sexta-feira, julho 25, 2008



no tempo que defendo os areais sem fim
num modo de imaginar a secura concisa
adiei os barcos à deriva

tudo se retém no meu amado : os pássaros verdes
o elevado perfume daquela mancheia de sol
um mar profundo
inacessível.

mariagomes
julho.08



domingo, julho 13, 2008


és o lugar onde a raiz se incendeia,
curada lã do meu signo;
entrarei por ti
como uma candeia desfolhando teu ciclo…


de noite, eu sei, num exacto tremor,

a vaga é o meu grito, o som da manhã,
ou o orvalhado langor das florestas.

mariagomes
julho.08




sexta-feira, julho 04, 2008




[…]
Los poetas de este tiempo saben que la poesía es un movimiento hacia el otro que viaja del misterio de uno al misterio de todos y en ese encuentro, gana su transparencia. Viaja sin nombre, sin número, ajena al cálculo y a sumisión, corrige la frialdad y el desamor, junta los pedazos del mundo y abriga en su tienda de fuego.Nosotros los demás debemos aprender a escuchar el deseo de los poetas, sino pasamos de largo engañándonos. Tal vez lo que el poeta intenta toda su vida es escribir un poema, uno solo que sea pariente de la magia. El poeta no sería entonces un pequeño dios, como quiso Vicente Huidobro, sino un mero mendigo de la magia que siempre se le da por accidente, un perseguidor perseguido por un sonido que sabe que no existe.
[…]

Juan Gelman
Excerto da conferência de 2007
in Artes poéticas


sexta-feira, junho 27, 2008



para um cuidado o clamor da luz
para um incêndio a inflexão da bruma

os braços que originam o deserto são para mim.

mariagomes
27junho.08


quinta-feira, junho 26, 2008



há uma manhã no lugar incendiário da linguagem
uma manhã com um pigmento de sol
a bater na apoteose
e o peito a arder
e eu estou nessa manhã
nesta lonjura
usando a vértebra obscura e o rebordo das paisagens.

mariagomes
26junho.08


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As Edições Sempre-em-Pé e a Casa Fernando Pessoa têm o prazer de convidar V. Exa para uma sessão em que serão apresentadas as duas séries de poesia actualmente publicadas pela editora referida: a série DiVersos - Poesia e Tradução, que se publica desde 1996, e a colecção de poesia UniVersos, iniciada em 2005.
Além de outros números recentes, estará disponível o n.º 13 da DiVersos, acabado de publicar em Junho. Serão lidos poemas por alguns poetas (Cristino Cortes, João Miguel Henriques, J. T. Parreira e Ruy Ventura) e tradutores (Ana Maria Carvalho, José Lima e Manuel Resende) que já colaboraram com a DiVersos.
Dos quatro títulos publicados na colecção UniVersos, os dois últimos serão abordados com mais vagar: Rio Abaixo, Rio Acima, do poeta alemão Tobias Burghardt, numa edição bilingue com tradução portuguesa de Maria de Nazaré Sanches, e Gloria Victis, do poeta Carlos Garcia de Castro, com a presença e apresentação pelo Autor e comentário crítico do Dr. Rui Cardoso Martins, do Jornal Público.
A sessão será coordenada por José Carlos Costa Marques, um dos coordenadores de DiVersos e editor de ambas as séries. A entrada é livre.

sábado, junho 21, 2008



vi morrer o sol
e tu erguendo o sol à terra
de um vermelho vivo

eram de súbito os pássaros
de milho.


mariagomes
19 junho de 2008



quarta-feira, junho 18, 2008



eu sou uma rosa
rompo o fogo amargo
de um canto célere
a solidão do mar

eu sou outra rosa
dói-me nascer
em
e
s
p
i
r
a
l
como um cisne como um lago.

mariagomes
18 de Junho de 2008



domingo, junho 15, 2008



tenho uma janela de pedra aberta para o mar

os peixes muito azuis
escritos num muro
tenho os
pés na água
deste luar tão escuro nesta candeia rasa.


mariagomes
15jun.2008


sexta-feira, junho 13, 2008

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[...]
'Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da

transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.'

Fernando Pessoa (n. 13/06/1888, f.30/11/1935)

Livro do Desassossego por Bernardo Soares
( Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

terça-feira, junho 10, 2008



deixa o lume ancorado nos meus dias
estrema o fecundo
polariza os lagos para eu não morrer

pertence à sede
o exercício do meu ser.

mariagomes
jun, 08

segunda-feira, junho 09, 2008


" Ah ninguém entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espírito secreto! "

Cesário Verde


domingo, junho 08, 2008

uma fotografia


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está no interior a musicalidade do aroma,
é no interior que as coisas afloram.
não me perguntes quais.
são pequenas e tantas coisas
que roçam a pele, olham nos olhos,
e tiram uma fotografia, quase eterna;

a preto e branco eu morro,
afogada à luz de floreiras.

