"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
terça-feira, novembro 06, 2007
quarta-feira, outubro 31, 2007
quinta-feira, outubro 25, 2007
III
Ò corruptos do mundo! aqui nas lousas
Assentai-vos também às santas horas
Em que as vaidades das paixões se esquece.
Em que fala a verdade!
Porque o pó dos que foram já não mente,
Nem adulam espectros de orgulhos,
Nem as lavras ressurgem do seu leito
A beijar-vos as mãos grandes do mundo!
Grandes na corrupção! que a chaga horrenda
De crimes e impiedades andais cobrindo
Com as dobras do manto vergonhoso
De estólida vaidade…
Caíram-vos os véus! e nus ante Ele,
E a primeira vez nus ante vós mesmos,
Olhando-vos, de horror o olhar fecharíeis
E pediríeis a Deus remédio cura.
Vós que esqueçais o céu, e pisai a terra
Não como pátria onde o dever se cumpra,
Mas como escrava que saciar vos deve
De não sei que vil gozo…
Olhando o céu – talvez a vez primeira –
Lembraríeis que há um voz uma alma eterna,
- Uma alma! – não uma hóstia que se imole
Nas aras do egoísmo e da impiedade.
E então, olhando o manto que vos cobre,
Veríeis que mais crime nos delata
Cada palmo de púrpura sangrenta
Que a túnica de César:
E então, em cada prega, em cada fio,
Que do pranto de irmãos… talvez de sangue
Ensopada trazeis, encontraríeis
Um mundo acusador, grandes do mundo!
Mas não, pod’rosos! não, grandes e fortes!
Vós, os Reis! os senhores! um só momento
Corar e arrepender-vos, como o louco
Que inda em Deus tem crença?!
Oh! não! que o vosso Deus é o vosso orgulho;
Vossa justiça e fé, o próprio interesse,
E tendes um sorriso de ironia
Em vez de alma e por céu um monte de oiro.
[…]
Antero de Quental
in Poesia completa
publicações D. Quixote.
Ò corruptos do mundo! aqui nas lousas
Assentai-vos também às santas horas
Em que as vaidades das paixões se esquece.
Em que fala a verdade!
Porque o pó dos que foram já não mente,
Nem adulam espectros de orgulhos,
Nem as lavras ressurgem do seu leito
A beijar-vos as mãos grandes do mundo!
Grandes na corrupção! que a chaga horrenda
De crimes e impiedades andais cobrindo
Com as dobras do manto vergonhoso
De estólida vaidade…
Caíram-vos os véus! e nus ante Ele,
E a primeira vez nus ante vós mesmos,
Olhando-vos, de horror o olhar fecharíeis
E pediríeis a Deus remédio cura.
Vós que esqueçais o céu, e pisai a terra
Não como pátria onde o dever se cumpra,
Mas como escrava que saciar vos deve
De não sei que vil gozo…
Olhando o céu – talvez a vez primeira –
Lembraríeis que há um voz uma alma eterna,
- Uma alma! – não uma hóstia que se imole
Nas aras do egoísmo e da impiedade.
E então, olhando o manto que vos cobre,
Veríeis que mais crime nos delata
Cada palmo de púrpura sangrenta
Que a túnica de César:
E então, em cada prega, em cada fio,
Que do pranto de irmãos… talvez de sangue
Ensopada trazeis, encontraríeis
Um mundo acusador, grandes do mundo!
Mas não, pod’rosos! não, grandes e fortes!
Vós, os Reis! os senhores! um só momento
Corar e arrepender-vos, como o louco
Que inda em Deus tem crença?!
Oh! não! que o vosso Deus é o vosso orgulho;
Vossa justiça e fé, o próprio interesse,
E tendes um sorriso de ironia
Em vez de alma e por céu um monte de oiro.
[…]
Antero de Quental
in Poesia completa
publicações D. Quixote.
quinta-feira, outubro 11, 2007
segunda-feira, outubro 08, 2007
sábado, outubro 06, 2007
terça-feira, outubro 02, 2007
[...]
Somente na Humanidade, há criaturas humanas que não são criaturas humanas. Quantas vezes olhamos para um ser que tem dois pés, duas mãos, a espinha vertical, que cobre o corpo como um fato, que segura nos dentes um charuto, e dizemos : - eis ali um homem. Todavia, aproximamo-nos dele, ouvimos-lhe duas palavras, e…basta! Lá se foi a ilusão. Não era um homem afinal. Um outro bicho? Também não. Apenas um monstro, um aborto, um produto horrível da civilização moderna: a mentira de carne e osso! E a mentira é a mãe da antipatia. A faculdade que o homem tem de ser mentiroso, isto é antipático, é o que o destaca de outros seres; não é a Razão, como pretendem os filósofos bem-humorados: é a Mentira.
Tolstoi, por exemplo está mais perto da pomba e da árvore do que o homem vulgar…
E é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc…
A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita.
A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipresente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensanguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakunine, etc, etc…
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os mujiques da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que é só a gente sincera, inculta, e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens mujiques? A enxada será irmã da pena? A fome de pão parecer-se-á com a fome de luz?...
TEIXEIRA DE PASCOAES
(1) A Águia, I série, nº 4 15-1-1911, pag 11 e 12.
Somente na Humanidade, há criaturas humanas que não são criaturas humanas. Quantas vezes olhamos para um ser que tem dois pés, duas mãos, a espinha vertical, que cobre o corpo como um fato, que segura nos dentes um charuto, e dizemos : - eis ali um homem. Todavia, aproximamo-nos dele, ouvimos-lhe duas palavras, e…basta! Lá se foi a ilusão. Não era um homem afinal. Um outro bicho? Também não. Apenas um monstro, um aborto, um produto horrível da civilização moderna: a mentira de carne e osso! E a mentira é a mãe da antipatia. A faculdade que o homem tem de ser mentiroso, isto é antipático, é o que o destaca de outros seres; não é a Razão, como pretendem os filósofos bem-humorados: é a Mentira.
Tolstoi, por exemplo está mais perto da pomba e da árvore do que o homem vulgar…
E é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc…
A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita.
A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipresente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensanguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakunine, etc, etc…
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os mujiques da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que é só a gente sincera, inculta, e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens mujiques? A enxada será irmã da pena? A fome de pão parecer-se-á com a fome de luz?...
TEIXEIRA DE PASCOAES
(1) A Águia, I série, nº 4 15-1-1911, pag 11 e 12.
quarta-feira, setembro 05, 2007
quarta-feira, agosto 29, 2007
[...]
