
(fotografia de "a rota dos ventos")
Rosas de um deserto vermelho, num tempo de morrer,
pela primavera, como os reis solares,
para exercitar a beleza, a criação,
o céu contra os eclipses adormecendo na turbulência lírica
dos dias, os meses passando suavemente.
Ontem Giuseppe Sinopoli morreu, em Berlim,
a dirigir o terceiro acto da Aïda.
Debruçada sobre os desertos, pensei no Egipto
dos faraós, em Belzoni, nas primeiras escavações,
num verso de António Ramos Rosa:
— “Desertei da biografia e dos relógios”.
E as lacunas emaranharam-se para construir a súbita
vastidão, os degraus e sua beleza resoluta,
pelos instantes nocturnos onde a intensidade se revela,
o mundo transpira, em cada instante,
o esplendor da claridade estende-se, pelas esfinges
lentas, diuturnas,
sobre a água e os papiros, as pirâmides grandiosas;
Hórus, o Deus Falcão, estendendo as suas asas,
pela agilidade que se ergue
e as luas lentas aproximam-se, porque amo os desertos,
os violoncelos verdes, o ímpeto radioso
e a poesia que se consuma,
pela aventura íngreme de todos os textos.
Maria do Sameiro Barroso*
(21-IV-2001)
(In Revista Mealibra, nº 9, Viana do Castelo, Dezembro, 2001, pg. 167.)
* o meu beijinho de agradecimento à Maria do Sameiro, por este poema oferecido à romã de vidro.
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