mariagomes
coimbra, 19 de maio.2003

quinta-feira, maio 29, 2008



hei-de inverter
um trinado prisioneiro…

hei-de arrancar a brisa à celebração festiva,
e a morte…
a morte pousada no mais puro do vermelho.

mariagomes
29,maio,08

quarta-feira, maio 28, 2008


se fosse minha a noite de trazer as mãos cilíndricas,
todo um apuro que preenchesse um campo de brados seculares.
se fosse minha a prolífera devastação…
ah, se fossem os cumes subversivos
a cinza dos meus versos,
a mítica anuência que eximiu o sangue de um tear fugaz,
hoje, ouviria o fruto cravado nas mandíbulas dos palmares!


mariagomes
maio,2008

segunda-feira, maio 26, 2008

Soneto do Regresso

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Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais, levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas acuçenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira (1921/1981)

in ' Ao longe os barcos de flores'
edição Assírio & Alvim

domingo, maio 25, 2008



as mariposas são flores sob um campo desmedido
vão nivelando o sangue miraculoso
no arvoredo
que um lavrador progride.

mariagomes
25 Maio.08


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quinta-feira, maio 22, 2008

Guerra


'Criança, houve céus que afinaram a minha óptica: todos os matizes me foram inscritos na fisionomia. Os Fenómenos comoveram-se. –

Actualmente, a inflexão eterna dos momentos e o infinito das matemáticas perseguem-me através deste mundo em que aguento todos os factos da sociedade, respeitado pela infância estranha e por afeições desmedidas. –
Penso numa Guerra justa ou injusta, com uma lógica particularmente imprevisível.
É tão simples como uma frase musical.



Guerre

Enfant, certains ciels on affiné mon optique: tous les caractères nuancèrent ma physionomie. Les Phénomènes s’émurent –

A present, l’inflexion éternelle des moments et l’infini des mathématiques me chassent par ace monde où je subis tous les succès civils, respecté de l’enfance étrange et des affections énormes. –
Je songe à une Guerre, de droit ou de force, de logique bien imprévue.
C’esta aussi simple qu’une phrase musicale. '

Arthur Rimbaud
in “ O rapaz raro”
tradução de Maria Gabriela Llansol
Relógio D’água




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'Se alguma literatura inovadora conseguir sobreviver será a poesia, pois, entre todas as artes, é a menos vinculada às mudanças monetárias.'

Douglas Messerli


Douglas Messerli (1947), poeta, dramaturgo e editor norte-americano, associado ao movimento da Language Poetry. Publicou, entre outros títulos, Dinner on the lawn (1979), Some distance (1982) e An apple (1993). Organizou a antologia From the Other Side of the Century, de poesia contemporânea dos Estados Unidos. É diretor da casa editorial Sun & Moon, de Los Angeles.

terça-feira, maio 20, 2008

Canto A Minha Mãe


Sento-me. Canto a minha mãe, viúva na progressão do vento
numa híbrida pancada.
Na voz inicial do grito, neste sol que desce,
se todo o pranto me contivesse
ó doce mãe, ó rosa que medita…
No que é antigo
tu vieste nomear o trigo!

mariagomes
maio.2008
embora isso não me salve, voltarei, sem ti,
a ouvir a voz do mundo numa enxada,
ou a voz da chaga dos relâmpagos profundos
correndo o velo das constelações tardias

tu sabes, devo estar perto da loucura dos sinos.

mariagomes
22abril2008
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quando ao mar me dou, e entre os peixes avisto os escolhos
recolho o nácar dos afogados;
sobre os tapetes do meu jardim,
ele é mais belo
que o abrasar de chuva que resplandece em ouro.

mariagomes
21.abril2008

a minha memória é um caminho, um pensamento apátrida,
o afecto, a pele desta palavra que
entre os palmares, nomeia a propensão da água,
a linha azul de todos os lugares.

mariagomes
abril.2008
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segunda-feira, maio 19, 2008

dir-me-ás que não canto
tenho em mim a madrugada de todos os entardeceres
o rosto de um cântaro que o sol abandona em cruz

dir-me-ás que é de pedra a pele que se abriu aos homens
guardando a luz.

mariagomes
março, 2008

sexta-feira, março 07, 2008



O poeta é um primitivo, ama os sortilégios. Mas é em nome desse amor que a sua recusa tem a força de um destino, num mundo que vai abdicando de o ser. Ele é por excelência aquele que diz não à peste negra da mentira, e se opõe, implacável, ao rasteiríssimo jogo da vileza institucionalizada. Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?