Lenha mote
crescê-me
na pulmon sec
De sol a sol
nha osse ê verde
bô osse ê planta
C’ma fruta- pon tambor e tchon
De sol a sol
‘ma gritá Rimbaud ô Maiakosky
larga-me da mon
[...]
Secos os pulmões
neles cresce-me
a lenha do mato
De sol a sol
os meus ossos são verdes
os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão
De sol a sol
gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
deixem-me em paz
Corsino Fortes
in “ A cabeça calva de Deus”, p 39, 39
Publicações Dom Quixote
Corsino Fortes nasceu em 14 Fevereiro de 1933 em Mindelo, Ilha de S. Vicente, Cabo Verde…
quinta-feira, agosto 23, 2007
sexta-feira, agosto 17, 2007
terça-feira, julho 24, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
O Poema
A tarde cai,
silenciosa,
morosa...
Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa
rubra e preta,
abre...
Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena
sentindo estoirar
o calibre
do coração,
nostálgico do éden...
-Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!
Para quê negar
a esmola que te pedem?
Saul Dias*
(in 800 anos de poesia portuguesaedição circulo de leitores, 1973)
*Saúl Dias nasceu em 1902 e faleceu em 1983.Saúl Dias é o pseudónimo literário do pintor Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do poeta José Régio. Licenciado em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi pintor, poeta e desenhista. Colaborou na revista Presença com produções literárias, pinturas e desenhos.
[fotografia de mariagomes]
quarta-feira, julho 04, 2007
sexta-feira, junho 29, 2007
Canto para contar daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.
Bruno Tolentino
Bruno Lucio de Carvalho Tolentino , n. Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940, f. S. Paulo, 27 de Junho 2007
livros publicados:
Anulação e Outros Reparos (São Paulo: Massao Ohno, 1963)
Le Vrai le Vain (Paris: Actuels, 1979)
About the Hunt (Oxford: OPN, 1979)
As Horas de Katharina (São Paulo: Companhia das Letras, 1994)
Os Deuses de Hoje (Rio de Janeiro: Record, 1995)
Os Sapos de Ontem (Rio de Janeiro: Diadorim, 1995)
A Balada do Cárcere (Rio de Janeiro: Topbooks, 1996)
O Mundo como Idéia (São Paulo: Globo, 2002)
A Imitação do Amanhecer (São Paulo: Globo, 2006)
quarta-feira, junho 13, 2007
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque
nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um
acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas
das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas
iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Dos “ poemas inconjuntos”, Alberto Caeiro
In "poesia de Fernando Pessoa"
Editorial Presença
Introdução e selecção de Adolfo Casais Monteiro
nota , a 13 de junho de 1888 nasce em Lisboa, às 15 horas, Fernando Antônio Nogueira Pessoa... morre em Lisboa, aos 47 anos, a 30 de Novembro de 1935.
domingo, junho 10, 2007
segunda-feira, maio 21, 2007
quarta-feira, maio 09, 2007
“ Sem actividade criadora não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Ele representa um estado de esforço alegre e doloroso: alegre porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso, porque lhe exige trabalho nos dias de paz e vida nas horas de guerra”
Teixeira da Pascoaes
in Republica ( Porto, 31.1.1929)
Teixeira da Pascoaes
in Republica ( Porto, 31.1.1929)
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5/09/2007 01:43:00 da tarde
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quinta-feira, maio 03, 2007
é com o rumor das águas que falo dos deuses
dos desertos ímpios, saídos
dos cerúleos campos que cantavam, ilesos.
eu falo com a inocuidade dos dedos, como se houvesse um hino
ou caminho contínuo.
mariagomes
maio.2007
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5/03/2007 08:43:00 da tarde
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quinta-feira, abril 26, 2007
tenho, agora, o meu rosto no sangue,
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.
outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.
mariagomes
abril, 2007
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.
outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.
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abril, 2007
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4/26/2007 10:15:00 da manhã
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domingo, março 25, 2007
de onde te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.
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março.07
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3/25/2007 10:49:00 da manhã
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terça-feira, março 06, 2007
e tudo é pouco
o mar
a percepção do horizonte que foi teu e
concedeu à terra a cinza
para que uma outra primavera haja nas flores do âmago
na água cristalina.
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março.2007
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3/06/2007 03:48:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 28, 2007
não posso trair os umbrais das aves,
sem que a palavra seja a memória do meu luto derradeiro.
há um sinal que me vaticina ao sono
como um soluço aceso,
como o corpo locomovido e missionário aos confins.
não posso, meu amor, sair de mim.
mariagomes
fev.2007
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2/28/2007 08:36:00 da manhã
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terça-feira, fevereiro 27, 2007
não posso, meu amor, sair de mim.
a minha encomenda é esta, açular o fogo,
saber de deus
e no fim,
ter a imensidão triste que me abre
ao cardo,
à pele das açucenas, a cegueira plena das manhãs.
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fev.2007
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2/27/2007 09:15:00 da manhã
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sexta-feira, fevereiro 23, 2007
será enorme a noite, os barcos abalroarão os cais.
no amor entregue às coisas, este declive é ainda o teu rosto,
são os teus braços e os teus olhos livres…
escuta-me!, houve uma cidade lavrada,
uma cidade ou uma palavra que eu detive.
mariagomes
23 Fev.2007
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2/23/2007 04:38:00 da tarde
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domingo, janeiro 21, 2007
à terra entrego rosas d'esplendor sibilino;
a tua alma, a força de gritar,
essa, entrego-a ao mar.
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21jan.2007
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1/21/2007 08:38:00 da tarde
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sábado, janeiro 20, 2007
a repartida luz que antevejo
é um refúgio intenso que vive e vai saudando o crepúsculo do meu cais.
oh sempiterno rosto furibundo e anónimo de um sol anoitecido
oh morte oh vida fecham-se os olhos das flores exíguas.
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20Jan.2006
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1/20/2007 02:48:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 16, 2007
O Ser Espiritual ( Teixeira de Pascoaes)
Ah! Sim, o mais perfeito é que domina
O que é menos perfeito; e a Criatura
De natureza anímica e divina
Dirige, atrai e leva o seu Criador
De natureza humana, - de tal forma,
Que a frágil vida do homem animal
Traduz-se na influência que sobre ele
Exerce a criatura espiritual
Que seu meio corpóreo fecundou.
Qualquer homem que, ao ver sua miséria
E sua vida trágica criou
Em pensamento, um ser perfeito livre.
- Esse homem fez um Deus; e desse instante
Seu destino consiste em caminhar
Para esse Deus amado, - mas distante;
Por ele concebido, - e inatingível!
Eis o destino, o fim da vida humana.
