"Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes;
(...........)"
Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
terça-feira, agosto 25, 2009
Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância. Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio. Falem pouco, devagar, Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento. O que quis? Tenho as mãos vazias, Crispadas flebilmente sobre a colcha longínqua. O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta. O que vivi? Era tão bom dormir!
8-12-1931 Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 86.
Alimento-me de raízes. Desço ao fundo pela corda da fome da saudade e encosto-me à terra, encontro todas as coisas em todas as cores ao som de todos os dialectos... Vou ao fundo e subo a todas as árvores a todas as montanhas, percorro desertos acústicos de paixão onde ardem sublimes miragens: são guitarras verdes que se curvam à passagem do meu ouvir. Moro aí nessa linha indefinida da insónia e do sono, onde o céu e a terra se costuram onde o silêncio sustenta o levitar de pássaros. Moro aí onde não há céu e terra, existo num pressentir. Numa cadência. No que há-de vir. Em tudo o que foi lapido o momento num corpo que dança e numa voz que te canta, Mãe-África!
mariagomes Coimbra, 2002 in edição PD Literatura, 2002
(n. Rio de Janeiro, 4 de Novembro de 1965, f. 1 de Julho de 2009)
segunda-feira, junho 29, 2009
eu queria para ti um deus que desenhasse a pedra o fogo o trigo o sal - o som diáfano que persigo nas entranhas misteriosas uma canção que fosse de desvelo - uma planície.
mariagomes junho.09
quinta-feira, junho 25, 2009
não é tua a melodia funda destas águas nem o sangue profanado dos sinais em chagas.
mariagomes jun.09
eu não queria para ti este lume amargo como um antro este luto que subverte a razão da poesia.
Babatunde Olatunji natural da Nigéria, um dos mais carismáticos precurssionistas africanos foi membro fundador do projecto Planet Drum ( faleceu a 6 de Abril de 2003)
Dele, digo: tinha as mãos de deus.
sexta-feira, junho 19, 2009
II
cedo ouvi o dilecto som das aves na emoção que emigra
em qualquer batalha vi morrer um filho.
mariagomes 19jun2009
I
cedo me aventurei por esse caminho abri a cega intimidade receei apagar-lhe o brilho cantante até à morte outorgada à vagarosa arte de ser ilha ou mar puro onde nascer seria o que se suspende ou se celebra.
mariagomes 19jun.2009
quarta-feira, junho 17, 2009
recorda comigo - só havia o luar as imagens difusas assoreavam a noite
o deserto era um anjo azul o verso os olhos a urgência de abraçar o ramo o vento um rio naquele corpo como se ardesse em vegetação.
mariagomes jun2009
sexta-feira, junho 12, 2009
canta por mim ainda que o amor não venha com a mesma sede venci a tormenta da nomeada dor sem quartel em cada cópula de fogo em suas cinzas dulcíssimas
neste desejo civil de ver nascer o sol rumei ao invisível.
La poesía no es sucesiva, como la ciencia. Un poeta no continúa a otro poeta, sino que recrea, revive, aísla y cierra en sí mismo «toda» la poesía.
2
Un camino por donde, aunque uno sabe que no llegará nunca, va uno bien y seguro de que es el único y verdadero.
3
La poesía…, esta eyaculación –¡qué deleite!– del espíritu.
4
Si la poesía fuera, como algunos pretenden, una cosa precisa, inflexible, ríjida, suntuosa, llegaría a desprestijiarse entre sus dos hermanas: la pintura y la música. En la pintura, realista o romántica, el pintor fija el motivo de la naturaleza como es ella misma y lo divulga o lo fija a través de su alma, para que sea fuente de sensación. La música es una evaporación de la vida; es también maleable, irisada y temblorosa; tesorera, podríamos llamarla. El arte no traduce, comenta. La palabra fija y concreta, como el color, como la nota, debe tender a la difusión, a la melodía, a algo que se evoque y que emocione y que, al fin, abra la fuente de nuestros sentimientos ideales.
5
NO PROFÉTICA
La poesía auténtica es siempre futura, nunca profética. Su profecía consiste precisamente en ser futura. Y no se me diga que la poesía, futura en la espresión, puede soportar también una profecía; porque la poesía es «sólo» una unidad completa. (Quien puede ser profético es el poeta. Pero eso es otro asunto. Y se trata en prosa hablada.)