Eugénio de Andrade

In Rosto Precário

Edição fundação Eugénio de Andrade

quinta-feira, dezembro 27, 2007


o que pesa é sentir ainda a perturbação do sol diante a noite
vítrea incerteza de ser corpo e alma junto à fonte.

mariagomes
dez.07

quarta-feira, dezembro 12, 2007


acreditaria em ti se esquecesse o sobressalto das aves o arresto das horas

tu e eu conhecemos a ciografia
o mundo devolve-nos às pregas siderais do estio
nas perdas das glaciais candeias
há muito que o poema
apenso à mítica flor pastoreia os filhos selados pelas cítaras.

mariagomes

dez2007

sábado, dezembro 08, 2007


que usura clama pela novíssima espuma a antepassada espuma dos meus dias

o arquipélago dos teus lábios dirige os dédalos dentro de mim
aproxima-se cada vez mais o lume eloquente
mareante do sustento sopro a sopro

ouve eu não sei do restolho das gaivotas aradas em oiro

inventámo-lo sobre os céleres bagos de céus sonâmbulos
como se ao voo sucedesse outra harmonia que não essa.


mariagomes
dez.2007

quinta-feira, dezembro 06, 2007

nem o vento soalheiro nem a sensível gota que solidifica a manhã
ouviu o canto das crisálidas
dificilmente só

no frémito do cais nos densos desígnios continuava o decantado canto ensurdecido

mesmo que novembro não nos rasgue em nudez
vem dizer de que são estes lagos de colmo esta sede interposta no meu sonho

eram do mar núbil sobranceiro amo dos areais
ascendendo à foz do teu grito probo.

mariagomes
nov.2007

sábado, novembro 17, 2007


contudo eu amei a compassada ondulação das rosas pelo recesso dos caminhos
fui o viajante indolor de um eclipse
a sinuosa flor que se soerguia como um relâmpago
para cair.


mariagomes
nov.2007

terça-feira, novembro 06, 2007


ah os teus gestos são a deliberada forma de ver crescer um lírio
pela noite quando o sonho poisa.

é aí o leme a lousa do teu corpo
porque se acendem consequentes as inúteis canções da íris da língua dos videntes lírios.

mariagomes

6nov07




as acácias tingem lentamente o rio à razão do infinito
por isso eu quero dobrar a impaciência de um prematuro outono
entretanto azul
entre um tempo cravado no teu corpo e as inúteis canções que exumaram a ternura dos lábios.

mariagomes
6Nov.07

quarta-feira, outubro 31, 2007


cobiçaria a noite coada dos infortúnios a erupção
o espaço de um diagrama
a arder

dos interstícios
eu erguia as mãos geladas contra as águas
contra os túmulos a nívea flor que exala a sede no ar profuso.

mariagomes

out2007


quinta-feira, outubro 25, 2007

III


Ò corruptos do mundo! aqui nas lousas
Assentai-vos também às santas horas
Em que as vaidades das paixões se esquece.
Em que fala a verdade!
Porque o pó dos que foram já não mente,
Nem adulam espectros de orgulhos,
Nem as lavras ressurgem do seu leito
A beijar-vos as mãos grandes do mundo!

Grandes na corrupção! que a chaga horrenda
De crimes e impiedades andais cobrindo
Com as dobras do manto vergonhoso
De estólida vaidade…
Caíram-vos os véus! e nus ante Ele,
E a primeira vez nus ante vós mesmos,
Olhando-vos, de horror o olhar fecharíeis
E pediríeis a Deus remédio cura.

Vós que esqueçais o céu, e pisai a terra
Não como pátria onde o dever se cumpra,
Mas como escrava que saciar vos deve
De não sei que vil gozo…
Olhando o céu – talvez a vez primeira –
Lembraríeis que há um voz uma alma eterna,
- Uma alma! – não uma hóstia que se imole
Nas aras do egoísmo e da impiedade.

E então, olhando o manto que vos cobre,
Veríeis que mais crime nos delata
Cada palmo de púrpura sangrenta
Que a túnica de César:
E então, em cada prega, em cada fio,
Que do pranto de irmãos… talvez de sangue
Ensopada trazeis, encontraríeis
Um mundo acusador, grandes do mundo!

Mas não, pod’rosos! não, grandes e fortes!
Vós, os Reis! os senhores! um só momento
Corar e arrepender-vos, como o louco
Que inda em Deus tem crença?!
Oh! não! que o vosso Deus é o vosso orgulho;
Vossa justiça e fé, o próprio interesse,
E tendes um sorriso de ironia
Em vez de alma e por céu um monte de oiro.
[…]

Antero de Quental
in Poesia completa
publicações D. Quixote.

quinta-feira, outubro 11, 2007


cruzarei os espelhos que marulham
ó ave do amor
que a tua pureza sai pelas veias grávidas da pátria
e do milho
com uma doce canção azul
na lezíria

pela água cruzarei a orla dos cardumes
pelo lume volvido onde o luar coze o grão.

mariagomes

out, 2007



segunda-feira, outubro 08, 2007

sábado, outubro 06, 2007


quando eu voltar, direi poente
e pássaro...
só uma purpúrea voz se ouvirá
acima da concavidade de um outono.

levarei a maresia em seiva
e a palavra,
amor.


