sexta-feira, dezembro 24, 2004


Giordano Rizzardi, Cristo, 2003




"Estamos a sentir a tua falta, pá...
Isto tinha mais piada se tu abrisses um bocadinho o jogo.
Se tornasses inquestionável a tua existência.
És um Deus, que diabo, o que perdias tu com isso?
Desta vez não virias como homem, assim como te conhecemos,
guedelhudo, magricelas, o corpo enrolado nuns trapinhos, meio
Jim Morrison, meio Mahatma Gandhi. E não levarias tanto tempo como 33
anos a fazer efeito.
Terias que ser outra coisa. Uma água de chuva, uma água que caísse
de um céu imaculadamente azul, directamente da fonte divina.
Uma água que emendasse o que está mal. Fertilizasse o que está seco.
Uma água impossível de conceber. Vês?
Não beliscaríamos a tua natureza metafísica. Serias um espírito áqueo
e santo. A diferença é que poderíamos guardar-te em reservatórios e
distribuir-te através da rede pública.
E, assim, te teríamos numa sopa,
numa piscina, num copo, num chichi, numa lágrima.
Existirias em nós; não serias, como agora, uma alegoria algures no
coração e apenas alcançável pela virtude da fé.
És muito difícil, meu. E a tua malta aqui no terceiro planeta é um bocado
passada dos carretos.
Se fosses água, era entre mim e ti. Podia beber-te, podias dessedentar-me.
A verdade é que estamos a sentir a tua falta, pá. Não desse corpo que
abandonas-te numa cruz e que hoje faz de ti uma vedeta universal.
É um corpo que já não habitas, que importância pode ter?
Lembra-nos que somos mortais, e isso não é bom. Angustia-nos.
Mas se voltares, desta vez, fica por cá, evidentemente para todos.
Escolhe uma forma de ser. Eu falei-te da água. Mas podes regressar
como fogo e existirás num cigarro aceso; como vento e impregnarás o ar que
respiramos; como terra e serás a fonte da nossa sobrevivência.
Qualquer coisa que possamos sentir a todo o momento e nos torne mais
sábios, mais tolerantes,mais gregários.
Depois, teremos tempo para discutir a questão do bacalhau,
do peru, e das rabanadas.
Mas por mim e já que se fala nisso, pode perfeitamente continuar na noite
de 24 para 25 de Dezembro..."


Fernando Marques

1 comentário:

Anónimo disse...

eu não percebo por que razão vocês me odeiam.


bom ano! ( isto é para dar o tom surrealista)

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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