6
ESA CHISPA
La poesía nos la trae todo el existir diario que rodea nuestro diario existir; y la hace saltar, buena chispa, el roce o el choque de las existencias encontradas. Pero, en sí, la poesía, es decir, lo que salta y lo que ilumina esa chispa a nuestra espresión no es más que lo absoluto.
7
La poesía inferior gana declamada, aumentada a los oídos, no vista. La superior pierde así; gana leída en silencio con los ojos.
8
LA SANGRE VERDE
La poesía no se renueva gritando a las señoras asustadas o crédulas que la sangre es verde; sino sorprendiendo las ideas esenciales que esa sangre, más verde o más roja, riega, fecunda y exalta.
9
COMO ESENCIA
Poesía, una sustancia que alimenta como esencia.
10
Lo objetivo –que varía en cada país– no puede ser universal. Sólo es universal el alma del hombre. Así, la poesía subjetiva es la única que llena el universo.
11
Poesía, instinto cultivado.
12
La poesía, principio y fin de todo, es indefinible. Si se pudiera definir, su definidor sería el dueño de su secreto, el dueño de ella, el verdadero, el único dios posible. Y el secreto de la poesía no lo ha sabido, no lo sabe, no lo sabrá nunca nadie, ni la poesía admite dios. Por fortuna, para Dios y para los poetas.
13
El estreno de la poesía es influir superiormente sobre el mismo poeta que la ha escrito en instantes de su ser superior; hacer de un hombre divinizado un dios frecuente.
14
La conquista de la poesía es como la del amor, que nunca sabremos si su secreto es nuestro, y contamos para siempre con la belleza y la fuerza de esa duda.
15
Sólo la creación vence el ruido de la Creación.
16
Poesía metafísica no filosófica.
17
Poesía pura no es poesía casta, sino poesía esencial.
y 18
No hay poeta más puro, es decir, auténtico, que el poeta fatal.
Juan Ramón Jiménez (Huelva, 1881-SanJuan de Puerto Rico, 1958) in Estética y ética estética (aforismos, 1907-1954), 1967
segunda-feira, abril 27, 2009
amo a voz que me semeia amo as aves pelos hidrópicos milagres amo a terra e a verdade da nuvem da lua cheia.
mariagomes abril.2009
quinta-feira, abril 16, 2009
Meu querido Paolo Conte...
( como é difícil expressarmo-nos mediante o imenso! tudo se suspende nesse laghi bianchi del silenzio.)
terça-feira, abril 14, 2009
entre as árvores esperadas e os dedos trémulos deixaremos este acesso febril e dificílimo a voz do sol os jardins os dias ermos...
a esta entrega assinalada eu ficarei livre livre!…
mariagomes 14.abril09
segunda-feira, abril 13, 2009
o eterno é isto: -o nome dos rios um istmo as minhas mãos por nascer na via láctea.
mariagomes 13.abril.09
sábado, abril 11, 2009
é no decúbito da noite que detenho a terra e anuncio a verdade dos crepúsculos.
é neste mar crivado que moldo em barro a eternidade.
mariagomes 11abril2009
quinta-feira, abril 02, 2009
Quando Diamanda Galás passou por Portugal, em 2005, Walter Hugo Mãe escreveu:
"ia jurar que, semicerrando os olhos, se podia ver fumo negro saindo da sua boca. um fumo rápido, atarefado com dispersar-se por toda a sala. parecia que nos imergia nos seus misteriosos ofícios. com o tempo, tudo pode acontecer a quem lá esteve"
Repito o que já havia escrito no meu site do multiply : realmente,tudo pode acontecer a quem a ouve!