mariagomes
6 de out.07

terça-feira, outubro 02, 2007

[...]
Somente na Humanidade, há criaturas humanas que não são criaturas humanas. Quantas vezes olhamos para um ser que tem dois pés, duas mãos, a espinha vertical, que cobre o corpo como um fato, que segura nos dentes um charuto, e dizemos : - eis ali um homem. Todavia, aproximamo-nos dele, ouvimos-lhe duas palavras, e…basta! Lá se foi a ilusão. Não era um homem afinal. Um outro bicho? Também não. Apenas um monstro, um aborto, um produto horrível da civilização moderna: a mentira de carne e osso! E a mentira é a mãe da antipatia. A faculdade que o homem tem de ser mentiroso, isto é antipático, é o que o destaca de outros seres; não é a Razão, como pretendem os filósofos bem-humorados: é a Mentira.
Tolstoi, por exemplo está mais perto da pomba e da árvore do que o homem vulgar…
E é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc…
A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita.
A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipresente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensanguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakunine, etc, etc…
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os mujiques da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que é só a gente sincera, inculta, e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens mujiques? A enxada será irmã da pena? A fome de pão parecer-se-á com a fome de luz?...

TEIXEIRA DE PASCOAES
(1) A Águia, I série, nº 4 15-1-1911, pag 11 e 12.

quarta-feira, setembro 05, 2007


além o sol esquecido solfejo de um largo céu de zimbro
além a vida que burila o pão entregue à luz semântica

vê como são desertos os poemas
como se alongam tristes
e tão perto
gravitam no timbre ainda húmido das lanças!

mariagomes
5 de Set.2007

quarta-feira, agosto 29, 2007


[...]
Lenha mote
crescê-me
na pulmon sec

De sol a sol
nha osse ê verde
bô osse ê planta
C’ma fruta- pon tambor e tchon

De sol a sol
‘ma gritá Rimbaud ô Maiakosky
larga-me da mon


[...]


Secos os pulmões
neles cresce-me
a lenha do mato

De sol a sol
os meus ossos são verdes
os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão

De sol a sol
gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
deixem-me em paz


Corsino Fortes
in “ A cabeça calva de Deus”, p 39, 39
Publicações Dom Quixote

Corsino Fortes nasceu em 14 Fevereiro de 1933 em Mindelo, Ilha de S. Vicente, Cabo Verde…

quinta-feira, agosto 23, 2007


porque digo esta amargura que se submerge às enseadas,
aos sussurros a iluminar as águas, se os dias repousam ao luar?

mariagomes




sexta-feira, agosto 17, 2007


Método, Método, que queres de mim? Bem sabes que comi do fruto do inconsciente.

Jules Laforgue
Moralités légendaire,
Mercure de France, p.24

terça-feira, julho 24, 2007


ai flores que adornaram o dia grave,
perfumai os olhos tristes das campinas que perdi!

da minha voz voaram as aves.

mariagomes
julho, 2007

quarta-feira, julho 18, 2007

O Poema



A tarde cai,
silenciosa,
morosa...

Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa
rubra e preta,
abre...

Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena
sentindo estoirar
o calibre
do coração,
nostálgico do éden...

-Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!

Para quê negar
a esmola que te pedem?

Saul Dias*

(in 800 anos de poesia portuguesaedição circulo de leitores, 1973)

*Saúl Dias nasceu em 1902 e faleceu em 1983.Saúl Dias é o pseudónimo literário do pintor Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do poeta José Régio. Licenciado em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi pintor, poeta e desenhista. Colaborou na revista Presença com produções literárias, pinturas e desenhos.

[fotografia de mariagomes]

quarta-feira, julho 04, 2007

dias hajam em que o céu venha de esperançosa vaga
da terra que cheira a crisântemos
no vento invisível
eu te possa ver enfim
flor e água como a folha que se confia conclusiva.

mariagomes
julho07

sexta-feira, junho 29, 2007



Canto para contar daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.

Bruno Tolentino

Bruno Lucio de Carvalho Tolentino , n. Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940, f. S. Paulo, 27 de Junho 2007


livros publicados:
Anulação e Outros Reparos (São Paulo: Massao Ohno, 1963
)
Le Vrai le Vain (Paris: Actuels,
1979)
About the Hunt (Oxford: OPN, 1979)

As Horas de Katharina (São Paulo: Companhia das Letras,
1994)

Os Deuses de Hoje (Rio de Janeiro: Record,
1995
)
Os Sapos de Ontem (Rio de Janeiro: Diadorim,
1995)

A Balada do Cárcere (Rio de Janeiro: Topbooks,
1996)

O Mundo como Idéia (São Paulo: Globo,
2002)

A Imitação do Amanhecer (São Paulo: Globo,
2006)

quinta-feira, junho 21, 2007





composição de Maria Gomes e Augusto Mota

quarta-feira, junho 13, 2007


Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque
nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um
acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas
das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas
iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


Dos “ poemas inconjuntos”,
Alberto Caeiro

In "poesia de Fernando Pessoa"
Editorial Presença
Introdução e selecção de Adolfo Casais Monteiro

nota , a 13 de junho de 1888 nasce em Lisboa, às 15 horas, Fernando Antônio Nogueira Pessoa... morre em Lisboa, aos 47 anos, a 30 de Novembro de 1935.