Também o fim da terra é conceber
A arvore já mais viva e mais perfeita;
Frutificar, portanto e florescer.
Eis bem claro e bem nítido o sentido
Da Vida, porque o Ser Espiritual
Existe e vive no homem, assim como
Na terra a criatura vegetal;
É do mundo e pertence à Natureza,
De que ele é, na verdade, a flor mais bela,
A expressão derradeira da beleza
Que a luz, o céu, a terra em si contém.
Teixeira de Pascoaes
in “ A Águia, 1ª série, nº 8, 1 de Abril de 1911, p. 8 ( OCTP, vol I, pag 174-175)
O que é menos perfeito; e a Criatura
De natureza anímica e divina
Dirige, atrai e leva o seu Criador
De natureza humana, - de tal forma,
Que a frágil vida do homem animal
Traduz-se na influência que sobre ele
Exerce a criatura espiritual
Que seu meio corpóreo fecundou.
Qualquer homem que, ao ver sua miséria
E sua vida trágica criou
Em pensamento, um ser perfeito livre.
- Esse homem fez um Deus; e desse instante
Seu destino consiste em caminhar
Para esse Deus amado, - mas distante;
Por ele concebido, - e inatingível!
Eis o destino, o fim da vida humana.
Também o fim da terra é conceber
A arvore já mais viva e mais perfeita;
Frutificar, portanto e florescer.
Eis bem claro e bem nítido o sentido
Da Vida, porque o Ser Espiritual
Existe e vive no homem, assim como
Na terra a criatura vegetal;
É do mundo e pertence à Natureza,
De que ele é, na verdade, a flor mais bela,
A expressão derradeira da beleza
Que a luz, o céu, a terra em si contém.
Teixeira de Pascoaes
in “ A Águia, 1ª série, nº 8, 1 de Abril de 1911, p. 8 ( OCTP, vol I, pag 174-175)
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1/16/2007 06:50:00 da tarde
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sábado, dezembro 30, 2006
creio em ti ousando a onda das mais altas
e velhas marés
que ouviram uma cidade deserta esperada
porque tudo em ti é um murmúrio que fala
como último instante calhado no olhar de um pássaro.
mariagomes
29 Dez.2006
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12/30/2006 12:35:00 da manhã
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sexta-feira, dezembro 22, 2006
isto és tu a correr pela cruz do meu corpo dos meus olhos famintos
isto és tu sobre o lago estendendo a mão ao indizível anil das areias
isto és tu a acontecer com a sublevação do sol
pelos raios soçobrando.
mariagomes
22Dez.2006
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12/22/2006 10:44:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 20, 2006
eu fui um navio luzente como sede, reclinado aos rouxinóis
em cada palavra aberta
navega o vento do meu exílio, porque o nada é mais.
mariagomes
20Dez.2006
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12/20/2006 08:36:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 15, 2006

"variações sobre uma estrela", fotografia de mariagomes
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12/15/2006 10:20:00 da tarde
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quinta-feira, dezembro 14, 2006
"O génio, ele é o afecto e o momento presente, construiu a casa aberta ao inverno espumoso e ao rumor do verão, purificou as bebidas e os alimentos, ele, que é a sedução dos lugares evanescentes e a delícia sobre-humana dos lugares parados. É o afecto e o provir, a força e o amor que, ao enfrentarmos a pé firme as dores e contratempos, vemos passar no céu ameaçador e nos estandartes de êxtase.
É ele o amor, medida perfeita e reinventada, razão maravilhosa e inesperada, e a eternidade: máquina amada das qualidades fatais. Já todos sentimos o pavor da sua e a nossa concessão: ó gozo da saúde que possuímos, impulso das nossas faculdades, amor egoísta e paixão que lhe temos, ele, que nos ama para a sua vida infinita...
Lembramo-nos dele, e ele viaja…. E, se a Adoração se for, toca, a sua promessa brada: “ Para trás essa superstições, esses corpos de antigamente, essas famílias e esses tempos. É esta época, porque passamos, que soçobrou!”
Ele não se irá embora, não voltará a descer do céu, não redimirá as cóleras das mulheres, nem as alegrias dos homens, nem outro pecado qualquer: porque ele sendo, e sendo amado, isso já aconteceu.
Oh!, os seus sopros, as suas cabeças, as suas corridas; a terrível celeridade da perfeição das formas e da acção.
Ó fecundidade do espírito e imensidão do universo!
O seu corpo!, a sua quietude sonhada, o quebrar da graça entremeada de uma nova violência!
A sua visão, sua visão!, depois da sua passagem , perdoadas todas as antigas genuflexões e castigos.
A sua hora!, a abolição de todos os sofrimentos sonoros e movediços numa música mais intensa.
O seu passo!, as migrações mais ingentes do que as antigas invasões.
Ó ele e nós!, um orgulho mais benevolente do que as perdidas caridades.
Ó mundo!, e o canto cristalino das novas infelicidades!
O génio, conheceu-nos ele, e a todos ele amou. Saibamos, nesta noite de inverno, de uma ponta a outra, do pólo tumultuoso ao castelo, da multidão à praia, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamar por ele e vê-lo, mandá-lo embora e, sob as marés e no pico dos desertos de neve, seguir as suas visões, o seu sopro, o seu corpo, a sua hora."
Arthur Rimbaud
in “ O rapaz raro”
Iluminações e poemas
Trad. Maria Gabriela Llansol
Edições Relógio D’água
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12/14/2006 11:55:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 13, 2006
não deixo para trás as rosas
alguém disse que o inverno tombaria de um corpo abrasador
para colher coisas que ficaram
a tua voz
o luar
nas tuas mãos que ainda sobe a luz límpida do dia.
mariagomes
13Dez.2006
alguém disse que o inverno tombaria de um corpo abrasador
para colher coisas que ficaram
a tua voz
o luar
nas tuas mãos que ainda sobe a luz límpida do dia.
mariagomes
13Dez.2006
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12/13/2006 07:36:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 11, 2006
"Diante de um grande poeta, tem-se a sensação de que as coisas que permaneceram escondidas no caos emergem."
Christian Hebbel
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12/11/2006 01:58:00 da tarde
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sábado, dezembro 09, 2006
" O sage, Dichter..."
Que fazes tu, poeta? Diz! - Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? - Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta?- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? - Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? - Canto.
