obra que vem do sul do pacífico. Nas minhas arrumações e desarrumações na música, descobri este cd que é resultado de um trabalho de 10 anos efectuado por David Fanshawe, compositor, fotógrafo, coleccionador de música étnica, personagem cinematográfico e da televisão.
Quem aprecia este "estilo" ( como eu ) vai gostar de ouvir monumental recolha.


A importação e distribuição em Portugal é ( ou foi) de mc/ mundo da canção, Porto, e o título do cd é " Music of the South Pacific", recordings by David Fanshawe, ARC Music Productions Int Ld. Product of United Kingdom, 2002.

mariagomes

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

onde o grito doa
inventa outra palavra até o argênteo

porfia o campo que imprevisto voa.

mariagomes
15fev.2006

domingo, fevereiro 12, 2006


" vivo", fotografia de mariagomes
lavar a palavra
lavá-la na ambiguidade da veia tumular do vocabulário
ante um credo somado à imagem da cicuta.

mariagomes
fev.2006

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

as caves apressaram-se há muito tempo
o chão rebenta
recrudesce

tu sabes
a todo o momento
o gongo de uma seara amarelece nas tuas mãos
violetas

afeiçoas-te à decisão outonal de não dizer.

mariagomes
fev.2006

terça-feira, fevereiro 07, 2006

queria que nascesses da lua a deslumbrar as janelas
dantes um poema ardia dentro de ti

como uma expressão cabendo descalça
alagava-me os lábios
queria também que nesta terça-feira dia 7 de Fevereiro
não houvesse sirena única que me dissesse
o mar bateu cem vezes
em vezes por ti chamou
os pescadores foram à terra degolar a fome
porque na terra pai as alvas dilatam a memória

e agora a memória está outra vez a bater no mar
contra o silêncio das coisas obscuras.

mariagomes
7 Fev.2006

domingo, fevereiro 05, 2006

tendem para uma religiosidade transitável
mas eu não sei para onde nos levam as palavras

por vezes vejo-as detonarem a agudeza do sangue


como aves a povoarem
devagarinho
o retumbar da marimba da ressurreição.


mariagomes
fev.2006

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

desisto do brilho dos astros, das cascatas de pedra
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.

se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.

mariagomes
2 de Fev.2006

terça-feira, janeiro 31, 2006

é difícil diluir a ternura cobrir o chão estender os braços
para a fistula que janeiro finda

temos a medida do tempo a poeira insípida

que nos queima a pele onde o mar já existiu

nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil

e hoje o dia é válido.

mariagomes
31 Jan.2006
(...)
"Eu não acredito na imortalidade de coisa alguma; e embora um poema deva valer por si próprio, como obra independente do autor e da sequência da criação a que este foi dando, eu todavia penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação, que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente autobiográficos – a poesia é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade - pois que será esta senão a busca de uma verdade que está para lá da actividade estética , e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? -, ultrapassa precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convincente das criações poéticas , e concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artista são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros, a generosidade que lhes foi negada."


Jorge de Sena

do prefácio ( 1960) da 1ª edição de Poesia-I ( 1961)
obras de Jorge de Sena, antologia poética, edições Asa

sábado, janeiro 28, 2006

Memória de Carlos Gouveia, "GOIA"


in " Coração transplantado"



Carlos Gouveia, "Goia", nascido em Peniche, Portugal, há 76 anos, faleceu hoje, em Lisboa, vítima de doença prolongada.

Residiu 74 anos na cidade de Benguela, República de Angola. Autor de diversos livros de poesia e crónicas e exímio caricaturista, deixa-nos na certeza de que " chorar não é violência, chorar a ferida que nos dói é alimento"...


mariagomes



nota: " Coração transplantado" foi-me oferecido por Carlos Gouveia, " Goia", em forma de livro manufacturado, a 23 de Março de 2004, em Benguela. Não quis o poeta que eu ficasse com esse coração "transplantado" pela editora, mas com um exemplar totalmente trabalhado por si. Diz-nos , " há que salvar a poesia na mensagem que ela nos impõe, na sua liberdade de expressão, a preocupação de nenhuma regra" . Pelo facto de se ter dedicado, também e ainda mais à pintura, desenho e caricatura, "Goia" relativizava o trabalho de uma gráfica. Era o
artista a dar lugar à urgência, e ao tempo.
mariagomes