domingo, junho 10, 2007


sim eu sei o que a noite pesa quando se premeiam as lágrimas
na sede longa de um recôndito luar
era junho volátil
era pátria
era
a
m
a
r


mariagomes
jun.07

segunda-feira, maio 21, 2007


para que se conceba o carpir da chama comovem-se as garças
na inquietude.

ou num sonho verde, cavado, submerge o sul
e o sol arde.

mariagomes

maio.2007



quarta-feira, maio 09, 2007

(fotografia de mariagomes)


“ Sem actividade criadora não há liberdade nem independência. Cada instante de liberdade é preciso construí-lo e defendê-lo como um reduto. Ele representa um estado de esforço alegre e doloroso: alegre porque dá ao homem a consciência do seu valor; e doloroso, porque lhe exige trabalho nos dias de paz e vida nas horas de guerra”

Teixeira da Pascoaes
in Republica ( Porto, 31.1.1929)

quinta-feira, maio 03, 2007


é com o rumor das águas que falo dos deuses
dos desertos ímpios, saídos
dos cerúleos campos que cantavam, ilesos.
eu falo com a inocuidade dos dedos, como se houvesse um hino
ou caminho contínuo.

mariagomes
maio.2007

quinta-feira, abril 26, 2007

tenho, agora, o meu rosto no sangue,
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.

outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.


mariagomes
abril, 2007

domingo, março 25, 2007



de onde te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.


mariagomes
março.07


terça-feira, março 06, 2007


e tudo é pouco
o mar
a percepção do horizonte que foi teu e
concedeu à terra a cinza
para que uma outra primavera haja nas flores do âmago
na água cristalina.

mariagomes
março.2007

quarta-feira, fevereiro 28, 2007


não posso trair os umbrais das aves,
sem que a palavra seja a memória do meu luto derradeiro.
há um sinal que me vaticina ao sono
como um soluço aceso,
como o corpo locomovido e missionário aos confins.
não posso, meu amor, sair de mim.

mariagomes
fev.2007

terça-feira, fevereiro 27, 2007


não posso, meu amor, sair de mim.
a minha encomenda é esta, açular o fogo,
saber de deus
e no fim,
ter a imensidão triste que me abre
ao cardo,
à pele das açucenas, a cegueira plena das manhãs.

mariagomes
fev.2007

sexta-feira, fevereiro 23, 2007


será enorme a noite, os barcos abalroarão os cais.
no amor entregue às coisas, este declive é ainda o teu rosto,
são os teus braços e os teus olhos livres…

escuta-me!, houve uma cidade lavrada,
uma cidade ou uma palavra que eu detive.

mariagomes
23 Fev.2007

domingo, janeiro 21, 2007


à terra entrego rosas d'esplendor sibilino;

a tua alma, a força de gritar,
essa, entrego-a ao mar.

mariagomes
21jan.2007

sábado, janeiro 20, 2007


a repartida luz que antevejo
é um refúgio intenso que vive e vai saudando o crepúsculo do meu cais.

oh sempiterno rosto furibundo e anónimo de um sol anoitecido
oh morte oh vida fecham-se os olhos das flores exíguas.

mariagomes
20Jan.2006

terça-feira, janeiro 16, 2007

O Ser Espiritual ( Teixeira de Pascoaes)

Ah! Sim, o mais perfeito é que domina
O que é menos perfeito; e a Criatura
De natureza anímica e divina
Dirige, atrai e leva o seu Criador
De natureza humana, - de tal forma,
Que a frágil vida do homem animal
Traduz-se na influência que sobre ele
Exerce a criatura espiritual
Que seu meio corpóreo fecundou.

Qualquer homem que, ao ver sua miséria
E sua vida trágica criou
Em pensamento, um ser perfeito livre.
- Esse homem fez um Deus; e desse instante
Seu destino consiste em caminhar
Para esse Deus amado, - mas distante;
Por ele concebido, - e inatingível!

Eis o destino, o fim da vida humana.

Também o fim da terra é conceber
A arvore já mais viva e mais perfeita;
Frutificar, portanto e florescer.

Eis bem claro e bem nítido o sentido
Da Vida, porque o Ser Espiritual
Existe e vive no homem, assim como
Na terra a criatura vegetal;
É do mundo e pertence à Natureza,
De que ele é, na verdade, a flor mais bela,
A expressão derradeira da beleza
Que a luz, o céu, a terra em si contém.

