"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
quarta-feira, outubro 22, 2008
[...]
Muito, ó Poeta, o engenho pode dar-te.
Mas muito mais que o engenho, o tempo, e estudo;
Não queiras de ti logo contentar-te.
É necessário ser um tempo mudo!
Ouvir, e ler somente: que aproveita
Sem armas, com fervor cometer tudo?
Caminha por aqui. Esta é a direita
Estrada dos que sobem ao alto monte
Ao brando Apolo, ás nove irmãs aceita.
Do bom escrever, saber primeiro é fonte.
Enriquece a memória de doutrina
Do que um cante, outro ensine, outro te conte.
[...]
António Ferreira
Carta a Diogo Bernardes
in Textos Literários do século XVI
“ A Corrente clássica e italianizante:
o magistério literário de António Ferreira"
1. Concepção aristocrática da Arte e dignidade das Letras
Editorial Aster
terça-feira, outubro 21, 2008
acredito nos pássaros, em todas as manhãs,
no sexo das árvores,
no colóquio das harpas de seu corpo nu.
pelo moroso fio de Penélope a minha voz
é fiel ao encanto que carmina o azul.
mariagomes
out,2008
sexta-feira, outubro 17, 2008
deve ter sido o amor mais puro, numa outra primavera.
- assim pensei, a ouvir as ondas no seu ritmo terrestre.
em tudo houve uma forma evidente, um verde,
uma paisagem esdrúxula
onde se ajusta o silêncio, em filigrana,
ao despojado luar libidinal.
mariagomes
out.2008
terça-feira, outubro 14, 2008
A arte é a mão direita da natureza. Esta nos deu o ser, mas a primeira - tornou-nos homens.
Johann Christoph Friedrich von Schiller
[1759/1805]
sábado, outubro 11, 2008
terça-feira, setembro 30, 2008
brandas águas bebi de olhos abrasados;
sepultei o pranto,
sepultei a súplica, o sopro, a música
e o mar...
todo o espaço é alvo, todo o céu
aguado.
mariagomes
30, set.08
segunda-feira, setembro 22, 2008
quarta-feira, setembro 17, 2008
palavras?
_as que purgam a seiva ondulante
a maresia que se anula
onde a noite avultaria a força humana
e a contemplação do sol
e o silêncio fundeado em mim como um navio.
mariagomes
set,08
segunda-feira, setembro 15, 2008
o afeiçoado piar dos pássaros
e este abandono...
num equidistante precipício áureo,
a soma visceral
- o meu rosário pleno de fogo.
mariagomes
quarta-feira, setembro 10, 2008
segunda-feira, setembro 08, 2008
quinta-feira, setembro 04, 2008
ah tempo que vaza pelas tardes ardilosas,
esboço de luz que recai sobre as minhas águas,
aqui cheguei com os ramos perecíveis!
alguém, por mim, há-de blindar
o acervo do sol,
do arcano dos sinos, das sinistras flores do além.
mariagomes
set.08
domingo, agosto 31, 2008
sábado, agosto 30, 2008
Le courage de la goutte d'eau, c'est qu'elle ose tomber dans le désert.
[ Lao She ]extrait de Quatre générations sous un même toit
A coragem da gota d'água é que ela ousa cair no deserto.
[ Lao She ] tirado de Quatro gerações sob o mesmo tecto
segunda-feira, agosto 25, 2008
quinta-feira, agosto 21, 2008
conservo ainda a palavra que fende o outono,
a que lava a margem
e regressa a este difícil tempo de amar.
habitando o destino do teu círculo insurrecto,
velo incessantemente a noite.
quando o sol nascer,
levarei o amor ao sepulcro inviolado
das aves;
ao eco, o fogo pátrio,
o silêncio arauto da matriz das tempestades.
nada nos foi prometido, nem um olvido.
a palavra é o fragor de um dia sem porto
nem pôr do sol.
dá-me o estro,
uma branca toalha
espargindo o esplendor, o sal, a âncora…
deve haver um caminho para o mar.
mariagomes
agosto.08
terça-feira, agosto 05, 2008
há constelações a conduzirem-me
como inata substância que se expande em súplica
na primavera cegou um lírio
imemorial
urdindo a voz onde a nudez se avulta.