" o caminho das flores", fotografia de mariagomes

domingo, janeiro 22, 2006

era uma casa
que elegia a imagem do entendimento como se fosse sua


era um país secreto onde eu te procurava como procurava o peixe
que disseminava a lua


era a infância anelada na palavra casa era um século mais à frente

era a modelação rara da manhã o folgo o ar subido ardente.

mariagomes
22jan.2006

segunda-feira, janeiro 16, 2006

(a maria joão pires, pianista)


dói abrir o silêncio físico da asa
reter a rósea espuma

dói ouvir a mão sangrar seguir tão rente
verter no sangue o limite do mar como um mistério

dói possuir a sério.

mariagomes
16 de jan.2006

domingo, janeiro 15, 2006

a minha alma começa de um templo tatuado.

à sombra começam coisas a tomar forma:
a flor, a seara, a mesa.

numa dicção acesa alimentam-me as aves.

quando eu me for embora
levarei o corpo desprovido de promessas. a alma, não.


mariagomes
15Jan.2006

sábado, janeiro 14, 2006


Malangatana


" olhar e sentir Malangatana, saber como pregar esse olhar-e-sentir na casa moira"

Noé da Luz


o meu agradecimento a Noé da Luz pelo que me tem vindo a ensinar deste mestre da pintura moçambicana!

mariagomes

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Desenha-me nas mãos a dormência dos olhos
há lágrimas silábicas quando se acendem as luzes
e o corpo reproduz-se numa infinita fórmula

oh amor edifica-me a tua trajectória!

mariagomes11Jan.2006

"Pátria é uma palavra que podemos dizer
sem que a maioria do povo a reconheça
Ela não pertence ao léxico das palavras comuns
e se os políticos a referem é quase sempre com a violência
De uma retórica vã"
(…)

Excerto de" Pátria Soberana, seguido de Nova Ficção, 1999."
António Ramos Rosa , in " O Poeta Na Rua", edições Quasi

domingo, janeiro 01, 2006

algum dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto

algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro


e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.

mariagomes
1Jan.2006

sexta-feira, dezembro 30, 2005

"Genus irritabile vatum"
"Expresión de Horacio " ("Epístolas")


La poesía no es confiable:
es poesía.

*

No siendo poesía
la mala poesía
es confiable.

*

Si un poema no llega a ser un poema
no es un poema:
es lo que es

Un verdadero poema no es lo que es.

*

El poeta previsible
no es invisible
Al ser visible
no es poeta.


Rolando Revagliatti

"La raza irritable de los poetas", 1999

domingo, dezembro 25, 2005


menino jesus dá-nos a solicitude plena dos violoncelos - o repouso.


mariagomes
25 Dez.2005

sábado, dezembro 24, 2005

Um bom Natal


Angola, Uíge, 1991, pau preto, in Pública, " presépios do mundo"

quinta-feira, dezembro 15, 2005


( Hellenic Festival, 31 Aug.01, Ancient Theatre of Epidaurus)



agora só as árvores me dirigem

neste quase inverno mudaram a nudez da minha boca

sou uma pessoa resumida às árvores
sou uma folha


vejo uma flor eterna a cair
e chamo-a

inclino-me sobre a minha pele porque murmurei um nome

vê meu amor esta música não pára de subir.

mariagomes
14/15 de Dez.2005



nota- este poema deve ser lido com o acompanhamento da faixa musical nº 2) Lamentu I do cd Eurípedes Trojan Women, música de Eleni Karaindrou da ECM Records, 2002, cuja capa é exibida na foto)
mariagomes

terça-feira, dezembro 13, 2005


parque da cidade dr. manuel braga, coimbra, fotografia de mariagomes, 13 dez.05

segunda-feira, dezembro 12, 2005




quando a tua outra face tinha o futuro dentro de uma giesta
as coisas ouviam-se nos teus olhos
divinas
com subtérrea liberdade

eram um pranto o poético dos prados
e no entanto calei mais do que a morte fui a sombra a infância
dos sinos

em cada hora o sol é a memória mais longa que te cabe.


mariagomes
dez.2005



quarta-feira, dezembro 07, 2005

nunca é tarde mãe
as lâmpadas enternecem a noite do meu corpo

ainda minto ainda brinco na estria espacial chamo por ti

como o gelo que flameja convida-me um epitáfio escrevo o sono das aves que em mim poisam.


mariagomes
7 Dez.2005, 19 h.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

esta voz que persegue como a pedra
que te escreve

esta voz ecoa no caminho
no que foi ternura
  • flor
  • luar
  • clausura

piano dentro da palavra.

