terça-feira, janeiro 31, 2006

é difícil diluir a ternura cobrir o chão estender os braços
para a fistula que janeiro finda

temos a medida do tempo a poeira insípida

que nos queima a pele onde o mar já existiu

nunca as ondas me dosearam os gritos
nunca te ofereci um voo ágil

e hoje o dia é válido.

mariagomes
31 Jan.2006
(...)
"Eu não acredito na imortalidade de coisa alguma; e embora um poema deva valer por si próprio, como obra independente do autor e da sequência da criação a que este foi dando, eu todavia penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação, que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente autobiográficos – a poesia é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade - pois que será esta senão a busca de uma verdade que está para lá da actividade estética , e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? -, ultrapassa precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convincente das criações poéticas , e concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artista são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros, a generosidade que lhes foi negada."


Jorge de Sena

do prefácio ( 1960) da 1ª edição de Poesia-I ( 1961)
obras de Jorge de Sena, antologia poética, edições Asa

sábado, janeiro 28, 2006

Memória de Carlos Gouveia, "GOIA"


in " Coração transplantado"



Carlos Gouveia, "Goia", nascido em Peniche, Portugal, há 76 anos, faleceu hoje, em Lisboa, vítima de doença prolongada.

Residiu 74 anos na cidade de Benguela, República de Angola. Autor de diversos livros de poesia e crónicas e exímio caricaturista, deixa-nos na certeza de que " chorar não é violência, chorar a ferida que nos dói é alimento"...


mariagomes



nota: " Coração transplantado" foi-me oferecido por Carlos Gouveia, " Goia", em forma de livro manufacturado, a 23 de Março de 2004, em Benguela. Não quis o poeta que eu ficasse com esse coração "transplantado" pela editora, mas com um exemplar totalmente trabalhado por si. Diz-nos , " há que salvar a poesia na mensagem que ela nos impõe, na sua liberdade de expressão, a preocupação de nenhuma regra" . Pelo facto de se ter dedicado, também e ainda mais à pintura, desenho e caricatura, "Goia" relativizava o trabalho de uma gráfica. Era o
artista a dar lugar à urgência, e ao tempo.
mariagomes








" o caminho das flores", fotografia de mariagomes

domingo, janeiro 22, 2006

era uma casa
que elegia a imagem do entendimento como se fosse sua


era um país secreto onde eu te procurava como procurava o peixe
que disseminava a lua


era a infância anelada na palavra casa era um século mais à frente

era a modelação rara da manhã o folgo o ar subido ardente.

mariagomes
22jan.2006

segunda-feira, janeiro 16, 2006

(a maria joão pires, pianista)


dói abrir o silêncio físico da asa
reter a rósea espuma

dói ouvir a mão sangrar seguir tão rente
verter no sangue o limite do mar como um mistério

dói possuir a sério.

mariagomes
16 de jan.2006

domingo, janeiro 15, 2006

a minha alma começa de um templo tatuado.

à sombra começam coisas a tomar forma:
a flor, a seara, a mesa.

numa dicção acesa alimentam-me as aves.

quando eu me for embora
levarei o corpo desprovido de promessas. a alma, não.


mariagomes
15Jan.2006

sábado, janeiro 14, 2006


Malangatana


" olhar e sentir Malangatana, saber como pregar esse olhar-e-sentir na casa moira"

Noé da Luz


o meu agradecimento a Noé da Luz pelo que me tem vindo a ensinar deste mestre da pintura moçambicana!

mariagomes

quarta-feira, janeiro 11, 2006

desenha-me nas mãos a dormência dos olhos
há lágrimas silábicas quando abrem as luzes

e o corpo reproduz-se em infinita fórmula

oh meu amor edifica-me na tua trajectória.

mariagomes
11Jan.2006

"Pátria é uma palavra que podemos dizer
sem que a maioria do povo a reconheça
Ela não pertence ao léxico das palavras comuns
e se os políticos a referem é quase sempre com a violência
De uma retórica vã"
(…)

Excerto de" Pátria Soberana, seguido de Nova Ficção, 1999."
António Ramos Rosa , in " O Poeta Na Rua", edições Quasi

domingo, janeiro 01, 2006

algum dia virá que seja natal entre os nós altíssimos do deserto

algum dia desflorará o poema da justiça que se preveja
nas palavras que se fizeram por dentro


e eu criança ainda cante aquém
e o meu canto coincida com o rubro das rosas que desliza.

mariagomes
1Jan.2006

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Acerca de mim

A minha foto
Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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