Uma chamada de atenção para o poeta, periodista e crítico literário salvadoreño Miguel HuezoMixco, autor deste poderoso poema:
Si la muerte viene y pregunta por mi haga el favor de decirle que vuelva mañana que todavia no he cancelado mis deudas ni he terminado un poema ni me he despedido de nadie ni he ordenado mi ropa para el viaje ni he llevado a su destino el encargo ajeno ni he echado llave en mis gavetas ni he dicho lo que debia decir a los amigos ni he sentido el olor de la rosa que no ha nacido ni he desenterrado mis raices ni he escrito una carta pendiente que si siquiera me he lavado las manos ni he conocido un hijo ni he empredido caminatas en paises desconocidos ni conozco los siete velos del mar ni la canción del marino Si la muerte viniera diga por favor que estoy entendido y que me haga una espera que no he dado a mi novia ni un beso de despedida que no he repartido mi mano con las de mi familia ni he desempolvado los libros ni he silbado la canción preferida ni me he reconciliado con los enemigos digale que no he probado el suicidio ni he visto libre a mi gente digale si viene que vuelva mañana que no es que le tema pero ni siquiera he empezado a andar el camino.
domingo, março 29, 2009
“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica".
Norman Vincent Peale
(n. 31 de maio de 1898, Bowersville, Ohio, EUA - f, 24 de dezembro de 1993, Pawling, New York, EUA)
segunda-feira, março 23, 2009
sexta-feira, março 13, 2009
Estas fotografias foram obtidas, ontem, às 21h e 30m. São flores de cacto que se abrem uma vez ao ano, no nosso verão, por uma noite! Assim se chama a flor: a dama da noite.Diz quem sabe, que à meia noite o aroma e as flores são ainda mais intensos.
sexta-feira, março 06, 2009
que sol virá contrariar o tempo intumescendo o amor se da escuridão regressa a brisa e a primavera e o luar modela a rocha lisa no frio púlpito da miséria.
que odor maior que remate que memória me devolverá o mar?
mariagomes março, 2009
quarta-feira, março 04, 2009
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
falo à frágil onda que se desfaz na noite ao tempo que amarelece talhado ao leite de minha mãe há assim a pujança de estrelas e areais serenos no poema que apaguei.
mariagomes fev.2009
quarta-feira, fevereiro 18, 2009
tremo não me equilibro cultivo a lira a flor-de-lis vocábulos lisos - naquele baixio cultivo a ânsia nesta dádiva de nevoeiro que em mim descansa.
mariagomes fev,2009
segunda-feira, fevereiro 16, 2009
sábado, fevereiro 14, 2009
quero a minha poesia na força do amor no voo na fonte quero aplanar a voz despertando de mansinho a aura o dia quero que a minha poesia se solte e fira e sangre na cor de um diamante.
mariagomes 14fev.2009
terça-feira, fevereiro 10, 2009
Quem administra um blogue de poesia , sabe como isto, às vezes, funciona, ou deve funcionar: uma imagem fundamenta um poema, uma poema uma imagem, uma palavra um poema, uma música um poema ou uma palavra... e por aí vamos. O vídeo “cinco dias > stand by me….” aqui exibido, o que mais prazer me deu ver ouvir e publicar, pediu este poema de Fernando Couto que poderia muito bem ter sido dirigido a qualquer uma daquelas belíssimas vozes que, espero não tenham caído, de novo e definitivamente, no anonimato.
mariagomes
Pergunta a Paul Roberson
Que rios te correm na voz Paul Roberson 1 ? Que marulhantes graves e longos rios é o teu canto Paul Roberson? É o Congo ou é o Mississipi com manchas de sangue indissoluto? Ou são os afrontosos rios da humilhação impotente Paul Roberson? Ou é o Nilo ou o Missouri cavando às cegas o leito nas terras da hostilidade? Ou será a mágoa sem fundo nem tempo náufraga sem morte dos barcos de negreiros soluçando nos campos de algodão dos diversos estados da Carolina do Sul Paul Roberson? Ou será a incomparável curva doida do Niger rompendo o caminho do mar? Ou será apenas o lento pesado arrastar dos pés dos teus irmãos de raça Paul Roberson rompendo o caminho do mar?