mariagomes
5dez.2005

sábado, dezembro 03, 2005

olha,há mais do que a lucidez da água batendo nos escombros,
terrífica.

não consigo escrever, a palavra é feita de um peixe azul.
em consenso inútil,
o mar fica-se pelo tempo que me percorre

e a humildade da cinza.

devolvo-te a voz.

mariagomes
dez.2005

sexta-feira, dezembro 02, 2005

"A doutrina romântica de uma Musa inspiradora dos poetas foi a que professaram os clássicos; a doutrina clássica do poema como uma operação de inteligência foi enunciada por um romântico, Poe, por volta de 1846. O facto é paradoxal. Excepto alguns casos isolados de inspiração onírica - o sonho do pastor foi referido por Beda, o ilustre sonho de Colidge -, é evidente que ambas as doutrinas têm o seu quê de verdadeiro, embora correspondam a diversa fases do processo. ( por Musa devemos entender aquilo a que os Hebreus e Milton chamaram o Espírito e a que a nossa triste mitologia chama o Subconsciente). No que me diz respeito, o processo é mais ou menos variável. Começo por avistar uma forma, uma espécie de ilha remota, que será depois um conto ou uma poesia. Vejo o fim e vejo o princípio, não o que se encontra entre os dois. Isso é-me revelado gradualmente, quando os astros ou o acaso são propícios. Por mais de uma vez tenho de desbravar o caminho pela zona da sombra. Tento intervir o menos possível na evolução da obra. Não quero que a distorçam as minhas opiniões, que são o mais frívolo que temos. O conceito de arte comprometida é uma ingenuidade, porque ninguém sabe ao certo o que executa. Um escritor, admitiu Kliping, pode conceber uma história, mas não penetrar na sua lição moral. Deve ser leal à sua imaginação e não às meras circunstâncias efémeras de uma suposta “realidade”.
A literatura parte do verso e pode levar séculos a discernir a possibilidade da prosa. Ao fim de quatrocentos anos, os Anglo- Saxónicos deixaram-nos uma poesia não poucas vezes admirável e uma prosa apenas explícita. A palavra, teria sido no princípio um símbolo mágico, que a usura do tempo gastaria. A missão do poeta seria restituir à palavra, mesmo parcialmente, a sua primitiva e agora oculta virtualidade. Dois deveres teria qualquer verso: comunicar um facto preciso e tocar-nos fisicamente como a vizinhança do mar. Eis um exemplo de Vergílio:

'Sunt lacrymae rerum et mentem mortalia tangunt'

Um de Meredith:

'Not till the fire is dying in the grate
Look we for any kinship with the stars.'

Ou este Alexandrino de Lugones, cujo espanhol quer regressar ao latim:

'El hombre numeroso de penas y de días.'

Tais versos perseguem na memória o seu caminho de mudanças.

Ao fim de tantos anos – e demasiados – anos de exercício e de literatura, não professo uma estética. Para quê acrescentar aos limites naturais que nos impõe o hábito os de uma teoria qualquer? As teorias, tal como as convicções de ordem política ou religiosa, não são mais do que estímulos. Variam para cada escritor. Whitham teve razão ao negar a rima; essa negação teria sido uma insensatez no caso de Hugo.
Ao percorrer as provas deste livro, noto com algum desagrado que a cegueira ocupa um lugar queixumoso que não ocupa na minha vida. A cegueira é uma clausura, mas também é uma libertação, uma solidão propícia às invenções, uma chave e uma álgebra."


Buenos Aires, Junho de 1975

Jorge Luís Borges


in “ A rosa profunda”
Obras completas. Vol.III

quarta-feira, novembro 30, 2005

Sofia, é para ti este blog!

porque também se escreve com o olhar...


mariagomes
30.Nov.2005

domingo, novembro 27, 2005

talvez eu queira devolver uma janela aos anéis secretos;
em dezembro
irradia a rosa que me deu a terra ardida,

o ventre sempiterno.

o sonho, esse, vem em frente,

é uma constelação bordada na bandeira submersa
pelo mar -
escavo clamor de rosto, meu fogo imenso e tão menino.

mariagomes
27.Nov.2005
....

"Se os espíritos de Homero, Virgílio, Al-Maary* e Milton soubessem que a poesia se tornaria uma mascote dos ricos, teriam abandonado o mundo onde isto pudesse acontecer.

