"Abre a romã, mostrando a rubicunda Cor,com que tu, rubi, teu preço perdes; (...........)" Luis Vaz de Camões, Os Lusíadas,IX,59
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
Raúl David ( 1918/ 2005)
Espero
(origem Ovimbundu)
Por ti espero
desde que partiste
e aguardo o teu recado
em cada pessoa que chega;
Olho para os caminhos
todas as manhãs
na esperança de nos encontrarmos.
O cacimbo passou.
Nova folhagem cobrirá
daqui a pouco
a floresta
e tu não vens.
Depois
serão as chuvas...
De tanto te esperar
já sonho que chegaste.
Desperto ao latir dos cães
julgando ter chegado
quem vem bater-me à porta.
Esta esperança vã
é um tormento que em mim cresce
dia a dia.
(Cantares do nosso povo)
Raúl David
**
"O escritor Raúl David morreu no princípio da noite de domingo, na cidade do Lobito, província de Benguela, aos 87 anos. Natural da Ganda, província de Benguela, Raúl David, autor do livro "Colonizado e Colonizadores", faleceu depois de permanecer internado na clínica do Porto do Lobito por mais de 15 dias. Raúl David nasceu em 1918 na cidade da Ganda, província de Benguela. Fez os estudos primários na cidade natal onde passou a infância. Frequentou o seminário católico de Ngalangui. Iniciou a sua actividade literária aos 45 anos de idade. Mas estreia-se aos 57 anos, já no alvorecer da independência. Publicou Colonos e Colonizadores (1974), Escamoteados na Lei (1987), Cantares do nosso Povo, versões escritas de cantos e poemas em língua Umbundu(1987) Narrativas ao Acaso (1988), Ekaluko lya kwafeka (1988) Crónicas de Ontem para ouvir e contar (1989), Da Justiça Tradicional nos Umbundos (ensaio) (1997). A leitura de toda a sua obra permite detectar a existência de um fio condutor que aponta para a predominância da narrativa-testemunho, apesar das incursões que realizou nos domínios da poesia oral em versões escritas e da ensaística. Mesmo assim está subjacente uma intenção de transmitir um conhecimento que, tendo-lhe chegado pela via oral, ele preferiu reduzi-lo a escrito. Por todas estas razões, Raúl David fez-se ao longos desses anos um cultor da memória, o que pode ser comprovado pela sua capacidade de improvisar a narração de experiências e factos ocorridos há mais de cinquenta anos. O que qualifica o seu discurso narrativo no contexto do que é a contribuição para a história social da região de Benguela. A sua proficiência na língua umbundu associada à frescura com que trabalhava quando contava as suas histórias, constituem dois elementos entre tantos daquilo que permite distingui-lo de outros escritores angolanos que usam o português. Nele se reconhece a coexistência actual das línguas nacionais e da língua portuguesa. "
Fonte Angop
***
Fiquei esmagada com a notícia da morte do mais-velho Raúl David. Vejo-o palminhar as ruas da cidade meia despida já quase sem esfalto.
O ano passado chovia dentro da casa do escritor. Era o delegado da cultura, na Província de Benguela.
Guardo um cartão de visita que me enviou quando pedi para falar com ele. Nessa altura foi homenageado pela UEA na passagem do seu 87º aniversário, em Luanda, e o nosso encontro ficou adiado...
Espera, numa outra dimensão teremos que falar, kota David!
paz à tua alma.
mariagomes
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Arquivo do blogue
-
▼
2005
(272)
-
▼
fevereiro
(33)
- Declaração de Amor*
- o tempo dos barcos
- Momento de poesia*
- Jean Paulhan"Tudo já foi dito. Sem dúvida. Se as p...
- manhãs feridas
- A Função Social da Poesia por T. S. Eliot ... part...
- Paz poeta e pombas
- Raúl David ( 1918/ 2005)
- entre palavras
- Edward Eastlin Cummings ( 1894-1962)"Se o poeta é ...
- prece válida
- o amor simples
- ... para um dia de reflexão...
- na melodia
- a certeza
- o mundo, Sofia
- "a arvore da vida indígena" Siegfried Kreutzberg "...
- Maria Rosa ColaçoEscrever é tentar perceber o desa...
- ainda me lembro
- "Fiz [esta carta] mais longa apenas porque me falt...
- à mercê do fogo
- a inflacção de Joaquim Pessoa
- nos meus versos
- o papel plausível
- a emoção ao criar
- palavras iguais
- Ternura de Vinicius de Moraes
- a neve caiu
- foi a lua
- A la puta que llevó mis poemas
- oração
- photo by Steve McCurry "Se há na terra um rei...
- Anna Akhmatova Último Brinde Bebo ao lar e...
-
▼
fevereiro
(33)
Acerca de mim

- mariagomes
- Podes entrar ; tenho as mãos para dizer o disperso canto das águas. Os meus olhos, alagados pelo grito das árvores, são lúcidos ao início do sol. Com o amor das coisas, rejubilo e lanço os braços a um rodopio doce e futuro, a uma tempestade humana. Tudo o que eu espero é sentir o elo da criação que se move, entre mim e ti, e a claridade. ____________mariagomes
Links
- A arquitectura das palavras
- a luz do voo
- A Palavra e o Canto
- A Teia de Aranha
- aguarelas de Turner
- ALI_SE
- Amazonic Haijin
- amoralva
- Angola, Debates & Ideias
- Ao Longe os Barcos de Flores
- ArteLetras
- Assimetria Do Perfeito
- Associação José Afonso
- Bar do Bardo
- canto.chão
- Casa Museu João de Deus
- Casulo Temporário
- Coisas do Chico
- Coisas para fazer com palavras
- Colóquio Letras
- Contra a Indiferença
- Daniel Faria
- dias felizes
- Diário Poético
- Do Inatingível e outros Cosmos
- emedemar
- Escrevinhamentos
- Estrela da Madrugada
- Eu,X.Z.
- Extensa Madrugada, Mãos Vazias
- Fundação Eugénio de Andrade
- Harmonia do Mundo
- InfinitoMutante
- Inscrições
- Inscrições
- Jornal de Poesia
- José Afonso
- josé saramago
- Linha de Cabotagem III
- Local & Blogal
- Luiz Carlos de Carvalho
- meia-noite todo dia
- Nas horas e horas meias
- nas margens da poesia
- naturezaviva
- No Centro do Arco
- O Arco E A Lira
- O mar atinge-nos
- O pó da Escrita
- Odisseus
- Ofício Diário
- Ombembwa Angola
- ParadoXos
- Poema Dia
- POEMARGENS
- Poesia de Vieira Calado
- Poesia Dos Dias úteis
- Poesia Sim
- Poeta Salutor
- Poetas del Mundo
- Revista Agulha
- Rolando Revagliatti
- Rosangela_Aliberti
- Sambaquis
- Stalingrado III
- Sulmoura
- TriploV
- tábua de marés
- Umbigo do Sonho
- Vá andando
- Xavier Zarco
Sem comentários:
Enviar um comentário