1 Cantor de blues norte-americano
Fernando Couto
In Poetas de Moçambique
**Fernando Leite Couto nasceu em 1924 em Rio Tinto Portugal. Jornalista, pai do escritor Mia Couto reside actualmente em Maputo onde é responsável pela editora Ndjira. Bibliografia Poesia – Poemas junto à fronteira ( 1959); Jangada do Inconformismo (1962), O Amor Diurno( 1962) , Ficções para um retrato ( 1971); Monódia (1997) e Os Olhos Deslumbrados (2001)
[...]El único tema de la poesía es la poesía misma. Shakespeare era un gran poeta político; Dante también. En nuestra generación hubo gente que escribió panfletos, pero solamente hubo un gran poeta: Francisco Urondo. Por lo tanto, no es el tema que determina la calidad de una poesía. Safo escribió versos de amor hace veinticinco siglos y se conservan fragmentos que son estupendos. De Safo a la fecha se han escrito millones y millones de poemas de amor que no le llegan ni al tacón de las sandalias que ella usaba. Y el tema es el mismo. [...]
Juan Gelman
( clique no título)
domingo, fevereiro 08, 2009
sábado, fevereiro 07, 2009
creio no elemento do azul , no enleio, no deserto em nossas mãos sereníssimas, diáfanas, pelas dunas de cada dia radiante.
creio na pedra do exílio, no teu nome ausente.
ah!, meu amor creio no sal que me devora os lábios.
mariagomes fev.2009
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
grito - sou o sol que nasceu na provação dos dias no corredor nu das calemas junto ao espelho não ouso um céu.
mariagomes fev,2009
agora escrevo na ciente voz que plana para além do medo no silêncio legente onde a morte nos devassa o sangue e o veste de aflições e o derrama num pequeno caudal de flor veludo e alma.
mariagomes fev.2009
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
"A inconsciência é uma pátria; a consciência, um exílio."
Emile Michel Cioran
[8 de abril de 1911, Răşinari, Sibiu, Austria-Hungary (hoje Romênia) - 20 de junho de 1995]
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
sábado, janeiro 31, 2009
Respondendo ao repto que me foi lançado por Ana Cecília do blogue Casulo Temporário transcrevo a 6ª linha, na página 161, de uma antologia de poesia moçambicana do poema “ Deixa passar o meu povo” de Noémia de Sousa. Posteriormente alinhavei uns versos. Convido, agora, para esta ciranda o Fred Matos, a Gabriela Gouveia, o José Ribeiro Marto e o Henrique Pimenta. Leiam a 6ª linha da página 161 do livro que esteja mais próximo de vós transcrevam-na e… escrevam.
“abro-me e deixo-me embalar…”(1) pela saudade da clareira que acende o meu povo naquele oriente vago profuso impelindo a noite que lhe lavou o rosto e refulge num suave ramo lunar
mariagomes (1) Noémia de Sousa
sexta-feira, janeiro 30, 2009
A poesia é um eco que convida uma sombra para dançar.
Carl August Sandburg
n. Galesburg, Illinois a 6 de Janeiro de 1878 – f. Flat Rock, Carolina do Norte, a 22 de Julho de 1967
sábado, janeiro 24, 2009
não é fácil entrar em janeiro sentir o coro amotinado de meus devotos ais
não é fácil abrir as pálpebras de périplos lunares a este solo gélido dizer - estou aqui tenho o fôlego do amor nas mãos.
mariagomes 24, jan, 2009
segunda-feira, janeiro 19, 2009
dou ao mar a gravidade dos meus lábios a pueril imagem
ao coração os olhos sitiados.
mariagomes ano/2008
domingo, janeiro 18, 2009
Je ne supporte pas d'être moi, je m'invente.
Joë Bousquet
Extrait de Penser contre soi
na remota ilha de meus vagos anseios, as minhas mãos brincam como barcos no estuário dos istmos.
puro objecto que sei ser grado e efémero deserto e sede bípede, ainda e sempre.
oh meu deus! tudo estava em nós nutrindo o nervo, a árvore, a fome na ilusão já vencida.
mariagomes jan.2009
terça-feira, janeiro 13, 2009
cobre-me tu, alma! diz-me a que mar pertence a fibra da minha morte, porque eu saúdo-a com teu sorriso secreto entre os desígnios da noite.
mariagomes 13, jan.2009
domingo, janeiro 11, 2009
"O homem foge da sua sombra anterior para a sua luz futura."
Disse num poema intitulado a metamorfose da voragem que - não há poesia - e dizendo-o, duvidei do que disse. Que dualidade! se quiserem, que incongruência…
Não me quero alongar em mera retórica, pretendo somente a concisão de uma consciência poética (a minha) num tema, num tempo tão explosivo quanto este : ‘ Poesia, Poeta e Poema’.