mariagomes
ag.2008
sexta-feira, agosto 01, 2008
içaram as árvores as suas vestes de fogo
logo houve um exílio.
as minhas lágrimas foram escritas por aí.
mariagomes
ag.2008
sábado, julho 26, 2008
sexta-feira, julho 25, 2008
no tempo que defendo os areais sem fim
num modo de imaginar a secura concisa
adiei os barcos à deriva
tudo se retém no meu amado : os pássaros verdes
o elevado perfume daquela mancheia de sol
um mar profundo inacessível.
mariagomes
julho.08
quarta-feira, julho 16, 2008
domingo, julho 13, 2008
és o lugar onde a raiz se incendeia,
curada lã do meu signo;
entrarei por ti
como uma candeia desfolhando teu ciclo…
de noite, eu sei, num exacto tremor,
a vaga é o meu grito, o som da manhã,
ou o orvalhado langor das florestas.
mariagomes
julho.08
sexta-feira, julho 04, 2008
[…]
Los poetas de este tiempo saben que la poesía es un movimiento hacia el otro que viaja del misterio de uno al misterio de todos y en ese encuentro, gana su transparencia. Viaja sin nombre, sin número, ajena al cálculo y a sumisión, corrige la frialdad y el desamor, junta los pedazos del mundo y abriga en su tienda de fuego.Nosotros los demás debemos aprender a escuchar el deseo de los poetas, sino pasamos de largo engañándonos. Tal vez lo que el poeta intenta toda su vida es escribir un poema, uno solo que sea pariente de la magia. El poeta no sería entonces un pequeño dios, como quiso Vicente Huidobro, sino un mero mendigo de la magia que siempre se le da por accidente, un perseguidor perseguido por un sonido que sabe que no existe.
[…]
Juan Gelman
Excerto da conferência de 2007
in Artes poéticas
sexta-feira, junho 27, 2008
para um cuidado o clamor da luz
para um incêndio a inflexão da bruma
os braços que originam o deserto são para mim.
mariagomes
27junho.08
quinta-feira, junho 26, 2008
há uma manhã no lugar incendiário da linguagem
uma manhã com um pigmento de sol
a bater na apoteose
e o peito a arder
e eu estou nessa manhã
nesta lonjura
usando a vértebra obscura e o rebordo das paisagens.
mariagomes
26junho.08

As Edições Sempre-em-Pé e a Casa Fernando Pessoa têm o prazer de convidar V. Exa para uma sessão em que serão apresentadas as duas séries de poesia actualmente publicadas pela editora referida: a série DiVersos - Poesia e Tradução, que se publica desde 1996, e a colecção de poesia UniVersos, iniciada em 2005.
Além de outros números recentes, estará disponível o n.º 13 da DiVersos, acabado de publicar em Junho. Serão lidos poemas por alguns poetas (Cristino Cortes, João Miguel Henriques, J. T. Parreira e Ruy Ventura) e tradutores (Ana Maria Carvalho, José Lima e Manuel Resende) que já colaboraram com a DiVersos.
Dos quatro títulos publicados na colecção UniVersos, os dois últimos serão abordados com mais vagar: Rio Abaixo, Rio Acima, do poeta alemão Tobias Burghardt, numa edição bilingue com tradução portuguesa de Maria de Nazaré Sanches, e Gloria Victis, do poeta Carlos Garcia de Castro, com a presença e apresentação pelo Autor e comentário crítico do Dr. Rui Cardoso Martins, do Jornal Público.
A sessão será coordenada por José Carlos Costa Marques, um dos coordenadores de DiVersos e editor de ambas as séries. A entrada é livre.
domingo, junho 22, 2008
sábado, junho 21, 2008
vi morrer o sol
e tu erguendo o sol à terra
de um vermelho vivo
eram de súbito os pássaros
de milho.
mariagomes
19 junho de 2008
quarta-feira, junho 18, 2008
eu sou uma rosa
rompo o fogo amargo
de um canto célere
a solidão do mar
eu sou outra rosa
dói-me nascer
em
e
s
p
i
r
a
l
como um cisne como um lago.
mariagomes
18 de Junho de 2008
terça-feira, junho 17, 2008
domingo, junho 15, 2008
tenho uma janela de pedra aberta para o mar
os peixes muito azuis escritos num muro
tenho os pés na água
deste luar tão escuro nesta candeia rasa.
mariagomes
15jun.2008
sexta-feira, junho 13, 2008

[...]
'Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da
transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.'
Fernando Pessoa (n. 13/06/1888, f.30/11/1935)
Livro do Desassossego por Bernardo Soares
( Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
terça-feira, junho 10, 2008
deixa o lume ancorado nos meus dias
estrema o fecundo
polariza os lagos para eu não morrer
pertence à sede
o exercício do meu ser.
mariagomes
jun, 08
segunda-feira, junho 09, 2008
" Ah ninguém entender que ao meu olhar
Tudo tem certo espírito secreto! "
Cesário Verde
domingo, junho 08, 2008
uma fotografia

está no interior a musicalidade do aroma,
é no interior que as coisas afloram.
não me perguntes quais.
são pequenas e tantas coisas
que roçam a pele, olham nos olhos,
e tiram uma fotografia, quase eterna;
a preto e branco eu morro,
afogada à luz de floreiras.
mariagomes
coimbra, 19 de maio.2003
sexta-feira, junho 06, 2008
quinta-feira, maio 29, 2008
hei-de inverter
um trinado prisioneiro…
hei-de arrancar a brisa à celebração festiva,
e a morte…
a morte pousada no mais puro do vermelho.
mariagomes
29,maio,08
quarta-feira, maio 28, 2008
se fosse minha a noite de trazer as mãos cilíndricas,
todo um apuro que preenchesse um campo de brados seculares.
se fosse minha a prolífera devastação…
ah, se fossem os cumes subversivos
a cinza dos meus versos,
a mítica anuência que eximiu o sangue de um tear fugaz,
hoje, ouviria o fruto cravado nas mandíbulas dos palmares!
mariagomes
maio,2008
segunda-feira, maio 26, 2008
Soneto do Regresso

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais, levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas acuçenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.
Carlos de Oliveira (1921/1981)
in ' Ao longe os barcos de flores'
edição Assírio & Alvim
domingo, maio 25, 2008
as mariposas são flores sob um campo desmedido
vão nivelando o sangue miraculoso
no arvoredo
que um lavrador progride.
mariagomes
25 Maio.08
quinta-feira, maio 22, 2008
Guerra
'Criança, houve céus que afinaram a minha óptica: todos os matizes me foram inscritos na fisionomia. Os Fenómenos comoveram-se. –
Actualmente, a inflexão eterna dos momentos e o infinito das matemáticas perseguem-me através deste mundo em que aguento todos os factos da sociedade, respeitado pela infância estranha e por afeições desmedidas. –
Penso numa Guerra justa ou injusta, com uma lógica particularmente imprevisível.
É tão simples como uma frase musical.
Guerre
Enfant, certains ciels on affiné mon optique: tous les caractères nuancèrent ma physionomie. Les Phénomènes s’émurent –
A present, l’inflexion éternelle des moments et l’infini des mathématiques me chassent par ace monde où je subis tous les succès civils, respecté de l’enfance étrange et des affections énormes. –
Je songe à une Guerre, de droit ou de force, de logique bien imprévue.
C’esta aussi simple qu’une phrase musicale. '
Arthur Rimbaud
in “ O rapaz raro”
tradução de Maria Gabriela Llansol
Relógio D’água

'Se alguma literatura inovadora conseguir sobreviver será a poesia, pois, entre todas as artes, é a menos vinculada às mudanças monetárias.'
Douglas Messerli
Douglas Messerli (1947), poeta, dramaturgo e editor norte-americano, associado ao movimento da Language Poetry. Publicou, entre outros títulos, Dinner on the lawn (1979), Some distance (1982) e An apple (1993). Organizou a antologia From the Other Side of the Century, de poesia contemporânea dos Estados Unidos. É diretor da casa editorial Sun & Moon, de Los Angeles.
quarta-feira, maio 21, 2008
terça-feira, maio 20, 2008
Canto A Minha Mãe
Sento-me. Canto a minha mãe, viúva na progressão do vento
numa híbrida pancada.
