sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Momento de poesia*



Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão cansado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que é fora de mim
dou conselhos tão biblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar a manivela ao mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.


*José de Almada Negreiros [1893- 1970]
"800 anos de poesia portuguesa"
edição círculo de leitores- 1973

4 comentários:

Márcia Maia disse...

que poema incrivel! amei, Maria.
Beijo.

JG disse...

Gostei imenso e obrigado por você citar o Almada. Parece-me que há muito boa gente que nem sequer sabe quem foi e o que representa para a cultura no nosso país.
Bom fim de semana

hfm disse...

Gosto tanto de Almada - uma figura plurifacetada!
Abraço

mariagomes disse...

sem dúvida, Almada marca também na história da poesia portuguesa o salto para o modernismo, seguindo Pessoa e Sá Carneiro.

bjs e bom fim de semana

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Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
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