Magoa-me ouvir a linguagem dos espíritos tagarelada pelas línguas dos ignorantes. Flagela-me a alma ver os vinhos das musas fluir nas penas dos fingidores.

E não estou sozinho neste vale da Ofensa. Digamos que sou um entre muitos que vêem o sapo inchado imitar o búfalo.

A poesia, meus caros amigos, é uma incarnação sagrada de um sorriso. A poesia é o suspiro que seca as lágrimas. A poesia é um espírito que habita a alma, cujo alimento é o coração e cujo vinho é o afecto. A poesia que não tenha essa forma é um falso messias.

Ó espíritos dos poetas, que velam por nós, dos céus da Eternidade, nós dirigimo-nos aos altares que vocês adornaram com as pérolas dos vossos pensamentos e as jóias das vossas almas porque o estrondo do metal e o ruído das fábricas nos oprime. Por isso os nossos poemas são pesados como locomotivas e irritantes como apitos de vapor.

E vós, verdadeiros poetas, perdoai-nos. Nós pertencemos ao Novo Mundo onde os homens perseguem os bens materiais; e também a poesia se tornou um bem de consumo, e não um sopro de imortalidade."


* Um poeta árabe do século IX que ficou cego com quatro anos e era considerado um génio


Kahlil Gibran
de poetas e poemas,
in" Pensamentos e meditações"
pag 94, 95
edições pergaminho

quinta-feira, novembro 24, 2005

“ Cheguei demasiado tarde à suprema incerteza.”

Ezra Pound

in " Os cantos"
Edição, Assírio & Alvim
tradução e introdução de José Lino Grünewald

"os crisântemos", fotografia de joão gomes

quarta-feira, novembro 23, 2005

quando em mim nada houver, imaginai o incenso nu;

a intensidade de um violino a ouvir o sol
na cidade azul dos homens que, como nós, são de corda.


imaginai, meus filhos, o retorno -
uma festa cada vez mais inacessível, alucinada pelo ouro
do ritual da tempestade.

no fim, vivendo uma pedra branca, branca.

mariagomes
21/23.nov.2005

terça-feira, novembro 22, 2005



....
"Ainda que a propriedade, bem entendida, se não deva nunca transgredir, quer empregando palavras com sentidos que naturalmente lhes não competem, quer usando de modos de dizer que não são próprios da língua, ainda assim, há que reparar que é legítimo violar as mais elementares regras da gramática - no estilo expositivo ou no artístico- se com isso ou a ideia ganha clareza ou firmeza, ou à frase se enriquece o seu conteúdo de sugestão. Se determinado efeito, lógico ou artístico, mais fortemente se obtém do emprego de um substantivo masculino apenso a substantivo feminino, não deve o autor hesitar em fazê-lo.
....
A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela."


Fernando Pessoa
in "A Língua Portuguesa"
pag, 72, 73
edição Assírio & Alvim

sábado, novembro 19, 2005

o sangue eterno

Oh noite infinita,
cuja vertigem eleva o sangue eterno da floresta,
as aves desabaram, virgens.

sobre a tarde,
o céu purpúreo coroado com um dilúvio de penas,
concentrou, na imagem, o gelo permeável dos tendões.

agora, as tuas mãos depuram minhas formas ancestrais.

mariagomes
19 de Nov.2005

sexta-feira, novembro 18, 2005

A neve voltou branca e fria;
cega, coabita um canto suicida.
Com os punhos em flor,
vem conter a ninfa virada, prematuramente, a esse rio.

Neste poema extremo que se deita triste, fala-me de amor.

mariagomes18.Nov.2005

quinta-feira, novembro 17, 2005




"perdi as funções com que fui programado em criança, sou agora um homem sem fé. o que não compreendo torna-se para mim obscuro e muitas vezes surrealista. neste trabalho, as minhas fotografias são quase sempre um espelho da minha perda e do meu vazio."

direitos reservados ao autor, nelson d'aires

quarta-feira, novembro 16, 2005

para escrever um poema
eu confino a vida como um barco envelhecendo o sono;

esta hora de pássaros,

o tempo móvel,

na madrugada, quando se inibem as palavras.

mariagomes
16.nov.2005

segunda-feira, novembro 14, 2005

amo-te pelas alamedas, cercada;
de noite, velo por ti na geografia de estrelas implacáveis.

Oh silêncio de símbolos onde me sento,
é minha a voz íntima de muralhas.

mariagomes
14 de nov.2005

domingo, novembro 13, 2005

DEFINIÇÃO

"Por cultura entendo a mais intensa vida interior, a de mais batalha, a de mais inquietação, a de mais ânsia ."