Se não há poesia, onde se projecta o poeta e o poema? Em que dimensão habita o sopro? Tocará ele, como afirma T.S Eliot, ‘a orla daqueles sentimentos que só a música pode expressar’?
Essa orla, essa fronteira, puramente sensível, puramente primeira, imaterial amplia-se entre o antes e o depois como o crisol ardente da emoção criadora __e concomitante roda 'no selim da infância '(1) entre a natureza e o espírito devorador do significante e do significado de que se apropria, com a insígnia da voz.
E esse ‘ser primitivo‘, que é o poeta (como definiu Eugénio de Andrade) integra-se numa relação íntima, sucedâneo de um cosmos que se nos diz ‘num pequeno mundo cheio de amor.’ (2)
Talvez a poesia ande num pequeno mundo cheio de amor! e seja na noite, aquela ondulação que contagia o corpo e submerge o mar, que o mar ainda é a matéria de migrantes missivas __e a poesia, o invisível.
Eu não vejo a poesia. Vislumbro um lugar 'onde ninguém pode poisar a cabeça' (3), onde a palavra se faz coisa: átomo, grito, canto, grifo do silêncio… manifestação do mundo recriando o mundo, arremesso da pupila deslocando o azul do sol __e o sortilégio do infinito que estanca o rosáceo sangue de um austro.
Eu não vejo a poesia. Vislumbro os levantes, a luz das densas falésias na oferenda das mãos que recolhem a cidade real, e perguntam: __Onde vive a poesia? Não sei!... Isto só ao verbo é permitido responder, ao tecido dos homens, ao que 'apartado nele nos seja presente' (4)
Eu admito, apenas, que viceja na alfaia de um ovo, na espiga de um lírio, ou na meda de um cântico ungido.
...
não sei, meus amigos, o que fazer da minha poesia. o que fazer do que antecede, do que digo. do que é excessivo, às vezes, como uma lâmpada alegre. estou presa num poema. estou prestes a explodir em espuma. procuro um lugar…. os olhos, a parede… vou pendurar a minha poesia nos olhos da parede. vai escorrer pela cal húmida vai desfazer as mãos redondas das lágrimas. depois, quando não mais houver, sem o olhar, sento-me num degrau qualquer de magnólias, e acaricio-as como se ali nascesse o mar.**
mariagomes III Bienal de Poesia, em Silves, abril de 2008
1) Ruy Duarte de Carvalho in Lavra , “poesia reunida’ 2) Ruy Belo,p.81 cap- ‘ particular configuração da palavra arte, Na Senda da Poesia’ 3)Ruy Belo, “ Na senda da Poesia 4) Léon L. de, op cit., p.399. in cap ‘-particular configuração da palavra arte, Na Senda da Poesia’, Ruy Belo
**Maria Gomes ' o lugar da poesia' a José A. Gonçalves in memoriam e a José Félix
“El verdadero poeta lo que hace es intentar extraer la poesía de la realidad, no verter poesía sobre la realidad porque lo que se hace es una poesía literaria. Hay que mirar la vida con ojo poético. Embadurnar con poesía la realidad es muy fácil, lo hace cualquiera con lecturas y un poco de sensibilidad. El camino contrario, extraer poesía de la realidad es lo complicado.” […]
Diego Jesús Jiménez Entrevista, 2008 in Artes Poéticas
sexta-feira, janeiro 09, 2009
eu nada sei do amor no preâmbulo das asas
eu nada sei do vento que copulou com as límpidas alvoradas nem da pungente catarse dos crepúsculos pelas catedrais
espero ainda o sol.
mariagomes 9,Janeiro, 2009
quarta-feira, janeiro 07, 2009
e há rosas de sal e rios lógicos possuídos e há também caminhos num mover de pedras e o espanto do mar ao fundo sonho ou vida ou artéria de fogo ao acordar da hora obsidiante
este chão é meu esta cidade nasceu algures das algas de um quinhão nos olhos para compensar a luz da eternidade.
mariagomes jan, 2009
terça-feira, janeiro 06, 2009
onde teu rosto se inscreve em seda e ouro, onde, em rota, as manhãs são cálidas e clandestinas, todo o deserto rompe em flor.