Na voz inicial do grito, neste sol que desce,
se todo o pranto me contivesse
ó doce mãe, ó rosa que medita…
No que é antigo
tu vieste nomear o trigo!
mariagomes
maio.2008
a ouvir a voz do mundo numa enxada,
ou a voz da chaga dos relâmpagos profundos
correndo o velo das constelações tardias
tu sabes, devo estar perto da loucura dos sinos.
mariagomes
22abril2008
recolho o nácar dos afogados;
sobre os tapetes do meu jardim,
ele é mais belo
que o abrasar de chuva que resplandece em ouro.
mariagomes
21.abril2008
a minha memória é um caminho, um pensamento apátrida,
o afecto, a pele desta palavra que
entre os palmares, nomeia a propensão da água,
a linha azul de todos os lugares.
mariagomes
abril.2008
segunda-feira, maio 19, 2008
tenho em mim a madrugada de todos os entardeceres
o rosto de um cântaro que o sol abandona em cruz
dir-me-ás que é de pedra a pele que se abriu aos homens
guardando a luz.
mariagomes
março, 2008
sexta-feira, maio 16, 2008
sexta-feira, março 07, 2008
O poeta é um primitivo, ama os sortilégios. Mas é em nome desse amor que a sua recusa tem a força de um destino, num mundo que vai abdicando de o ser. Ele é por excelência aquele que diz não à peste negra da mentira, e se opõe, implacável, ao rasteiríssimo jogo da vileza institucionalizada. Porque a palavra poética visa a subversão – se assim não fora, que sentido teria esta música onde o homem morre sílaba a sílaba para que outro homem nasça?
Eugénio de Andrade
In Rosto Precário
Edição fundação Eugénio de Andrade
quinta-feira, dezembro 27, 2007
quarta-feira, dezembro 12, 2007
sábado, dezembro 08, 2007
que usura clama pela novíssima espuma a antepassada espuma dos meus dias
o arquipélago dos teus lábios dirige os dédalos dentro de mim
aproxima-se cada vez mais o lume eloquente
mareante do sustento sopro a sopro
ouve eu não sei do restolho das gaivotas aradas em oiro
inventámo-lo sobre os céleres bagos de céus sonâmbulos
como se ao voo sucedesse outra harmonia que não essa.
mariagomes
dez.2007
quinta-feira, dezembro 06, 2007
ouviu o canto das crisálidas
dificilmente só
no frémito do cais nos densos desígnios continuava o decantado canto ensurdecido
mesmo que novembro não nos rasgue em nudez
vem dizer de que são estes lagos de colmo esta sede interposta no meu sonho
eram do mar núbil sobranceiro amo dos areais
ascendendo à foz do teu grito probo.
mariagomes
nov.2007
sábado, novembro 17, 2007
terça-feira, novembro 06, 2007
quarta-feira, outubro 31, 2007
quinta-feira, outubro 25, 2007
Ò corruptos do mundo! aqui nas lousas
Assentai-vos também às santas horas
Em que as vaidades das paixões se esquece.
Em que fala a verdade!
Porque o pó dos que foram já não mente,
Nem adulam espectros de orgulhos,
Nem as lavras ressurgem do seu leito
A beijar-vos as mãos grandes do mundo!
Grandes na corrupção! que a chaga horrenda
De crimes e impiedades andais cobrindo
Com as dobras do manto vergonhoso
De estólida vaidade…
Caíram-vos os véus! e nus ante Ele,
E a primeira vez nus ante vós mesmos,
Olhando-vos, de horror o olhar fecharíeis
E pediríeis a Deus remédio cura.
Vós que esqueçais o céu, e pisai a terra
Não como pátria onde o dever se cumpra,
Mas como escrava que saciar vos deve
De não sei que vil gozo…
Olhando o céu – talvez a vez primeira –
Lembraríeis que há um voz uma alma eterna,
- Uma alma! – não uma hóstia que se imole
Nas aras do egoísmo e da impiedade.