Rainer Maria Rilke
Áustria ( 1875-1926)
in " poesia do século XX"
Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena
edições Asa
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12/09/2006 02:36:00 da manhã
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terça-feira, dezembro 05, 2006
para mim, marinheiro, a água é doce e o amor
um abismo volante.
eu confio-te a eternidade
das águas
as parábolas onde se prendem os lírios.
mariagomes
5dez.2006
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12/05/2006 10:15:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 30, 2006
porque dispões as mãos e dizes que ciciam os astros,
eu pretendo intensamente a luz.
tudo se parece com o mistério que redime a vida
como a boca triste, concisa
de um poema.
sempre foi assim o coração que o silêncio celebrou.
mariagomes
29Nov.2006, 23 h e 40m
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11/30/2006 12:01:00 da manhã
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segunda-feira, novembro 27, 2006

"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em 1923 em Lisboa, e faleceu ontem aos 83 anos.
(fotografia do jornal O Público)
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11/27/2006 11:56:00 da manhã
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sexta-feira, novembro 24, 2006
no limo da linguagem
Sim, o desacerto é a extensão do meu peito e eu procuro-te
no limo da linguagem
tão fria
tão imersa
É nesta música que cego movendo-me uma réstia
para depois me levar a migração
à flor do fosso
onde tudo recomeça
Estás a ouvir-me
numa dissoluta vontade eu sou a secura
eu estou na tarde da rosa-dos-ventos
eu sou um enlouquecido movimento
encontrarei o sal das amoras os meus dedos atrás da morte
na imperceptível morte de agora.
mariagomes
24.nov.2006
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11/24/2006 01:57:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 23, 2006
o assalto, Mia Couto
"Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.
Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.
— Para trás!Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?— Diga qualquer coisa.— Qualquer coisa?— Me conte quem é. Você quem é?Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar. — Vá falando.— Falando?— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.
— Você brinca e eu …Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.
— Vá, vamos mais para lá.
Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?
Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:
— O que quer de mim?— Eu quero conversar.— Conversar?— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.
E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:
— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.
E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros. "
Mia Couto
Alguns contos do Mia Couto
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11/23/2006 12:35:00 da tarde
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sábado, novembro 11, 2006
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11/11/2006 10:46:00 da tarde
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quinta-feira, novembro 09, 2006
comovem-me as coisas viandantes as velas
comove-me a aurora onde os lírios culminam como uma declaração de amor
por isto eu quero tocar aquela frágua
algures o sol tão cedo caía numa concha incisiva hesitante e puro
e houve longamente o mar.
mariagomes,
8/9nov.06
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11/09/2006 11:02:00 da manhã
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domingo, novembro 05, 2006

"as flores ouvindo Mozart- I ", fotografia de mariagomes
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11/05/2006 04:44:00 da tarde
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segunda-feira, outubro 30, 2006
o grito da noite repousa sereno,
como a chuva límpida de uma primavera que me visitou;
convergiu lentamente para os meus braços,
trocou-me os passos e o amor,
que as aves cantam, e sangro em seu canto pleno.
mariagomes
30out.2006
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10/30/2006 12:54:00 da tarde
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domingo, outubro 22, 2006
[...]
" Para mim o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou...
Não, nem sequer é a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga - imponderável, translúcida : a gentileza. Sim, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo - a gentileza... Daí uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, a romãs e cores!..."
" Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!..."
Mas logo serenando:
- A boa gente que aí vai meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de penar... O meu mundo interior ampliou-se - volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrível. Ah Lúcio! Tenho medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer na vida, perdido nele...
"... E aí tem assunto para uma das suas novelas: um homem que à força de se concentrar, desaparecesse da vida - imigrado no seu mundo interior...
" Não lhe digo eu? A maldita literatura..."
[...]
Mário de Sá- Carneiro
in "A Confissão de Lúcio"
edição Alma Azul
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10/22/2006 11:35:00 da tarde
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sexta-feira, outubro 20, 2006
( a dmc)
Amar as palavras que se pontificam.
Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.
mariagomes
16.out.06, 22h
Amar as palavras que se pontificam.
Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.
mariagomes
16.out.06, 22h
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10/20/2006 11:57:00 da manhã
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quarta-feira, outubro 11, 2006
Olha, mãe, a luz do Outono. A estrela incomensurável.
Sobre ela corre a casa. Os corpos fluidos. E são tardios.
Nos meus olhos estão imagens.
Emerge friamente dos flancos dos meus dedos a cumplicidade dos rios.
mariagomes
10/11Out.2006
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10/11/2006 12:32:00 da manhã
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terça-feira, outubro 10, 2006

" o rio", fotografia de mariagomes
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10/10/2006 03:29:00 da tarde
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sexta-feira, outubro 06, 2006
Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.
Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.
mariagomes
6 de Out.2006
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.
Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.
mariagomes
6 de Out.2006
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10/06/2006 11:17:00 da manhã
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segunda-feira, outubro 02, 2006
"Sempre aspirei por uma forma mais ampla, que não fosse nem poesia nem prosa em demasia e permitisse a compreensão, sem expor ninguém, nem autor nem leitor, a grandes tormentos. Na sua essência, a poesia é algo horrível:
Nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós, e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre, e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris. É por isso que se afirmam, com razão, que a poesia é ditada por um espírito, embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo. É difícil entender a soberba dos poetas, por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta. Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas , e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer? Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado, alguém poderá pensar que estou brincando apenas, ou que encontrei uma outra maneira de elogiar a Arte através da ironia. Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos, que ajudam a suportar a dor e a desgraça. Mas isso não é o mesmo que examinar milhares de obras oriundas direto das clínicas psiquiátricas. Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece, e nós próprios diferentes de nossos delírios. Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia, para obter respeito de parentes e vizinhos. A vantagem da poesia consiste no fato de lembrar-nos da dificuldade de manter a identidade, pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta, e hóspedes invisíveis entram e saem. Concordo, o que estou contando aqui não é poesia. Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade, sob uma pressão insuportável e apenas na esperança de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento. "
Czeslaw Milosz
(1911-2004) Polónia
Nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós, e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre, e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris. É por isso que se afirmam, com razão, que a poesia é ditada por um espírito, embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo. É difícil entender a soberba dos poetas, por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta. Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas , e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer? Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado, alguém poderá pensar que estou brincando apenas, ou que encontrei uma outra maneira de elogiar a Arte através da ironia. Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos, que ajudam a suportar a dor e a desgraça. Mas isso não é o mesmo que examinar milhares de obras oriundas direto das clínicas psiquiátricas. Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece, e nós próprios diferentes de nossos delírios. Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia, para obter respeito de parentes e vizinhos. A vantagem da poesia consiste no fato de lembrar-nos da dificuldade de manter a identidade, pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta, e hóspedes invisíveis entram e saem. Concordo, o que estou contando aqui não é poesia. Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade, sob uma pressão insuportável e apenas na esperança de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento. "
Czeslaw Milosz
(1911-2004) Polónia
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10/02/2006 04:44:00 da manhã
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sábado, setembro 30, 2006
( um tributo a Torga)
no mar colhi o amor, o trigo ao longe, a meninice do vagar
as coisas, como rosas, por exemplo.
ao anoitecer os dedos floriam
eu tive a ventura de ver sorrir o sol, na sede de um país de círios.
mariagomes
30 Set.2006
as coisas, como rosas, por exemplo.
ao anoitecer os dedos floriam
eu tive a ventura de ver sorrir o sol, na sede de um país de círios.