como um primeiro ser vivo como uma ave de cetim ladeando a ilusão de um céu azul claro tenho as mãos expectantes na penumbra pronta de meu sono redimido nas águas metafóricas na coreografia das fragas que nasceram e dão à praia um perfume roxo de ternura para quem a tarde se ajoelha para quem o branco da poesia que derramo para quem a voz de uma só estrela é o silêncio tutelar de um oceano.
prometo que doarei a madrugada num dever maior ao anil da brisa.
prometo expandir as águas pelos areais tangíveis.
longamente, prometo, pai, reescrever o teu rosto na rebentação dos dedos, no cume das lágrimas do húmus, no pecúlio de tua devoção ao singrado sangue que desponta, gota a gota, neste horizonte de asserto.
Artigo 25.º 1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
terça-feira, dezembro 09, 2008
vê! o meu momento é este esperar que se decante o estoiro das batalhas deixar que os mortos falem aclarar o campo na terra dura que se suspende em manto.
Nous naissons tous fous. Quelques-uns le demeurent.
Samuel Beckett
Extrait de En attendant Godot
.....................
Nascemos todos loucos; alguns permanecem (assim)
extraído de À Espera de Godot
entre o corpo e o crepúsculo a terra tão súbita tão pura a mesma sede
deixa-me colher na vigília deste vento a palma desta fonte a viandante estria a dor viril da nua madrugada
deixa-me escorrer no sol assente o baleado sonho a sangue frio líquida como as ondas e os anjos.
mariagomes dez, 2008
domingo, dezembro 07, 2008
talvez não saibas que amo as temperadas manhãs que há um lugar que transcende os olhos que atravessam sóis como baionetas de sangue
nunca te falei da infância de um acidulado relâmpago nos passos das pálpebras das palavras de um dever profundo houve uma rosa submersível condenada à água e lábios fortíssimos azuis e faróis perdidos em profusão em chamas
sabes? quando pousei as mãos senti partir o cântico dos mares chamei por ti.
eu também, meu caro waters, estive preste ao corte final, a deixar que todos vissem palavras de sangue na parede com a letra de uma canção
eu também, meu caro waters, queria mostrar meu lado fraco sucumbir à absoluta alucinação escrever com sangue na parede os versos de outra canção
eu também, meu caro waters não tive coragem pro corte final mas tenho a lâmina guardada: talvez em alguma madrugada eu escreva a definitiva canção.
Fred Matos 05/12/2008
sexta-feira, dezembro 05, 2008
Foste morto numa cruz p'ra onde te levou o povo. Que Te fariam Jesus se cá viesses de novo?!
IN Alberto Sá, "OITENTA MENSAGENS" 1993
posso emigrar no teu nome amar os rios abrir a chuva o sorrir
no regaço da aurora prolongar a sede do anoitecer.
...
mariagomes dez/2008
quinta-feira, dezembro 04, 2008
amanhã quando vazarem as cordilheiras e o clamor for mais alto da chuva a cair na distância que sela um hierático silêncio escreverei poemas de amor. nessa hora de porões translúcidos contornarei a linha verso a verso consignando o mito do deserto.
amanhã falarei de ti da vertente febril dos teus braços sobre o amanhecer dos séculos.
não, não renunciarei à urgência dos espectros, a este claro coração; expectante, a morte é um rio secreto. há muito tempo, eu sei, nos nós dos dedos, no fulgor do estio abriam-se corolas vivas com a respiração do verde,entre sílabas e sílabas.
mariagomes nov/2008
segunda-feira, novembro 24, 2008
tudo se oferece à poesia! mesmo o princípio mortal da manhã , esse oceano onde se fundem os refluxos da evocação de um adeus: - a neblina convulsiva, a purificada cinza nos teus lábios, nos meus.
mariagomes 24nov.08
sexta-feira, novembro 21, 2008
até à sensibilidade solar, terei os olhos leves do gorjear das aves, a voz do litoral , o sequioso beijo de uma glicínia; e tudo o que se fizer incólume, como a luz de um areal nas vogais da noite, ou na quietude dos passos inacabados da poesia.
mariagomes nov, 2008
quarta-feira, novembro 19, 2008
[...] " quem não sonhar está morto. O mundo como ele hoje é, não vale nada. É preciso que ele seja conforme o conceber da nossa fantasia, criadora de beleza. Este antagonismo entre o mundo e a alma humana seria incompreensível se não víssemos nele a própria razão da nossa actividade moral: o aperfeiçoamento das cousas, a sua disposição em marcha para um fim divino. O homem é o único animal que não coincide com o mundo;e seu destino é dilatar o mundo até onde chega a fantasia, até ao céu. O mundo é céu materializado e condensado, para que as patas dos animais encontrem um ponto de apoio no Infinito, como encontraram refúgio na Arca de Noé."[...]