E então, olhando o manto que vos cobre,
Veríeis que mais crime nos delata
Cada palmo de púrpura sangrenta
Que a túnica de César:
E então, em cada prega, em cada fio,
Que do pranto de irmãos… talvez de sangue
Ensopada trazeis, encontraríeis
Um mundo acusador, grandes do mundo!
Mas não, pod’rosos! não, grandes e fortes!
Vós, os Reis! os senhores! um só momento
Corar e arrepender-vos, como o louco
Que inda em Deus tem crença?!
Oh! não! que o vosso Deus é o vosso orgulho;
Vossa justiça e fé, o próprio interesse,
E tendes um sorriso de ironia
Em vez de alma e por céu um monte de oiro.
[…]
Antero de Quental
in Poesia completa
publicações D. Quixote.
quinta-feira, outubro 11, 2007
segunda-feira, outubro 08, 2007
sábado, outubro 06, 2007
terça-feira, outubro 02, 2007
Somente na Humanidade, há criaturas humanas que não são criaturas humanas. Quantas vezes olhamos para um ser que tem dois pés, duas mãos, a espinha vertical, que cobre o corpo como um fato, que segura nos dentes um charuto, e dizemos : - eis ali um homem. Todavia, aproximamo-nos dele, ouvimos-lhe duas palavras, e…basta! Lá se foi a ilusão. Não era um homem afinal. Um outro bicho? Também não. Apenas um monstro, um aborto, um produto horrível da civilização moderna: a mentira de carne e osso! E a mentira é a mãe da antipatia. A faculdade que o homem tem de ser mentiroso, isto é antipático, é o que o destaca de outros seres; não é a Razão, como pretendem os filósofos bem-humorados: é a Mentira.
Tolstoi, por exemplo está mais perto da pomba e da árvore do que o homem vulgar…
E é na faculdade de mentir, que caracteriza a maior parte dos homens actuais, que se baseia a civilização moderna. Ela firma-se como tão claramente demonstrou Nordau, na mentira religiosa, na mentira política, na mentira económica, na mentira matrimonial, etc…
A mentira formou este ser, único em todo o Universo: o homem antipático.
Actualmente, a mentira chama-se utilitarismo, ordem social, senso prático; disfarçou-se nestes nomes, julgando assim passar incógnita.
A máscara deu-lhe prestígio, tornando-a misteriosa, e portanto respeitada. De forma que a mentira, como ordem social, pode praticar impunemente, todos os assassinatos; como utilitarismo, todos os roubos; como senso prático, todas as tolices e loucuras.
A mentira reina sobre o mundo! Quase todos os homens são súbditos desta omnipresente Majestade. Derrubá-la do trono; arrancar-lhe das mãos o ceptro ensanguentado, é a obra bendita que o Povo, virgem de corpo e alma, vai realizando dia a dia, sob a direcção dos grandes mestres de obras, que se chamam Jesus, Buda, Pascal, Spartacus, Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Tolstoi, Reclus, Bakunine, etc, etc…
E os operários que têm trabalhado na obra da Justiça e do Bem, foram os párias da Índia, os escravos de Roma, os miseráveis do bairro de Santo António, os Gavroches, e os mujiques da Rússia nos tempos de hoje. Porque é que é só a gente sincera, inculta, e bárbara sabe realizar a obra que o génio anuncia? Que intimidade existirá entre Jesus e os rudes pescadores da Galileia? Entre S. Paulo e os escravos de Roma? Entre Danton e os famintos do bairro de Santo António? Entre os párias e Buda? Entre Tolstoi e os selvagens mujiques? A enxada será irmã da pena? A fome de pão parecer-se-á com a fome de luz?...
TEIXEIRA DE PASCOAES
(1) A Águia, I série, nº 4 15-1-1911, pag 11 e 12.
quarta-feira, setembro 05, 2007
quarta-feira, agosto 29, 2007
[...]
Lenha mote
crescê-me
na pulmon sec
De sol a sol
nha osse ê verde
bô osse ê planta
C’ma fruta- pon tambor e tchon
De sol a sol
‘ma gritá Rimbaud ô Maiakosky
larga-me da mon
[...]