Teixeira de Pascoaes

in “ A Águia, 1ª série, nº 8, 1 de Abril de 1911, p. 8 ( OCTP, vol I, pag 174-175)

sábado, dezembro 30, 2006


creio em ti ousando a onda das mais altas
e velhas marés
que ouviram uma cidade deserta esperada

porque tudo em ti é um murmúrio que fala
como último instante calhado no olhar de um pássaro.

mariagomes
29 Dez.2006

sexta-feira, dezembro 22, 2006


isto és tu a correr pela cruz do meu corpo dos meus olhos famintos

isto és tu sobre o lago estendendo a mão ao indizível anil das areias

isto és tu a acontecer com a sublevação do sol
pelos raios soçobrando.

mariagomes
22Dez.2006

quarta-feira, dezembro 20, 2006


eu fui um navio luzente como sede, reclinado aos rouxinóis

em cada palavra aberta
navega o vento do meu exílio, porque o nada é mais.

mariagomes
20Dez.2006

sexta-feira, dezembro 15, 2006


"variações sobre uma estrela", fotografia de mariagomes

quinta-feira, dezembro 14, 2006


"O génio, ele é o afecto e o momento presente, construiu a casa aberta ao inverno espumoso e ao rumor do verão, purificou as bebidas e os alimentos, ele, que é a sedução dos lugares evanescentes e a delícia sobre-humana dos lugares parados. É o afecto e o provir, a força e o amor que, ao enfrentarmos a pé firme as dores e contratempos, vemos passar no céu ameaçador e nos estandartes de êxtase.
É ele o amor, medida perfeita e reinventada, razão maravilhosa e inesperada, e a eternidade: máquina amada das qualidades fatais. Já todos sentimos o pavor da sua e a nossa concessão: ó gozo da saúde que possuímos, impulso das nossas faculdades, amor egoísta e paixão que lhe temos, ele, que nos ama para a sua vida infinita...
Lembramo-nos dele, e ele viaja…. E, se a Adoração se for, toca, a sua promessa brada: “ Para trás essa superstições, esses corpos de antigamente, essas famílias e esses tempos. É esta época, porque passamos, que soçobrou!”
Ele não se irá embora, não voltará a descer do céu, não redimirá as cóleras das mulheres, nem as alegrias dos homens, nem outro pecado qualquer: porque ele sendo, e sendo amado, isso já aconteceu.
Oh!, os seus sopros, as suas cabeças, as suas corridas; a terrível celeridade da perfeição das formas e da acção.
Ó fecundidade do espírito e imensidão do universo!
O seu corpo!, a sua quietude sonhada, o quebrar da graça entremeada de uma nova violência!
A sua visão, sua visão!, depois da sua passagem , perdoadas todas as antigas genuflexões e castigos.
A sua hora!, a abolição de todos os sofrimentos sonoros e movediços numa música mais intensa.
O seu passo!, as migrações mais ingentes do que as antigas invasões.
Ó ele e nós!, um orgulho mais benevolente do que as perdidas caridades.
Ó mundo!, e o canto cristalino das novas infelicidades!
O génio, conheceu-nos ele, e a todos ele amou. Saibamos, nesta noite de inverno, de uma ponta a outra, do pólo tumultuoso ao castelo, da multidão à praia, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamar por ele e vê-lo, mandá-lo embora e, sob as marés e no pico dos desertos de neve, seguir as suas visões, o seu sopro, o seu corpo, a sua hora."

Arthur Rimbaud
in “ O rapaz raro”
Iluminações e poemas
Trad. Maria Gabriela Llansol
Edições Relógio D’água

quarta-feira, dezembro 13, 2006

não deixo para trás as rosas
alguém disse que o inverno tombaria de um corpo abrasador
para colher coisas que ficaram

a tua voz
o luar
nas tuas mãos que ainda sobe a luz límpida do dia.

mariagomes
13Dez.2006

segunda-feira, dezembro 11, 2006


"Diante de um grande poeta, tem-se a sensação de que as coisas que permaneceram escondidas no caos emergem."

Christian Hebbel

sábado, dezembro 09, 2006

" O sage, Dichter..."



Que fazes tu, poeta? Diz! - Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? - Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta?- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? - Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? - Canto.


Rainer Maria Rilke

Áustria ( 1875-1926)
in " poesia do século XX"
Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena
edições Asa

terça-feira, dezembro 05, 2006


para mim, marinheiro, a água é doce e o amor
um abismo volante.

eu confio-te a eternidade
das águas
as parábolas onde se prendem os lírios.


mariagomes
5dez.2006

quinta-feira, novembro 30, 2006


porque dispões as mãos e dizes que ciciam os astros,
eu pretendo intensamente a luz.

tudo se parece com o mistério que redime a vida
como a boca triste, concisa
de um poema.
sempre foi assim o coração que o silêncio celebrou.

mariagomes
29Nov.2006, 23 h e 40m

segunda-feira, novembro 27, 2006




"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".


Mário Cesariny de Vasconcelos nasceu em 1923 em Lisboa, e faleceu ontem aos 83 anos.