Teixeira de Pascoaes in " S.Paulo" edição Assírio& Alvim
dorme, junto a mim, um sonho entretecido para que o poema principie e seja a messe, a sombra, a floração, a prece, o respigar das mãos.
eu enunciei as aves nas margens compulsivamente dadas à terra, em suas entranhas, nas mãos que partiam dos rios por coisas de somenos importância…
e tu, na captura do sul, num odorífico deserto falaste-me de amor, de libertação.
mariagomes Angola, 11 de Novembro de 2008
quinta-feira, novembro 06, 2008
aonde estou quero a renúncia urdida pela água que deriva dia a dia quero as sombras perdidas os afectos quero os pássaros de coração aberto e o mar que nunca vi agrilhoado a meus dedos onda a onda o trigo! -um oloroso trigo que cresce como se possuíssemos o fogo.
mariagomes
nov,2008
segunda-feira, novembro 03, 2008
[...] My God, what is a heart? Silver, or gold, or precious stone, Or starre, or rainbow, or a part Of all these things, or all of them in one? (Mattens) [...]
Meu Deus, o que é um coração? Prata, ou ouro, ou pedra preciosa, Ou estrela, ou arco-íris, ou parte De todas estas coisas, ou todas numa só?
George Herbert
sábado, outubro 25, 2008
quinta-feira, outubro 23, 2008
por que me procuras nas lágrimas do sol? em si, ele é o novíssimo meneio da saudade - sem remos a envelhecer os rumos.
por que me deixas, só, entregue a seus cuidados, sem cais, sem ver partir as velas?
mariagomes 23out.2008
quarta-feira, outubro 22, 2008
[...] Muito, ó Poeta, o engenho pode dar-te. Mas muito mais que o engenho, o tempo, e estudo; Não queiras de ti logo contentar-te. É necessário ser um tempo mudo! Ouvir, e ler somente: que aproveita Sem armas, com fervor cometer tudo? Caminha por aqui. Esta é a direita Estrada dos que sobem ao alto monte Ao brando Apolo, ás nove irmãs aceita. Do bom escrever, saber primeiro é fonte. Enriquece a memória de doutrina Do que um cante, outro ensine, outro te conte. [...]
António Ferreira
Carta a Diogo Bernardes in Textos Literários do século XVI “ A Corrente clássica e italianizante: o magistério literário de António Ferreira" 1. Concepção aristocrática da Arte e dignidade das Letras Editorial Aster
terça-feira, outubro 21, 2008
acredito nos pássaros, em todas as manhãs, no sexo das árvores, no colóquio das harpas de seu corpo nu.
pelo moroso fio de Penélope a minha voz é fiel ao encanto que carmina o azul.
mariagomes out,2008
sexta-feira, outubro 17, 2008
deve ter sido o amor mais puro, numa outra primavera. - assim pensei, a ouvir as ondas no seu ritmo terrestre.
em tudo houve uma forma evidente, um verde, uma paisagem esdrúxula onde se ajusta o silêncio, em filigrana, ao despojado luar libidinal.
mariagomes out.2008
terça-feira, outubro 14, 2008
A arte é a mão direita da natureza. Esta nos deu o ser, mas a primeira - tornou-nos homens.
Johann Christoph Friedrich von Schiller [1759/1805]
sábado, outubro 11, 2008
terça-feira, setembro 30, 2008
brandas águas bebi de olhos abrasados; sepultei o pranto, sepultei a súplica, o sopro, a música e o mar...
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas.
Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores,
são lúcidos ao início do sol.
Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços
a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana.
Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move,
entre mim e ti, e a claridade.
____________mariagomes