Secos os pulmões
neles cresce-me
a lenha do mato
De sol a sol
os meus ossos são verdes
os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão
De sol a sol
gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
deixem-me em paz
Corsino Fortes
in “ A cabeça calva de Deus”, p 39, 39
Publicações Dom Quixote
Corsino Fortes nasceu em 14 Fevereiro de 1933 em Mindelo, Ilha de S. Vicente, Cabo Verde…
quinta-feira, agosto 23, 2007
sexta-feira, agosto 17, 2007
terça-feira, julho 24, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
O Poema
A tarde cai,
silenciosa,
morosa...
Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa
rubra e preta,
abre...
Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena
sentindo estoirar
o calibre
do coração,
nostálgico do éden...
-Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!
Para quê negar
a esmola que te pedem?
Saul Dias*
(in 800 anos de poesia portuguesaedição circulo de leitores, 1973)
*Saúl Dias nasceu em 1902 e faleceu em 1983.Saúl Dias é o pseudónimo literário do pintor Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do poeta José Régio. Licenciado em Engenharia Civil pela Universidade do Porto, foi pintor, poeta e desenhista. Colaborou na revista Presença com produções literárias, pinturas e desenhos.
[fotografia de mariagomes]
quarta-feira, julho 04, 2007
sexta-feira, junho 29, 2007
Canto para contar daquele instante/ quando o que mais amamos chega ao fim/ e um belo simulacro delirante/ usurpa-lhe o lugar; quando é assim/ que a arte desfaz da luz agonizante,/ convence a muitos, não comove a mim.
Bruno Tolentino
Bruno Lucio de Carvalho Tolentino , n. Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940, f. S. Paulo, 27 de Junho 2007
livros publicados:
Anulação e Outros Reparos (São Paulo: Massao Ohno, 1963)
Le Vrai le Vain (Paris: Actuels, 1979)
About the Hunt (Oxford: OPN, 1979)
As Horas de Katharina (São Paulo: Companhia das Letras, 1994)
Os Deuses de Hoje (Rio de Janeiro: Record, 1995)
Os Sapos de Ontem (Rio de Janeiro: Diadorim, 1995)
A Balada do Cárcere (Rio de Janeiro: Topbooks, 1996)
O Mundo como Idéia (São Paulo: Globo, 2002)
A Imitação do Amanhecer (São Paulo: Globo, 2006)
quarta-feira, junho 13, 2007
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque
nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um
acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas
das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas
iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
Dos “ poemas inconjuntos”, Alberto Caeiro
In "poesia de Fernando Pessoa"
Editorial Presença
Introdução e selecção de Adolfo Casais Monteiro
nota , a 13 de junho de 1888 nasce em Lisboa, às 15 horas, Fernando Antônio Nogueira Pessoa... morre em Lisboa, aos 47 anos, a 30 de Novembro de 1935.
domingo, junho 10, 2007
segunda-feira, maio 21, 2007
quarta-feira, maio 09, 2007
Teixeira da Pascoaes
in Republica ( Porto, 31.1.1929)
quinta-feira, maio 03, 2007
é com o rumor das águas que falo dos deuses
dos desertos ímpios, saídos
dos cerúleos campos que cantavam, ilesos.
eu falo com a inocuidade dos dedos, como se houvesse um hino
ou caminho contínuo.
mariagomes
maio.2007
quinta-feira, abril 26, 2007
pugna o mais breve pássaro que aprovou o silêncio.
com a dor que sinto,
como um círio extinto dou-me à terra duradoura,
deflagram os longínquos rios quando o sol se apaga.
outrora, a paisagem era a lisura da espuma,
tecia-lhe os olhos.
vinha à boca o trigo íngreme das marés.
e tudo aquilo era vertiginoso, tranquilo -
uma mulher largava o linho anil
e ele trazia-nos todas as rosas, mãe.
mariagomes
abril, 2007
domingo, março 25, 2007
de onde te escrevo, resignam-se as árvores
as inextinguíveis árvores que ouvíamos rezar
e o sol sem ninguém, a sombra híbrida, a vida…
é por isso que eu ando por dentro do coração das coisas, mãe.
