quinta-feira, janeiro 06, 2005

o pirão das lavadeiras





esta noite sonhei que comia, como antigamente,
em bolas, o pirão das lavadeiras...
lambuzava as mãos no molho da lata assente no fogareiro.
meu corpo de menina aquecia sentado numa pedra de luz
vinda do sol que secava peixe para a banda-sul das pescarias.

sonhei com esses dias, de gozar, na estrada estreita sem palmeiras,
ladeada por morros e mar. o mar que me batia!
(lembras-te, pai, do medo que eu tinha do mar?)

e sonhei também com os olhos abertos das cubatas
que sem pestanejar, me deixavam ver o escuro de pupilas.
de pupilas que não liam mas sabiam, e arregalavam-se aos
desenhos das nuvens e futuras trovoadas...

no meu sonho voltei a ser menina, comi o pirão das lavadeiras
e revi a insónia nos olhos das cubatas!

mariagomes
janeiro.2003

2 comentários:

Peter disse...

Só quem passou por África pode apreciar verdadeiramente o teu poema. Angola?

mariagomes disse...

claro que é, peter! pirão...cubatas... dizem tudo, não é?

um abraço
mariagomes

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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