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30 Set.2006
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9/30/2006 12:11:00 da tarde
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terça-feira, setembro 26, 2006
[...]“Felizmente que os poetas, como os ciganos, são a vergonha do consenso universal. Nunca se demoram em cada terra senão o tempo suficiente para colherem nela o fruto mais doirado” [...]
Miguel Torga
in " ensaios e discursos"
publicações dom quixote
Miguel Torga
in " ensaios e discursos"
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9/26/2006 11:16:00 da tarde
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9/26/2006 07:52:00 da tarde
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segunda-feira, setembro 04, 2006
somente nasces flor na minha morte - fidelíssima fractura
dilacerei as rosas
e os espinhos areando a dor debulhando a noite
somente tu se fores a pedra e um arminho.
mariagomes
4 de Set.2006
dilacerei as rosas
e os espinhos areando a dor debulhando a noite
somente tu se fores a pedra e um arminho.
mariagomes
4 de Set.2006
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9/04/2006 11:51:00 da tarde
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domingo, agosto 20, 2006
às vezes penso no precioso silêncio desabitado
eu vivo mortalmente a manhã do mundo. aludo
como um navio ao largo.
mariagomes
agosto.2006
eu vivo mortalmente a manhã do mundo. aludo
como um navio ao largo.
mariagomes
agosto.2006
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8/20/2006 05:03:00 da tarde
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sexta-feira, agosto 11, 2006
e a orfandade soçobra ocêanica, em ti, em mim.
somos filhos ignotos do mar grande.
somos peixes voadores, rosas
flores morfológicas a nascerem e a desaparecerem. eu vi.
[...]
mariagomes
11ag.2006
somos filhos ignotos do mar grande.
somos peixes voadores, rosas
flores morfológicas a nascerem e a desaparecerem. eu vi.
[...]
mariagomes
11ag.2006
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8/11/2006 12:10:00 da tarde
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quinta-feira, agosto 03, 2006
tenho nas mãos bocados de qualquer coisa aparente
direi apenas o impenitente que projecta formas acossadas
pela sombra das aves e das águas
eu procuro milagres!
mariagomes
3agosto.2006, 15 h.
direi apenas o impenitente que projecta formas acossadas
pela sombra das aves e das águas
eu procuro milagres!
mariagomes
3agosto.2006, 15 h.
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8/03/2006 03:32:00 da tarde
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domingo, julho 30, 2006
não tocarei na palavra velada pelo amor
é preciso que um vulcão a beije
cheire a mar o som
que estremeça mansa a boca
que se declarem as minhas mãos loucas e pagãs
ficará imune o ardor livre a sensação de haver
em movimento
um altar curvo ou o alimento sobre a mãe.
não tocarei na arrebatada loucura terrestre
no silêncio que cresce das macieiras
que se declarem os rios que respiram inexoráveis
as noites insolúveis e sãs.
mariagomes
julho06
é preciso que um vulcão a beije
cheire a mar o som
que estremeça mansa a boca
que se declarem as minhas mãos loucas e pagãs
ficará imune o ardor livre a sensação de haver
em movimento
um altar curvo ou o alimento sobre a mãe.
não tocarei na arrebatada loucura terrestre
no silêncio que cresce das macieiras
que se declarem os rios que respiram inexoráveis
as noites insolúveis e sãs.
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julho06
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7/30/2006 12:42:00 da tarde
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quarta-feira, julho 26, 2006
os olhos não predizem o sereno abraço das quedas
o mar
e os morros
toda a prisão íntima arde longe de mim.
mariagomes
julh.2006
o mar
e os morros
toda a prisão íntima arde longe de mim.
mariagomes
julh.2006
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7/26/2006 10:03:00 da tarde
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entrego-me ao abandono
como a aurora que derrama o mel das abelhas fluviais.
sou tua
nasci de uma lança fulgente. de um fôlego.
mariagomes
julho.06
como a aurora que derrama o mel das abelhas fluviais.
sou tua
nasci de uma lança fulgente. de um fôlego.
mariagomes
julho.06
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7/26/2006 07:39:00 da tarde
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segunda-feira, julho 24, 2006
doravante volvida nas puríssimas flores de pedra
ó derradeira pedra ponto em fuga ó criança intacta ao pé do mar
quem de ti me arrancou?
na tua face antevejo lágrimas
lá dentro lágrimas ceifando e a toada do sangue a fiar.
mariagomes
julh.06
ó derradeira pedra ponto em fuga ó criança intacta ao pé do mar
quem de ti me arrancou?
na tua face antevejo lágrimas
lá dentro lágrimas ceifando e a toada do sangue a fiar.
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julh.06
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7/24/2006 09:30:00 da manhã
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quarta-feira, julho 19, 2006
ei-la continuamente cega intuitiva
é um poema a expiação um anjo ferido
o luar é ainda uma gota a mergulhar
ei-la de novo ao tear - a terra anciã
oráculo tremor invisível
sobe às mais altas torres da felicidade pela manhã.
mariagomes
julh.06
é um poema a expiação um anjo ferido
o luar é ainda uma gota a mergulhar
ei-la de novo ao tear - a terra anciã
oráculo tremor invisível
sobe às mais altas torres da felicidade pela manhã.
mariagomes
julh.06
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7/19/2006 05:16:00 da tarde
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domingo, julho 02, 2006
eu acolho-te na fonte de palidez pura
sonhei murar os cristais solares dos liames da loucura
a grande noite.
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29jun.06
sonhei murar os cristais solares dos liames da loucura
a grande noite.
mariagomes
29jun.06
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7/02/2006 12:36:00 da tarde
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sexta-feira, junho 30, 2006
[...]"o poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção - decerto nem sempre muito esperançada - de um dia dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho - têm um rumo.
Para onde? Em direcção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que para o poema o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade."[...]