mariagomes
março.07
terça-feira, março 06, 2007
e tudo é pouco
o mar
a percepção do horizonte que foi teu e
concedeu à terra a cinza
para que uma outra primavera haja nas flores do âmago
na água cristalina.
mariagomes
março.2007
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
não posso trair os umbrais das aves,
sem que a palavra seja a memória do meu luto derradeiro.
há um sinal que me vaticina ao sono
como um soluço aceso,
como o corpo locomovido e missionário aos confins.
não posso, meu amor, sair de mim.
mariagomes
fev.2007
terça-feira, fevereiro 27, 2007
não posso, meu amor, sair de mim.
a minha encomenda é esta, açular o fogo,
saber de deus
e no fim,
ter a imensidão triste que me abre
ao cardo,
à pele das açucenas, a cegueira plena das manhãs.
mariagomes
fev.2007
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
será enorme a noite, os barcos abalroarão os cais.
no amor entregue às coisas, este declive é ainda o teu rosto,
são os teus braços e os teus olhos livres…
escuta-me!, houve uma cidade lavrada,
uma cidade ou uma palavra que eu detive.
mariagomes
23 Fev.2007
domingo, janeiro 21, 2007
à terra entrego rosas d'esplendor sibilino;
a tua alma, a força de gritar,
essa, entrego-a ao mar.
mariagomes
21jan.2007
sábado, janeiro 20, 2007
a repartida luz que antevejo
é um refúgio intenso que vive e vai saudando o crepúsculo do meu cais.
oh sempiterno rosto furibundo e anónimo de um sol anoitecido
oh morte oh vida fecham-se os olhos das flores exíguas.
mariagomes
20Jan.2006
terça-feira, janeiro 16, 2007
O Ser Espiritual ( Teixeira de Pascoaes)
O que é menos perfeito; e a Criatura
De natureza anímica e divina
Dirige, atrai e leva o seu Criador
De natureza humana, - de tal forma,
Que a frágil vida do homem animal
Traduz-se na influência que sobre ele
Exerce a criatura espiritual
Que seu meio corpóreo fecundou.
Qualquer homem que, ao ver sua miséria
E sua vida trágica criou
Em pensamento, um ser perfeito livre.
- Esse homem fez um Deus; e desse instante
Seu destino consiste em caminhar
Para esse Deus amado, - mas distante;
Por ele concebido, - e inatingível!
Eis o destino, o fim da vida humana.
Também o fim da terra é conceber
A arvore já mais viva e mais perfeita;
Frutificar, portanto e florescer.
Eis bem claro e bem nítido o sentido
Da Vida, porque o Ser Espiritual
Existe e vive no homem, assim como
Na terra a criatura vegetal;
É do mundo e pertence à Natureza,
De que ele é, na verdade, a flor mais bela,
A expressão derradeira da beleza
Que a luz, o céu, a terra em si contém.
Teixeira de Pascoaes
in “ A Águia, 1ª série, nº 8, 1 de Abril de 1911, p. 8 ( OCTP, vol I, pag 174-175)
sábado, dezembro 30, 2006
creio em ti ousando a onda das mais altas
e velhas marés
que ouviram uma cidade deserta esperada
porque tudo em ti é um murmúrio que fala
como último instante calhado no olhar de um pássaro.
mariagomes
29 Dez.2006
sexta-feira, dezembro 22, 2006
isto és tu a correr pela cruz do meu corpo dos meus olhos famintos
isto és tu sobre o lago estendendo a mão ao indizível anil das areias
isto és tu a acontecer com a sublevação do sol
pelos raios soçobrando.
mariagomes
22Dez.2006
quarta-feira, dezembro 20, 2006
eu fui um navio luzente como sede, reclinado aos rouxinóis
em cada palavra aberta
navega o vento do meu exílio, porque o nada é mais.
mariagomes
20Dez.2006
sexta-feira, dezembro 15, 2006

"variações sobre uma estrela", fotografia de mariagomes
quinta-feira, dezembro 14, 2006
"O génio, ele é o afecto e o momento presente, construiu a casa aberta ao inverno espumoso e ao rumor do verão, purificou as bebidas e os alimentos, ele, que é a sedução dos lugares evanescentes e a delícia sobre-humana dos lugares parados. É o afecto e o provir, a força e o amor que, ao enfrentarmos a pé firme as dores e contratempos, vemos passar no céu ameaçador e nos estandartes de êxtase.