(fotografia do jornal O Público)

sexta-feira, novembro 24, 2006

no limo da linguagem


Sim, o desacerto é a extensão do meu peito e eu procuro-te
no limo da linguagem
tão fria
tão imersa

É nesta música que cego movendo-me uma réstia
para depois me levar a migração
à flor do fosso
onde tudo recomeça

Estás a ouvir-me
numa dissoluta vontade eu sou a secura
eu estou na tarde da rosa-dos-ventos
eu sou um enlouquecido movimento
encontrarei o sal das amoras os meus dedos atrás da morte
na imperceptível morte de agora.

mariagomes
24.nov.2006

quinta-feira, novembro 23, 2006

o assalto, Mia Couto


"Uns desses dias fui assaltado. Foi num virar de esquina, num desses becos onde o escuro se aferrolha com chave preta. Nem decifrei o vulto: só vi, em rebrilho fugaz, a arma em sua mão. Já eu pensava fora do pensamento: eis-me! A pistola foi-me justaposta no peito, a mostrar-me que a morte é um cão que obedece antes mesmo de se lhe ter assobiado.
Tudo se embrulhava em apuros e eu fazia contas à vida. O medo é uma faca que corta com o cabo e não com a lâmina. A gente empunha a faca e, quanto maior a força de pulso, mais nos cortamos.
— Para trás!Obedeci à ordem, tropeçando até me estancar de encontro à parede. O gelo endovenoso, o coração em cristal: eu estava na ante-câmara, à espera de um simples estalido. Cumpria os mandamentos do assaltante, tudo mecanicamente. E mais parvalhado que o cuco do relógio. O que fazer? Contra-atacar? Arriscar tudo e, assim sem mais nem nada, atirar a vida para trás das costas?— Diga qualquer coisa.— Qualquer coisa?— Me conte quem é. Você quem é?Medi as palavras. Quanto mais falasse e menos dissesse melhor seria. O maltrapilho estava ali para tirar os nabos e a púcara. Melhor receita seria o cauteloso silêncio. Temos medo do que não entendemos. Isso todos sabemos. Mas, no caso, o meu medo era pior: eu temia por entender. O serviço do terror é esse — tornar irracional aquilo que não podemos subjugar. — Vá falando.— Falando?— Sim, conte lá coisas. Depois, sou eu. A seguir é a minha vez.
Depois era a vez dele? Mas para fazer o quê? Certamente, para me executar a sangue esfriado, pistolando-me à queima-roupa. Naquele momento, vindo de não sei onde, circulou por ali um furtivo raio de luz, coisa pouca, mais para antever que para ver. O fulano baixou o rosto, e voltou a pistola em ameaça.
— Você brinca e eu …Não concluiu ameça. Uma tosse de gruta lhe tomou a voz. Baixou, numa fracção, a arma enquanto se desenvencilhava do catarro. Por momento, ele surgiu-me indefeso, tão frágil que seria deselegância minha me aproveitar do momento. Notei que tirava um lenço e se compunha, quase ignorando minha presença.
— Vá, vamos mais para lá.
Eu recuei mais uns passos. O medo dera lugar à inquietação. Quem seria aquele meliante? Um desses que se tornam ladrões por motivo de fraqueza maior? Ou um que a vida empurrara para os descaminhos? Diga-se de passagem que, no momento, pouco me importavam as possíveis bondades do criminoso. Afinal, é do podre que a terra se alimenta. E em crise existencial, até o lobisomem duvida: será que existe o cão fora da meia-noite?
Fomos andando para os arredores de uma iluminação. Foi quando me apercebi que era um velho. Um mestiço, até sem má aparência. Mas era um da quarta idade, cabelo todo branco. Não parecia um pobre. Ou se fosse era desses pobres já fora de moda, desses de quando o mundo tinha a nossa idade. No meu tempo de menino tínhamos pena dos pobres. Eles cabiam naquele lugarzinho menor, carentes de tudo, mas sem perder humanidade. Os meus filhos, hoje, têm medo dos pobres. A pobreza converteu-se num lugar monstruoso. Queremos que os pobres fiquem longe, fronteirados no seu território. Mas este não era um miserável emergido desses infernos. Foi quando, cansado, perguntei:
— O que quer de mim?— Eu quero conversar.— Conversar?— Sim, apenas isso, conversar. É que, agora, com esta minha idade, já ninguém me conversa.
Então, isso? Simplesmente, um palavreado? Sim, era só esse o móbil do crime. O homem recorria ao assalto de arma de fogo para roubar instantes, uma frestinha de atenção. Se ninguém lhe dava a cortesia de um reparo ele obteria esse direito nem que fosse a tiro de pistola. Não podia era perder sua última humanidade — o direito de encontrar os outros, olhos em olhos, alma revelando-se em outro rosto.
E me sentei, sem hora nem gasto. Ali no beco escuro lhe contei vida, em cores e mentiras. No fim, já quase ele adormecera em minhas histórias eu me despedi em requerimento: que, em próximo encontro, se dispensaria a pistola. De bom agrado, nos sentaríamos ambos num bom banco de jardim. Ao que o velho, pronto, ripostou:
— Não faça isso. Me deixe assaltar o senhor. Assim, me dá mais gosto.
E se converteu, assim: desde então, sou vítima de assalto, já sem sombra de medo. É assalto sem sobressalto. Me conformei, e é como quem leva a passear o cão que já faleceu. Afinal, no crime como no amor: a gente só sabe que encontra a pessoa certa depois de encontrarmos as que são certas para outros. "