PAUL CELAN
"arte poética, o meridiano e outros textos"
edições cotovia
tradução joão barrento
Para onde? Em direcção a algo aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que para o poema o que conta são essas realidades. E acredito ainda que raciocínios como este acompanham, não só os meus próprios esforços, mas também os de outros poetas da geração mais nova. São os esforços de quem, sem tecto, também neste sentido até agora nem sonhado e por isso desprotegido da forma mais inquietante, vai ao encontro da língua com a sua existência, ferido de realidade e em busca de realidade."[...]
PAUL CELAN
"arte poética, o meridiano e outros textos"
edições cotovia
tradução joão barrento
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6/30/2006 07:54:00 da tarde
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domingo, junho 25, 2006
deixa que um pássaro cubra o contorno alucinante
e oculto do meu canto
porque eu estou na impressão das coisas
os meus olhos são pássaros
- os pássaros alma inclinada sobre a noite
falo-te devagar do ventre onde vivi
escuto o marulhar de um silêncio proferido
indizível divisa a tua alma
o que semeará o linho
se por ti espera o cosmos do meu leito
e as pedras caminham longas pela estrada
não sei o que te diga
fixam-me as paredes como se eu fosse o sol perdível
mais uma vez as coisas vivem
e o sol ( oh essência!)
deixa que um pássaro cubra o contorno alucinante
e oculto do meu canto.
mariagomes
jun.06
e oculto do meu canto
porque eu estou na impressão das coisas
os meus olhos são pássaros
- os pássaros alma inclinada sobre a noite
falo-te devagar do ventre onde vivi
escuto o marulhar de um silêncio proferido
indizível divisa a tua alma
o que semeará o linho
se por ti espera o cosmos do meu leito
e as pedras caminham longas pela estrada
não sei o que te diga
fixam-me as paredes como se eu fosse o sol perdível
mais uma vez as coisas vivem
e o sol ( oh essência!)
deixa que um pássaro cubra o contorno alucinante
e oculto do meu canto.
mariagomes
jun.06
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quinta-feira, junho 08, 2006
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. "
(...)
excerto do poema "Aniversário" de Álvaro de Campos
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. "
(...)
excerto do poema "Aniversário" de Álvaro de Campos
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6/08/2006 10:47:00 da manhã
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quarta-feira, junho 07, 2006
serei eu o incêndio negro,
seduzirás tu os jasmins de junho.
virá o cunho de uma lágrima lunar,
ou um poema que tarda
e se desfolha.
mariagomes
7 jun.2006
seduzirás tu os jasmins de junho.
virá o cunho de uma lágrima lunar,
ou um poema que tarda
e se desfolha.
mariagomes
7 jun.2006
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6/07/2006 11:25:00 da tarde
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terça-feira, junho 06, 2006

"as flores", fotografia de mariagomes
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6/06/2006 09:47:00 da tarde
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sexta-feira, maio 26, 2006
deixarei a terra quando nada mais houver.
quando o amor se fizer e as garças trocarem os remos dos rios
lançarei as sibilas aos navios.
tu serás o concreto fio dócil do meu frio.
mariagomes
26.maio.06
quando o amor se fizer e as garças trocarem os remos dos rios
lançarei as sibilas aos navios.
tu serás o concreto fio dócil do meu frio.
mariagomes
26.maio.06
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5/26/2006 03:08:00 da tarde
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domingo, abril 30, 2006
Nicanor Parra: What is poetry?, 1989
todo lo que se dice es poesía
todo lo que se escribe es prosa
todo lo que se mueve es poesía
lo que no cambia de lugar es prosa
De Chistes para desorientar a la poesía, 1989.
En Poéticas
todo lo que se dice es poesía
todo lo que se escribe es prosa
todo lo que se mueve es poesía
lo que no cambia de lugar es prosa
De Chistes para desorientar a la poesía, 1989.
En Poéticas
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4/30/2006 03:38:00 da tarde
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sexta-feira, abril 28, 2006

"em abril, a sanfona e o cravo", fotografia de mariagomes
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4/28/2006 09:47:00 da tarde
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segunda-feira, abril 17, 2006
quando as palavras me não chegarem
irei colher a estrela morosa no mar
no mar que a terra me deu
ainda que me atormente o sangue de um açoite
louvo a noite a divina noite ilesa
onde rebenta a tristeza
ou uma rosa.
mariagomes
abril.2006
irei colher a estrela morosa no mar
no mar que a terra me deu
ainda que me atormente o sangue de um açoite
louvo a noite a divina noite ilesa
onde rebenta a tristeza
ou uma rosa.
mariagomes
abril.2006
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4/17/2006 07:04:00 da tarde
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terça-feira, abril 11, 2006
" Se é que já houve uma crise moral, então foi da cor, da matéria, do sangue e dos seus elementos, das palavras e sons, de tudo aquilo que cria tanto uma obra de arte como a vida. Pois, mesmo se cobrirmos uma tela com protuberâncias de cor, independemente do facto, se podemos ou não reconhecer nela uma silhueta - e até mesmo se recorrermos à palavra e aos sons -, não será por essa razão que nasce, forçosamente, uma autêntica obra de arte"
Marc Chagall
(1887/1985)
in "Marc Chagall
Poesia em quadros"
edição Taschen Público
Marc Chagall
(1887/1985)
in "Marc Chagall
Poesia em quadros"
edição Taschen Público
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4/11/2006 04:01:00 da tarde
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quarta-feira, março 29, 2006

" vou-me embora" fotografia de mariagomes
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3/29/2006 10:16:00 da tarde
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terça-feira, março 28, 2006
e se a poesia vier precipitará aquela velha ponte da infância
em propensão futura
em todo o corpo côncavo da boca
haverá primavera enquanto se deita o poema na flor imatura.
mariagomes
março.06
em propensão futura
em todo o corpo côncavo da boca
haverá primavera enquanto se deita o poema na flor imatura.
mariagomes
março.06
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3/28/2006 04:14:00 da tarde
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segunda-feira, março 27, 2006
este é o rio que nos vestiu com punhais de bruma
as bandeiras feriam a pele
à volta do pedúnculo
da lua
agora as aves abrigam a tonalidade
da sombra uma volúvel noite. e respondem.
mariagomes
26/27.março.06
as bandeiras feriam a pele
à volta do pedúnculo
da lua
agora as aves abrigam a tonalidade
da sombra uma volúvel noite. e respondem.
mariagomes
26/27.março.06
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3/27/2006 11:11:00 da tarde
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sexta-feira, março 24, 2006
O destino dos Livros está ... AQUI
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3/24/2006 04:59:00 da tarde
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...
" Ah,
o que não tem explicação
apetece colher dos teus olhos."
...