Miguel de Unamuno

sábado, novembro 12, 2005

Le Chant de Virgile




La musique des flûtes et des lyres
se mêle au bruit des crécelles et
les voix des jeunes chatent un chant sacré:
um son merveilleux et puissant s'élève
vers les cieux qui réjuit les dieux.

Sappho de Lesbos


os poetas da Antiquidade na música da Renascença
edição harmonia mundi, s.a., 2001

sexta-feira, novembro 11, 2005

11 de Novembro e " a CERTEZA de um Filho -de -África- Diferente" - Carlos Gouveia

da tranquilidade da palavra arranca o retrato da loucura,
aí cabe um limite.

Ou talvez, de tuas mãos, ninguém grite.

mariagomes
10.Nov.2005

quinta-feira, novembro 10, 2005

"Esta mulher exilada não pára de morrer
Voltai-lhe o rosto para a terra natal, para que ela exale o último suspiro."

Sayd Bahodine Majrouh


in " A Voz secreta das mulheres afegãs,

o suicídio e o canto"
p, 49
versão de Ana Hatherly
edições cavalo de ferro

Apontamento do Filo-Café de Vigo, a 5 de Novembro...


(Pub " Sete Mares", Vigo)

terça-feira, novembro 08, 2005

em pedra, a minha coroa


( Quinta das Lágrimas, 7.Nov.2005, Coimbra)



para haver uma árvore, lançarei a terra à tua luz;
o orvalho fulminante
agarrado secretamente ao lume.
depois, irromperá a folha
da impressão de um ramo doce e
nu.

como tu, Inês, eu peço que talhem, em pedra,
a minha coroa
no pecado que propaga o linho, na fonte trigueira;
no gume da humanidade que ainda se transfigura,


para haver uma árvore.


mariagomes
out/nov.2005

segunda-feira, outubro 31, 2005

o significado das águas

Havia uma cidade de chuva incendiada,
a mágoa que se expunha a cobrir o mel da manhã.

e nós lá dentro
como se tudo estivesse, abertamente
no rumor da falésia.

um pássaro forjou o significado das águas.

mariagomes

31deout.2005

sábado, outubro 29, 2005

a seiva

Outrora, eclodiam os desertos.
Chegava a integridade de um outono -

a seiva, àquela simples casa que morria
de súbito, e amava.


mariagomes
out.2005

quarta-feira, outubro 26, 2005

os últimos peregrinos

Inventamos palavras cerceando o interior,
e o resto aberto a quem passa
e nos diz:
- estes são os últimos peregrinos,
têm o nódulo da língua ligada ao sol.

amanhã o mar é o mesmo,
os mesmos peixes lavrarão, no azul, a boca de outro caminho.

mariagomes
26out.2005

terça-feira, outubro 25, 2005

César Fernández Moreno




tienen cuerpo las palabras tocan y son tocadas
son caramelos se las puede lamer chupar mamar
hierven como peces en un estanque tropical
tienen tantas formas como las valvas según las rocas a que se adhieran
pero importa mucho más lo que contiene su nacarado seno
la vida deliciosa frágil del ser que las habita
son transparentes para que resplandezca su contenido
son crisálidas clavos ardiendo
granadas que revientan en la mano si no se arrojan a tiempo
sólo viven para morir (...)



fragmento de "Las palabras",
De Argentino hasta la muerte,
Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1963

César Fernández Moreno (Argentina, 1919-1985)

Paul Gauguin



"Where Do We Come From? What Are We? Where Are We Going?"
(Oil on canvas)

a música de um pássaro triste

eu não sei porque cantaste ao meu olvido,
a música de um pássaro triste.

lançariam os dédalos o projéctil
de um sinónimo destinado à rua?

de onde nasceram os pomos que o céu incorpora?
e esta árvore na imortalidade da lâmpada?
e um suicida?

vê como demora o silêncio, vê como se nega o poema
ao abandono, “nas estátuas que são gente nossa”.(1)

mariagomes
24 de out.2005


(1) in "Mãe", Miguel Torga

domingo, outubro 23, 2005

na página


ouve, eu tenho uma lua nova,
dobro-a com os dedos,
na página.
o mar apagou-se não sei porquê!
os sinos ousam no deserto,
nada sabendo do coração ou do afago da pedra onde repousam.


mariagomes
23.out.2005

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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