Mia Couto

Alguns contos do Mia Couto


quinta-feira, novembro 09, 2006


comovem-me as coisas viandantes as velas
comove-me a aurora onde os lírios culminam como uma declaração de amor
por isto eu quero tocar aquela frágua

algures o sol tão cedo caía numa concha incisiva hesitante e puro

e houve longamente o mar.

mariagomes,
8/9nov.06

domingo, novembro 05, 2006


"as flores ouvindo Mozart- I ", fotografia de mariagomes

segunda-feira, outubro 30, 2006


o grito da noite repousa sereno,
como a chuva límpida de uma primavera que me visitou;

convergiu lentamente para os meus braços,
trocou-me os passos e o amor,
que as aves cantam, e sangro em seu canto pleno.

mariagomes
30out.2006

domingo, outubro 22, 2006


[...]
" Para mim o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou...
Não, nem sequer é a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga - imponderável, translúcida : a gentileza. Sim, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo - a gentileza... Daí uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, a romãs e cores!..."
" Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!..."
Mas logo serenando:
- A boa gente que aí vai meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de penar... O meu mundo interior ampliou-se - volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrível. Ah Lúcio! Tenho medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer na vida, perdido nele...
"... E aí tem assunto para uma das suas novelas: um homem que à força de se concentrar, desaparecesse da vida - imigrado no seu mundo interior...
" Não lhe digo eu? A maldita literatura..."
[...]

Mário de Sá- Carneiro

in "A Confissão de Lúcio"
edição Alma Azul

sexta-feira, outubro 20, 2006

( a dmc)


Amar as palavras que se pontificam.

Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.

mariagomes
16.out.06, 22h

quarta-feira, outubro 11, 2006


Olha, mãe, a luz do Outono. A estrela incomensurável.
Sobre ela corre a casa. Os corpos fluidos. E são tardios.
Nos meus olhos estão imagens.

Emerge friamente dos flancos dos meus dedos a cumplicidade dos rios.

mariagomes
10/11Out.2006

terça-feira, outubro 10, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.

Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.

mariagomes
6 de Out.2006

segunda-feira, outubro 02, 2006

"Sempre aspirei por uma forma mais ampla, que não fosse nem poesia nem prosa em demasia e permitisse a compreensão, sem expor ninguém, nem autor nem leitor, a grandes tormentos. Na sua essência, a poesia é algo horrível:
Nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós, e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre, e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris. É por isso que se afirmam, com razão, que a poesia é ditada por um espírito, embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo. É difícil entender a soberba dos poetas, por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta. Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas , e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer? Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado, alguém poderá pensar que estou brincando apenas, ou que encontrei uma outra maneira de elogiar a Arte através da ironia. Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos, que ajudam a suportar a dor e a desgraça. Mas isso não é o mesmo que examinar milhares de obras oriundas direto das clínicas psiquiátricas. Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece, e nós próprios diferentes de nossos delírios. Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia, para obter respeito de parentes e vizinhos. A vantagem da poesia consiste no fato de lembrar-nos da dificuldade de manter a identidade, pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta, e hóspedes invisíveis entram e saem. Concordo, o que estou contando aqui não é poesia. Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade, sob uma pressão insuportável e apenas na esperança de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento. "

Czeslaw Milosz
(1911-2004) Polónia

sábado, setembro 30, 2006

( um tributo a Torga)

no mar colhi o amor, o trigo ao longe, a meninice do vagar
as coisas, como rosas, por exemplo.

ao anoitecer os dedos floriam
eu tive a ventura de ver sorrir o sol, na sede de um país de círios.

mariagomes
30 Set.2006

terça-feira, setembro 26, 2006

[...]“Felizmente que os poetas, como os ciganos, são a vergonha do consenso universal. Nunca se demoram em cada terra senão o tempo suficiente para colherem nela o fruto mais doirado” [...]

Miguel Torga

in " ensaios e discursos"
publicações dom quixote

segunda-feira, setembro 04, 2006

somente nasces flor na minha morte - fidelíssima fractura

dilacerei as rosas
e os espinhos areando a dor debulhando a noite

somente tu se fores a pedra e um arminho.

mariagomes
4 de Set.2006

domingo, agosto 20, 2006

às vezes penso no precioso silêncio desabitado

eu vivo mortalmente a manhã do mundo. aludo
como um navio ao largo.

mariagomes
agosto.2006

sexta-feira, agosto 11, 2006

e a orfandade soçobra ocêanica, em ti, em mim.
somos filhos ignotos do mar grande.
somos peixes voadores, rosas
flores morfológicas a nascerem e a desaparecerem. eu vi.
[...]

mariagomes
11ag.2006



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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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