sábado, novembro 06, 2004

Conferência de Agostinho de Campos ( 1923)





(…)
“ quando eu era rapazinho, corria oralmente, entre os liceais meus camaradas, um bocado de “prosa riquíssima”, que eu decorei então, e nunca mais me esqueceu. Vou recitá-lo com a minha melhor entoação:

“ Acuminado pela sede de cascabulhar na caligem bruna dos tempos cadilhos edulcorados de cadoxos em estropiação acpacmásticas, exausto-me em pélagos de polimorfias eméticas, onde em vez de campanarem faces ebóreas de empubescimento acariante , enfrento apenas múmias egras dum calecedonismo de carpólilhos”


Nós, rapazitos, passávamos, uns aos outros a tradição deste saboroso petisco, que não sei de onde veio. Íamos aos nossos dicionários e encontrávamos lá todas as estupendas palavras de que ele se cozinhou. Mas não ficávamos por isso muito mais adiantados a respeito da sua beleza e significação.
Ora isto é mais sério do que parece, porque a idade a que cheguei já me permitiu ver que um ou outro literato e político tem feito muito boa carreira, a dizer ou escrever coisas que não se entendem muito melhor do que aquilo. E a mim parece-me que para a nossa política e toda a nossa vida social entrarem no equilíbrio, na ordem, no sentido das proporções e no próprio senso-comum, não deve ser indiferente que a literatura lhes dê sempre este mesmo e tão saudável exemplo.
Quem pensa claro, fala claro. Quem sente nobremente expõe a sua alma em termos simples. Quem é sincero execra a pompa no dizer, máscara de vaidade, pretensão e hipocrisia. Quem não pretende ou não precisa de meter os pés pelas mãos ou as próprias mãos nas algibeiras dos outros não transforma a palavra num feitiço misterioso e difícil, isca de ignorantes e ingénuos, inclinados a achar poderes sobrenaturais naquilo que não entendem.
E eis aqui uma grave dificuldade, uma contradição e quase um paradoxo: para sentir o valor da palavra simples e ao mesmo tempo artística, é necessário ser-se complicado, quer dizer: educado no gosto; culto de verdadeira beleza literária; fino de preferências e agrados. Na mesma loja de modas onde uma mulher distinta escolhe estofos e guarnições sóbrias de cores, pode entrar a seguir qualquer senhoreca dinheirosa, para se enfeitar como uma arara. E a literatura de um país provinciano ( inculto e pouco lido) arrisca-se a ser uma loja de modas a ser um maior sortido para catatuas, que para fidalgas.
... amemos e louvemos os nossos poetas e prosadores que falem claro, e claro se exprimem numa linguagem ordenada e cristalina. Muitos deles vivem ainda connosco, e são dos melhores que jamais tivemos. Melhores pelo talento, e melhores pelo ideal de servirem (…) a arte. Façamos por compreender a sciência da composição e amplitude das escalas que se oculta na harmonia sóbria das suas vozes. E ajudemo-los, e sigamo-los no seu empenho… estimulados pela nossa participação e pelo nosso aplauso, eles continuarão, e progredirão ainda, se é possível, tornando-se cada vez mais objectivos, mais humanos; e já que falam uma bela língua que o povo pode compreender, procurarão aproveitá-la para contar ao povo histórias que ele compreenda, como bons irmãos seus que se sabem mais sábios, mas não querem fazer da sua sciência título de estéril orgulho e pergaminho de aristocracia desdenhosa , sequestrada do ambiente mais largo.
Bastante egoísta se tem mostrado no decurso dos séculos a nossa literatura, sobretudo a poética, confinada quasi sempre no lirismo amoroso, que é uma forma de egoísmo, sensual ou lamuriento. Com uma prosa esotérica, difícil, complicada a acrescentar-se a uma poesia egocêntrica e indiferente ao mundo que a rodeia, cada vez mais os homens se afastariam do povo, da multidão das almas (...)
Pensem os nossos melhores escritores nesse povo, que afinal pouco perderá com não saber ler, se o escol literário lhe não fornecer nada que ele leia. (…)
"


Agostinho de Campos ( sócio correspondente da Academia das Sciências de Lisboa)

In “ as três prosas: A pobre, A rica, A nova rica.
Edição Livrarias AilLaud e Bertrand - 1923


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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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