É ele o amor, medida perfeita e reinventada, razão maravilhosa e inesperada, e a eternidade: máquina amada das qualidades fatais. Já todos sentimos o pavor da sua e a nossa concessão: ó gozo da saúde que possuímos, impulso das nossas faculdades, amor egoísta e paixão que lhe temos, ele, que nos ama para a sua vida infinita...
Lembramo-nos dele, e ele viaja…. E, se a Adoração se for, toca, a sua promessa brada: “ Para trás essa superstições, esses corpos de antigamente, essas famílias e esses tempos. É esta época, porque passamos, que soçobrou!”
Ele não se irá embora, não voltará a descer do céu, não redimirá as cóleras das mulheres, nem as alegrias dos homens, nem outro pecado qualquer: porque ele sendo, e sendo amado, isso já aconteceu.
Oh!, os seus sopros, as suas cabeças, as suas corridas; a terrível celeridade da perfeição das formas e da acção.
Ó fecundidade do espírito e imensidão do universo!
O seu corpo!, a sua quietude sonhada, o quebrar da graça entremeada de uma nova violência!
A sua visão, sua visão!, depois da sua passagem , perdoadas todas as antigas genuflexões e castigos.
A sua hora!, a abolição de todos os sofrimentos sonoros e movediços numa música mais intensa.
O seu passo!, as migrações mais ingentes do que as antigas invasões.
Ó ele e nós!, um orgulho mais benevolente do que as perdidas caridades.
Ó mundo!, e o canto cristalino das novas infelicidades!
O génio, conheceu-nos ele, e a todos ele amou. Saibamos, nesta noite de inverno, de uma ponta a outra, do pólo tumultuoso ao castelo, da multidão à praia, de olhar em olhar, forças e sentimentos cansados, chamar por ele e vê-lo, mandá-lo embora e, sob as marés e no pico dos desertos de neve, seguir as suas visões, o seu sopro, o seu corpo, a sua hora."
Arthur Rimbaud
in “ O rapaz raro”
Iluminações e poemas
Trad. Maria Gabriela Llansol
Edições Relógio D’água
quarta-feira, dezembro 13, 2006
alguém disse que o inverno tombaria de um corpo abrasador
para colher coisas que ficaram
a tua voz
o luar
nas tuas mãos que ainda sobe a luz límpida do dia.
mariagomes
13Dez.2006
segunda-feira, dezembro 11, 2006
"Diante de um grande poeta, tem-se a sensação de que as coisas que permaneceram escondidas no caos emergem."
Christian Hebbel
sábado, dezembro 09, 2006
" O sage, Dichter..."
Que fazes tu, poeta? Diz! - Eu canto.
Mas o mortal e monstruoso espanto
Como o suportas, como aceitas? - Canto.
E que nome não tem, tu podes tanto
Que o possas nomear, poeta?- Canto.
De onde te vem direito ao Vero, enquanto
Usas de máscaras, roupagens? - Canto.
E o que é violento e o que é silente encanto,
Astros e temporais, como te sabem? - Canto.
Rainer Maria Rilke
Áustria ( 1875-1926)
in " poesia do século XX"
Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena
edições Asa
terça-feira, dezembro 05, 2006
para mim, marinheiro, a água é doce e o amor
um abismo volante.
eu confio-te a eternidade
das águas
as parábolas onde se prendem os lírios.
mariagomes
5dez.2006
quinta-feira, novembro 30, 2006
porque dispões as mãos e dizes que ciciam os astros,
eu pretendo intensamente a luz.
tudo se parece com o mistério que redime a vida
como a boca triste, concisa
de um poema.
sempre foi assim o coração que o silêncio celebrou.
mariagomes
29Nov.2006, 23 h e 40m
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Acerca de mim
- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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