Amadeu Baptista
in "Salmo", pag 49
edições Asa
" Ah,
o que não tem explicação
apetece colher dos teus olhos."
...
Amadeu Baptista
in "Salmo", pag 49
edições Asa
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3/24/2006 04:35:00 da tarde
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"a cidade e a luz" fotografia de mariagomes
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3/24/2006 04:25:00 da tarde
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quinta-feira, março 23, 2006
na metamorfose da voragem
*
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.
**
está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.
***
arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as crianças nascem
importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.
mariagomes
18/ 23março.06
pai não há poesia. há um nó desfazendo um percurso nu.
a existência do vento norte naquele vento
que bateu à nossa sorte como um trovão extinto.
como a bala objectiva
que cerceia o peito dos areais já prontos e o sul. o sul que és tu.
**
está lá fora uma elevação impetuosa.
na boca dos que se calaram
abriram-se as pálpebras das mulheres que choram.
ouve pai esse primevo canto que nos fundeia cambaleante
ao som fúlgido da lâmpada. é a chuva interior que paira.
***
arroladas as amendoeiras clamam em tácita cegueira
e as crianças nascem
importa pai o coração importa o quanto arde a imensidão
incoercível
na metamorfose da voragem.
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18/ 23março.06
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3/23/2006 11:01:00 da tarde
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quinta-feira, março 16, 2006
Por los derechos humanos en todo el mundo

" a tua voz!", fotografia de mariagomes
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3/16/2006 10:49:00 da tarde
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quarta-feira, março 15, 2006
há uma hora em que a fenda consterna
perfura a escada a pedra mais alta que apertamos
há uma hora que deslocadamente acaba na cor da cisterna
e as gaivotas voltadas nos ramos.
mariagomes
março.2006
perfura a escada a pedra mais alta que apertamos
há uma hora que deslocadamente acaba na cor da cisterna
e as gaivotas voltadas nos ramos.
mariagomes
março.2006
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3/15/2006 01:42:00 da tarde
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segunda-feira, março 13, 2006
é preciso dedilhar a seiva, devolver aos pássaros a migração
porque a memória é como se nos doesse a língua.
os anjos habitam-na,
são castanhos, geométricos, rolam nos seixos desérticos
e depois transpõem o sol
para que o vento sopre, e nos caiba um bocado de matéria.
mariagomes
março.2006
porque a memória é como se nos doesse a língua.
os anjos habitam-na,
são castanhos, geométricos, rolam nos seixos desérticos
e depois transpõem o sol
para que o vento sopre, e nos caiba um bocado de matéria.
mariagomes
março.2006
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3/13/2006 10:42:00 da manhã
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sábado, março 11, 2006
"No hables en tus poemas del ruiseñor
de Wilde, ni menciones amor, perfume, labio o rosa"
—me dice en los manuales Ariel Rivadeneira—
y yo evito poner en cada verso escrito
un ala, algún jardín, la luna de Virgilio,
y hasta a veces me niego, sentado
en el alféizar, a mirar las heladas
del invierno en España, porque queman
las ramas de los árboles todos y la niebla
me invita a escribir con nostalgia"
y ese signo, nostalgia, —me dicen
los manuales— es señal del pasado,
y se debe escribir sin alma, con estilo,
igual que si torcieras el cuello
de una garza con desprecio en tus dedos.
"Habla de cibernética y de física cuántica,
menciona blog, pantalla, correos
electrónicos" —me aconsejan los críticos—.
Y yo sumo las cifras o despejo ecuaciones,
digo leyes, neones, sistemas invisibles
que arman genios, científicos.
También menciono genes, vídeos,
ordenadores, y hay instantes, incluso,
que hablo sin meditar y construyo asonantes
al decir aeropuertos, submarinos, aviones
y algún laboratorio (...), móviles, cines, clones.
Pero aunque logre versos posmodernos
siguiendo los consejos de sabios
que hablan de poesía como hablar
de la historia, de mercados, teoremas
que establecen los pliegues en las cuerdas
del tiempo, no he logrado escribir
el poema perfecto, e incluso
cuando leo alguna línea aislada
de Wilde entre las sábanas, y todos
mis maestros (con diplomas de masters
y perfil de doctores) se divierten
en bares o en los pubs de internet,
yo lloro como dama sin remedio
y me jode el viejo de Quevedo,
y me arriesgo, en la cama, a que digan
los críticos en los post o en revistas:
"¡qué anticuado y qué griego se volvió
Dolan Mor leyendo a los antiguos!,
si hasta le creció un día, encima
de las cejas, (en lugar de la gorra
ladeada sobre un piercing) un ramo
de laurel...
Pero logró dos cosas: pasar
imperceptible delante de los hombres,
como dijo Epicuro, y escribir con la espalda
inclinada en la hoja, sin cederle la mano
al influjo variable del tiempo y de las modas".
(Inédito)
Dolan Mor (Cuba, 1968): Arte poética, 2006
de Wilde, ni menciones amor, perfume, labio o rosa"
—me dice en los manuales Ariel Rivadeneira—
y yo evito poner en cada verso escrito
un ala, algún jardín, la luna de Virgilio,
y hasta a veces me niego, sentado
en el alféizar, a mirar las heladas
del invierno en España, porque queman
las ramas de los árboles todos y la niebla
me invita a escribir con nostalgia"
y ese signo, nostalgia, —me dicen
los manuales— es señal del pasado,
y se debe escribir sin alma, con estilo,
igual que si torcieras el cuello
de una garza con desprecio en tus dedos.
"Habla de cibernética y de física cuántica,
menciona blog, pantalla, correos
electrónicos" —me aconsejan los críticos—.
Y yo sumo las cifras o despejo ecuaciones,
digo leyes, neones, sistemas invisibles
que arman genios, científicos.
También menciono genes, vídeos,
ordenadores, y hay instantes, incluso,
que hablo sin meditar y construyo asonantes
al decir aeropuertos, submarinos, aviones
y algún laboratorio (...), móviles, cines, clones.
Pero aunque logre versos posmodernos
siguiendo los consejos de sabios
que hablan de poesía como hablar
de la historia, de mercados, teoremas
que establecen los pliegues en las cuerdas
del tiempo, no he logrado escribir
el poema perfecto, e incluso
cuando leo alguna línea aislada
de Wilde entre las sábanas, y todos
mis maestros (con diplomas de masters
y perfil de doctores) se divierten
en bares o en los pubs de internet,
yo lloro como dama sin remedio
y me jode el viejo de Quevedo,
y me arriesgo, en la cama, a que digan
los críticos en los post o en revistas:
"¡qué anticuado y qué griego se volvió
Dolan Mor leyendo a los antiguos!,
si hasta le creció un día, encima
de las cejas, (en lugar de la gorra
ladeada sobre un piercing) un ramo
de laurel...
