segunda-feira, outubro 30, 2006


o grito da noite repousa sereno,
como a chuva límpida de uma primavera que me visitou;

convergiu lentamente para os meus braços,
trocou-me os passos e o amor,
que as aves cantam, e sangro em seu canto pleno.

mariagomes
30out.2006

domingo, outubro 22, 2006


[...]
" Para mim o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou...
Não, nem sequer é a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga - imponderável, translúcida : a gentileza. Sim, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo - a gentileza... Daí uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, a romãs e cores!..."
" Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!..."
Mas logo serenando:
- A boa gente que aí vai meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de penar... O meu mundo interior ampliou-se - volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrível. Ah Lúcio! Tenho medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer na vida, perdido nele...
"... E aí tem assunto para uma das suas novelas: um homem que à força de se concentrar, desaparecesse da vida - imigrado no seu mundo interior...
" Não lhe digo eu? A maldita literatura..."
[...]

Mário de Sá- Carneiro

in "A Confissão de Lúcio"
edição Alma Azul

sexta-feira, outubro 20, 2006

( a dmc)


Amar as palavras que se pontificam.

Ser o som
a luz do sangue
a lonjura nítida.

mariagomes
16.out.06, 22h

quarta-feira, outubro 11, 2006


Olha, mãe, a luz do Outono. A estrela incomensurável.
Sobre ela corre a casa. Os corpos fluidos. E são tardios.
Nos meus olhos estão imagens.

Emerge friamente dos flancos dos meus dedos a cumplicidade dos rios.

mariagomes
10/11Out.2006

terça-feira, outubro 10, 2006

sexta-feira, outubro 06, 2006

Perceberás a muda e móbil aparição dos meus passos.
O sol bebendo pelos ribeiros.
Numa tarde espantarás a inutilidade crepuscular que domina o azul.
A voz que declarou fervente o estertor dos pássaros.

Ontem ardia uma angústia lúcida. Uma criança efémera.
Um lugar dissipado. E em toda a urbanidade da sombra vivias tu.

mariagomes
6 de Out.2006

segunda-feira, outubro 02, 2006

"Sempre aspirei por uma forma mais ampla, que não fosse nem poesia nem prosa em demasia e permitisse a compreensão, sem expor ninguém, nem autor nem leitor, a grandes tormentos. Na sua essência, a poesia é algo horrível:
Nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós, e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre, e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris. É por isso que se afirmam, com razão, que a poesia é ditada por um espírito, embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo. É difícil entender a soberba dos poetas, por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta. Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas , e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer? Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado, alguém poderá pensar que estou brincando apenas, ou que encontrei uma outra maneira de elogiar a Arte através da ironia. Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos, que ajudam a suportar a dor e a desgraça. Mas isso não é o mesmo que examinar milhares de obras oriundas direto das clínicas psiquiátricas. Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece, e nós próprios diferentes de nossos delírios. Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia, para obter respeito de parentes e vizinhos. A vantagem da poesia consiste no fato de lembrar-nos da dificuldade de manter a identidade, pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta, e hóspedes invisíveis entram e saem. Concordo, o que estou contando aqui não é poesia. Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade, sob uma pressão insuportável e apenas na esperança de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento. "

Czeslaw Milosz
(1911-2004) Polónia

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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