Pero logró dos cosas: pasar
imperceptible delante de los hombres,
como dijo Epicuro, y escribir con la espalda
inclinada en la hoja, sin cederle la mano
al influjo variable del tiempo y de las modas".
(Inédito)
Dolan Mor (Cuba, 1968): Arte poética, 2006
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3/11/2006 01:41:00 da tarde
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domingo, março 05, 2006

"a janela", fotografia de mariagomes
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3/05/2006 12:16:00 da manhã
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quinta-feira, março 02, 2006
quisera o rumor das águas diante das palavras
onde se faz a conversão das coisas
nesta sensível madrugada
na mão esquiva quando os plátanos aleitam pássaros
não tenho o sol para te oferecer
eu saí da convulsão dos teus olhos
inacessível.
mariagomes
março.2006
onde se faz a conversão das coisas
nesta sensível madrugada
na mão esquiva quando os plátanos aleitam pássaros
não tenho o sol para te oferecer
eu saí da convulsão dos teus olhos
inacessível.
mariagomes
março.2006
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3/02/2006 10:53:00 da tarde
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terça-feira, fevereiro 21, 2006
as aves morrem branquíssimas nas paredes
de torpor
e quando o vidro roça um vento que se basta
oh meu amor
os dias debruçam-se a candeias rubras que me afastam.
mariagomes
20fev.2006
de torpor
e quando o vidro roça um vento que se basta
oh meu amor
os dias debruçam-se a candeias rubras que me afastam.
mariagomes
20fev.2006
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2/21/2006 02:29:00 da tarde
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domingo, fevereiro 19, 2006

Desculpem a súbita mudança de ritmo! Mas não podia deixar de vos dar a conhecer uma obra que vem do sul do pacífico. Nas minhas arrumações e desarrumações na música, descobri este cd que é resultado de um trabalho de 10 anos efectuado por David Fanshawe, compositor, fotógrafo, coleccionador de música étnica, personagem cinematográfico e da televisão.
Quem aprecia este "estilo" ( como eu ) vai gostar de ouvir monumental recolha.
A importação e distribuição em Portugal é ( ou foi) de mc/ mundo da canção, Porto, e o título do cd é " Music of the South Pacific", recordings by David Fanshawe, ARC Music Productions Int Ld. Product of United Kingdom, 2002.
mariagomes
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2/19/2006 06:23:00 da tarde
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quarta-feira, fevereiro 15, 2006
onde o grito doa
inventa outra palavra até o argênteo
porfia o campo que imprevisto voa.
mariagomes
15fev.2006
inventa outra palavra até o argênteo
porfia o campo que imprevisto voa.
mariagomes
15fev.2006
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2/15/2006 06:03:00 da tarde
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domingo, fevereiro 12, 2006

" vivo", fotografia de mariagomes
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2/12/2006 11:17:00 da tarde
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lavar a palavra
lavá-la na ambiguidade da veia tumular do vocabulário
ante um credo somado à imagem da cicuta.
mariagomes
fev.2006
lavá-la na ambiguidade da veia tumular do vocabulário
ante um credo somado à imagem da cicuta.
mariagomes
fev.2006
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2/12/2006 12:53:00 da tarde
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sexta-feira, fevereiro 10, 2006
as caves apressaram-se há muito tempo
o chão rebenta
recrudesce
tu sabes
a todo o momento
o gongo de uma seara amarelece nas tuas mãos
violetas
afeiçoas-te à decisão outonal de não dizer.
mariagomes
fev.2006
o chão rebenta
recrudesce
tu sabes
a todo o momento
o gongo de uma seara amarelece nas tuas mãos
violetas
afeiçoas-te à decisão outonal de não dizer.
mariagomes
fev.2006
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2/10/2006 11:46:00 da manhã
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terça-feira, fevereiro 07, 2006
queria que nascesses da lua a deslumbrar as janelas
dantes um poema ardia dentro de ti
como uma expressão cabendo descalça
alagava-me os lábios
queria também que nesta terça-feira dia 7 de Fevereiro
não houvesse sirena única que me dissesse
o mar bateu cem vezes em vezes por ti chamou
os pescadores foram à terra degolar a fome
porque na terra pai as alvas dilatam a memória
e agora a memória está outra vez a bater no mar
contra o silêncio das coisas obscuras.
mariagomes
7 Fev.2006
dantes um poema ardia dentro de ti
como uma expressão cabendo descalça
alagava-me os lábios
queria também que nesta terça-feira dia 7 de Fevereiro
não houvesse sirena única que me dissesse
o mar bateu cem vezes em vezes por ti chamou
os pescadores foram à terra degolar a fome
porque na terra pai as alvas dilatam a memória
e agora a memória está outra vez a bater no mar
contra o silêncio das coisas obscuras.
mariagomes
7 Fev.2006
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2/07/2006 07:51:00 da tarde
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domingo, fevereiro 05, 2006
tendem para uma religiosidade transitável
mas eu não sei para onde nos levam as palavras
por vezes vejo-as detonarem a agudeza do sangue
como aves a povoarem
devagarinho
o retumbar da marimba da ressurreição.
mariagomes
fev.2006
mas eu não sei para onde nos levam as palavras
por vezes vejo-as detonarem a agudeza do sangue
como aves a povoarem
devagarinho
o retumbar da marimba da ressurreição.
mariagomes
fev.2006
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2/05/2006 08:56:00 da tarde
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quinta-feira, fevereiro 02, 2006
desisto do brilho dos astros, das cascatas de pedra
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.
se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.
mariagomes
2 de Fev.2006
do céu etereamente louro.
vou por aí, sem dizer nada, aludindo com os olhos.
desisto de aferir a noite perdida, de procurar as rosas,
ouvir a carne,
de permanecer entre a dor e um abismo.
se vires, meu amor, o silêncio levar a água aos gerânios
será a minha sede morta, ou viva.
mariagomes
2 de Fev.2006
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2/02/2006 07:37:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 31, 2006
é difícil diluir a ternura cobrir o chão estender os braços
para a fistula que janeiro finda
temos a medida do tempo a poeira insípida
que nos queima a pele onde o mar já existiu
nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil
e hoje o dia é válido.
mariagomes
31 Jan.2006
para a fistula que janeiro finda
temos a medida do tempo a poeira insípida
que nos queima a pele onde o mar já existiu
nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil
e hoje o dia é válido.
mariagomes
31 Jan.2006
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1/31/2006 05:38:00 da tarde
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